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domingo, 29 de julho de 2012

Desafios da viagem - Relacionamento com meus pais

Acabei de voltar de uma viagem e gostaria de compartilhar minhas emoções com vocês. A viagem foi de sete dias. Estavam presentes, eu, meus filhos, meu pai e minha mãe. Meu marido não pode ir devido ao trabalho. Fomos para a cidade da minha mãe, uma cidade de praia, local onde tenho família, primos e tios. Para mim, os dias anteriores à viagem já foram bem complicados. Eu fiquei extremamente ansiosa, com medo e receio de quase tudo. Como conseguiria seguir meu plano alimentar? Como conseguiria me manter em recuperação? Como ficar tantos dias perto da minha mãe e do meu pai sem estresse? Como aguentar sem meu marido por perto? Como dizer para minha família que não quero comer tantos bolos, pizzas, sururus, camarões, cuscuz, etc? E se eu não conseguisse malhar nenhum dia? Como conseguiria comer de 3 em 3 horas tendo que ver meu corpo de biquíni todos os dias? Dá para perceber que eu estava apavorada, né? 

Então, a viagem não foi apavorante como eu imaginei. Aos poucos fui desmistificando certas crenças. Consegui superar muitos medos e curtir vários momentos. Isso foi libertador. Talvez um dos aspectos mais gratificantes da viagem tenha sido o meu contato com meus pais e a análise que pude fazer sobre o nosso relacionamento. Bom, fazia dez anos que eu não conversava com meus pais sobre meu transtorno alimentar. Eles nunca mais haviam me perguntado como eu estava e eu nunca havia mais dito nada a respeito. Isso me deixava extremamente magoada, mas ao mesmo tempo eu achava conveniente, uma vez que eu não me sentia “cobrada” para que eu mudasse minha atitude em relação ao meu problema.

Durante a viagem resolvi abrir meu coração. Contei para eles como eu estive nos últimos 10 anos (pois eles conheciam apenas meu TA durante os 10 anos em que vivi com eles). Contei como eu comia compulsivamente e vomitava todas as refeições. Que eu não havia parado e nem diminuído desde que eu saí da casa deles, pelo contrário, que as compulsões haviam aumentado e que a intensidade das crises era de 5 a 8 vezes por dia, todos os dias. Contei também sobre a minha mudança de comportamento nos últimos 60 dias e minha luta pela recuperação. Falei sobre as informações e inspirações que encontrei na internet. Falei que estava seguindo um plano alimentar feito por uma nutricionista (com 3 refeições e 3 lanches, sem vômitos!!!). Confessei que ainda tinha compulsões uma vez ao dia, quase todos os dias, que o processo ainda seria longo e que eu sabia disso, mas não iria desistir, estava confiante. Falei sobre as pessoas e grupos online que eu havia encontrado e que estavam me ajudando muito. Falei do blog, etc... 

Escolhi um momento apropriado para conversar com cada um deles, de forma separada, pois minha relação com cada um deles é bem diferente. Bom, no primeiro momento os dois tiveram a mesma reação, ficaram apenas calados, escutando, atônitos. Acho que a palavra mais positiva que ouvi foi “que bom”. Nossa... No começo, fiquei arrasada. Quase arrumei uma desculpa para ir ao supermercado mais perto, me empanturrar de comida e vomitar toda a minha frustração. Mas decidi que antes de comprar a comida, eu iria tentar meditar, tentar pensar, e se ainda estivesse me sentindo mal, sim, eu comeria tudo na minha frente e vomitaria... (este não é o meu conselho para ninguém, esta é apenas a forma como eu pensei). Deu certo!!! 

Meditei, me acalmei, depois tentei avaliar o que estava acontecendo e percebi que a minha frustração estava diretamente ligada a minha expectativa. Eu imaginei que ao falar com meus pais eles iriam agir comigo da forma como vemos as coisas acontecendo em filmes: iríamos nos abraçar, chorar, conversar durante horas, eles iriam pedir desculpa pelo tempo que não estiveram “presentes”, eu iria pedir desculpa pelos meus erros, enfim... imaginei um conto de fadas, risos. Criei expectativas e expectativas são uma merda. 

Saindo da situação, e me vendo de fora do “filme”, consigo entender o motivo dos meus pais ficarem calados. Eles simplesmente não sabiam o que fazer. Eles estavam com medo e eles têm direito a ter medo!!! Medo de falar qualquer coisa que pudesse de alguma forma atrapalhar meu processo, medo de que eu pudesse acusa-los de não dizer a coisa certa. Tenho certeza que eles sofrem por me ver sofrendo. Eu preciso respeitar o sofrimento deles e a forma como eles lidam com o meu problema. Sempre fiquei muito chateada quando eles não me respeitaram, mas, e eu estava respeitando eles? Eles têm o jeito deles, cada um tem sua própria limitação, seus próprios sentimentos, seus próprios medos. 

Naquele momento, entendi que eles estavam felizes por mim, e ficar calado, ou quase calado, era o jeito que eles encontraram para me proteger, ou para protegerem a eles mesmos. Lembrei tanto da música do Legião que diz “Você culpa seus pais por tudo, isso é um absurdo! São crianças como você, o que você vai ser quando você crescer?”. Acho que entender isso foi libertador!!! Não precisei ir ao supermercado. Fiquei bem. 

Essa conclusão me deixou aberta para que eu e meus pais conversássemos em várias outras ocasiões da viagem sobre a minha trajetória, um pouquinho de cada vez, de forma bem natural. Aos poucos percebi que eles estavam bem felizes com meu processo. Deixei as expectativas de lado. Não foquei meus ouvidos nas frases ou conselhos que me desmotivam, inclusive, consegui até dizer para eles, de forma não acusatória, que certas frases, para mim, não me faziam bem, e que eu estava escolhendo meu próprio caminho e seguindo meu coração. Se eu tivesse ido ao supermercado, talvez, seriam mais 10 anos de silêncio, acusação, culpa e ressentimento.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Recuperação: um caminho a ser trilhado



Em algum momento, durante os anos com o transtorno alimentar, acho que perdi minha essência, minha identidade. Ao esconder de mim os meus sentimentos eu fui me moldando em algo que eu não era, em algo que não me reconheço. Percebo, agora, que não sei ao certo quem sou ou em quem irei me transformar. Tenho medo dessa nova pessoa que está aparecendo, tenho medo do que vou encontrar.

Gastei muito tempo envolvida com minha bulimia e as mentiras dela decorrentes.  Utilizei muito tempo em meus pensamentos obsessivos sobre: onde comprar a quantidade excessiva de comida que comeria, como prepará-la, quando prepará-la, onde vomitá-la, quando vomitá-la, como disfarçar tudo isso.  Assim fui me anulando. O meu tempo já não era meu, era dela, da bulimia.

No momento que percebi que a bulimia estava me controlando. Que o monstro que eu criei estava ficando mais forte que eu mesma, a ficha começou a cair. Ainda não consigo imaginar uma vida sem meus rituais bulímicos, mesmo sabendo o quão sofrido e agoniante é esta vida.  Mas também não consigo imaginar continuar vivendo com o meu transtorno alimentar. No momento me sinto perdida, em um limbo.  

Não sei ao certo quem sou e para onde vou. Estou com mil medos e incertezas. Mas tenho uma certeza: sei onde não quero ficar, mesmo não sabendo como será. Acredito que o mundo está sempre em movimento, e isso, de certa forma, significa que todo mundo está sempre mudando, criando novas identidades, se redescobrindo. A vida é uma jornada de autoconhecimento constante, minuto após minuto. E sempre podemos mudar nossos caminhos. Recentemente, uma alma iluminada me deu o seguinte conselho: “Sem essa de achar que recuperação é um lugar onde se chega: não é. É um caminho que se trilha.” Não quero nunca perder isso de foco. Meu caminho eu decido a cada dia, com cada passo, a cada instante, não chegarei a lugar nenhum, pois não existe lugar a se chegar, mas sim um caminho a se trilhar diariamente. Sabendo disso, vou continuar minha caminhada... me redescobrir, me reencontrar, me aceitar com todas as qualidades e defeitos, e continuar me reencontrando a cada dia e seguindo, seguindo, seguindo. Obrigada, minha bruxinha do bem, Flávia!  Excelente lembrança. 

domingo, 8 de julho de 2012

Desafio: jantar com os amigos (sem vomitar) – batalha perdida


Incompetente. É assim que tenho me sentido desde ontem.  Ontem eu encarei um desafio que eu já sabia que estaria por vir. E eu fracassei.  Hoje, estou me sentindo muito mal. Triste, com vontade de me isolar, de me castigar. Estou sentindo uma dor no meu peito que conscientemente sei que é grande demais para uma falha que eu não deveria considerar tão grande assim, quando comparado com o progresso que venho feito nos últimos dias.

Como vocês sabem, eu comia e vomitava de 5 a 8 vezes por dia, todos os dias. Essa marca vem diminuiu para uma vez ao dia. No entanto,  eu só consegui ficar sem vomitar durante as 24 horas, apenas por 7 vezes (desde que eu comecei a minha trajetória).  Talvez o desafio e a expectativa de passar 24h sem vomitar no dia do jantar com meus amigos tenham sido altos demais para este momento.  Não é sem motivo que existem diversos aconselhamentos para que sejam dados passos de bebês durante a recuperação do transtorno alimentar.  Eu sei de tudo isso. Mas me senti mal. Muuuuuito mal. Odeio  traçar metas, objetivos e não alcança-los. Tendo a ser muito rígida comigo.

Por causa da minha falha e da expectativa não cumprida, hoje está sendo um dia particularmente bem difícil. De alguma forma paradoxal, sofro por sentir falta da bulimia, do alívio que ela me proporcionaria em momentos como este, da forma que ela me castiga sem que ninguém perceba, da anestesia e da alienação que ela me oferece, quando tudo que mais quero é esquecer-me de tudo.


Mas SÓ POR HOJE, EU DECIDO: não vou utilizar a bulimia.  Assim farei a cada dia.  Recomecerei a cada manhã.  Não vou evitar o desconforto de emoções difíceis.  O fracasso dói, dói muito,  mas jamais aprenderei a enfrentá-lo, sem encará-lo.  


Ainda não sei como será minha vida, ainda estou aprendendo e experimentando novas formas de lidar com meus sentimentos. Ver, reconhecer, entender e aprender a lidar com o que tenho de feio, não vai ser fácil. A bulimia escondia tudo isso para mim.


Em relação ao jantar, o que posso dizer é que fiquei triste e deprimida. Agora, porém, após escrever este post, me sinto um pouquinho melhor. Vou tentar analisar o que aconteceu na noite de ontem, avaliar meus sentimentos, pensamentos e o que desencadeou a minha crise.  Para tanto, utilizarei a técnica (baseada na terapia cognitiva-comportamental) proposta por uma pessoa muito querida, que cruzou o meu caminho recentemente.  Obrigada, Fran!!!

domingo, 1 de julho de 2012

Bulimia é um vício?

Mês passado, escrevi um post (Cuidado: Bulimia = droga com alto teor de dependência) em que eu especulava sobre a possibilidade da bulimia ser viciante. Recentemente foi publicada uma pesquisa que analisa as semelhanças entre a bulimia e a dependência das drogas.  A pesquisa afirma que resistir ao impulso de comer compulsivamente e depois vomitar (ato realizado pelos bulímicos) pode ser comparado com o sentimento do viciado de resistir ao uso drogas.

A pesquisa, publicada no Journal of Clinical Psychopharmocology, destaca várias semelhanças no comportamento de bulimicos e drogados.  Os pesquisadores especulam ainda que pode haver uma resposta neurológica semelhante na retirada do bulimico de seu vício à do drogado.  O estudo, porém, não é conclusivo. Trata-se mais de uma análise das similaridades e em especulações sofre a possibilidade de que exista uma ligação biológica entre bulimia e dependência de drogas. 

Não sei como o drogado se sente quando se coloca na situação de abstinência, mas confesso que a primeira semana em que eu me abstive de comer caoticamente, fiquei ansiosa, agitada, tive insônia, tremia. Pensei que jamais conseguiria aguentar aquela sensação. Na primeira tentativa rumo a recuperação me deparei com meu primeiro fracasso. A segunda tentativa não foi tão diferente. Hoje (um mês depois), ainda sofro ao dizer não para o comer compulsivo e vômitos, mas sofro menos. Estou mais forte.



quarta-feira, 27 de junho de 2012

Me perdoando pelo passado, para seguir em frente


Hoje eu estava pensando sobre meus erros. Pensei sobre os meus 20 anos com a bulimia. (Não me entendam mal, eu não tenho 20 anos de idade! Eu tenho 35 anos, dos quais 20 anos eu fui escrava da bulimia) Pensei sobre o meu passado, sobre as tentativas de suicídio, sobre as coisas que desisti, sobre as coisas que nem tentei, sobre as pessoas que culpei e sobre as punições a que me submeti.  

Quantas vezes que não assumi meus próprios erros, não admiti minhas falhas, não busquei me aperfeiçoar nem melhorar? Quantas vezes neguei que errei, fingi que eu não tinha problema algum, apenas para mostrar para os outros o quão “perfeita” eu era? Quantas vezes eu ainda caio nessa armadilha e me pego fazendo isso? Enquanto eu não assumir minhas falhas, erros e responsabilidades, jamais conseguirei aprender com eles.

É verdade, tenho melhorado. Hoje, olho para trás e vejo quanta besteira fiz, mas também vejo o quanto aprendi. No meu caminho tortuoso, também construí coisas maravilhosas, conheci pessoas lindas que valeram à pena. Poderia ter sido diferente?  NÃO. Eu não acredito que poderia ter sido diferente. Eu vivi o que precisava viver. Eu vivi exatamente da forma que foi possível. Vivi, da única forma que eu sabia, com a maturidade que eu tinha e fiz o que podia.  Hoje, entendo e não vou mais me culpar ou me punir por não ter sido melhor, por não ter sido “perfeita”. Aceito os ensinamentos do meu passado, e reconheço que foi ele que me trouxe até aqui.  

O meu passado é a minha referência, meu ponto de partida. Ele não me define, mas me ajuda a entender meu presente. Por causa do meu passado sei para onde não quero mais ir. O que vivi já passou, o que fiz já aconteceu. Tenho consciência de minhas decisões de hoje não precisam ser as mesmas de ontem. Hoje escolho seguir e escolho a cada minuto para onde ir. Agora, enfim, já sei onde quero chegar, não estou apenas sendo levada. Estou caminhando, com minhas próprias pernas e, claro, acompanhada e apoiada por  pessoas muito queridas e especiais que fazem toda diferença.


Sim, ainda me vejo cometendo deslizes, muitas vezes parecidos com os de antes. Mas agora existe uma grande diferença, agora eu quero mudar. Chega de punição, mas também chega de desculpas para não mudar. Hoje sei que a mudança me obriga a sair da minha zona de conforto. Bom, sair da zona de conforto dói, dá medo e exige coragem e perseverança.  Preciso entender que no meu caminho (principalmente na jornada contra a bulimia) haverá deslizes, mas isso não significa o fracasso do processo, cabe a mim levantar e continuar a caminhada.  Sei que ainda estou longe da cura, mas já consigo sentir satisfação pelo processo.  Me sinto feliz pelo direção que decidi seguir e isso, por si só já  está sendo uma boa recompensa. 

domingo, 24 de junho de 2012

Quando o passado bate na sua porta


Esta noite não dormi absolutamente nada. Fiquei me contorcendo na cama, andando de um lado para o outro, tendo palpitações, suando frio e tendo pensamentos repetitivos sobre fracassos, medo, compulsão, limites, etc. Foi muito, muito difícil segurar a onda e não “resolver” todos meus problemas como estou acostumada: comendo muito, até o limite, e me esvaziando (tirando de mim toda aquela angústia, aquela dor, aquele sofrimento).

Acho que a parte mais difícil da superação da doença é esta. Aprender a encarar este sentimento e entender o que fazer na hora que eles chegam. Eu simplesmente não sei (pelo menos não ainda). Sinto uma dor no fundo da minha alma. Uma dor física e psíquica. Gostaria de conseguir descrever em palavras o quão grande ela é, pois tenho a sensação que nada que eu fale vai traduzir o meu sentimento. Já experimentei algumas dores físicas, mas nada, nada se compara a essa dor, nem mesmo a dor do parto normal (que julgam ser tão grande), para mim, foi menor do que a dor que sinto quando minha alma sofre.

Depois de muito lutar para dormir, consegui enfim adormecer, por volta das 5 horas da manhã. Às 9 horas acordei, era o “meu passado batendo em minha porta”. Uma grande amiga minha tocou a campainha da minha casa, ela necessitava de ajuda. Por algum motivo, o que ela estava passando fez com que eu me lembrasse da minha história, época em que eu bebia muito e talvez, por sorte, ainda esteja aqui.

Entre os meus 18 e 25 anos, eu vivi uma fase muito conturbada da minha vida. Eu posso dizer que nesta época eu fiquei muito perdida. Vivia minha vida de uma forma descontrolada. Estava na busca do prazer, da emoção. Lembro-me de ser muito intensa e querer tudo para ontem. Era tudo ou nada, ou 8 ou 80. Minha vida parecia uma montanha russa de emoções. Eu já tinha bulimia, mas na minha lembrança a doença, na época, era mais “controlada”.

Claro que a bulimia era um problema menor naquela época. Eu “utilizava” menos a bulimia para me livrar das minhas dores psicológicas. Eu afogava minhas angústias, medos, sofrimento e frustração em outro vício: na bebida. Nesta época a minha depressão era muito forte e presente. Sentia um vazio enorme no meu peito, na minha alma. Inicialmente eu não queria estar viva, depois comecei a desejar a morte. Para esquecer a dor e o sofrimento, eu toparia fazer qualquer coisa, pois não havia futuro em meus planos.

Buscava a “felicidade, a emoção” de cada momento. Queria aproveita o dia, o momento, em toda sua potencialidade. Que inocência. O problema é que para atingir o aproveitamento total, eu fui precisando de mais: mais um gole, mais uma dose, mais um copo, mais uma garrafa, uma dose mais forte. Quando eu me dei conta, a bebida me controlava.  

Rapidamente, minha vida foi virando um inferno. Eu bebia para “ficar bem”, precisava sempre mais, de algo mais forte para sentir aquele “alívio imediato”.  No outro dia eu tinha que encarar tudo de novo, a depressão, medos, angústias, ansiedades. Aquela era a minha fuga, a minha muleta. E assim fui (sobre) vivendo. Voltei diversas vezes dirigindo para casa após beber meia garrafa de whisky ( o caminho?  É claro que não lembro). Tive coma alcoólica e fui levada a hospitais, algumas vezes. As perdas de memórias aconteceram, várias vezes. É chato lembrar o que me disseram que eu fiz.

Não me orgulho deste meu passado. Lembro que nesta época eu poderia ter me envolvido com o uso de outras drogas. Mas existia em mim (ainda que pouca, mas alguma) consciência de que eu não tinha maturidade e capacidade para encarar qualquer droga. Eu sabia que eu era fraca demais para elas e que se eu entrasse em algo mais forte, jamais eu sairia. Eu sabia que eu era uma pessoa facilmente viciável. Por isso, só por isso, nunca experimentei coisas mais pesadas.

Bom, hoje, eu ainda bebo. Não bebo todo final de semana e nem todas as vezes que saio com amigos e família. Bebo apenas quando estou a fim (provavelmente o certo fosse nunca mais beber). Mas nunca, NUNCA coloco um gole de bebida destilada em minha boca (ela tem um efeito avassalador em mim).  Tento beber com moderação. Peço ajuda aos que amo para que me avisem caso eu esteja saindo um pouquinho da linha. Nesta hora eu deixo a bebida de lado e passo a tomar água. Quase sempre isso funciona.

Mas deixar a bebida não foi algo tranquilo. Eu fui substituindo as doses de bebida pelas crises de bulimia. Como não tive acompanhamento médico e psicológico (pois eu não achava que precisava), eu fui atrás de outra muleta.   A bulimia era “perfeita” para este papel. Fui ficando viciada em comer descontroladamente e vomitar. Mas é claro que encontraria outro inferno pela frente. Pois muletas quebram... A sujeira não pode ficar para sempre debaixo do tapete.

Agora estou aqui, disposta a mudar isto. Estou mais madura, mais consciente, mais esperançosa. Estou aprendendo a me conhecer e a encarar meus medos. Não é fácil, pois sempre fugi deles, mas não quero mais fugir. Sim, foram 20 anos de fuga. Mas quer saber? Posso ter mais que 20 anos de vida. De vida plena!!!

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Sim para a beleza natural!!!


A beleza natural existe. Ela está em mim, em você, em nossas amigas, mães, irmãs, tias. Ela está na nossa frente, basta apreciarmos. Para nos lembrarmos disto, o fotógrafo americano Matt Blum está fazendo um excelente trabalho fotografando o nú comum para o The Nu Project. Nada de maquiagem, nada de corpos esqueléticos, nada de photoshop, o trabalho de Matt é maravilhoso e mostra a nudez bela, real e natural. Faz bem aos olhos e a mente, pois valoriza o corpo da mulher como ele é. Cada beleza, cada corpo, cada mulher, lindamente captadas pela lente desse fotógrafo.


Matt Blum já fotografou mais de 100 mulheres da América do Norte e do Sul, desde 2005. Em novembro de 2012, ele estará no Brasil, pela segunda vez, em busca de novas voluntárias. Quem desejar participar do projeto deverá preencher um formulário no site www.thenuproject.com.  Não será oferecido nenhum cachê para voluntária, ela apenas terá a oportunidade de ser fotografada por um profissional e receberá 10 fotos do ensaio. Não será permitida a participação de pessoas com menos de 21 anos de idade. Matt tem a pretensão de lançar um livro com suas fotografias.


Achei o projeto fantástico, pois estamos buscando cada dia mais um corpo “perfeito” e acabamos esquecendo como são os corpos comuns e quão bonitos e apreciáveis eles são. Deixemos de lado a busca do inatingível e o medo de nos tornarmos nós mesmas. Podemos ser lindas, sem doenças, sem transtornos alimentares, sem anorexias e bulimias. Talvez hajam celulites, dobrinhas, gordurinhas, pouca bunda, culote, seios pequenos, corpos assimétricos. E daí?  Vamos colocar em nossos olhos a lente de Matt e reconhecer nossa beleza natural que vai além de nosso corpo e atinge nossa alma. Eu digo sim a beleza natural!!


  




sexta-feira, 15 de junho de 2012

Frustração mais uma vez


Hoje já fiz de tudo para evitar escrever este post. Estou com medo e receio de traduzir em palavras o que estou sentindo. Minha vontade é manter meus pensamentos em segredo, mas não dá. Os meus pensamentos já estão solidificados em minhas ações. E por mais que eu tente fugir deles, eles me perseguem. Então mudarei de estratégia. Confessarei meus “crimes” e espero que isso amoleça minhas ações, deixando que eu molde novos hábitos, novos pensamentos e novos sentimentos.

Frustração e raiva são os sentimentos de hoje. Estou extremamente chateada comigo pelo fato de ter conseguido, apenas uma única vez, durante os 18 dias em que comecei a minha jornada rumo à recuperação, ter ficado sem comer excessivamente e sem vomitar durante um dia inteiro (dia e noite). Há dois dias consegui pela primeira vez dormir sem a crise bulímica, mas ontem e hoje, fracassei.

Eu sei que deveria estar pensando pelo lado positivo, sei que deveria pensar em quanto já caminhei até agora e que deveria ter calma e blá, blá, blá. Mas hoje estou com uma dificuldade enorme em fazer isso. Estou com uma raiva enorme de mim. Tenho certeza que se fosse em outras épocas, hoje seria um daqueles dias em que comeria e vomitaria várias vezes, só para tentar aliviar essa dor que sinto no meu peito e que parece que não passa. Estou tremendo e sinceramente, não sei se conseguirei dormir...

Agora o que preciso fazer é encarar este sentimento de frustração e aprender como lidar com ele. Certamente, esta sensação vem da minha expectativa não realizada. Preciso respirar e entender que esta jornada será assim mesmo: serão tentativas, acertos, falhas, acertos, novas tentativas, mais acertos e depois menos falhas. Preciso deixar de lado a minha busca pela perfeição, pelo ideal e me contentar com o real, com o possível. Só assim deixarei de ter frustrações constantes.

Para não perder a esperança, reli posts de pessoas que contam suas trajetórias contra a bulimia. A busca de ninguém foi fácil e nem foram sem falhas ou recaídas. Mas uma coisa elas tiveram em comum: nenhuma desistiu. Recarrego minhas energias e ganho força de novo. Amanhã é um novo dia, uma nova luta, uma nova batalha. Sim, ainda virão muitas dificuldades, e eu preciso estar forte para enfrentá-las ou elas me derrotarão. Cair, aprender, levantar e seguir, continuando a jornada. 

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Jornada rumo à recuperação: quando a ansiedade paralisa

Não sei quando eu me tornei ansiosa. Não consigo me recordar bem o momento ou a época da minha vida em que esta característica apareceu. Na minha adolescência este traço da minha personalidade já estava bem aflorado. Lembro-me de ficar acordada a noite inteira por conta de algum acontecimento que ocorreria no dia seguinte. Minha mente simplesmente não conseguia relaxar e eu ficava imaginando e conjecturando tudo que poderia acontecer.

Acho que com o passar do tempo a minha ansiedade foi aumentando. Eu nunca aprendi de verdade como lidar com ela.  Minha mente, poderosamente, vai construindo monstros e fantasmas e eu vou caindo nessas armadilhas igual uma criança que tem medo do escuro.  Inacreditável como depois que passa eu percebo como meus pensamentos foram idiotas e como eu estava exagerando, mas na hora o medo, o pânico, é tão real que fico paralisada.

Há 17 dias eu comecei a mudar meu comportamento em relação à bulimia. Decidi traçar metas (difíceis para mim) rumo à recuperação.  Após anos em tratamentos com psiquiatras e psicólogos, após várias tentativas frustradas de largar os ataques à geladeira e o alívio do vômito, eu estou conseguindo traçar alguns objetivos e cumpri-los.  Acredito que dentre todos os obstáculos rumo à recuperação, a ansiedade possa ser o maior deles. O problema da minha ansiedade é que eu sofro muitas vezes por um medo imaginário, mas muito intenso, e que me deixa paralisada.

Faz cinco dias que eu venho pensando sobre tentar passar um dia inteiro sem minha crise bulímica. Como vocês sabem,  antes da “minha jornada” começar eu vomitava cerca de 5 a 8 vezes por dia, todos os dias, e esse número reduziu para uma vez por dia.  A minha primeira tentativa rumo à recuperação pareceu algo insuportável, mas estou aqui, suportei. Não só suportei como a cada dia que passa, sinto que esta meta (1 crise por dia) está menos pesada de ser atingida. Hoje já consigo lidar melhor com a falta física do comer e vomitar (crise da abstinência). Claro que ainda sinto consequências no meu corpo nessa busca pela recuperação,  mas quem disse que seria fácil? Bom, de qualquer forma, venho me sentindo preparada para dar o próximo passo, no entanto a minha ansiedade estava, até então, me impedindo.

Eu estou ansiosa pelas consequências que esse passo (ficar um dia todo sem vomitar) pode vir a causar. No meu caso, a ansiedade gera medo e o medo paralisa. Medo de ficar sem a bulimia. Medo de viver sem ela. Medo de não saber o que fazer com o tempo que terei extra. Medo de não saber lidar com as frustrações, raivas, angustias. Medo de engordar (claro ele existe). Medo de não conseguir. Medo de ter que dar esse passo todos os dias. Medo de que essa seja a última vez, o último vômito, o último alívio, o último contato com algo que eu controlo. Medo de perder o controle de tudo (...como se eu tivesse controle de algo). Medo do que eu vou me tornar. Medo de não gostar dessa nova pessoa.  São muitos medos…

Bom, então, para afastar estes fantasmas que me congelam, eu precisei enganar a minha mente. "Quer saber?" Eu pensei.  “Eu vou deixar de comer e vomitar, só hoje.  Amanhã, será tudo normal”. Minha meta foi para a noite de ontem.  Por enquanto, não vou pensar no futuro, vou com calma, aprendendo dar tempo ao tempo.  Não quero pensar no que vai acontecer. Vou viver o que está acontecendo. Vou tentar traçar metas curtas e imediatas, sem olhar para o futuro, pois o futuro está me paralisando.

O que sei agora é que viver com a bulimia está insuportável. Dói muito pensar em não tê-la mais comigo, mas dói mais ainda pensar em viver com ela para o resto da minha curta vida, pois será curta se continuar assim. Como não consigo mudar meus pensamentos, vou mudando minhas atitudes e, assim, torço para me manter acordada. Porque como disse meu terapeuta, “o perigo de acordar é querer continuar sonhando”.


segunda-feira, 11 de junho de 2012

Rumo à recuperação e o fundo do poço


Estou frustrada. Tenho certeza que ontem estava preparada para dar mais um passo rumo a minha recuperação. Mas meu fracasso veio do  medo de conseguir. Irônico, estupido, mas foi exatamente o que ocorreu.  Sinto-me sozinha, no fundo de um poço, estreito, escuro e profundo. Agora, cansada e envergonhada.

Há 14 dias, comecei um processo de mudança na minha rotina bulimica. Decidi me libertar da prisão que é a vida com a bulimia. Como já falei, tenho bulimia há 20 anos, e durante esse tempo sempre “estive em tratamento”, bom pelo menos teoricamente. Frequentava psiquiatras, terapeutas, tomava remédios, mas nunca tentei de fato mudar. Eu ia me enganando, deixando me levar. Infelizmente, eu tive que chegar no fundo do poço para encontrar a motivação para a mudança de fato.

Aqui estou eu, sozinha, no fundo do poço. O poço é frio, estreito, escuro e profundo. Não há alternativa, ou eu saio, ou eu morro. Mal escuto as vozes das pessoas que amo. Mas sei que elas estão lá em cima, me apoiando e esperando por mim. Elas estão de mãos atadas, pois esta é uma luta minha. Elas me jogam uma corda, para que eu suba, mas é tudo que podem fazer. A escolha da subida e o esforço da escalada precisam ser feito por mim.

Fiquei muito tempo no fundo do poço, paralisada. A corda já estava lá, a saída também. As pessoas amadas já estavam lá em cima, me esperando para me dar força, me aquecer e me aceitar da forma que eu chegar, mas eu não conseguia subir. Simplesmente sabia que não chegaria ao final, fisicamente e psicologicamente seria impossível. Nunca havia escalado nada, principalmente algo tão alto que poderia exigir de mim esforço físico e psicológico que eu não tinha. Então desistia antes de tentar. Até que percebi que iria apodrecer ali. Que ninguém me tiraria dali, a não ser eu mesma.

Para mim essa metáfora se encaixa bem com que estou vivendo. Bom, nesse poço estou enfrentando meus fantasmas psíquicos e físicos diariamente. Não existe alternativa, senão a saída, correto? Mas não é tão simples assim. Tento subir a corda diariamente só que caio diariamente (no final do dia, quando “escolho” vomitar).  A saída parece tão distante, que vejo apenas um pontinho de luz lá no final, mas sei que ela está lá.

Bom, a vantagem é que cada dia estou mais forte, cada dia, consigo subir um pouquinho a mais do que no dia anterior. Só que ontem, eu me boicotei. Eu sei que fiz isso. Eu poderia ter me esforçado e subido mais. Mas tive medo de ir adiante. Tive medo de formar uma bolha na minha mão. Tive medo da dor de não vomitar naquela noite. Tive medo de não conseguir dormir. Tive medo que a partir do dia em que eu conseguisse atingir “aquela meta”, os espectadores (amigos e família) cobrassem de mim que eu a atingisse a cada dia. Tive medo da minha cobrança pessoal a partir daquele momento. Então, mesmo com energia para continuar, eu me deixei cair. Idiota, né? Sim, eu sei.

Medo de conseguir e depois não conseguir, ou de conseguir e não saber o que fazer... Tem horas que minha mente é tão poderosa que me irrita. E eu vou me deixando enganar por armadilhas psíquicas que não me levam a nada.  


Bom, nessa subida, a verdade é que minhas mãos e meus músculos ficarão doloridos. Haverão dias que não conseguirei ir adiante, talvez até não conseguirei atingir o mesma altura que fiz em dias anteriores. Mas com o tempo ficarei mais forte. Minhas mãos ficarão calejadas. Não sentirei tanta dor. Ainda será cansativo, mas conseguirei ir mais além. Estou aprendendo a lidar com minha mente, durante este processo e esta luta que é a recuperação: uma luta pessoal de corpo e mente. Sim, o apoio de todos é fundamental, mas a luta é pessoal. 

sábado, 2 de junho de 2012

Meu caminho para a recuperação – certo ou errado?


Estou insegura em relação ao meu caminho para a recuperação. Não pretendo desistir,  nem estou me lamentando.  Mas estou insegura em relação ao método que estou utilizando. Será que o que estou fazendo é o melhor caminho? O mais eficiente? O que vai me levar a menos possibilidades de falhas e fracassos?

Ler blogs de pessoas que se curaram para mim foi o maior incentivo para começar a tentar verdadeiramente a sair da inércia e traçar um plano para a recuperação. Digo verdadeiramente, pois já menti para mim várias vezes. Continuava a comer e vomitar todos os dias (5 a 8 vezes ao dia) e achava que a análise, por si só, poderia me tirar dessa.  Na verdade, acho que nunca acreditei que eu poderia me curar. Após a leitura emocionada dos depoimentos de várias mulheres que passaram por algo muito semelhante com o que eu vivo (a identificação foi enorme), pensei: se elas conseguiram (com muito esforço) superar, eu também posso.  Percebi que deveria fazer algo agora, não iria mais falar “hoje não dá”.


Como li que o processo para a cura é demorado e lento, que é preciso ter paciência e perseverança. Decidi começar traçando objetivos diários e tentar não ser muito dura comigo quando eu não conseguir atingi-los. Nos primeiros dois dias os objetivos foram duros demais. O primeiro objetivo, eu não consegui atingir. O segundo, eu consegui parcialmente. Eu precisava ficar 24 horas sem compulsão e vômito, fiquei 24 horas conforme a meta, mas logo após o tempo estipulado comi e regurgitei, ou seja, algo errado, correto?

No terceiro dia resolvi que a meta seria passar o dia com a possibilidade de apenas uma crise bulímica – meta alcançada. E assim tem sido até hoje (foram-se 5 dias).  Bom, todos os dias têm sido difíceis, e a hora mais “legal” do meu dia é a hora em que é permitido comer muito e vomitar. Estou fazendo tudo errado??? Será que minha meta deveria ser ficar todos os dias sem nenhuma crise??? Mesmo que para isso eu me frustre???  Será que eu suportaria a dor da abstinência durante  dia e noite consecutivamente? Quando saberei qual é a hora de tentar dar o próximo passo? Talvez dentre todas essas perguntas a que mais me preocupa é a última.

Quando saberei a hora certa para ir para o próximo passo? Tenho medo de ir me acostumando e não querer seguir adiante. Tenho medo de regredir. São vários medos...  E eu precisava colocar eles para fora, para que eles não virem monstros na minha cabeça. Acho que todas estas dúvidas são resultados da minha ansiedade e vontade de ver tudo, assim, pronto. Mas estou mudando, me transformando, aprendendo a dar tempo ao tempo. Claro que se existisse uma fórmula única de como curar-se esta já estaria à venda, não é mesmo? Somos todos diferentes e por mais que eu me identifique com as histórias lidas, preciso ter paciência e achar meu próprio caminho, pois eu tenho a minha história.  Vou respirar fundo e me acalmar. Meu coração já não está tão acelerado quanto como comecei a escrever as primeiras linhas. 

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Aprendendo a dar tempo ao tempo


Eu tinha acabado de escrever um post que seria intitulado “Soccorro!!!”, em que eu falava como meu dia estava sendo uma bosta , da vontade de desistir, do meu sentimento de frustração, etc, etc, etc...  Só que acabei lendo um artigo chamado “No short cuts to recovery” (não há atalhos para recuperação) que me fez repensar um pouco sobre o meu quase momento de desistir.  Bom, continuo me contorcendo para não me empanturrar e depois vomitar. O tic tac do relógio continua bem lento!!!  A diferença serviu para me lembrar que preciso ter mais calma, paciência e perseverança.  Faz parte do processo ficar “frustrado, impaciente, cansado, duvidoso, preso, alegre, incentivado, desanimado, com raiva, eufórico, curioso, frustrado, incerto, duvidoso, e orgulhoso”.  A estrada é longa, não será fácil, mas é possível. Textos como este são ótimos para nos relembrar disso, leia o original.