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domingo, 29 de julho de 2012

Desafios da viagem - Relacionamento com meus pais

Acabei de voltar de uma viagem e gostaria de compartilhar minhas emoções com vocês. A viagem foi de sete dias. Estavam presentes, eu, meus filhos, meu pai e minha mãe. Meu marido não pode ir devido ao trabalho. Fomos para a cidade da minha mãe, uma cidade de praia, local onde tenho família, primos e tios. Para mim, os dias anteriores à viagem já foram bem complicados. Eu fiquei extremamente ansiosa, com medo e receio de quase tudo. Como conseguiria seguir meu plano alimentar? Como conseguiria me manter em recuperação? Como ficar tantos dias perto da minha mãe e do meu pai sem estresse? Como aguentar sem meu marido por perto? Como dizer para minha família que não quero comer tantos bolos, pizzas, sururus, camarões, cuscuz, etc? E se eu não conseguisse malhar nenhum dia? Como conseguiria comer de 3 em 3 horas tendo que ver meu corpo de biquíni todos os dias? Dá para perceber que eu estava apavorada, né? 

Então, a viagem não foi apavorante como eu imaginei. Aos poucos fui desmistificando certas crenças. Consegui superar muitos medos e curtir vários momentos. Isso foi libertador. Talvez um dos aspectos mais gratificantes da viagem tenha sido o meu contato com meus pais e a análise que pude fazer sobre o nosso relacionamento. Bom, fazia dez anos que eu não conversava com meus pais sobre meu transtorno alimentar. Eles nunca mais haviam me perguntado como eu estava e eu nunca havia mais dito nada a respeito. Isso me deixava extremamente magoada, mas ao mesmo tempo eu achava conveniente, uma vez que eu não me sentia “cobrada” para que eu mudasse minha atitude em relação ao meu problema.

Durante a viagem resolvi abrir meu coração. Contei para eles como eu estive nos últimos 10 anos (pois eles conheciam apenas meu TA durante os 10 anos em que vivi com eles). Contei como eu comia compulsivamente e vomitava todas as refeições. Que eu não havia parado e nem diminuído desde que eu saí da casa deles, pelo contrário, que as compulsões haviam aumentado e que a intensidade das crises era de 5 a 8 vezes por dia, todos os dias. Contei também sobre a minha mudança de comportamento nos últimos 60 dias e minha luta pela recuperação. Falei sobre as informações e inspirações que encontrei na internet. Falei que estava seguindo um plano alimentar feito por uma nutricionista (com 3 refeições e 3 lanches, sem vômitos!!!). Confessei que ainda tinha compulsões uma vez ao dia, quase todos os dias, que o processo ainda seria longo e que eu sabia disso, mas não iria desistir, estava confiante. Falei sobre as pessoas e grupos online que eu havia encontrado e que estavam me ajudando muito. Falei do blog, etc... 

Escolhi um momento apropriado para conversar com cada um deles, de forma separada, pois minha relação com cada um deles é bem diferente. Bom, no primeiro momento os dois tiveram a mesma reação, ficaram apenas calados, escutando, atônitos. Acho que a palavra mais positiva que ouvi foi “que bom”. Nossa... No começo, fiquei arrasada. Quase arrumei uma desculpa para ir ao supermercado mais perto, me empanturrar de comida e vomitar toda a minha frustração. Mas decidi que antes de comprar a comida, eu iria tentar meditar, tentar pensar, e se ainda estivesse me sentindo mal, sim, eu comeria tudo na minha frente e vomitaria... (este não é o meu conselho para ninguém, esta é apenas a forma como eu pensei). Deu certo!!! 

Meditei, me acalmei, depois tentei avaliar o que estava acontecendo e percebi que a minha frustração estava diretamente ligada a minha expectativa. Eu imaginei que ao falar com meus pais eles iriam agir comigo da forma como vemos as coisas acontecendo em filmes: iríamos nos abraçar, chorar, conversar durante horas, eles iriam pedir desculpa pelo tempo que não estiveram “presentes”, eu iria pedir desculpa pelos meus erros, enfim... imaginei um conto de fadas, risos. Criei expectativas e expectativas são uma merda. 

Saindo da situação, e me vendo de fora do “filme”, consigo entender o motivo dos meus pais ficarem calados. Eles simplesmente não sabiam o que fazer. Eles estavam com medo e eles têm direito a ter medo!!! Medo de falar qualquer coisa que pudesse de alguma forma atrapalhar meu processo, medo de que eu pudesse acusa-los de não dizer a coisa certa. Tenho certeza que eles sofrem por me ver sofrendo. Eu preciso respeitar o sofrimento deles e a forma como eles lidam com o meu problema. Sempre fiquei muito chateada quando eles não me respeitaram, mas, e eu estava respeitando eles? Eles têm o jeito deles, cada um tem sua própria limitação, seus próprios sentimentos, seus próprios medos. 

Naquele momento, entendi que eles estavam felizes por mim, e ficar calado, ou quase calado, era o jeito que eles encontraram para me proteger, ou para protegerem a eles mesmos. Lembrei tanto da música do Legião que diz “Você culpa seus pais por tudo, isso é um absurdo! São crianças como você, o que você vai ser quando você crescer?”. Acho que entender isso foi libertador!!! Não precisei ir ao supermercado. Fiquei bem. 

Essa conclusão me deixou aberta para que eu e meus pais conversássemos em várias outras ocasiões da viagem sobre a minha trajetória, um pouquinho de cada vez, de forma bem natural. Aos poucos percebi que eles estavam bem felizes com meu processo. Deixei as expectativas de lado. Não foquei meus ouvidos nas frases ou conselhos que me desmotivam, inclusive, consegui até dizer para eles, de forma não acusatória, que certas frases, para mim, não me faziam bem, e que eu estava escolhendo meu próprio caminho e seguindo meu coração. Se eu tivesse ido ao supermercado, talvez, seriam mais 10 anos de silêncio, acusação, culpa e ressentimento.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Recuperação: um caminho a ser trilhado



Em algum momento, durante os anos com o transtorno alimentar, acho que perdi minha essência, minha identidade. Ao esconder de mim os meus sentimentos eu fui me moldando em algo que eu não era, em algo que não me reconheço. Percebo, agora, que não sei ao certo quem sou ou em quem irei me transformar. Tenho medo dessa nova pessoa que está aparecendo, tenho medo do que vou encontrar.

Gastei muito tempo envolvida com minha bulimia e as mentiras dela decorrentes.  Utilizei muito tempo em meus pensamentos obsessivos sobre: onde comprar a quantidade excessiva de comida que comeria, como prepará-la, quando prepará-la, onde vomitá-la, quando vomitá-la, como disfarçar tudo isso.  Assim fui me anulando. O meu tempo já não era meu, era dela, da bulimia.

No momento que percebi que a bulimia estava me controlando. Que o monstro que eu criei estava ficando mais forte que eu mesma, a ficha começou a cair. Ainda não consigo imaginar uma vida sem meus rituais bulímicos, mesmo sabendo o quão sofrido e agoniante é esta vida.  Mas também não consigo imaginar continuar vivendo com o meu transtorno alimentar. No momento me sinto perdida, em um limbo.  

Não sei ao certo quem sou e para onde vou. Estou com mil medos e incertezas. Mas tenho uma certeza: sei onde não quero ficar, mesmo não sabendo como será. Acredito que o mundo está sempre em movimento, e isso, de certa forma, significa que todo mundo está sempre mudando, criando novas identidades, se redescobrindo. A vida é uma jornada de autoconhecimento constante, minuto após minuto. E sempre podemos mudar nossos caminhos. Recentemente, uma alma iluminada me deu o seguinte conselho: “Sem essa de achar que recuperação é um lugar onde se chega: não é. É um caminho que se trilha.” Não quero nunca perder isso de foco. Meu caminho eu decido a cada dia, com cada passo, a cada instante, não chegarei a lugar nenhum, pois não existe lugar a se chegar, mas sim um caminho a se trilhar diariamente. Sabendo disso, vou continuar minha caminhada... me redescobrir, me reencontrar, me aceitar com todas as qualidades e defeitos, e continuar me reencontrando a cada dia e seguindo, seguindo, seguindo. Obrigada, minha bruxinha do bem, Flávia!  Excelente lembrança. 

terça-feira, 3 de julho de 2012

Rumo à recuperação: fazendo as pazes com a comida


Na minha vida, eu só conhecia duas formas de alimentação: não comer nada ou comer compulsivamente e vomitar. Bom, se é que isso pode ser chamado de alimentação, não é verdade? Sempre que eu comia, eu precisava vomitar. Para mim, isso era natural. Eu acreditava que era parte do meu processo digestivo: mastigar, engolir e vomitar. Antes de começar o blog e iniciar essa jornada rumo a cura, eu comia compulsivamente de 5 a 8 vezes diárias e vomitava todas elas, hoje, essa média diminuiu e minhas crises diárias estão cada dia menores (média de uma vez ao dia). 

Para entrar, verdadeiramente, na jornada contra a doença eu precisava aprender a comer e não vomitar. Caso contrário, eu correria o sério risco de desenvolver outro transtorno: a anorexia. No passado, em uma outra tentativa de me recuperar, eu fiquei anoréxica durante alguns meses, perdi muitos quilos e acabei retornando à bulimia. Foi muito ruim., or isso, dessa vez, me mantive consciente sobre a necessidade superar esse desafio.

Depois de muita leitura e pesquisa, verifiquei que os especialistas sugerem que pessoas em busca da cura da bulimia devem fazer uma espécie de reeducação alimentar, fazendo um planejamento estruturado de alimentação (com orientação de um nutricionista). Basicamente, eles sugerem que sejam feitas três refeições e três lanches por dia, todos os dias! Claro que eu quase pirei com essa orientação. Como assim??? Comer seis vezes por dia sem vomitar??? Eu não conseguia comer dessa forma por nem um dia da minha vida, eu pensava. Como conseguiria chegar a essa marca? Achei um absurdo!

Decidi que iria fazer o meu melhor. Na primeira semana não me preocupei em alcançar seis refeições diárias. Apenas me preocupei em comer e não vomitar. Para mim isso já foi um avanço! Comemorei a cada refeição que fiz sem vomitar. Claro que sem me iludir que ainda teria grandes desafios. Com o tempo fui ganhando confiança e fui aumentando o número de vezes que fui capaz de me alimentar e de não provocar o vômito. Percebi que isso não era tão ruim. Fui enfrentando meus medos e eles estão ficando menores. Claro que esse processo não foi fácil e ainda não é. Já estou comendo três refeições e três lanches por dia, todos os dias sem vomitar. Para evitar que eu fique neurótica em relação ao meu peso eu deixei de contar calorias. Simplesmente não penso nelas. Sei que esse passo foi bem grande para mim. No entanto, ainda é pouco diante o que ainda irei passar. Também me proibi de subir em qualquer balança.

Tenho consciência que ainda evito vários alimentos, mesmo sem contar as calorias. Morro de medo de comer em eventos sociais. Tenho a sensação que todos estão me vigiando. Isso porque eu estou comendo de forma diferente do que comia antes da busca pela cura. Antes de iniciar minha jornada eu comia de tudo a toda e qualquer hora (claro que vomitava tudo depois) e agora estou evitando certos alimentos. Ainda tenho pânico (vergonha) que as pessoas descubram que eu tenho bulimia.

Para chegar até aqui, fui colhendo várias dicas e evidências que de alguma forma me fortaleceram. Vou dividir com vocês as dicas e os conhecimentos que me ajudaram (principal fonte: Bulimia.help):

  •  Obter um fluxo constante de nutrição evita compulsões futuras.
  • Comer regularmente aumenta o metabolismo.
  • No início, não é necessário comer muito. Pequenas refeições são mais fáceis de comer e vão fazer você se sentir menos cheia. Isso vai ajudar você a não vomitar.
  • Comece agora.  Nunca mais deixe para amanhã. O amanhã nunca chega.
  • Seu estômago pode precisar de um tempo se acostumar e isso pode levar tempo. Tenha paciência e perseverança.
  • Lembre-se dar passos de bebê e fazer pequenas mudanças graduais.
  • Nunca se compare com os outros. Cada pessoa tem um processo diferente de adaptação.
  • Esqueça a balança
  • Esqueça as calorias
  • Se possível, procurar um nutricionista que te ajude a criar um plano de refeições.
  • Planeje suas refeições com antecedência
  • Escolha alimentos que você sente confortável, principalmente na fase inicial.
  • Evite ficar mais de 3-4 horas sem se alimentar. Espaçamento entre as refeições é importante na prevenção da compulsão. Este período tem a ver com o processo de esvaziamento do seu fígado para manter os níveis de glicose no sangue com carboidratos armazenados.
  • Se estiver com fome, coma. A vontade não saciada pode aumentar a compulsão.
  • Essa dica me ajudou muito a iniciar o meu processo, foi dada pelo meu marido: “Faça apenas uma experiência, não pense que o que você está fazendo é definitivo, caso você não consiga, você poderá sempre voltar ao seu antigo estilo de comer”. Pensar dessa forma foi um alívio para mim. Tirei o peso do processo e fui experimentando e fui vendo que é possível. 

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Uma Mudança no Olhar. O Início da Cura?


Hoje eu estava desanimada, um pouco triste. Não havia nem um motivo específico, mas simplesmente eu estava me sentindo assim. Comecei a pensar sobre os 20 anos em que vivi com bulimia e pensei na causa que me levou a decidir apenas agora a me entregar à cura e aceitar os desafios que o tratamento do transtorno alimentar propõe. Claro, estou no início da minha jornada, mas, agora, de certa forma, sinto que algo dentro de mim mudou. Consigo me ver lá do outro lado superando cada desafio. Estou disposta a enfrentar um por um.

Lembro-me das diversas vezes que falei para mim mesma: “Esta é a última vez. Estou cansada desta vida. Seguirei o tratamento”. No entanto, a cada sugestão feita pelos profissionais que mudasse minha rotina e que pudesse me fazer engordar, perder meus “benefícios”, me expor, ou se simplesmente eu não concordasse, eu os boicotava. Era simples assim: “farei tudo o que vocês pedirem, para isso, basta apenas que vocês me falem para que eu faça somente o que eu quero”.
  
Olhando para o passado friamente, eu posso concluir que as milhões de decisões “sinceras” que fiz pela cura, não foram tão sinceras assim. Mas eu estaria sendo muito injusta se, ao olhar para trás, eu dissesse que não houve nenhuma verdade nas minhas decisões em relação ao tratamento. Eu verdadeiramente tentei cumprir algumas tarefas feitas pelos médicos, no entanto, ao não conseguir eu desistia, eu desistia da guerra. Na época eu não entendia que nunca se perde uma guerra ao se perder uma batalha. Nunca!!!

Além disso, havia um fato que eu preciso admitir, eu queria melhorar, mas eu também queria manter a bulimia.  Para mim a bulimia ainda era minha muleta, meu trunfo, meu plano B. Fui a vários psiquiatras diferentes, tomei vários remédios. Procurei muitos psicólogos. Mas a verdade é que para mim os remédios aliviaram pouco a dor que eu sentia. Largava os remédios e trocava de médico. Apesar da minha forma caótica de lidar com o tratamento, sempre havia uma boa intenção.

Cada tentativa e falha subsequente me convenceram de que eu nunca seria capaz de parar. Isso me levou durante alguns anos a desistir de sonhar com a recuperação. Sim eu continuava a ir ao psiquiatra e à terapia, mas nesse ponto eu não queria largar a bulimia. Eu ia aos médicos com o objetivo de aliviar o sofrimento de viver com o transtorno alimentar, mas não com a intenção de largá-lo. 

Não posso desfazer as coisas que fiz e a forma como agi. Realmente acho que perdi muito tempo. No entanto, de alguma maneira paradoxal, algo mudou em mim, e a forma como agi, hoje, me dá força para que eu não queira abrir mão de algo que eu quero desesperadamente. Hoje continuo com muito medo de muitas coisas no futuro, mas o meu passado já não me ilude mais. Já sei o quão negativo é viver com a doença e agora já tenho certeza que, para onde quer que eu vá, será melhor do que onde eu estou.

Sim, tenho meus momentos de fraqueza, continuo me sentindo acuada diante de várias situações. Mas estou exercitando minha paciência e trabalhando na minha persistência. Mudei meu foco na terapia e na psiquiatria. Hoje tomo menos remédios e trabalho de uma forma mais profunda. Não busco aliviar sintomas, busco a cura. Hoje sonho com isso, acredito nisso, inclusive já me visualizo do outro lado, curada.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Jornada rumo à recuperação: quando a ansiedade paralisa

Não sei quando eu me tornei ansiosa. Não consigo me recordar bem o momento ou a época da minha vida em que esta característica apareceu. Na minha adolescência este traço da minha personalidade já estava bem aflorado. Lembro-me de ficar acordada a noite inteira por conta de algum acontecimento que ocorreria no dia seguinte. Minha mente simplesmente não conseguia relaxar e eu ficava imaginando e conjecturando tudo que poderia acontecer.

Acho que com o passar do tempo a minha ansiedade foi aumentando. Eu nunca aprendi de verdade como lidar com ela.  Minha mente, poderosamente, vai construindo monstros e fantasmas e eu vou caindo nessas armadilhas igual uma criança que tem medo do escuro.  Inacreditável como depois que passa eu percebo como meus pensamentos foram idiotas e como eu estava exagerando, mas na hora o medo, o pânico, é tão real que fico paralisada.

Há 17 dias eu comecei a mudar meu comportamento em relação à bulimia. Decidi traçar metas (difíceis para mim) rumo à recuperação.  Após anos em tratamentos com psiquiatras e psicólogos, após várias tentativas frustradas de largar os ataques à geladeira e o alívio do vômito, eu estou conseguindo traçar alguns objetivos e cumpri-los.  Acredito que dentre todos os obstáculos rumo à recuperação, a ansiedade possa ser o maior deles. O problema da minha ansiedade é que eu sofro muitas vezes por um medo imaginário, mas muito intenso, e que me deixa paralisada.

Faz cinco dias que eu venho pensando sobre tentar passar um dia inteiro sem minha crise bulímica. Como vocês sabem,  antes da “minha jornada” começar eu vomitava cerca de 5 a 8 vezes por dia, todos os dias, e esse número reduziu para uma vez por dia.  A minha primeira tentativa rumo à recuperação pareceu algo insuportável, mas estou aqui, suportei. Não só suportei como a cada dia que passa, sinto que esta meta (1 crise por dia) está menos pesada de ser atingida. Hoje já consigo lidar melhor com a falta física do comer e vomitar (crise da abstinência). Claro que ainda sinto consequências no meu corpo nessa busca pela recuperação,  mas quem disse que seria fácil? Bom, de qualquer forma, venho me sentindo preparada para dar o próximo passo, no entanto a minha ansiedade estava, até então, me impedindo.

Eu estou ansiosa pelas consequências que esse passo (ficar um dia todo sem vomitar) pode vir a causar. No meu caso, a ansiedade gera medo e o medo paralisa. Medo de ficar sem a bulimia. Medo de viver sem ela. Medo de não saber o que fazer com o tempo que terei extra. Medo de não saber lidar com as frustrações, raivas, angustias. Medo de engordar (claro ele existe). Medo de não conseguir. Medo de ter que dar esse passo todos os dias. Medo de que essa seja a última vez, o último vômito, o último alívio, o último contato com algo que eu controlo. Medo de perder o controle de tudo (...como se eu tivesse controle de algo). Medo do que eu vou me tornar. Medo de não gostar dessa nova pessoa.  São muitos medos…

Bom, então, para afastar estes fantasmas que me congelam, eu precisei enganar a minha mente. "Quer saber?" Eu pensei.  “Eu vou deixar de comer e vomitar, só hoje.  Amanhã, será tudo normal”. Minha meta foi para a noite de ontem.  Por enquanto, não vou pensar no futuro, vou com calma, aprendendo dar tempo ao tempo.  Não quero pensar no que vai acontecer. Vou viver o que está acontecendo. Vou tentar traçar metas curtas e imediatas, sem olhar para o futuro, pois o futuro está me paralisando.

O que sei agora é que viver com a bulimia está insuportável. Dói muito pensar em não tê-la mais comigo, mas dói mais ainda pensar em viver com ela para o resto da minha curta vida, pois será curta se continuar assim. Como não consigo mudar meus pensamentos, vou mudando minhas atitudes e, assim, torço para me manter acordada. Porque como disse meu terapeuta, “o perigo de acordar é querer continuar sonhando”.


segunda-feira, 11 de junho de 2012

Rumo à recuperação e o fundo do poço


Estou frustrada. Tenho certeza que ontem estava preparada para dar mais um passo rumo a minha recuperação. Mas meu fracasso veio do  medo de conseguir. Irônico, estupido, mas foi exatamente o que ocorreu.  Sinto-me sozinha, no fundo de um poço, estreito, escuro e profundo. Agora, cansada e envergonhada.

Há 14 dias, comecei um processo de mudança na minha rotina bulimica. Decidi me libertar da prisão que é a vida com a bulimia. Como já falei, tenho bulimia há 20 anos, e durante esse tempo sempre “estive em tratamento”, bom pelo menos teoricamente. Frequentava psiquiatras, terapeutas, tomava remédios, mas nunca tentei de fato mudar. Eu ia me enganando, deixando me levar. Infelizmente, eu tive que chegar no fundo do poço para encontrar a motivação para a mudança de fato.

Aqui estou eu, sozinha, no fundo do poço. O poço é frio, estreito, escuro e profundo. Não há alternativa, ou eu saio, ou eu morro. Mal escuto as vozes das pessoas que amo. Mas sei que elas estão lá em cima, me apoiando e esperando por mim. Elas estão de mãos atadas, pois esta é uma luta minha. Elas me jogam uma corda, para que eu suba, mas é tudo que podem fazer. A escolha da subida e o esforço da escalada precisam ser feito por mim.

Fiquei muito tempo no fundo do poço, paralisada. A corda já estava lá, a saída também. As pessoas amadas já estavam lá em cima, me esperando para me dar força, me aquecer e me aceitar da forma que eu chegar, mas eu não conseguia subir. Simplesmente sabia que não chegaria ao final, fisicamente e psicologicamente seria impossível. Nunca havia escalado nada, principalmente algo tão alto que poderia exigir de mim esforço físico e psicológico que eu não tinha. Então desistia antes de tentar. Até que percebi que iria apodrecer ali. Que ninguém me tiraria dali, a não ser eu mesma.

Para mim essa metáfora se encaixa bem com que estou vivendo. Bom, nesse poço estou enfrentando meus fantasmas psíquicos e físicos diariamente. Não existe alternativa, senão a saída, correto? Mas não é tão simples assim. Tento subir a corda diariamente só que caio diariamente (no final do dia, quando “escolho” vomitar).  A saída parece tão distante, que vejo apenas um pontinho de luz lá no final, mas sei que ela está lá.

Bom, a vantagem é que cada dia estou mais forte, cada dia, consigo subir um pouquinho a mais do que no dia anterior. Só que ontem, eu me boicotei. Eu sei que fiz isso. Eu poderia ter me esforçado e subido mais. Mas tive medo de ir adiante. Tive medo de formar uma bolha na minha mão. Tive medo da dor de não vomitar naquela noite. Tive medo de não conseguir dormir. Tive medo que a partir do dia em que eu conseguisse atingir “aquela meta”, os espectadores (amigos e família) cobrassem de mim que eu a atingisse a cada dia. Tive medo da minha cobrança pessoal a partir daquele momento. Então, mesmo com energia para continuar, eu me deixei cair. Idiota, né? Sim, eu sei.

Medo de conseguir e depois não conseguir, ou de conseguir e não saber o que fazer... Tem horas que minha mente é tão poderosa que me irrita. E eu vou me deixando enganar por armadilhas psíquicas que não me levam a nada.  


Bom, nessa subida, a verdade é que minhas mãos e meus músculos ficarão doloridos. Haverão dias que não conseguirei ir adiante, talvez até não conseguirei atingir o mesma altura que fiz em dias anteriores. Mas com o tempo ficarei mais forte. Minhas mãos ficarão calejadas. Não sentirei tanta dor. Ainda será cansativo, mas conseguirei ir mais além. Estou aprendendo a lidar com minha mente, durante este processo e esta luta que é a recuperação: uma luta pessoal de corpo e mente. Sim, o apoio de todos é fundamental, mas a luta é pessoal. 

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Mudando nossas crenças



Estou passando um momento de conflito, que não vai fazer com que eu paralise o processo que comecei (minha luta pela recuperação), mas certamente, está fazendo com que eu avalie o caminho que estou seguindo. Desde o dia que comecei a escrever o blog tenho lido muito sobre bulimia, blogs, sites de instituições e pesquisas. Eu achava que conhecia muito sobre a doença, pois convivo com ela há 20 anos. Realmente, tenho amplo conhecimento do que é viver (sobreviver) com a bulimia, mas não sabia nada sobre o processo de recuperação, cura, e tratamentos. 

Foi muito interessante perceber que várias pessoas sentem algo similar com que eu sinto e que a doença se manifesta de forma muito parecida em centenas de mulheres (e homens) no mundo. Os mecanismos que usamos para manter a doença muitas vezes são similares, as desculpas, os medos. Temos muitas coisas em comum.  Acompanhar blogs de recuperação para mim tem sido a fonte de inspiração que me faz acreditar que eu também posso conseguir sair desse mundo sombrio. Além disso, esses blogs me mantêm consciente de que o processo é difícil, longo e que é necessário ter paciência e perseverança.

Os sites de profissionais e instituições de apoio também são grande fonte de inspiração e tem me mantido com o pé no chão. Neles tenho encontrado informações interessantes que acredito que podem ajudar muito na minha busca rumo à recuperação. Por que não busquei essas informações antes? Orgulho, vaidade, falta de humildade ou simplesmente porque ainda não estava de fato em busca da cura?

Bom, de qualquer maneira agora estou aqui, em busca da cura. E estou aberta para mudança de crenças e de percepções. Pois nada mais natural que neste processo eu cresça e amadureça certas ideias. 

Como recentemente eu postei aqui no blog um pouco da minha história com meus pais eu gostaria também de comentar um artigo de extrema importância que li no site da Dr. Sarah Ravin. Ela afirma que não há evidencia científica que sustente teorias de que o relacionamento entre a família pode levar aos transtornos alimentares. Ela até concorda que o desenvolvimento infantil sem suporte emocional e aceitação do filho por parte dos pais pode levar a baixo autoestima e a outros problemas emocionais, no entanto, não há evidências que isso leve a criança a um transtorno alimentar. Para isso ela cita um estudo em que mostra que essa relação não é, necessariamente, verdadeira.  Achei legal esse estudo e decidi citar aqui. Sempre entro em conflito com meu analista em relação a isto.

Hoje eu sou mãe e acredito sim que sou responsável por muitas coisas que estarei passando para meus filhos. Quero ter filhos mentalmente saudáveis, confiantes, amorosos, etc. Esta é uma tarefa que nós pais fazemos da melhor forma possível. Amamos nossos filhos com toda nossa força. E queremos apenas o melhor para eles. Ninguém aqui é PHD em educar filhos e nessa tarefa, certamente, haverá tropeços. Somos humanos e temos nossas limitações. Isto não nos exime de nos esforçar e dar tudo que podemos para fazer com que essa tarefa seja a melhor POSSÍVEL. Mas é isso que temos que lembrar, fazemos apenas o possível. Pois às vezes erramos, tentando acertar.

Então, se você for um pai ou mãe de uma criança que tem bulimia, não se cobre tanto (caso, alguma vez já tenha feito isso). Você fez o seu melhor, na época. Tenho certeza que amou e ama muito seu filho, senão jamais estaria aqui lendo estas palavras. Então, bola para frente e lembre-se que você pode ajuda-la (o) e muito a sair dessa.  Aproveito para agradecer aos meus pais por tudo que são para mim e por tudo que me ensinaram. Pois sou muito mais que uma pessoa com bulimia. Amo vocês demais. 

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Saber a causa é necessário para levar à cura da bulimia?


Bom, este é um questionamento que sempre tive. Será que apenas sabendo o que me trouxe até aqui fará com que eu consiga voltar para onde eu estava? Bom, para começar eu nunca mais voltarei para onde estava. Já tenho uma nova história e jamais poderei apagar tudo de aconteceu comigo e tudo que vivi e senti com a doença. Mas para que eu siga a diante, eu preciso saber o que me fez iniciar esse processo? 

Não vejo sentido em buscar o que foi “responsável” ou “causador” da doença. Apesar disso, confesso que acho importante me autoconhecer. Para mim, descobrir certas coisas do meu passado, tem feito que eu desmistifique certos “fantasminhas” que criei na minha mente. Passo a entender melhor minha forma de agir e o motivo muitas vezes infantil que me faz pensar de uma forma ou de outra. Percebo que alguns “monstros”, na verdade, são apenas “sombras”,  e que eu não preciso ter medo. Isto me deixa mais segura e faz com que eu possa seguir adiante.

O que me levou a bulimia, em si, para mim, não tem muita importância. Mas o que me faz continuar com ela, isso eu quero trabalhar. Hoje eu mantenho a bulimia por quê? Por causa da ansiedade, depressão, baixo auto-estima, perfeccionismo, necessidade de aprovação? Então é isso que estou tentando resolver no meu divã.

Li em um artigo bem interessante que afirma que “nós aprendemos e amadurecemos emocionalmente por meio da experiência. Pensamentos e sentimentos são resultados de nossos comportamentos, e não o contrário. Saber o motivo pelo qual você pensa da maneira como pensa, ou porque se sente da maneira que se sente, não muda seus pensamentos ou sentimentos. O que ajudar a mudar seus pensamentos e sentimentos é a mudança em suas ações.” (veja texto completo). De acordo com a autora do texto, saber o motivo que te levou onde está é irrelevante para cura da bulimia. Para ela, o autoconhecimento pode ser benéfico para o tratamento de recuperação, mas não é essencial para a cura. Ela defende, inclusive afirmando já estar comprovado, que terapias comportamentais são mais eficientes que a psicanálise.   

Eu faço psicanálise e gosto muito. Já tentei em outro momento da minha vida fazer terapia comportamental, mas meu foco não estava na bulimia. Naquela época eu não gostei, não consegui me adaptar. Lembro que eu queria mudar a forma com que eu pensava e me sentia, no entanto, a terapia propõe uma mudança de comportamento. Não funcionou. Voltei para psicanálise. Talvez, agora que estou disposta a mudar, e já estou mudando, minhas atitudes eu enxergaria a terapia cognitiva com outros olhos. 

sábado, 2 de junho de 2012

Meu caminho para a recuperação – certo ou errado?


Estou insegura em relação ao meu caminho para a recuperação. Não pretendo desistir,  nem estou me lamentando.  Mas estou insegura em relação ao método que estou utilizando. Será que o que estou fazendo é o melhor caminho? O mais eficiente? O que vai me levar a menos possibilidades de falhas e fracassos?

Ler blogs de pessoas que se curaram para mim foi o maior incentivo para começar a tentar verdadeiramente a sair da inércia e traçar um plano para a recuperação. Digo verdadeiramente, pois já menti para mim várias vezes. Continuava a comer e vomitar todos os dias (5 a 8 vezes ao dia) e achava que a análise, por si só, poderia me tirar dessa.  Na verdade, acho que nunca acreditei que eu poderia me curar. Após a leitura emocionada dos depoimentos de várias mulheres que passaram por algo muito semelhante com o que eu vivo (a identificação foi enorme), pensei: se elas conseguiram (com muito esforço) superar, eu também posso.  Percebi que deveria fazer algo agora, não iria mais falar “hoje não dá”.


Como li que o processo para a cura é demorado e lento, que é preciso ter paciência e perseverança. Decidi começar traçando objetivos diários e tentar não ser muito dura comigo quando eu não conseguir atingi-los. Nos primeiros dois dias os objetivos foram duros demais. O primeiro objetivo, eu não consegui atingir. O segundo, eu consegui parcialmente. Eu precisava ficar 24 horas sem compulsão e vômito, fiquei 24 horas conforme a meta, mas logo após o tempo estipulado comi e regurgitei, ou seja, algo errado, correto?

No terceiro dia resolvi que a meta seria passar o dia com a possibilidade de apenas uma crise bulímica – meta alcançada. E assim tem sido até hoje (foram-se 5 dias).  Bom, todos os dias têm sido difíceis, e a hora mais “legal” do meu dia é a hora em que é permitido comer muito e vomitar. Estou fazendo tudo errado??? Será que minha meta deveria ser ficar todos os dias sem nenhuma crise??? Mesmo que para isso eu me frustre???  Será que eu suportaria a dor da abstinência durante  dia e noite consecutivamente? Quando saberei qual é a hora de tentar dar o próximo passo? Talvez dentre todas essas perguntas a que mais me preocupa é a última.

Quando saberei a hora certa para ir para o próximo passo? Tenho medo de ir me acostumando e não querer seguir adiante. Tenho medo de regredir. São vários medos...  E eu precisava colocar eles para fora, para que eles não virem monstros na minha cabeça. Acho que todas estas dúvidas são resultados da minha ansiedade e vontade de ver tudo, assim, pronto. Mas estou mudando, me transformando, aprendendo a dar tempo ao tempo. Claro que se existisse uma fórmula única de como curar-se esta já estaria à venda, não é mesmo? Somos todos diferentes e por mais que eu me identifique com as histórias lidas, preciso ter paciência e achar meu próprio caminho, pois eu tenho a minha história.  Vou respirar fundo e me acalmar. Meu coração já não está tão acelerado quanto como comecei a escrever as primeiras linhas. 

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Aprendendo a dar tempo ao tempo


Eu tinha acabado de escrever um post que seria intitulado “Soccorro!!!”, em que eu falava como meu dia estava sendo uma bosta , da vontade de desistir, do meu sentimento de frustração, etc, etc, etc...  Só que acabei lendo um artigo chamado “No short cuts to recovery” (não há atalhos para recuperação) que me fez repensar um pouco sobre o meu quase momento de desistir.  Bom, continuo me contorcendo para não me empanturrar e depois vomitar. O tic tac do relógio continua bem lento!!!  A diferença serviu para me lembrar que preciso ter mais calma, paciência e perseverança.  Faz parte do processo ficar “frustrado, impaciente, cansado, duvidoso, preso, alegre, incentivado, desanimado, com raiva, eufórico, curioso, frustrado, incerto, duvidoso, e orgulhoso”.  A estrada é longa, não será fácil, mas é possível. Textos como este são ótimos para nos relembrar disso, leia o original.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Primeira tentativa rumo a recuperação – primeiro fracasso

Oi gente. Ontem não consegui escrever no blog, pois estava me sentindo muito envergonhada, com raiva e fracassada. No dia 28, à noite, eu havia feito um compromisso (comigo mesma) de tentar passar 24 horas sem vomitar.  Não consegui atingir minha meta. Tenho enorme dificuldade de lidar com o fracasso. Odeio traçar um plano e não conseguir cumpri-lo. Mais uma vez é o meu perfeccionismo me limitando. Minha mania de controle. Minha falta de paciência. Meu imediatismo. Quantas vezes desisti de tentar, simplesmente com medo de não conseguir??? Quantas vezes interrompi meus planos, só por medo???

Pelo que tenho pesquisado, esses traços de personalidade são características em comum dos bulímicos: controlador, perfeccionista, imediatista, intenso, impaciente, ansioso. Muito provavelmente foram essas características que nos levaram a doença, correto? Enquanto não aprendermos a lidar com estes sentimentos que aparecem em nós (bulímicos) de forma exacerbada, não conseguiremos nos livrar verdadeiramente da bulimia. Muito provavelmente esses traços sempre estarão conosco. Precisamos cada dia encarar nossas limitações. Aceitar nossas imperfeições e ter, sobretudo, paciência.

Bom, eu sou consciente do que tenho que fazer, mas vou te contar a verdade, ontem eu estava uma fera. Não conseguiria pensar assim. Na minha cabeça só vinha “Sua burra!!! Fracassada!!!”. Quase enlouqueci. Eu tenho compulsões e regurgito todos os dias, de cinco a oito vezes ao dia. Na minha vida não existe comer algo sem exagero e não vomitar. Sempre que eu como, eu quero (preciso) vomitar. Para mim, é algo normal, é como parte do processo digestivo: mastigar, engolir, vomitar. Eu sei, parece horrível, mas é a minha realidade. Quando não posso vomitar, ou porque estou na casa de alguém, ou porque não tenho um banheiro adequado, ou outra situação qualquer, eu fico muito mal. Fico agitada, começo a tremer, me sinto inquieta, e sinto enjôo. Fico me segurando para não “dar bandeira”, mas tento dar um jeito de ir logo para casa, para poder comer (daí sim, comer tudo que eu quero) e vomitar livremente. Por isso, sempre comparo minha doença a um vício.  

Retomando a minha tentativa de ficar 24 horas sem vômitos e a analisando friamente, até que fui OK. À noite, véspera de começar a tentativa, eu não dormi nada bem. Fiquei em pânico, só por imaginar que no outro dia eu não poderia vomitar. Rolei na cama por medo de não conseguir. Pensei em desistir de tentar, mas apesar disso continuei firme no meu propósito. Pela manhã, acordei assustada e com medo. Tomei meu café da manhã, comi pouco, para não me sentir muito cheia. Não vomitei!!! Me senti enjoada. Tive tremedeiras. Fiquei angustiada e só pensava em vomitar.

Sai de casa para levar meus filhos ao dentista, o que foi bom, pois assim fiquei longe do banheiro. Tive a sensação de que meu corpo inteiro estava sentido falta da minha droga (vômito). Em alguns momentos eu suava... Após o dentista, passei em uma farmácia de manipulação e comprei um Floral de Bath (para diminuir a ansiedade e angustia). Tomei as gotinhas, mas a ansiedade continuou forte e enlouquecedora.

Almocei (saladinha, legumes e frango) e não vomitei!!! Levei as crianças para escola e fui para o supermercado (pois precisava fazer compras para a casa). Pronto, ferrou tudo!!! Naquele momento comecei a tremer mais que antes. Naquela hora eu soube que não ia dar conta. Comprei o que estava faltando em casa e tudo que eu iria comer alguns minutos mais tarde. Foi exatamente o que aconteceu. Vergonha... raiva... decepção. Ontem tive duas crises de bulímicas, em que comi exageradamente e vomitei logo em seguida.

Bom, não pensem que desisti. Hoje estou aqui, tremendo e tentando de novo. Melhor dois episódios de regurgitação do que oito, não é? Tenho lido muitos relatos de como foi a luta de quem se recuperou e sei que não será fácil. Sei que a cura não se dá de uma hora para outra. Pelo que li a cura é gradativa e acontece aos poucos. Então comigo não seria diferente, não é mesmo? Vamos lá, estou buscando exercitar minha paciência, perseverança e amor próprio.  Tenho motivo de sobra para querer sair de onde estou e começar uma vida sem a bulimia. Não serei mais uma derrotada, não vou mais desistir.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Por que as pessoas se tornam Bulímicas?



Para tentar entender a minha própria história, conseguir me perdoar e aceitar que não sou uma fracassada. Ou seja, para que eu consiga me ver livre dos meus próprios preconceitos em relação a bulimia, tenho buscado muitas informações e algumas têm me ajudado bastante. O site Eating Disorders – Resources for Recovery traz um trecho do livro “Bulimia: Um Guia para a recuperação”, escrito por Lindsey Hall e Cohn Leigh, que eu gostaria de compartilhar com vocês. Trata-se do capítulo que explica o motivo que levam as pessoas a se tornarem bulímicas.

Durante os muitos anos em que fui levada a psiquiatras e psicólogos para o tratamento “adequado” uma das coisas que mais me irritava era a falta de capacidade dos médicos em entender a doença como um todo. Eles conversavam comigo como se o meu único problema fosse o meu corpo e a forma de me enxergar e resumiam o meu problema a isso. Nossa, isso me irritava muuuito. Até hoje sempre fico irritada quando vejo pessoas falando do assunto e resumindo a doença à busca do corpo perfeito. Quem tem bulimia sabe que a doença vai além da tentativa desesperada de controle do corpo. Queremos controlar tudo, nossa raiva, nossa angústia, nosso medo, nossa ansiedade, nossa carência. Que ilusão!!!

Bom, o texto que estou citando é interessante pois começa a mostrar para o mundo que somos mais que isso. Nosso problema é maior que a busca por um corpo de Barbie. Descobrir que o problema ultrapassa o corpo e vai para mente pode parecer assustador. Afinal não seria mais fácil se fosse apenas um único problema? Sim, provavelmente. Mas a verdade é que precisamos trabalhar o todo para buscar a cura. Como os médicos nunca associavam uma coisa com a outra eu também não fazia essa associação, então eu achava que eu era uma pessoa toda ferrada. Eu ficava pensando que tinha tudo: bulimia, depressão, transtorno bipolar, ansiedade excessiva, transtorno do pânico, etc... Comecei a perder a fé em Deus e em mim. Como eu conseguiria melhorar???

Muito, muito recentemente, percebi que as minhas limitações psicológicas eram o meu maior inimigo na cura da bulimia e a forma como eu a vejo também. Usar a bulimia como válvula de escape para minhas limitações sempre foi o motivo maior para nunca querer me desfazer dela. Sim, engordar me preocupa muuuito,  mas me incomoda mais ainda não ter mais a ferramenta de colocar tudo para dentro e depois jogar tudo fora. Perder isso me apavora. É como se no vômito todas as preocupações fossem embora. Com a bulimia eu podia aguentar tudo, todas as pressões, ela é como uma droga, fiquei viciada. O problema é que agora não consigo mais me sentir infalível, forte e poderosa.  De repente percebi que não posso e nem quero mais fazer isso comigo.

Enfim segue a traduçao de alguns trechos do texto:

“Bulimia é um transtorno multidimensional. É causada por uma combinação de fatores, incluindo, mas não se limitando, a cultura, personalidade, família, genética e trauma vivenciado."

"Indivíduos com bulimia podem identificar várias causas para a sua doença. Independentemente das razões subjacentes, a bulimia "funciona" em muitos níveis diferentes. A compulsão alimentar proporciona alívio instantâneo. Ela substitui todas as outras ações, pensamentos e emoções. A mente deixa de lado por aquele instante os problemas, e se concentra em obter comida e coloca-la para dentro. Os sentimentos negativos ficam suspensos. Mesmo o vômito pode ser agradável quando se é o contato mais íntimo com o corpo. Quando o episódio de comer e vomitar termina, por um breve momento, o bulímico recupera o controle. Já não sente a culpa por ter comido tantas calorias, ela é drenada, e o bulímico se sente relaxado e em êxtase.   Logo, este sentimento é substituído por outros negativos, e o ciclo desta dolorosa, debilitante e desgastante doença começa novamente.”

Quem quiser ver o texto integral e em inglês, clique aqui. Acho que vale a pena.