sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Boa notícia

Dia dois de outubro completarei 1 ano que estou recuperada da bulimia. Bom, conforme é de conhecimento de alguns, eu tive bulimia por 20 anos. Os últimos três anos da doença eu procurei ajuda e comecei um processo de recuperação intenso. As crises de bulimia passaram a diminuir, eu passei a me alimentar melhor e seguir as recomendações da nutricionista. Há um ano as crises cessaram por completo. 

Hoje, recebi o resultado do meu exame de densitometria óssea. Há um ano atrás, eu fui diagnosticada com osteopenia (início de osteoporose) e conforme o resultado do exame que peguei hoje, estou conseguindo reverter a osteopenia. Sei que esse resultado é consequência da boa alimentação, além da reposição do Cálcio e Vitamina D. Por isso me sinto especialmente feliz hoje.


Receber essa notícia me deixou feliz. Não apenas pela notícia simples e pura, mas porque sei que não são apenas meus ossos que estão mudando. Eu mudei muito e venho mudando um pouco a cada dia.  Lembro que eu fiquei triste quando recebi o resultado que estava com osteopenia, porque é triste. Mas eu decidi encarar os fatos e não me fazer de vítima. Decidi que aquilo era um retrato tardio do meu passado e que eu faria apenas o que estava no meu alcance a partir de então.  E foi o que fiz... eu já estava mudando. 

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Rumo a recuperação - 8 meses sem crise.

Há oito meses que não uso os comportamentos do transtorno alimentar como fuga para minha vida.  Me sinto feliz com isso e, agora, posso dizer com segurança que não pretendo voltar aos velhos hábitos. Estar livre da bulimia tem sido para mim uma conquista. A busca por essa liberdade exigiu, sim, muito trabalho interno, coragem e humildade. Tive que lidar com várias dores, limpar feridas, e enxergar um lado meu que eu não queria. Fui conquistando lentamente o afastamento de tais comportamentos.

No meio do caminho, me deparei com fragilidades e tive que aprender a aceita-las (ainda trabalhando esse aspecto). Percebi como o mundo do transtorno alimentar me afastava da realidade e da minha verdade. Não, nunca foi sobre ser ou não gorda. Esse medo de engordar sempre foi uma fuga para que eu não enxergasse o que verdadeiramente poderia estar me incomodando. O medo de enfrentar a verdade é o que me prendia no transtorno alimentar. Coragem para enfrentar dores do passado e limitações do presente foi o que precisei (e ainda preciso em vários aspectos) para sair da bulimia.

Hoje me sinto distante do transtorno alimentar. Não consigo ver lógica para aquilo que eu fazia. Analiso minha vida e sei o quanto tais comportamento eram arraigados ao meu dia a dia e como eu considerava a doença parte de mim. Hoje não vejo a bulimia nada perto de mim, não sinto mais impulsos para retornar aos velhos hábitos. No entanto, ainda percebo como os sentimentos que me levaram a desenvolver a bulimia ainda mexem bastante comigo. E estou aprendendo a lidar com cada um desses sentimentos.

Hoje, procuro escutar a mim mesma, ouvir meus sentimentos, tentar entendê-los, desvenda-los, sem julgamentos. Me observo o tempo todo. Porque fiquei brava? Porque fiquei triste? O que da atitude do outro está tão ligado a mim que mexeu comigo, seja me irritando, me deixando impaciente? Qual é a percepção que estou tendo de um fato? Eu teria essa percepção se a mesma coisa acontecesse um ano antes?  E terei essa mesma percepção no futuro? O que esse fato diz sobre mim, hoje?   Essa auto analise tem me ajudado a me entender, me aceitar, com minhas limitações e me respeitar. A jornada é longa, mas é gratificante ir me desacorrentando do que me prendia.

domingo, 2 de março de 2014

USP faz triagem para tratamento odontológico de pacientes com bulimia/anorexia

A Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOUSP) do campus São Paulo recruta homens e mulheres acima de 18 anos com diagnóstico médico prévio de bulimia e/ou anorexia nervosa para triagem e possível participação em projeto de pesquisa. Esse projeto oferecerá tratamento sem custo algum e  sigilo da identidade dos participantes. Há 30 (trinta) vagas disponíveis. 

O objetivo será avaliar a saúde bucal através da análise da quantidade e qualidade da saliva, presença de cáries, erosão ácida e candidíase bucal. O estudo irá oferecer tratamento para sensibilidade dental, candidíase bucal e remoção de cáries. 

As consultas irão acontecer na Clínica de Especialidades da FOUSP e os interessados deverão enviar um email para reconstruindosorrisos@gmail.com para mais informações e agendamento para consulta.




sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Novamente, eu e o outro

Tem dias que nosso coração parece que está apertado e a gente aparentemente não consegue entender o porquê. A verdade é que sempre existe um porque e às vezes, simplesmente, preferimos não enxergar o que está nos incomodando. Do que estamos fugindo?

Hoje acordei com essa sensação. Com o coração apertado e um sentimento de angústia. Nesses momentos o meu primeiro impulso quase sempre é comer. É tapar, esconder, anestesiar esse sentimento com a comida. A vontade é de fugir. Mas, como vocês sabem, estou há mais de quatro meses sem crises de bulimia (ainda tenho algumas compulsões, mas não vomito mais, ufa!) e sair me empanturrando de comida e me anestesiando com o vômito não é mais uma saída para mim.

Agora eu estou vivenciando as minhas angústias, dores, sofrimentos e sentimentos. Isso significa encarar parte de mim que eu não estava disposta antes. O que percebo é que sem a comida como fuga, basicamente eu tenho que lidar com pequenos desconfortos quase que diariamente. É como se eu estivesse quase sempre desconfortável com algo. Tenho percebido, por exemplo, que o meu trabalho é um espaço em que me sinto bem desconfortável. E tenho tentado entender o porquê deste “desconforto”.

Analisando essa sensação em relação ao meu trabalho eu percebo que parte da minha angústia vem da necessidade de receber a aprovação dos outros. É como se eu necessidade que os outros referendassem meu trabalho para que eu me sentisse competente. Durante muitos anos eu me escondi atrás da bulimia para fingir para mim que eu era segura. Ou simplesmente para não conseguir perceber as minhas inseguranças.  

Hoje percebo como sou bastante insegurança. Percebo que um comentário ou a falta de um comentário pode atingir a percepção que tenho de mim mesma: “sou competente” X “não sou competente”. Percebo como eu me rastejo atrás dessas aprovações da mesma forma que uma criança procura a aprovação dos pais ao mostrar o boletim escolar.

Inclusive me recordo como eu buscava a aprovação dos meus pais ao mostrar minhas notas para eles. Lembro-me como eu achava que se eu tirasse notas boas seria amada, caso contrário correria o risco de perder o amor deles. Era como se sempre eu tivesse com medo de perder o amor deles (principalmente o da minha mãe). Eu já me sentia muito insegura.

Aquela insegurança é exatamente a mesma de hoje. Continuo sendo aquela menina, em busca da aprovação... em busca do amor... em busca de um espelho que me diga quem eu sou. Um outro que me assegure que eu sou boa o suficiente.


Mudar isso é um objetivo. Tornar-me alguém mais independente do olhar do outro é uma meta. Percebo pequenas evoluções nesse caminho...  Mas percebo grandes falhas também. Que a luta continue. 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Então foi Natal...

Quem tem ou teve um transtorno alimentar sabe que as épocas de festas podem ser apreensivas. O Natal para mim não foi diferente. Senti um friozinho na barriga. O meu desejo era passar o Natal sem crise bulímica e me manter na recuperação. Era inevitável a lembrança de que nos últimos anos meus Natais haviam sido todos com crise. Tentei não me impressionar com essa lembrança. Me foquei no fato de que agora as coisas são diferentes. Eu mudei, não sou mais a mesma. Não preciso mais passar o Natal fugindo e me anestesiando.

Então, me preparei e me fortaleci emocionalmente. Apesar de estar confiante confesso que senti um frio na barriga. Mas não me isolei e nem evitei nada. O Natal foi na minha casa. A família foi toda para lá, irmão, cunhado, cunhada, sogra, tios e tias, primos, etc... A festa foi uma delícia. Preparamos aquela comilança que tem em todo Natal e nem por isso eu tive compulsão. Aproveitei a festa. J

Bom, no dia 26 eu recebo um telefone, era meu irmão. Minha mãe, pai, irmão mais velho e cunhada, não participaram do evento conosco, pois haviam viajado.
 Meu irmão estava apreensivo e me disse que minha mãe não estava bem, que ela tinha tido uma “crise”, estava achando que iria morrer, e estava querendo se despedir de todo mundo. Então eu, supostamente deveria falar com ela para que ela se “despedisse” de mim.  

Eu respirei fundo e fui conversar com ela... Minha ligação com minha mãe sempre foi algo forte, algo, até, doentio. Hoje consigo perceber que durante anos a gente cultivou um círculo doentio de sofrimento. Há algum tempo venho trabalhado para sair deste círculo e me separar de minha mãe. Estou me libertando emocionalmente dela para que eu possa me transformar em mim. Acredito que o meu distanciamento emocional pode estar gerando um desconforto na minha mãe. Mas sei que o luto que as duas estão vivendo é fundamental para o meu renascimento e será para o dela também.

Bom... eu respirei fundo e fui conversar com ela. É claro que não aceitei “despedida” nenhuma. Não joguei o jogo de vítima dela. Conheço o jogo. Eu mesma já fui estrategista, já armei as peças, já montei cenários, já ganhei e perdi muitas vezes. Mas a verdade, é que nesse “xadrez” ninguém ganha. Só há perdedores. O jogo é um jogo triste, as consequências são reais e perigosas. Eu sei disso. Eu mesma vivi isso, eu mesma fui “alimentada” por pessoas queridas com “lenha para minha fogueira”. Eu mesma “queimei e fui queimada”.  

No dia 26, eu disse “não” para minha mãe. Não dei a ela conforto e nem passei a mão na cabeça dela. Não aceitei “despedida”. Me segurei e fiquei firme no meu propósito de não cair no jogo do “vou embora”, “a vida é uma merda”. Sei que o que ela quer, não é ir embora, não é acabar com a vida dela. Sei que ela quer é acabar com o sofrimento.  Mas para isso ela precisa viver!!! Ela precisa querer. Ela precisa buscar. Não sou eu, que posso fazer isso por ela. Posso apenas dizer, estou vivendo, venha para vida, estou aqui te esperando. Não posso me afundar com ela. Já estive com ela nessa “merdalância” por tantas e tantas vezes. Agora não dá mais. Escolho viver e me respeitar. 

Sofro por ver minha mãe nesse estado. Chorei algumas vezes. Tive insônia.  No entanto, não permiti que isso afetasse meu propósito de não me afundar na depressão ou de não vomitar.  Claro que estou preocupada com ela. Claro que me preocupo com meus irmãos e meu pai. Mas agora me preocupo antes comigo, meus filhos e marido. Amo minha mãe e amo minha família. Estamos nos revezando para cuidar dela. Mas não tenho me esquecido de mim. Não permito me influenciar pelas queixas ou frases que ela faz para me atingir. Hoje sei que não é pessoal. Hoje entendo que as acusações da minha mãe tem haver com ela, e muito pouco comigo.

Hoje entendo que cada pessoa tem um ritmo, um processo, uma vida. Minha vida, meu processo é distinto do da minha mãe. Durante um grande tempo, eu achei que minha melhora dependia da melhora da minha mãe. Achei que só iríamos sair da “merdalância” juntas. Que para eu melhorar, ela precisaria enxergar esse processo também, para juntas, felizes, saíssemos disso.


Mas, hoje entendo que não. Sou outra pessoa. Não estou deixando ela para trás. Estou apenas indo. Tenho responsabilidade diante da minha vida. Só posso assumir as responsabilidades diante da minha vida. E hoje decido ficar melhor. Decido quebrar um círculo que provavelmente foi transmitido de geração em geração. Respeito o tempo dela, a limitação dela. Aceito minhas próprias limitações, aceito o meu tempo, e com coragem sigo meu caminho.