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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Boa notícia

Dia dois de outubro completarei 1 ano que estou recuperada da bulimia. Bom, conforme é de conhecimento de alguns, eu tive bulimia por 20 anos. Os últimos três anos da doença eu procurei ajuda e comecei um processo de recuperação intenso. As crises de bulimia passaram a diminuir, eu passei a me alimentar melhor e seguir as recomendações da nutricionista. Há um ano as crises cessaram por completo. 

Hoje, recebi o resultado do meu exame de densitometria óssea. Há um ano atrás, eu fui diagnosticada com osteopenia (início de osteoporose) e conforme o resultado do exame que peguei hoje, estou conseguindo reverter a osteopenia. Sei que esse resultado é consequência da boa alimentação, além da reposição do Cálcio e Vitamina D. Por isso me sinto especialmente feliz hoje.


Receber essa notícia me deixou feliz. Não apenas pela notícia simples e pura, mas porque sei que não são apenas meus ossos que estão mudando. Eu mudei muito e venho mudando um pouco a cada dia.  Lembro que eu fiquei triste quando recebi o resultado que estava com osteopenia, porque é triste. Mas eu decidi encarar os fatos e não me fazer de vítima. Decidi que aquilo era um retrato tardio do meu passado e que eu faria apenas o que estava no meu alcance a partir de então.  E foi o que fiz... eu já estava mudando. 

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Rumo a recuperação - 8 meses sem crise.

Há oito meses que não uso os comportamentos do transtorno alimentar como fuga para minha vida.  Me sinto feliz com isso e, agora, posso dizer com segurança que não pretendo voltar aos velhos hábitos. Estar livre da bulimia tem sido para mim uma conquista. A busca por essa liberdade exigiu, sim, muito trabalho interno, coragem e humildade. Tive que lidar com várias dores, limpar feridas, e enxergar um lado meu que eu não queria. Fui conquistando lentamente o afastamento de tais comportamentos.

No meio do caminho, me deparei com fragilidades e tive que aprender a aceita-las (ainda trabalhando esse aspecto). Percebi como o mundo do transtorno alimentar me afastava da realidade e da minha verdade. Não, nunca foi sobre ser ou não gorda. Esse medo de engordar sempre foi uma fuga para que eu não enxergasse o que verdadeiramente poderia estar me incomodando. O medo de enfrentar a verdade é o que me prendia no transtorno alimentar. Coragem para enfrentar dores do passado e limitações do presente foi o que precisei (e ainda preciso em vários aspectos) para sair da bulimia.

Hoje me sinto distante do transtorno alimentar. Não consigo ver lógica para aquilo que eu fazia. Analiso minha vida e sei o quanto tais comportamento eram arraigados ao meu dia a dia e como eu considerava a doença parte de mim. Hoje não vejo a bulimia nada perto de mim, não sinto mais impulsos para retornar aos velhos hábitos. No entanto, ainda percebo como os sentimentos que me levaram a desenvolver a bulimia ainda mexem bastante comigo. E estou aprendendo a lidar com cada um desses sentimentos.

Hoje, procuro escutar a mim mesma, ouvir meus sentimentos, tentar entendê-los, desvenda-los, sem julgamentos. Me observo o tempo todo. Porque fiquei brava? Porque fiquei triste? O que da atitude do outro está tão ligado a mim que mexeu comigo, seja me irritando, me deixando impaciente? Qual é a percepção que estou tendo de um fato? Eu teria essa percepção se a mesma coisa acontecesse um ano antes?  E terei essa mesma percepção no futuro? O que esse fato diz sobre mim, hoje?   Essa auto analise tem me ajudado a me entender, me aceitar, com minhas limitações e me respeitar. A jornada é longa, mas é gratificante ir me desacorrentando do que me prendia.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Trilhando o meu caminho

Durante minha jornada pelo caminho da recuperação, aprendi muito. Com certeza amadureci bastante, e sei que ainda tenho um longo caminho a percorrer. Aprendi que cada pessoa tem um tempo e cada estrada é diferente. Aprendi a respeitar meus limites e a conhecer a minha própria estrada. No momento que parei de olhar para estrada dos outros e me foquei em mim, nas minhas questões, foi quando eu avancei. Não se trata de ser egoísta, mas de respeitar a vontade e o movimento de cada pessoa e principalmente de respeitar as minhas próprias vontades, os meus próprios desejos.

Para isso tive que me perceber diferente, tive que aceitar as minhas diferenças. Tive que deixar de lado a tentativa (sempre em vão) de me enquadrar em algo que eu nem mesmo sabia nomear o que era. Quando compreendi isso, quando consegui me ver como uma pessoa, com vontades, desejos, eu comecei a me movimentar para me libertar, do que eu considerava uma prisão. A verdade é que isso não aconteceu de repente. Para ser bem sincera, ainda estou na busca da minha identidade, das minhas vontades, dos meus desejos. Isso está sendo gostoso! Delicioso! Uma descoberta de quem sou.

Hoje sei que estou em um momento diferente, em uma caminhada sem volta. Não me iludo mais na tentativa de querer ser o que achava que os outros desejavam de mim. Não temo mais dizer não. Tem ocasiões que ainda me dá um receio, um aperto no coração, quando vou dizer um não. Mas hoje compreendo o que está por traz das minhas atitudes quando eu me esforçava tanto para fazer algo que eu não queria para “agradar” o outro. E digo agradar o outro, pois durante muito tempo eu fiz o que pensei (imaginei) que o outro desejava. Me iludia que era capaz de ser o objeto do desejo do outro, porque eu queria que o outro me aceitasse, me afirmasse, me reconhecesse.

Ao tirar os comportamentos do transtorno alimentar no meu dia a dia, eu comecei a me conhecer melhor. Trabalhei de forma mais intensa as minhas questões na análise e aprendi a lidar com o meu lado bom e a reconhecer o meu lado ruim. Aceitei que tenho dentro de mim sombra e luz. Percebi que minha sombra, não apaga minha luz. Na verdade, comecei a deixar de lado muito dos meus julgamentos e aprendi verdadeiramente a trilhar o caminho da aceitação e respeito das limitações. Na verdade, ainda estou aprendendo.

Sem os comportamentos do TA, eu consigo perceber o que aflinge, o que me incomoda, o que me causa desconforto. Eu passo a analisar essas questões e entender porque certas questões me incomodam, me afligem, me angustiam. No momento que encaro tais questões, eu me conheço melhor, aprendo a lidar comigo.

Não vou dizer que encarar certos fatos foram fáceis, que aceitar algumas realidades aconteceu sem sofrimento, mas posso garantir que foi libertador. Continuo na luta, a cada dia buscando me conhecer, me entender melhor e reafirmando o compromisso de me respeitar.

Agora, estou vivendo esse momento de encantamento com livros e informações. Parece que o mundo está aberto de possibilidades e eu gosto disso. Gosto de poder ter escolhas. Gosto que eu esteja mudando. Sinto minha mudança no meu jeito de falar, vestir, comer, agir. Estou redescobrindo o prazer de brincar com meus filhos e estou descobrindo o quanto eles são encantadores. Confesso que vem uma dor no meu peito quando penso no quanto eu devo ter perdido. Seria ingenuidade achar que não. Mas estou abrindo mão da minha dor e perdoando a mim e aos que de alguma forma tiveram alguma responsabilidade por tudo que vivi e assim sigo.

Magicamente redescubro a beleza de ser mãe e percebo como é maravilhoso ser mulher!!! Termino essa frase e meu lado racional, acha ele piegas, mas e daí? Parte de mim é exatamente isso, puro sentimento, emoção e, nesse momento, encantamento. E assim vou me redescobrindo, me transformando, me apaixonando.


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

“Ser verdadeira exige coragem e simplicidade”


Estou angustiada. Muitas vezes, ou normalmente, eu não consigo perceber o motivo da minha angústia, mas hoje de alguma forma sei que estou angustiada por que ontem demonstrei minha fragilidade para uma pessoa que eu havia acabado de conhecer. Tenho dificuldade em mostrar minhas fragilidades.  Sempre me esforcei demais para aparentar forte. Agora, estou passando por um momento em que decidi que quero ser mais honesta e verdadeira, pois uma das coisas que mais me incomodava (incomoda) com a bulimia é o fato de tudo ser velado, escondido, em segredo, como se tudo fosse uma grande mentira.  Ao falar disto na terapia, lembro-me do meu analista me alertando: “Ser verdadeira exige muita coragem e simplicidade”. Não tem um dia que não penso nessa frase e na complexidade que ela tem para mim.

Coragem... Simplicidade... 

Então... tentei ter coragem, mas não foi nada simples.  Para ser honesta e verdadeira, para falar o que estava se passando comigo, eu rebolei, enrolei e falei, mas acho que não fiz isso de forma simples, e certamente não fui corajosa. Mas pelo menos, e mesmo com medo, falei a verdade sobre meu trabalho e minha licença médica. Estou de licença médica há um ano, devido à depressão, ao transtorno alimentar e à ansiedade generalizada. Para mim, estar de licença (por esses motivos) é extremamente embaraçoso.  Sinto-me envergonhada, julgada, vulnerável, fracassada e sem chances de refazer uma nova imagem. Sei que não deveria me preocupar com a minha imagem, mas me preocupo.

Odeio essa minha preocupação excessiva, exagerada e desproporcional com essa  “imagem”. Imagem de que eu quero??? De perfeitinha???? Que pessoa é essa??? Definitivamente não sou eu!!! Quanto mais eu vou atrás de uma imagem (emocional  ou física), mais eu sofro. Não preciso de uma imagem, preciso de mim. Sem espelhos, sem buscar no outro esse espelho da aprovação, preciso da minha própria aprovação. Mas isso é outro post...

Voltando a minha angústia. Bom, avaliando o fato de forma real, eu falei a verdade, mas não falei tudo sobre minha licença. Não falei sobre a bulimia. Não tenho coragem de contar para ninguém isso. Para mim, ter bulimia é algo extremamente vergonhoso, sinto-me bizarra, confesso.  Tenho uma dificuldade enorme de lidar com isso. Na verdade, ainda tenho muita dificuldade de lidar com o fato de ter tido depressão e ter que me afastar do trabalho, de não ter dado conta. “Como assim não dar conta????”  Isso parece algo que deveria estar fora do meu dia a dia, sabe? Algo inadmissível. Preciso aprender a lidar com essas coisas e a aceitar minhas dificuldades. E isso dói.

Tremendo (mais internamente que externamente), respondi a ela, após ser questionada sobre o que eu fazia da vida, que eu trabalhava para o governo, mas que no momento estava afastada. A conversa foi fluindo e ela foi me perguntando mais coisas. Falei muitas coisas que eu costumo não dizer a ninguém... Falei como foi difícil admitir para mim e, consequentemente, para o mundo que eu estava mal e fragilizada. Contei que não estava dando conta das tarefas de casa, de mãe e do trabalho sem apoio diário do meu marido (pois “tudo” ruiu na época em que ele passou um ano fora da minha cidade). Contei de como eu comecei a me sentir incompetente no trabalho (cometia erros e demorava a realizar certas tarefas). Falei da minha incompetência em casa (esquecia compras, pagar contas, etc). Contei que tudo piorou quando percebi que estava falhando como mãe, pois não tinha a paciência de costume com meus filhos. Eu estava exausta e irritada. O pouco tempo que eu tinha eu queria comer compulsivamente e vomitar (essa parte eu não disse para ela). Também não disse a ela que, para suportar a distância do meu marido e fingir que estava tudo bem, para suportar os erros no trabalho, as falhas em casa e a falta da capacidade de ficar feliz e contente com meus filhos e preencher a falta que eles sentiam do pai, eu passei várias noites em claro, comento tudo que tinha na minha geladeira e vomitando, comendo novamente e vomitando novamente, me sentindo culpada, querendo me punir e tudo começava novamente, tinha diarreias terríveis, me sentia fraca, cansada, com a memória ruim e exausta física e mentalmente.

Ela me deu os parabéns por ter tomado a decisão de ter “escolhido largar” o trabalho e ficado com meus filhos. Mas eu confessei a ela que essa decisão não foi fácil e nem foi uma decisão. Que cheguei ao fundo do poço para perceber que não estava legal. E que mesmo assim, mesmo sabendo que precisei realmente parar e me afastar, a minha vaidade ainda me pertuba. De uma maneira besta, infantil e torta, eu (por orgulho/vaidade) ainda me importo com o que as pessoas do trabalho estão pensando e com o fato de que provavelmente eu nunca mais terei uma posição profissional boa, pois afinal de contas eu serei sempre tachada como “a louca” que precisou se afastar durante mais de um ano por causa da depressão e ansiedade (imaginem se soubessem da bulimia...). Enfim, contei para ela que foi um passo difícil, mas necessário, que eu estava feliz de ter tomado, mas que ainda precisarei superar meu ego, meu orgulho, minha preocupação com o olhar do outro.

Prova melhor de que eu ainda preciso superar isso é que eu fiquei angustiada com o que ela ficou pensando de mim. Fiquei preocupada com o julgamento e interpretações que ela pode dar a nossa conversa. Fiquei preocupada com a possibilidade de ela conversar sobre esse assunto com outras pessoas. Será que sou tão importante assim???? Claro que não , mas meu ego acha que sim. Ele tem essa imaginação tão fértil em relação ao que os outros podem achar ou falar de mim...

Coragem e simplicidade: duas palavras com um significado tão denso ou seria tão simples? 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

De "Expectativas" para "Sair do Armário" - Do outro lado da mesa

Olá, inicialmente, eu queria comentar sobre o tema expectativas: o que tanto quem tem TA pode esperar do seu companheiro quanto ele (ou ela) pode esperar de quem tem o TA.  Porém, eu obedeço às minhas intuições, e senti que será melhor começar pelo começo: sair do armário - contar para seu companheiro que você tem um TA.

Primeiro a minha história: um belo dia, cheguei na casa da Maria Interrompida e ela estava conversando com o pai dela no quarto. Chegou uma hora que ele saiu e disse que ela precisava conversar comigo. Naturalmente, eu achei totalmente estranho.  Estávamos menos de um ano juntos, já fazíamos vários planos para o nosso futuro, e aquela conversa parecia muito deslocada.  Entrei no quarto, sentei ao lado dela, e ela, insegura, com tom e cara preocupados me disse que tinha de abrir o jogo comigo, que tinha de falar a verdade.

Daí, ela me disse que tinha bulimia, inclusive me perguntou se eu sabia o que era.

Em seguida, ela chorou, nós continuamos conversando e eu deixei claro para ela que sabia o que era e que não sairia dali correndo, muito pelo contrário, pois eu até já desconfiava. Ao olhar para trás, percebo que foi um alívio para ela abrir-se para mim, quanto ouvir que eu a aceitava com o TA.

Onde eu quero chegar: seu companheiro ou sua companheira tem o direito de saber com quem ele está namorando, vivendo ou vai se casar. Em um relacionamento, a verdade é primordial, é a fundação da vida a dois, a estrutura sólida onde todo o resto se apoia.  Se a pessoa está com você e tem 2 neurônios, acredite, ela desconfia. Se tiver 3 ou mais, ela sabe.  E se está com você e não falou nada, é porque ela percebe que o assunto é delicado para você.

Digo mais. Supondo que ele nada saiba, que seja um completo ignorante, que não conheça da existência de transtornos alimentares ou ache-os tão distantes da realidade dele que sequer desconfia. Ora, ao silenciar sobre o assunto, você está evitando dar conhecimento a ele, está impedindo-o de entrar verdadeiramente na sua vida, está vivendo e fazendo com que ele viva na superfície do relacionamento, como se ele fosse um rio e os dois apenas boissem juntos - Um porque acha que o rio é raso, e a outra porque tem medo do que há no fundo.

Veja bem: não estou afirmando certezas. O cara pode cair fora ou continuar com você, ele faz as próprias escolhas. Só estou dizendo que é você quem escolhe entre viver com quem te ama e que te aceita com defeitos e qualidades, e que muito provavelmente vai querer te apoiar nas suas fraquezas e te fortalecer no que puder, ou então escolhe passar uma temporada com alguém até você cansar da mentira em que se enfiou.

domingo, 29 de julho de 2012

Desafios da viagem - Relacionamento com meus pais

Acabei de voltar de uma viagem e gostaria de compartilhar minhas emoções com vocês. A viagem foi de sete dias. Estavam presentes, eu, meus filhos, meu pai e minha mãe. Meu marido não pode ir devido ao trabalho. Fomos para a cidade da minha mãe, uma cidade de praia, local onde tenho família, primos e tios. Para mim, os dias anteriores à viagem já foram bem complicados. Eu fiquei extremamente ansiosa, com medo e receio de quase tudo. Como conseguiria seguir meu plano alimentar? Como conseguiria me manter em recuperação? Como ficar tantos dias perto da minha mãe e do meu pai sem estresse? Como aguentar sem meu marido por perto? Como dizer para minha família que não quero comer tantos bolos, pizzas, sururus, camarões, cuscuz, etc? E se eu não conseguisse malhar nenhum dia? Como conseguiria comer de 3 em 3 horas tendo que ver meu corpo de biquíni todos os dias? Dá para perceber que eu estava apavorada, né? 

Então, a viagem não foi apavorante como eu imaginei. Aos poucos fui desmistificando certas crenças. Consegui superar muitos medos e curtir vários momentos. Isso foi libertador. Talvez um dos aspectos mais gratificantes da viagem tenha sido o meu contato com meus pais e a análise que pude fazer sobre o nosso relacionamento. Bom, fazia dez anos que eu não conversava com meus pais sobre meu transtorno alimentar. Eles nunca mais haviam me perguntado como eu estava e eu nunca havia mais dito nada a respeito. Isso me deixava extremamente magoada, mas ao mesmo tempo eu achava conveniente, uma vez que eu não me sentia “cobrada” para que eu mudasse minha atitude em relação ao meu problema.

Durante a viagem resolvi abrir meu coração. Contei para eles como eu estive nos últimos 10 anos (pois eles conheciam apenas meu TA durante os 10 anos em que vivi com eles). Contei como eu comia compulsivamente e vomitava todas as refeições. Que eu não havia parado e nem diminuído desde que eu saí da casa deles, pelo contrário, que as compulsões haviam aumentado e que a intensidade das crises era de 5 a 8 vezes por dia, todos os dias. Contei também sobre a minha mudança de comportamento nos últimos 60 dias e minha luta pela recuperação. Falei sobre as informações e inspirações que encontrei na internet. Falei que estava seguindo um plano alimentar feito por uma nutricionista (com 3 refeições e 3 lanches, sem vômitos!!!). Confessei que ainda tinha compulsões uma vez ao dia, quase todos os dias, que o processo ainda seria longo e que eu sabia disso, mas não iria desistir, estava confiante. Falei sobre as pessoas e grupos online que eu havia encontrado e que estavam me ajudando muito. Falei do blog, etc... 

Escolhi um momento apropriado para conversar com cada um deles, de forma separada, pois minha relação com cada um deles é bem diferente. Bom, no primeiro momento os dois tiveram a mesma reação, ficaram apenas calados, escutando, atônitos. Acho que a palavra mais positiva que ouvi foi “que bom”. Nossa... No começo, fiquei arrasada. Quase arrumei uma desculpa para ir ao supermercado mais perto, me empanturrar de comida e vomitar toda a minha frustração. Mas decidi que antes de comprar a comida, eu iria tentar meditar, tentar pensar, e se ainda estivesse me sentindo mal, sim, eu comeria tudo na minha frente e vomitaria... (este não é o meu conselho para ninguém, esta é apenas a forma como eu pensei). Deu certo!!! 

Meditei, me acalmei, depois tentei avaliar o que estava acontecendo e percebi que a minha frustração estava diretamente ligada a minha expectativa. Eu imaginei que ao falar com meus pais eles iriam agir comigo da forma como vemos as coisas acontecendo em filmes: iríamos nos abraçar, chorar, conversar durante horas, eles iriam pedir desculpa pelo tempo que não estiveram “presentes”, eu iria pedir desculpa pelos meus erros, enfim... imaginei um conto de fadas, risos. Criei expectativas e expectativas são uma merda. 

Saindo da situação, e me vendo de fora do “filme”, consigo entender o motivo dos meus pais ficarem calados. Eles simplesmente não sabiam o que fazer. Eles estavam com medo e eles têm direito a ter medo!!! Medo de falar qualquer coisa que pudesse de alguma forma atrapalhar meu processo, medo de que eu pudesse acusa-los de não dizer a coisa certa. Tenho certeza que eles sofrem por me ver sofrendo. Eu preciso respeitar o sofrimento deles e a forma como eles lidam com o meu problema. Sempre fiquei muito chateada quando eles não me respeitaram, mas, e eu estava respeitando eles? Eles têm o jeito deles, cada um tem sua própria limitação, seus próprios sentimentos, seus próprios medos. 

Naquele momento, entendi que eles estavam felizes por mim, e ficar calado, ou quase calado, era o jeito que eles encontraram para me proteger, ou para protegerem a eles mesmos. Lembrei tanto da música do Legião que diz “Você culpa seus pais por tudo, isso é um absurdo! São crianças como você, o que você vai ser quando você crescer?”. Acho que entender isso foi libertador!!! Não precisei ir ao supermercado. Fiquei bem. 

Essa conclusão me deixou aberta para que eu e meus pais conversássemos em várias outras ocasiões da viagem sobre a minha trajetória, um pouquinho de cada vez, de forma bem natural. Aos poucos percebi que eles estavam bem felizes com meu processo. Deixei as expectativas de lado. Não foquei meus ouvidos nas frases ou conselhos que me desmotivam, inclusive, consegui até dizer para eles, de forma não acusatória, que certas frases, para mim, não me faziam bem, e que eu estava escolhendo meu próprio caminho e seguindo meu coração. Se eu tivesse ido ao supermercado, talvez, seriam mais 10 anos de silêncio, acusação, culpa e ressentimento.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Relacionamentos amorosos e a bulimia


O meu comportamento com a comida é similar a meu comportamento em outras áreas da vida? Fazendo uma avaliação  (dos últimos 20 anos) de como foram os meus relacionamentos amorosos, posso concluir que há muita similaridade entre meu comportamento com a comida e minha forma de agir na minha vida afetiva.

Durante anos, meus relacionamentos amorosos foram intensos e muitas vezes não saudáveis. Era o ciclo da bulimia se repetindo: compulsão e purgação. Eu queria tudo ou nada. Envolvia-me de forma intensa com meus parceiros, me apaixonava, eles se apaixonavam, tudo era muito forte. Mas ao sinal do primeiro problema, eu simplesmente os abandonava, eu desistia do relacionamento por achar que este já não fazia sentido, dizia que não mais os amava. Fiz isso repetidamente.

Estas relações foram fruto do que acreditava ser uma forma de “proteção”. Hoje vejo que eu estava me boicotando, pois eu tinha uma visão completamente distorcida do que seria esta proteção. Do que eu fugia de fato? De amor? De ser amada? De ser abandonada? De ser compreendida? De revelar meus segredos? De ser aceita? De não ser aceita? Por que eu não me envolvia, de fato, com as pessoas com que eu me relacionava?  

Meus namoros (exceto com meu marido) sempre duraram apenas até a fase da paixão, sempre foram baseados na carne.  Tenho a sensação de que não conheci intimamente nenhum dos meus parceiros e tenho certeza que nenhum deles me conheceu. Meus relacionamentos eram similares com a forma que lido com a comida, me alimento compulsivamente sem perceber de fato o gosto de cada mordida, mas sentindo um prazer, um estase pela intensidade. Depois, quando vem o incomodo, simplesmente me dou o luxo de jogar tudo fora, purgo tudo. A diferença é que nos relacionamentos, eu fazia isso com pessoas.  Egoísta!!! Sim, fui egoísta milhões de vezes, lembro-me de repetir diante da primeira reclamação a frase “Se você não estiver satisfeito, pode ir embora!!!”.

Acho que no fundo eu tinha medo de ser abandonada, então eu preferia abandoná-los antes que eles me abandonassem. Eu não queria me expor e por isso não me envolvia com a intimidade espiritual e psicológica dos meus parceiros (os antigos), pois tinha medo que eles fizessem o mesmo comigo. Então eu mantinha os meus relacionamentos só baseado no carnal, não digeria nada. Assim como faço com a comida: como, engulo, mas vomito, não digiro. Bom, na verdade, isso era como eu fazia. Hoje, após iniciar minha trajetória rumo à recuperação, já consigo me alimentar, não vomito todas as vezes que como, digiro os alimentos e evacuo normalmente.


Bom, essa forma de agir com os meus parceiros mudou ao conhecer meu marido. Ele foi meu mentor para que eu mudasse. Lembro-me do momento em que eu disse para ele minha frase preferida “se você não estiver satisfeito, pode ir embora!!!”, ele me respondeu “isso você fez com todos os outros, eu não vou a lugar nenhum. Ficarei e vamos resolver tudo.” Todas as vezes que mandei ele embora, ele ficou, ele acreditou em mim, ele me aceitou, antes mesmo que eu me aceitasse. Quando contei para ele sobre o TA, ele disse que já desconfiava e que isso não mudava em nada o que ele sentia por mim.

Aprendi muita coisa com ele, muito sobre amor, aceitação, respeito, limites. Aprendi que o amor é possível. Compreendi que posso ter alguém do meu lado que sabe quem eu sou e me ama, apesar dos meus defeitos. Isto não significa que a pessoa precise gostar e aprovar todas as coisas que eu faço, mas ela pode me amar e me respeitar independente das minhas escolhas. Aprendi que o amor não precisa ser uma montanha russa de sentimentos, e isto não significa que ele não é profundo e intenso.

Em relação à comida ainda tenho muito a aprender, assim como em relação a outras áreas de minha vida... mas a aprendizagem que tenho tido e tive na área amorosa me traz esperança de que a mudança é possível. 


segunda-feira, 9 de julho de 2012

Recuperação: um caminho a ser trilhado



Em algum momento, durante os anos com o transtorno alimentar, acho que perdi minha essência, minha identidade. Ao esconder de mim os meus sentimentos eu fui me moldando em algo que eu não era, em algo que não me reconheço. Percebo, agora, que não sei ao certo quem sou ou em quem irei me transformar. Tenho medo dessa nova pessoa que está aparecendo, tenho medo do que vou encontrar.

Gastei muito tempo envolvida com minha bulimia e as mentiras dela decorrentes.  Utilizei muito tempo em meus pensamentos obsessivos sobre: onde comprar a quantidade excessiva de comida que comeria, como prepará-la, quando prepará-la, onde vomitá-la, quando vomitá-la, como disfarçar tudo isso.  Assim fui me anulando. O meu tempo já não era meu, era dela, da bulimia.

No momento que percebi que a bulimia estava me controlando. Que o monstro que eu criei estava ficando mais forte que eu mesma, a ficha começou a cair. Ainda não consigo imaginar uma vida sem meus rituais bulímicos, mesmo sabendo o quão sofrido e agoniante é esta vida.  Mas também não consigo imaginar continuar vivendo com o meu transtorno alimentar. No momento me sinto perdida, em um limbo.  

Não sei ao certo quem sou e para onde vou. Estou com mil medos e incertezas. Mas tenho uma certeza: sei onde não quero ficar, mesmo não sabendo como será. Acredito que o mundo está sempre em movimento, e isso, de certa forma, significa que todo mundo está sempre mudando, criando novas identidades, se redescobrindo. A vida é uma jornada de autoconhecimento constante, minuto após minuto. E sempre podemos mudar nossos caminhos. Recentemente, uma alma iluminada me deu o seguinte conselho: “Sem essa de achar que recuperação é um lugar onde se chega: não é. É um caminho que se trilha.” Não quero nunca perder isso de foco. Meu caminho eu decido a cada dia, com cada passo, a cada instante, não chegarei a lugar nenhum, pois não existe lugar a se chegar, mas sim um caminho a se trilhar diariamente. Sabendo disso, vou continuar minha caminhada... me redescobrir, me reencontrar, me aceitar com todas as qualidades e defeitos, e continuar me reencontrando a cada dia e seguindo, seguindo, seguindo. Obrigada, minha bruxinha do bem, Flávia!  Excelente lembrança. 

sexta-feira, 6 de julho de 2012

A bulimia e as fezes - novo uso para a privada


Eu queria falar sobre cocô. Eu sei que quase ninguém fala sobre isto, que este é um assunto tabu. Mas estou a algum tempo pensando no tema e como isso não sai da minha cabeça, resolvi escrever.  Antes de iniciar minha jornada rumo à recuperação, eu posso dizer que minhas fezes não eram, assim, “normais”. 

Dizem que pelas fezes é possível descobrir alguns problemas de saúde. Durante os últimos 20 anos, meu cocô nunca apresentou as características consideradas pelos profissionais de saúde como esperadas. Ou eu tinha prisão de ventre, ou eu tinha diarréia. Simples assim. Claro que eu não quis associar meus hábitos de evacuação com meu transtorno alimentar. Eu queria achar uma doença para meu problema. Outra doença, claro, pois assim eu não precisaria culpar a bulimia por estar me maltratando mais uma vez.

Fui a médicos, fiz muitos exames. Não encontrei outra doença. Encontrei, sim, um esôfago maltratado, início de uma úlcera, colo do intestino inflamado, etc... Mesmo depois de muitos, muitos exames, eu não conseguia me livrar do pensamento obsessivo de que eu tinha outra coisa. Sabia que meu mal estar não era normal, meu cocô não era normal, minha diarreia crônica ou meus longos períodos sem evacuar não podiam ser normais.

Achei que estava muito doente. Queria achar o motivo. Só que o motivo estava na minha cara. Eu sabia, mas não queria admitir. Mais uma vez estava “tampando o sol com a peneira”. Como os exames não apontaram nada, eu tive que me calar, mas volta e meia eu ainda buscava uma nova evidência para que pudesse levar a minha médica e perguntar “será que não é isso que eu tenho?”.  

Há mais de um mês, deixei de lado a busca obsessiva pela minha doença intestinal. Aceitei que tenho um transtorno alimentar e isso faz com que consiga enfrentar e lutar contra suas  consequências. Isso muda tudo, a começar pelo cocô!!!

Eu poderia fingir que a mudança do meu cocô está passando despercebida, mas não está!!! Nunca, nunca fui tão feliz ao evacuar. Eu sei... parece um exagero, mas fazer o que? Para mim está sendo assim, exageradamente, gratificante, comer, DIGERIR, e EVACUAR.  Eu sei, estou parecendo uma adolescente comemorando uma coisa tão primitiva. Mas estou feliz. Sinto-me VIVA. Meu cocô é a prova de que estou funcionado, deixei de sobreviver para viver, digerir, evacuar.

Posso buscar todas as razões psicológicas para estar evacuando de forma saudável, tenho conversado sobre este assunto com meu analista. Mas não posso deixar de levar em consideração os aspectos físicos. No último mês mudei bastante minha alimentação. Pela primeira vez, depois de 20 anos, estou comendo e mantendo o alimento dentro do meu corpo (antes eu vomitava todas as refeições que fazia). Agora, pela primeira vez, após 20 anos, existe no meu corpo comida para ser digerida, processada e evacuada.

Estou fazendo as pazes com a privada. Reaprendendo o utilizá-la. Dando um novo uso para ela. Um uso que me deixa mais feliz. 



terça-feira, 3 de julho de 2012

Rumo à recuperação: fazendo as pazes com a comida


Na minha vida, eu só conhecia duas formas de alimentação: não comer nada ou comer compulsivamente e vomitar. Bom, se é que isso pode ser chamado de alimentação, não é verdade? Sempre que eu comia, eu precisava vomitar. Para mim, isso era natural. Eu acreditava que era parte do meu processo digestivo: mastigar, engolir e vomitar. Antes de começar o blog e iniciar essa jornada rumo a cura, eu comia compulsivamente de 5 a 8 vezes diárias e vomitava todas elas, hoje, essa média diminuiu e minhas crises diárias estão cada dia menores (média de uma vez ao dia). 

Para entrar, verdadeiramente, na jornada contra a doença eu precisava aprender a comer e não vomitar. Caso contrário, eu correria o sério risco de desenvolver outro transtorno: a anorexia. No passado, em uma outra tentativa de me recuperar, eu fiquei anoréxica durante alguns meses, perdi muitos quilos e acabei retornando à bulimia. Foi muito ruim., or isso, dessa vez, me mantive consciente sobre a necessidade superar esse desafio.

Depois de muita leitura e pesquisa, verifiquei que os especialistas sugerem que pessoas em busca da cura da bulimia devem fazer uma espécie de reeducação alimentar, fazendo um planejamento estruturado de alimentação (com orientação de um nutricionista). Basicamente, eles sugerem que sejam feitas três refeições e três lanches por dia, todos os dias! Claro que eu quase pirei com essa orientação. Como assim??? Comer seis vezes por dia sem vomitar??? Eu não conseguia comer dessa forma por nem um dia da minha vida, eu pensava. Como conseguiria chegar a essa marca? Achei um absurdo!

Decidi que iria fazer o meu melhor. Na primeira semana não me preocupei em alcançar seis refeições diárias. Apenas me preocupei em comer e não vomitar. Para mim isso já foi um avanço! Comemorei a cada refeição que fiz sem vomitar. Claro que sem me iludir que ainda teria grandes desafios. Com o tempo fui ganhando confiança e fui aumentando o número de vezes que fui capaz de me alimentar e de não provocar o vômito. Percebi que isso não era tão ruim. Fui enfrentando meus medos e eles estão ficando menores. Claro que esse processo não foi fácil e ainda não é. Já estou comendo três refeições e três lanches por dia, todos os dias sem vomitar. Para evitar que eu fique neurótica em relação ao meu peso eu deixei de contar calorias. Simplesmente não penso nelas. Sei que esse passo foi bem grande para mim. No entanto, ainda é pouco diante o que ainda irei passar. Também me proibi de subir em qualquer balança.

Tenho consciência que ainda evito vários alimentos, mesmo sem contar as calorias. Morro de medo de comer em eventos sociais. Tenho a sensação que todos estão me vigiando. Isso porque eu estou comendo de forma diferente do que comia antes da busca pela cura. Antes de iniciar minha jornada eu comia de tudo a toda e qualquer hora (claro que vomitava tudo depois) e agora estou evitando certos alimentos. Ainda tenho pânico (vergonha) que as pessoas descubram que eu tenho bulimia.

Para chegar até aqui, fui colhendo várias dicas e evidências que de alguma forma me fortaleceram. Vou dividir com vocês as dicas e os conhecimentos que me ajudaram (principal fonte: Bulimia.help):

  •  Obter um fluxo constante de nutrição evita compulsões futuras.
  • Comer regularmente aumenta o metabolismo.
  • No início, não é necessário comer muito. Pequenas refeições são mais fáceis de comer e vão fazer você se sentir menos cheia. Isso vai ajudar você a não vomitar.
  • Comece agora.  Nunca mais deixe para amanhã. O amanhã nunca chega.
  • Seu estômago pode precisar de um tempo se acostumar e isso pode levar tempo. Tenha paciência e perseverança.
  • Lembre-se dar passos de bebê e fazer pequenas mudanças graduais.
  • Nunca se compare com os outros. Cada pessoa tem um processo diferente de adaptação.
  • Esqueça a balança
  • Esqueça as calorias
  • Se possível, procurar um nutricionista que te ajude a criar um plano de refeições.
  • Planeje suas refeições com antecedência
  • Escolha alimentos que você sente confortável, principalmente na fase inicial.
  • Evite ficar mais de 3-4 horas sem se alimentar. Espaçamento entre as refeições é importante na prevenção da compulsão. Este período tem a ver com o processo de esvaziamento do seu fígado para manter os níveis de glicose no sangue com carboidratos armazenados.
  • Se estiver com fome, coma. A vontade não saciada pode aumentar a compulsão.
  • Essa dica me ajudou muito a iniciar o meu processo, foi dada pelo meu marido: “Faça apenas uma experiência, não pense que o que você está fazendo é definitivo, caso você não consiga, você poderá sempre voltar ao seu antigo estilo de comer”. Pensar dessa forma foi um alívio para mim. Tirei o peso do processo e fui experimentando e fui vendo que é possível. 

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Uma Mudança no Olhar. O Início da Cura?


Hoje eu estava desanimada, um pouco triste. Não havia nem um motivo específico, mas simplesmente eu estava me sentindo assim. Comecei a pensar sobre os 20 anos em que vivi com bulimia e pensei na causa que me levou a decidir apenas agora a me entregar à cura e aceitar os desafios que o tratamento do transtorno alimentar propõe. Claro, estou no início da minha jornada, mas, agora, de certa forma, sinto que algo dentro de mim mudou. Consigo me ver lá do outro lado superando cada desafio. Estou disposta a enfrentar um por um.

Lembro-me das diversas vezes que falei para mim mesma: “Esta é a última vez. Estou cansada desta vida. Seguirei o tratamento”. No entanto, a cada sugestão feita pelos profissionais que mudasse minha rotina e que pudesse me fazer engordar, perder meus “benefícios”, me expor, ou se simplesmente eu não concordasse, eu os boicotava. Era simples assim: “farei tudo o que vocês pedirem, para isso, basta apenas que vocês me falem para que eu faça somente o que eu quero”.
  
Olhando para o passado friamente, eu posso concluir que as milhões de decisões “sinceras” que fiz pela cura, não foram tão sinceras assim. Mas eu estaria sendo muito injusta se, ao olhar para trás, eu dissesse que não houve nenhuma verdade nas minhas decisões em relação ao tratamento. Eu verdadeiramente tentei cumprir algumas tarefas feitas pelos médicos, no entanto, ao não conseguir eu desistia, eu desistia da guerra. Na época eu não entendia que nunca se perde uma guerra ao se perder uma batalha. Nunca!!!

Além disso, havia um fato que eu preciso admitir, eu queria melhorar, mas eu também queria manter a bulimia.  Para mim a bulimia ainda era minha muleta, meu trunfo, meu plano B. Fui a vários psiquiatras diferentes, tomei vários remédios. Procurei muitos psicólogos. Mas a verdade é que para mim os remédios aliviaram pouco a dor que eu sentia. Largava os remédios e trocava de médico. Apesar da minha forma caótica de lidar com o tratamento, sempre havia uma boa intenção.

Cada tentativa e falha subsequente me convenceram de que eu nunca seria capaz de parar. Isso me levou durante alguns anos a desistir de sonhar com a recuperação. Sim eu continuava a ir ao psiquiatra e à terapia, mas nesse ponto eu não queria largar a bulimia. Eu ia aos médicos com o objetivo de aliviar o sofrimento de viver com o transtorno alimentar, mas não com a intenção de largá-lo. 

Não posso desfazer as coisas que fiz e a forma como agi. Realmente acho que perdi muito tempo. No entanto, de alguma maneira paradoxal, algo mudou em mim, e a forma como agi, hoje, me dá força para que eu não queira abrir mão de algo que eu quero desesperadamente. Hoje continuo com muito medo de muitas coisas no futuro, mas o meu passado já não me ilude mais. Já sei o quão negativo é viver com a doença e agora já tenho certeza que, para onde quer que eu vá, será melhor do que onde eu estou.

Sim, tenho meus momentos de fraqueza, continuo me sentindo acuada diante de várias situações. Mas estou exercitando minha paciência e trabalhando na minha persistência. Mudei meu foco na terapia e na psiquiatria. Hoje tomo menos remédios e trabalho de uma forma mais profunda. Não busco aliviar sintomas, busco a cura. Hoje sonho com isso, acredito nisso, inclusive já me visualizo do outro lado, curada.