sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Então foi Natal...

Quem tem ou teve um transtorno alimentar sabe que as épocas de festas podem ser apreensivas. O Natal para mim não foi diferente. Senti um friozinho na barriga. O meu desejo era passar o Natal sem crise bulímica e me manter na recuperação. Era inevitável a lembrança de que nos últimos anos meus Natais haviam sido todos com crise. Tentei não me impressionar com essa lembrança. Me foquei no fato de que agora as coisas são diferentes. Eu mudei, não sou mais a mesma. Não preciso mais passar o Natal fugindo e me anestesiando.

Então, me preparei e me fortaleci emocionalmente. Apesar de estar confiante confesso que senti um frio na barriga. Mas não me isolei e nem evitei nada. O Natal foi na minha casa. A família foi toda para lá, irmão, cunhado, cunhada, sogra, tios e tias, primos, etc... A festa foi uma delícia. Preparamos aquela comilança que tem em todo Natal e nem por isso eu tive compulsão. Aproveitei a festa. J

Bom, no dia 26 eu recebo um telefone, era meu irmão. Minha mãe, pai, irmão mais velho e cunhada, não participaram do evento conosco, pois haviam viajado.
 Meu irmão estava apreensivo e me disse que minha mãe não estava bem, que ela tinha tido uma “crise”, estava achando que iria morrer, e estava querendo se despedir de todo mundo. Então eu, supostamente deveria falar com ela para que ela se “despedisse” de mim.  

Eu respirei fundo e fui conversar com ela... Minha ligação com minha mãe sempre foi algo forte, algo, até, doentio. Hoje consigo perceber que durante anos a gente cultivou um círculo doentio de sofrimento. Há algum tempo venho trabalhado para sair deste círculo e me separar de minha mãe. Estou me libertando emocionalmente dela para que eu possa me transformar em mim. Acredito que o meu distanciamento emocional pode estar gerando um desconforto na minha mãe. Mas sei que o luto que as duas estão vivendo é fundamental para o meu renascimento e será para o dela também.

Bom... eu respirei fundo e fui conversar com ela. É claro que não aceitei “despedida” nenhuma. Não joguei o jogo de vítima dela. Conheço o jogo. Eu mesma já fui estrategista, já armei as peças, já montei cenários, já ganhei e perdi muitas vezes. Mas a verdade, é que nesse “xadrez” ninguém ganha. Só há perdedores. O jogo é um jogo triste, as consequências são reais e perigosas. Eu sei disso. Eu mesma vivi isso, eu mesma fui “alimentada” por pessoas queridas com “lenha para minha fogueira”. Eu mesma “queimei e fui queimada”.  

No dia 26, eu disse “não” para minha mãe. Não dei a ela conforto e nem passei a mão na cabeça dela. Não aceitei “despedida”. Me segurei e fiquei firme no meu propósito de não cair no jogo do “vou embora”, “a vida é uma merda”. Sei que o que ela quer, não é ir embora, não é acabar com a vida dela. Sei que ela quer é acabar com o sofrimento.  Mas para isso ela precisa viver!!! Ela precisa querer. Ela precisa buscar. Não sou eu, que posso fazer isso por ela. Posso apenas dizer, estou vivendo, venha para vida, estou aqui te esperando. Não posso me afundar com ela. Já estive com ela nessa “merdalância” por tantas e tantas vezes. Agora não dá mais. Escolho viver e me respeitar. 

Sofro por ver minha mãe nesse estado. Chorei algumas vezes. Tive insônia.  No entanto, não permiti que isso afetasse meu propósito de não me afundar na depressão ou de não vomitar.  Claro que estou preocupada com ela. Claro que me preocupo com meus irmãos e meu pai. Mas agora me preocupo antes comigo, meus filhos e marido. Amo minha mãe e amo minha família. Estamos nos revezando para cuidar dela. Mas não tenho me esquecido de mim. Não permito me influenciar pelas queixas ou frases que ela faz para me atingir. Hoje sei que não é pessoal. Hoje entendo que as acusações da minha mãe tem haver com ela, e muito pouco comigo.

Hoje entendo que cada pessoa tem um ritmo, um processo, uma vida. Minha vida, meu processo é distinto do da minha mãe. Durante um grande tempo, eu achei que minha melhora dependia da melhora da minha mãe. Achei que só iríamos sair da “merdalância” juntas. Que para eu melhorar, ela precisaria enxergar esse processo também, para juntas, felizes, saíssemos disso.


Mas, hoje entendo que não. Sou outra pessoa. Não estou deixando ela para trás. Estou apenas indo. Tenho responsabilidade diante da minha vida. Só posso assumir as responsabilidades diante da minha vida. E hoje decido ficar melhor. Decido quebrar um círculo que provavelmente foi transmitido de geração em geração. Respeito o tempo dela, a limitação dela. Aceito minhas próprias limitações, aceito o meu tempo, e com coragem sigo meu caminho. 

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Trilhando o meu caminho

Durante minha jornada pelo caminho da recuperação, aprendi muito. Com certeza amadureci bastante, e sei que ainda tenho um longo caminho a percorrer. Aprendi que cada pessoa tem um tempo e cada estrada é diferente. Aprendi a respeitar meus limites e a conhecer a minha própria estrada. No momento que parei de olhar para estrada dos outros e me foquei em mim, nas minhas questões, foi quando eu avancei. Não se trata de ser egoísta, mas de respeitar a vontade e o movimento de cada pessoa e principalmente de respeitar as minhas próprias vontades, os meus próprios desejos.

Para isso tive que me perceber diferente, tive que aceitar as minhas diferenças. Tive que deixar de lado a tentativa (sempre em vão) de me enquadrar em algo que eu nem mesmo sabia nomear o que era. Quando compreendi isso, quando consegui me ver como uma pessoa, com vontades, desejos, eu comecei a me movimentar para me libertar, do que eu considerava uma prisão. A verdade é que isso não aconteceu de repente. Para ser bem sincera, ainda estou na busca da minha identidade, das minhas vontades, dos meus desejos. Isso está sendo gostoso! Delicioso! Uma descoberta de quem sou.

Hoje sei que estou em um momento diferente, em uma caminhada sem volta. Não me iludo mais na tentativa de querer ser o que achava que os outros desejavam de mim. Não temo mais dizer não. Tem ocasiões que ainda me dá um receio, um aperto no coração, quando vou dizer um não. Mas hoje compreendo o que está por traz das minhas atitudes quando eu me esforçava tanto para fazer algo que eu não queria para “agradar” o outro. E digo agradar o outro, pois durante muito tempo eu fiz o que pensei (imaginei) que o outro desejava. Me iludia que era capaz de ser o objeto do desejo do outro, porque eu queria que o outro me aceitasse, me afirmasse, me reconhecesse.

Ao tirar os comportamentos do transtorno alimentar no meu dia a dia, eu comecei a me conhecer melhor. Trabalhei de forma mais intensa as minhas questões na análise e aprendi a lidar com o meu lado bom e a reconhecer o meu lado ruim. Aceitei que tenho dentro de mim sombra e luz. Percebi que minha sombra, não apaga minha luz. Na verdade, comecei a deixar de lado muito dos meus julgamentos e aprendi verdadeiramente a trilhar o caminho da aceitação e respeito das limitações. Na verdade, ainda estou aprendendo.

Sem os comportamentos do TA, eu consigo perceber o que aflinge, o que me incomoda, o que me causa desconforto. Eu passo a analisar essas questões e entender porque certas questões me incomodam, me afligem, me angustiam. No momento que encaro tais questões, eu me conheço melhor, aprendo a lidar comigo.

Não vou dizer que encarar certos fatos foram fáceis, que aceitar algumas realidades aconteceu sem sofrimento, mas posso garantir que foi libertador. Continuo na luta, a cada dia buscando me conhecer, me entender melhor e reafirmando o compromisso de me respeitar.

Agora, estou vivendo esse momento de encantamento com livros e informações. Parece que o mundo está aberto de possibilidades e eu gosto disso. Gosto de poder ter escolhas. Gosto que eu esteja mudando. Sinto minha mudança no meu jeito de falar, vestir, comer, agir. Estou redescobrindo o prazer de brincar com meus filhos e estou descobrindo o quanto eles são encantadores. Confesso que vem uma dor no meu peito quando penso no quanto eu devo ter perdido. Seria ingenuidade achar que não. Mas estou abrindo mão da minha dor e perdoando a mim e aos que de alguma forma tiveram alguma responsabilidade por tudo que vivi e assim sigo.

Magicamente redescubro a beleza de ser mãe e percebo como é maravilhoso ser mulher!!! Termino essa frase e meu lado racional, acha ele piegas, mas e daí? Parte de mim é exatamente isso, puro sentimento, emoção e, nesse momento, encantamento. E assim vou me redescobrindo, me transformando, me apaixonando.


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Chega de sobrevida

Coisas que emburrecem: não querer saber das coisas. Hoje percebo que todo meu movimento para burrice, fui eu quem criei. Fui eu que me fechei e me movimentei para não querer saber das coisas. Coisas que me diriam um pouco mais sobre eu. Coisas que me colocariam em contato com minha dor. Coisas que me fariam perceber minhas fragilidades. Coisas que eu precisaria compreender para aceitar minhas limitações e seguir em frente. Mas não. Eu preferi ficar imóvel. Parada me sentido burra, ao invés de buscar uma resposta. Me mantive na paz/inferno do não saber. Tive medo de enfrentar a realidade e descobrir que meus sonhos não passam de sonhos. E viver num pesadelo. Mas onde eu vivo hoje? Será que já não é em um pesadelo? Hoje começo a me movimentar. Busco uma saída. Não para um sonho, nem para uma pesadelo, mas para a vida. Chega da sobrevida. 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Em busca da liberdade

 E mais uma vez me vejo encenando a mesma peça. Só que eu tinha a ilusão que estava agora mais consciente. A consciência chegou de forma tardia. Após feita a ação percebo sua dimensão e suas consequencias. Como posso mais uma vez cair no mesmo “erro”? “É essa fala que fala em mim, para além de mim”... Conseguirei mudar isso?

Meu inconsciente sempre estará lá... Apesar de alguns aspectos me pertubarem, conseguirei identificá-los antes de minhas ações e quebrar o ciclo? Não sei até que ponto isso será possível. Mas preciso acreditar nisso. De certa forma, isso já vem acontecendo. E a cada “falha” vem apenas a certeza de que agora identifico o “erro” mais rapidamente. Sou eu. Eu, como, verdadeiramente, sou. Agora, com desejo de me conhecer, me aceitar, me respeitar e me transformar.

A ausência dos sintômas bulímicos me mostra uma infinidade de Eus. Lembro-me de quando disse que queria descobrir quem eu era. Eu queria saber qual roupa eu gostava, qual livro era meu predileto, qual estilo musical era o meu, quais as minhas preferências. Minha vontade era conhecer o meu desejo.

Essa vontade permanece. Quero me conhecer. Mas não apenas o que “imitei” de “bonito” nos outros. Quero conhecer o que tenho de mais podre. Quero olhar e identificar e reconhecer como meu o que tenho de mais sujo. Quero identificar as minhas fraquezas e também reconhecer as minhas virtudes. Quero ser capaz de me ver exatamente como sou. A partir daí, sim, saberei qual o meu desejo.


Nesse momento, a menina maravilha, a criança escondida em mim, que ainda deseja a aprovação da mamãe, esta criança, que me iludiu e ilude, vai morrer. E ficará EU. Adulta, segura, livre. Para expressar o meu desejo e não mais o desejo de ser o objeto do que acredito ser o desejo do outro. Então, estarei livre.  

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Paciência

Estou fascinada pelo romance que estou lendo "Quando Nietzsche chorou". O livro tem sido um convite para que eu encare minhas próprias questões existenciais e assuma a responsabilidade pelas minhas escolhas e antiescolhas. Em diversas passagens do livro me indentifico com as densas histórias dos personagens que realmente vivenciaram os fatos descritos no romance. Consigo identificar semelhanças do pensamento de Nietzche com do meu analista e verificar similaridade entre as minhas  fraqueza e a de Breuer (médico do Nietzche e ao mesmo tempo paciente, a quem ele trata de uma angústia).

O livro tem me convidado a pensar, analisar minhas próprias questões internas. A forma como Nietzche vai descrevendo Breuer meche comigo, é como se ele tivesse me descrevendo, me despindo. Me sinto desnorteada. Tenho perdido o sono e isso por si só já é um sintoma que precisa ser observado e merece algum nível de atenção. Como hoje não tenho análise, decidi escrever e falar um pouco sobre o que vem me angustiando.

Bom, vou tentar "limpar a chaminé", termo usado pela paciente histérica de Breuer (mentor de Freud), para a técnica de utilizaçao da conversa como forma de terapia para alívio dos sintomas. Para mim, "limpar a chaminé" também é reconfortante. Sei que não tenho histeria, nem nada parecido, mas usar a fala, ou escrita, para limpar minha mente das coisas tolas que crio me traz alívio. Não sei ao certo se eu limpo minha mente ou se apenas agrupo as ideias no local adequado, ou se apenas entendo o significado de certos fatos e depois de analisá-las e encontrar seus verdadeiros significados eu consigo resignificá-las de maneira mais clara e menos ameaçadora. Minha análise é um espaço para isso, aqui também.

Lendo o livro, eu me questiono.  O que quero com a bulimia? Permanecer em águas rasas? Temo me conhecer e não gostar do que verei? Porque temo sair da zona de conforto? Quero realmente ser livre? A resposta mais obvia é sim.  Mas porque a liberdade ainda me assuta? Porque meus episódicos bulímicos foram, sim, consideravelmente diminuidos mas ainda me prendo a eles? Porque uma vez por semana ainda me deixo seduzir pelo canto da sereia? Porque me mantenho presa? Do que tenho medo? De encarar a verdade? A verdade significa encarar uma vida mediocre? Minha vida é mediocre? Precisa ser? Qual vida avaliada de perto sob todos os ângulos não é mediocre? O que é mediocridade? Qual significado eu dou para isso? Porque eu quero o extraordinário? Ainda sonho em ser a mulher-maravilha? O conto de fadas me fascina?

Paciência... Paciência... Paciência...



Limpando a chaminé

Estou a algum tempo ensaiando voltar a escrever. A verdade é que depois que meu blog secreto deixou de ser secreto, me sinto bloqueada. Não me sinto mais tão à vontade para ser eu mesma, para exorcizar meus pesadelos, minhas sombras.

Nunca tive a intenção de fazer um blog para ficar conhecida, minha intenção sempre foi que ele ficasse anônimo. Apesar de meu ato falho mostrar que isso não é tão verdade assim. Algo em mim quer mostrar para o mundo quem eu sou. Mas primeiro eu preciso responder essa pergunta: Quem sou eu? A minha análise é esse espaço seguro, mas preciso de um lugar fora dele, um lugar meu, em que eu não sinta medo de extrapolar de errar o tom. Um lugar em que eu possa "limpar a chaminê". Acho que todas as pessoas deveriam ter esse espaço. Um espaço livre de julgamento, livre de acusações, um espaço de busca pelo eu, de transformação, de metamorfose.

Por isso criei o blog. Para ter esse espaço. Para me sentir livre, mas parece que me esqueci disso... Será que meu ato falho foi uma armadilha para meu aprisionamento? Terá sido meu ato falho uma vontade de mostrar quem eu sou, sendo que se nem eu ainda sei, certamente ele ajudaria e incentivaria a minha covardia?

Agora, só consigo pensar na frase do romance que estou lendo "Quando Nietzche chorou", o trecho que não me sai da cabeça: "Aquele estranho livro russo sobre o Homem Subterrâneo continua a me assombrar. Dostoiévski escreve que algumas coisas não devem ser contadas, exceto aos amigos; outras coisas não devem ser contadas mesmos aos amigos; finalmente, existem coisas que não se contam nem a si mesmo!"  Será? Preciso descobrir essas coisas pois mesmo que eu não queira ouvir tais coisas os sintomas falam por si. E já não há mais como fugir, não há como me anestesiar com a bulimia ou com fugas, preciso enfrentar o que está aqui dentro e suportar o que vem junto com essas descobertas.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

A morte da criança - passo a passo


O que você quer? Perguntou meu analista? E eu respondi como se eu tivesse 15 anos, novamente. Não percebi, naquele momento, mas bastou eu sair da seção, para que eu percebesse que não era nada daquilo o que eu queria. Aquilo tudo era meu lado criança/adolescente gritando. Aquela criança que precisa ser morta, que ainda estou a matar...

Na seção eu comecei a falar de uma pessoa que ainda sonha com um casamento com sexo diário, selvagem e cheio de energia. Falei como seu eu quisesse isso para meu casamento. Na verdade, acredito que esse seja o sonho da adolescente que imagina que esse seria o casamento “perfeito”, do meu imaginário talvez... Onde teríamos energia para transar todos os dias e eu seria desejada independente do cansaço do dia-a-dia. Neste sonho, que eu descrevi, eu seria desejada, independente do mal humor, na verdade não haveria mal humor; eu seria procurada mesmo depois de um dia chato no trabalho (afinal de contas sexo é bom para desestressar); e transaríamos mesmo após as atividades diárias familiares (Cansaço? Que nada...).

Quanta ilusão!!! Que sonho mais infantil. E mais uma vez sinto a necessidade de “matar a criança” que mora em mim. Sei que parece confuso esse sentimento. Mesmo porque é confuso até dentro de mim. Mas é como se coexistissem dentro de mim duas pessoas, uma mais adulta e consciente e outra tão infantil e mimada com sonhos e ilusões. A segunda vive aparecendo, sem que eu a chame... está no meu subconsciente. A segunda quer agradar a todos, quer viver a ilusão de uma vida perfeita, de um sonho ridículo, em que todas as pessoas são boazinhas, o mundo é lindo e nada envelhece.

O que eu quero de fato? Eu, na minha essência, e não a minha criança? O que eu quero? Quero ser feliz, quero ser livre. Quero ter um homem do meu lado que seja livre. Quero parar de brincar de papai e mamãe. Quero crescer e me tornar uma mulher. Quero ser livre e caminhar ao lado de um homem livre. Quero respeito e ser capaz de respeitar todos a minha volta. Quero me aceitar e me reconhecer. Quero coragem para entender minhas limitações e conviver com elas todos dias, de forma serena.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

O desmame



Digerindo, o luto
Alguma coisa aconteceu
Está tudo tão diferente
Não há mais raiva, nem sentimento de injustiça

E o lado “A” vai se transformando em lado “B”
O sonho vira insônia
O sempre, sempre acaba
Permanecer unidas é mortal

Começa o desmame
O desmembramento
O desligamento
Morremos
Morri
Renasço

E assim vou me reencontrando
Me redescobrindo
Revivendo
Aprendendo
Me aceitando
Me respeitando
Vivendo

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Ato falho ou bem sucedido?


Sempre tive medo do julgamento, mas hoje percebo que o maior julgamento sempre esteve dentro de mim. No entanto, ainda acredito que não preciso sair com uma camisa escrita “Hello, tenho/tive bulimia!!!”. Minhas dores e minhas questões íntimas, eu ainda escolho com quem quero dividir.  Por exemplo, assumir a bulimia para algumas amigas foi para mim algo libertador. Foi como sair de uma prisão. Uma prisão mental em que eu sofria por me sentir mentindo, mesmo que fosse apenas omitindo. Percebo que esse processo de aceitação está sendo algo bom, estou conseguindo me entender mais, me conhecer mais, me aceitar mais e me respeitar mais.

Bom, mas tem dias difíceis... é claro. Um dia desses, eu cometi um “ato falho” e publiquei na minha página do facebook, um link para a minha página do blog.  Foi terrível. Entrei em pânico. Na verdade entrei em choque, sem saber ao certo como deveria agir. Congelei. Contei para meu marido o ocorrido e ele tratou de tomar as “devidas” providências: excluiu a publicação imediatamente e ligou para as duas pessoas entre as quatro que curtiram a publicação para solicitar que não comentassem nada a ninguém...
Depois da atitude tempestiva dele eu fiquei bastante confusa. Será que eu era a única que estava com medo da exposição? Ou será que meu marido também estava com vergonha? Fiquei surpresa com a velocidade que ele agiu diante do meu estado catatônico. Demorei um tempo para “digerir” o acontecido. 

Bom, primeiro vamos falar sobre o “ato falho”.  Durante anos eu estava buscando um momento “ideal” para falar para umas amigas sobre a bulimia. Queria dividir com elas o que eu tinha. Acontece que eu sempre arrumava motivos para que isso não acontecesse. Mas no fundo acredito que de fato eu ainda não estava preparada. Quando a vontade de “sair do armário” em relação ao TA começou, eu comecei, também, a me questionar muito sobre a minha motivação. Eu queria ter certeza que a motivação seria correta. Para que contar? O que eu ganharia com isso? O que eu estava buscando? Aprovação? Vitimização? Apoio? Pena? Simpatia? Empatia? Carinho? Quais eram meus medos? Desaprovação? Julgamento? Abandono? 

No fundo, havia um pouco de tudo isso, de medos, de desejos, de expectativas. A vontade de “sair do armário” permanecia, pois eu queria me livrar da mentira (não a que eu contava para elas, mas a que eu contava para mim, a de que estava tudo bem). No entanto, nem as expectativas, nem os medos diminuíam. Não na intensidade que eu desejava. 

Mas, como disse meu analista “o ato mais bem sucedido é o ato falho”. Por meio do meu ato falho meu desejo escondido foi realizado. Uma das minhas grandes amigas viu o post no Facebook e isso me “encorajou” a contar para ela e as demais amigas o que eu vinha ensaiando a um longo tempo. O resultado foi bom. No entanto, claro que foi difícil, pois não foi da forma que poderia ter sido. Eu vivenciei momento de medo, quase pânico, mas depois que o a tempestade mental foi acalmando eu me senti aliviada. 

Em relação ao meu marido, no primeiro momento eu me senti muito mal. Depois esse sentimento foi se acalmando. Parei de pensar na possibilidade dele ter vergonha de mim. Posso especular muito sobre o assunto, mas decidi não fazer isso. Não me sinto egoísta pensando assim, me sinto apenas centrada em mim. Agora, consigo concentrar-me em resolver as coisas que estão ao meu alcance. E assim estou seguindo, um pouco mais tranquila.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Triste ciclo

Ela ficava depressiva e eu a “ajudava”. Ela melhorava e eu desabava em seguida.  Depois era a vez dela de demonstrar o “amor” dela por mim. Repetimos esse ciclo doentio. Eu nunca havia percebido, conscientemente, tenho certeza que ela também não... Mas fizemos tantas vezes que nem sei ao certo quando tudo se iniciou...

Lembro-me de algumas fases, em minha infância, em que minha mãe ficou depressiva. Não são lembranças claras, mas lembro de como eu me sentia: culpada e temerosa. Eu queria ajuda-la. Tinha muito medo que ela morresse. Rezava e pedia desculpa a Deus por ela estar doente. Jurava que seria uma "boa menina"...

Eu sabia que, em meus pensamentos ocultos, eu já havia desejado que ela morresse, por isso era natural o sentimento de culpa. Quando ela estava bem, nós brigávamos muito ou, então, estávamos sempre muito distantes uma da outra.

Ao me tornar uma adolescente, eu percebi que precisava parar de brigar com ela. Resolvi que faríamos “as pazes”. Não haveria mais discussões. O problema foi o preço que pagamos para encontrarmos essa “paz”. Eu desenvolvi um transtorno alimentar (não foi consciente, obvio) e desenvolvemos um ciclo de doenças. Este ciclo foi a forma que encontramos para “mostramos” nosso amor uma para a outra. Uma forma ridícula de demonstrar amor e pedir por ele. Uma forma ridícula de abrir mão do orgulho e dar amor. E, ridiculamente, doentiamente, fomos nos odiando, nos amando, nos perdendo, nos matando e morrendo...


sexta-feira, 26 de abril de 2013

Confessando o inconfessável


Vaidade, cobiça, ciúmes, ou inveja? Muitas vezes me peguei em dúvida sobre qual o sentimento que eu estava sentindo. Durante anos, fui capaz de confessar alguns dos meus pecados, mas definitivamente foi muito sofrido e muito demorado perceber, aceitar e confessar que eu sentia, e, senti por inúmeras vezes, o pecado mais inconfessável de todos: a inveja.

Acontece que, diferentemente do que eu acreditava, a inveja não é apenas não querer que o outro não tenha. A coisa é mais complexa que isso.  Eu, de fato, nunca desejei o “mal” do outro, ou tirar algo de alguém, isso nunca ocorreu (ops... mentira... quando eu era pequena já desejei a morte do meu irmão e da minha mae... mas depois escrevo um post sobre isso). Mas outro sentimento negativo me acompanhou, sim, por muito tempo, em diversas situações.

Admitir fraquezas e admitir sentimentos sombrios como vaidade, cobiça, ciúmes e inveja não é fácil. Lembro-me como foi doloroso e sofrido o dia em que eu confessei, em minha análise, que eu era vaidosa... depois ciumenta... Bom, e, é claro, a mais difícil confissão foi admitir que eu sentia inveja.

Vamos aos fatos. O invejoso é normalmente uma pessoa insegura, sensível, desconfiada e que vive fazendo comparações. Da comparação e da rivalidade nasce a inveja.  Trata-se de um sentimento caracterizado pela sensação de inferioridade, mesmo que às vezes a gente “finja” superioridade. Bom, a verdade é que eu passei muito tempo da minha vida fazendo isso, me comparando aos outros.

Eu nasci me comparando (sou a filha mais nova e a única menina, tenho dois irmãos mais velhos). Durante minha infância eu me comparei e competi com meus irmãos, o tempo todo, principalmente com o meu irmão que tem idade similar a minha. Eu sentia inveja dele. Sentia inveja do amor que, na minha percepção, minha mãe dava a mais para ele.

Como eu já disse aqui, a competição na minha casa sempre foi muito estimulada. Meus pais estavam sempre mostrando o “lado bom” da competição. Sempre que eu “ganhava” de alguém, eu recebia muitos elogios.  Por isso, acredito que competir com meus irmãos foi um caminho natural que encontrei (mesmo que a competição dentro de casa, não fosse explicitamente estimulada).

Lembro-me que eu me sentia “menos” do que meus irmãos, eu os invejei, competi com eles, tentei superá-los. Tudo isso acontecia de forma muito velada. A minha competição era interna, meu sentimento de inferioridade era interno. Externamente, eu me mostrava superior, forte. Assim como me foi ensinado... Na verdade, naquela época eu não tinha ideia do que se passava comigo. Isso tudo eu vim descobrir e confessar agora, depois de muito tempo de análise.

Bom, o fato é que essa forma de funcionar não ocorreu apenas na minha infância e no âmbito familiar. Durante muito tempo eu repliquei essa forma de agir/sentir em diversos campos da minha vida. Eu me comparava, me sentia inferior e sofria.  

A minha inveja não foi de desejar mal aos outros, mas me causou muito sofrimento interno. Dizem que em casos patológicos, quem sofre do mal é capaz de caluniar, perseguir, e, em casos mais extremos, desejar a morte do invejado. Bom, não foi meu caso, eu somatizei. Os especialistas também afirmam que, nessas situações, a pessoa pode apresentar quadro depressivo, autodestrutivo, agressividade e tendências suicidas. Eu apresentei todas elas. Tive depressão, tentei me matar, e o transtorno alimentar, a meu ver, era uma agressividade contra mim mesma, contra meu corpo, certamente um comportamento autodestrutivo.  

A insegurança, baixo auto-estima, o sentimento de incapacidade e inferioridade são combustíveis para a inveja. E eu tinha todos esses combustíveis em mim. Foi difícil reconhecer. Mas agora depois de reconhecer isso, em análise, eu começo a trilhar um caminho para trabalhar esses aspectos. Aspectos que nasceram e foram fomentados na minha infância. Em análise venho entendendo melhor o que me fez sentir dessa forma e isso vem me ajudado, aos poucos, a descontruir verdades que eu acreditei, como o sentimento de incapacidade e inferioridade.

Hoje, eu entendo que posso admirar alguém e não preciso me comparar/competir com ela.  Hoje entendo melhor que as pessoas são diferentes e o que eu “não sou” não me faz inferior a ninguém e nem o que “eu sou” me faz melhor. Cada pessoa tem um jeito e uma essência. 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Buscando minha identidade

Fiquei muito tempo sem escrever. Eu estava precisando de um tempo. Um tempo para me conhecer. Os dias passados foram difíceis, no entanto bons, cheio de conquistas e descobertas.  Em termos de recuperação do TA, posso dizer que estou evoluindo. Não tenho crises há mais de um mês. 

Quem me acompanha sabe que venho de um processo de conquistas, lentas, mas conquistas. Eu tinha crises bulímicas diárias (entre 5 a 8) e a partir de maio do ano passado, quando iniciei o blog, comecei a luta pela recuperação. Inicialmente foi muito difícil diminuir a quantidade de crises, tive crises de abstinência, sofri muito (física e psicologicamente). Mas não havia mais como ficar onde eu estava. Minha vida estava insuportável. O sofrimento de conviver com aquilo diariamente estava insustentável. 

Naquele momento começava uma grande mudança. Mergulhei de cabeça na minha recuperação. Fui descobrindo as “mentiras” por trás do meu Transtorno Alimentar. Percebi quantas ilusões eu havia vivido. Percebi que eu passei muito tempo me fazendo objeto do desejo dos outros. Por isso não fui atrás dos meus sonhos, na verdade, eu fugia do que eu julgava ser um pesadelo (não ser amada ou não ser aceita). Eu acabei vivendo uma vida que julguei ser fruto desse desejo dos outros. No momento que essa ficha caiu, sofri muito. Senti-me como um personagem, em um palco, sempre representando para uma plateia. Claro que a metáfora aqui está exagerada. Mas foi assim que me senti. Senti-me mal. 

Senti-me como se eu não soubesse de fato quem eu era, sem o transtorno, sem o papel ora de “coitadinha”, ora de “fortona” (pois muitas vezes para mim o TA teve a função, no meu caso, de trazer a falsa sensação de poder, de equilíbrio, de controle, de fortaleza, de “dou conta de tudo”). Percebi que eu não sabia ao certo o que eu gostava, pois isso nunca foi baseado de fato em mim, mas sim em minhas escolhas sobre o que eu achava que os outros poderiam esperar de mim. E assim eu fui vivendo... Escolhendo, sem escolher... Me moldando de forma completamente distorcida. Claro que qualquer visão minha no espelho seria distorcida. 

Nesse momento, não sobra mais espaço para vitimização. Não quero dizer que tudo que fiz ou escolhi não foram escolhas minhas. Pelo contrário. Tudo, absolutamente tudo foi escolha minha. Tudo que fiz e escolhi, eu me responsabilizo. Eu decidi me fazer esse objeto dos desejos dos outros. Lembro-me das vezes, de tantas vezes, que eu fui eu mesma, mas me lembro também de tantas vezes que eu me escondi por trás do TA para “agradar” ou “não desagradar” os “outros”. E, é claro, isso também era eu, também é parte do que eu fui.
Para mim, me recuperar do TA, significa passar por uma reforma íntima. Passar por uma transformação. Não se trata de mudar apenas a forma de me alimentar. Significa vivenciar uma metamorfose na forma de agir, pensar e viver. Bom, pelo menos é como está sendo para mim. 

O tempo que fiquei ausente do blog foi uma época de muita reflexão. Várias características minhas negativas foram assimiladas e reconhecidas. Minhas fragilidades e limitações ficaram evidentes e eu comecei a aprender a aceitar e respeitar a mim mesma. Percebi uma ausência de identidade, uma ausência de saber meus gostos, minhas vontades. Tive necessidade de me afastar de pessoas que eu amo para conseguir me escutar. Ainda estou aprendendo muito sobre mim mesma. Aprendendo coisas simples, desde coisas como qual roupa eu gosto mais de usar (sem pensar nos outros), até o que eu gosto de fazer. Estou aprendendo a sentir, a ouvir, a acolher e a lidar com os meus sentimentos (antes tudo isso era anestesiado e ignorado pelo TA). Agora eu sinto cada, medo, raiva, angústia, alegria, satisfação, ansiedade. Estou aprendendo o que fazer e como fazer para lidar com cada sentimento que chega. Estou aprendendo mais sobre mim, sobre o que gosto, o que não gosto, sobre minhas limitações. Estou aprendendo de fato a me respeitar e me aceitar por inteira.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Aprendemos a ser forte ou simplesmente nascemos assim?

 Outro dia eu estava conversando com uma grande amiga minha (que não sabe dos detalhes do meu problema, mas com certeza tem sensibilidade para perceber muita coisa) e ela me falou a seguinte frase "o ser humano é muito louco, né? Não consigo entender como uma pessoa que teve tanta amor, dentro de casa, teve tantas condições, pode se tornar alguém tão frágil...".  Ela se referia a mim, claro. 
Nesse dia tivemos uma conversa longa, ela me contou tanta coisa da vida dela, e, eu, outras tantas da minha. Tenho certeza que ela saiu de lá ainda mais confusa... Passamos por coisas tão similares, é verdade, mas parecia que certas coisas pesavam mais em mim. E neste caso, não estou falando de vitimização, estou falando de dor que ambas sentimos, que supostamente deveriam ser as mesmas, mas por algum motivo, não eram. Por que será que eu tinha menos capacidade de lidar com certas problemáticas? Nossa, para mim foi incrível como ela falou de certos assuntos de forma tão natural e eu tão envergonhada... culpada... quase pedindo desculpa por ser uma  "menina má". 

Teve um momento que ela falou, da minha "excelente" relação com minha mãe e afirmou que adoraria ter uma mãe que falasse tão bem da filha como a minha mãe fala de mim. So que ela não sabe que esse elogios eram feitos, sim, milhões de vezes na frente dos outros, desde que éramos pequenos, para mostrar a todos quanto nossa família era uma família feliz, perfeitas e sem problemas. 

Morávamos longe de todos os outros familiares, escondemos nossas dores, mas mostrávamos, em troféus, nossas conquistas... Escondíamos os erros, os choros... E assim eu fui aprendendo, a engolir meus sentimentos, a ter vergonha da minha dor, a mostrar apenas o bom, porque o ruim a gente escondia, porque nossa dor a gente não dividia. (dividir dor? Imagina, isso não se deve fazer, isso é feio, errado e egoísta, nos só dividimos nossas alegrias...). A gente engolia o choro, para ser a família feliz, a que deu certo. E foi assim, que eu fui me calando, tendo vergonha de quem eu era, de fato, tendo vergonha dos erros, engolindo o choro... 

Hoje, estou passando por um processo de mudança.  Estou buscando me aceitar, aceitar, enfim, minhas fragilidades. Impor limites e me proteger.  Estou chorando tudo que nunca chorei. Ainda, estou aprendendo que não  preciso ter vergonha disso, que não sou fraca ou ruim por errar, sentir coisas, chorar e ter falhas.  Estou aprendendo que ser sincera nao significa dividir minhas dores com  cem por cento do mundo e nem me vitimizar, que existe um caminho no meio disso e eu dou conta de fazer isso.  Sim estou frágil, pois estou aprendendo ainda. A vantagem agora é que eu escolho se vou me dedicar ou não a aprender algo que  não me e foi ensinado. A minha velhice e o meu amanhã, sou eu que escolho. E quer saber? Mesmo sendo uma montanha russa de emoções esta valendo a pena, cada lágrima que escorre na minha face, é uma sensação de conquista de alma mais leve, de cura, de liberdade.  Me sinto me acolhendo.