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terça-feira, 3 de julho de 2012

Rumo à recuperação: fazendo as pazes com a comida


Na minha vida, eu só conhecia duas formas de alimentação: não comer nada ou comer compulsivamente e vomitar. Bom, se é que isso pode ser chamado de alimentação, não é verdade? Sempre que eu comia, eu precisava vomitar. Para mim, isso era natural. Eu acreditava que era parte do meu processo digestivo: mastigar, engolir e vomitar. Antes de começar o blog e iniciar essa jornada rumo a cura, eu comia compulsivamente de 5 a 8 vezes diárias e vomitava todas elas, hoje, essa média diminuiu e minhas crises diárias estão cada dia menores (média de uma vez ao dia). 

Para entrar, verdadeiramente, na jornada contra a doença eu precisava aprender a comer e não vomitar. Caso contrário, eu correria o sério risco de desenvolver outro transtorno: a anorexia. No passado, em uma outra tentativa de me recuperar, eu fiquei anoréxica durante alguns meses, perdi muitos quilos e acabei retornando à bulimia. Foi muito ruim., or isso, dessa vez, me mantive consciente sobre a necessidade superar esse desafio.

Depois de muita leitura e pesquisa, verifiquei que os especialistas sugerem que pessoas em busca da cura da bulimia devem fazer uma espécie de reeducação alimentar, fazendo um planejamento estruturado de alimentação (com orientação de um nutricionista). Basicamente, eles sugerem que sejam feitas três refeições e três lanches por dia, todos os dias! Claro que eu quase pirei com essa orientação. Como assim??? Comer seis vezes por dia sem vomitar??? Eu não conseguia comer dessa forma por nem um dia da minha vida, eu pensava. Como conseguiria chegar a essa marca? Achei um absurdo!

Decidi que iria fazer o meu melhor. Na primeira semana não me preocupei em alcançar seis refeições diárias. Apenas me preocupei em comer e não vomitar. Para mim isso já foi um avanço! Comemorei a cada refeição que fiz sem vomitar. Claro que sem me iludir que ainda teria grandes desafios. Com o tempo fui ganhando confiança e fui aumentando o número de vezes que fui capaz de me alimentar e de não provocar o vômito. Percebi que isso não era tão ruim. Fui enfrentando meus medos e eles estão ficando menores. Claro que esse processo não foi fácil e ainda não é. Já estou comendo três refeições e três lanches por dia, todos os dias sem vomitar. Para evitar que eu fique neurótica em relação ao meu peso eu deixei de contar calorias. Simplesmente não penso nelas. Sei que esse passo foi bem grande para mim. No entanto, ainda é pouco diante o que ainda irei passar. Também me proibi de subir em qualquer balança.

Tenho consciência que ainda evito vários alimentos, mesmo sem contar as calorias. Morro de medo de comer em eventos sociais. Tenho a sensação que todos estão me vigiando. Isso porque eu estou comendo de forma diferente do que comia antes da busca pela cura. Antes de iniciar minha jornada eu comia de tudo a toda e qualquer hora (claro que vomitava tudo depois) e agora estou evitando certos alimentos. Ainda tenho pânico (vergonha) que as pessoas descubram que eu tenho bulimia.

Para chegar até aqui, fui colhendo várias dicas e evidências que de alguma forma me fortaleceram. Vou dividir com vocês as dicas e os conhecimentos que me ajudaram (principal fonte: Bulimia.help):

  •  Obter um fluxo constante de nutrição evita compulsões futuras.
  • Comer regularmente aumenta o metabolismo.
  • No início, não é necessário comer muito. Pequenas refeições são mais fáceis de comer e vão fazer você se sentir menos cheia. Isso vai ajudar você a não vomitar.
  • Comece agora.  Nunca mais deixe para amanhã. O amanhã nunca chega.
  • Seu estômago pode precisar de um tempo se acostumar e isso pode levar tempo. Tenha paciência e perseverança.
  • Lembre-se dar passos de bebê e fazer pequenas mudanças graduais.
  • Nunca se compare com os outros. Cada pessoa tem um processo diferente de adaptação.
  • Esqueça a balança
  • Esqueça as calorias
  • Se possível, procurar um nutricionista que te ajude a criar um plano de refeições.
  • Planeje suas refeições com antecedência
  • Escolha alimentos que você sente confortável, principalmente na fase inicial.
  • Evite ficar mais de 3-4 horas sem se alimentar. Espaçamento entre as refeições é importante na prevenção da compulsão. Este período tem a ver com o processo de esvaziamento do seu fígado para manter os níveis de glicose no sangue com carboidratos armazenados.
  • Se estiver com fome, coma. A vontade não saciada pode aumentar a compulsão.
  • Essa dica me ajudou muito a iniciar o meu processo, foi dada pelo meu marido: “Faça apenas uma experiência, não pense que o que você está fazendo é definitivo, caso você não consiga, você poderá sempre voltar ao seu antigo estilo de comer”. Pensar dessa forma foi um alívio para mim. Tirei o peso do processo e fui experimentando e fui vendo que é possível. 

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Rumo à recuperação: primeiro mês


Um mês se passou, foram muitos desafios, alguns tropeços e por que não dizer muitas conquistas? Como vocês sabem, tenho bulimia há 20 anos. Antes de começar o blog e iniciar essa jornada rumo a cura do transtorno alimentar, eu comia compulsivamente de 5 a 8 vezes diárias e vomitava todas elas (veja gráfico - linha azul). Hoje, essa média diminui e minhas crises diárias estão cada dia menores (ver gráfico – linha vermelha).

Segue abaixo a tabela resumo da minha jornada no mês de junho. Uso ela para que eu não perca a “grande figura”. Quando acho que estou fracassando volto e olho aqui. Vejo o que quanto já superei, então percebo que posso seguir. 




Processo de Recuperaçao
Dia
 Crises bulímicas
Exercícios
Observações gerais
29/05/2012
2
Descanso

Enjoo muito forte, agitação, suor, tremedeira, angústia, pensamento obsessivo.
30/05/2012
1
Corrida – 30 min
Enjoo muito forte, agitação, suor, tremedeira, angústia, pensamento obsessivo.  Arrotos e refluxo.
31/05/2012
1
Descanso

Enjoo muito forte, agitação, suor, tremedeira, angústia, pensamento obsessivo.  Arrotos e refluxo.
01/06/2012
1
Nataçao – 1 hora
Enjoo forte, agitação, suor, tremedeira, angústia, pensamento obsessivo.
02/06/2012
1
Corrida – 1 hora
Enjoo forte, agitação, tremedeira, angústia, pensamento obsessivo.
03/06/2012
1
Descanso

Enjoo, agitação, tremor, angústia, pensamento obsessivo.
04/06/2012
1
Nataçao – 1 hora
Enjoo, agitação, tremor, angústia, pensamento obsessivo.
05/06/2012
1
Corrida – 1 hora
Enjoo, agitação, tremor, angústia, pensamento obsessivo.
06/06/2012
1
Corrida - 30
Enjoo, agitação, tremor, angústia, pensamento obsessivo.
07/06/2012
1
Corrida – 1 hora
Enjoo, agitação, tremor, angústia, pensamento obsessivo.
08/06/2012
1
Natação – 1 hora
Enjoo, agitação, tremor, angústia, pensamento obsessivo.
09/06/2012
1
Descanso

Enjoo, agitação, tremor, angústia, pensamento obsessivo.
10/06/2012
1
Corrida – 1 hora
Enjoo, agitação, angústia, pensamento obsessivo.
11/06/2012
1
Nataçao – 1 hora
Enjoo, agitação, angústia, pensamento obsessivo, agressividade
12/06/2012
        1
Descanso
Enjoo, agitação, angústia, pensamento obsessivo.
13/06/2012
0
Corrida – 1 hora
Enjoo forte, ansiedade, tremor, pensamento obsessivo, insônia, suor. 
14/06/2012
        1
Corrida - 40 min
Enjoo, agitação, angústia, pensamento obsessivo. 
15/06/2012
1
Natação – 1 hora
Enjoo, agitação, angústia, pensamento obsessivo, frustração, insônia, suor. 
16/06/2012
1
Descanso
Agitação, angústia, insônia, frustração, pensamento obsessivo. 
17/06/2012
1
Descanso
Agitação, angústia, irritabilidade, pensamento obsessivo.
18/06/2012
1
Natação – 1 hora
Enjoo, insônia, agitação, angústia, pensamento obsessivo. 
19/06/2012
1
Corrida – 1 hora
Enjoo, insônia, agitação, angústia, pensamento obsessivo. 
 20/06/2012
1
Descanso
Enjoo, insônia, agitação, angústia, pensamento obsessivo. 
 21/06/2012
1
Corrida – 1 hora
Insônia, ansiedade, angústia, medo do futuro.
 22/06/2012
1
Descanso
Insônia, ansiedade, angústia. 
 23/06/2012
0
Corrida – 1 hora
Insônia, ansiedade, angústia.
 24/06/2012
1
Descanso
Insônia, ansiedade, angústia.
 25/06/2012
0
Natação – 1 hora
Enjoo, agitação, suor, ansiedade, insônia, angústia, refluxo.
 26/06/2012
1
Corrida – 1 hora
Insônia, ansiedade, angústia.
 27/06/2012
0
Descanso
Insônia, ansiedade, angústia. Apesar disto tudo, felicidade por continuar a luta.
 28/06/2012
0
Corrida – 1 hora
Insônia, ansiedade, agitação.
 29/06/2012
1
Natação – 1 hora
Insônia e ansiedade.
 30/06/2012
0
Descanso
Insônia e ansiedade.

Uma Mudança no Olhar. O Início da Cura?


Hoje eu estava desanimada, um pouco triste. Não havia nem um motivo específico, mas simplesmente eu estava me sentindo assim. Comecei a pensar sobre os 20 anos em que vivi com bulimia e pensei na causa que me levou a decidir apenas agora a me entregar à cura e aceitar os desafios que o tratamento do transtorno alimentar propõe. Claro, estou no início da minha jornada, mas, agora, de certa forma, sinto que algo dentro de mim mudou. Consigo me ver lá do outro lado superando cada desafio. Estou disposta a enfrentar um por um.

Lembro-me das diversas vezes que falei para mim mesma: “Esta é a última vez. Estou cansada desta vida. Seguirei o tratamento”. No entanto, a cada sugestão feita pelos profissionais que mudasse minha rotina e que pudesse me fazer engordar, perder meus “benefícios”, me expor, ou se simplesmente eu não concordasse, eu os boicotava. Era simples assim: “farei tudo o que vocês pedirem, para isso, basta apenas que vocês me falem para que eu faça somente o que eu quero”.
  
Olhando para o passado friamente, eu posso concluir que as milhões de decisões “sinceras” que fiz pela cura, não foram tão sinceras assim. Mas eu estaria sendo muito injusta se, ao olhar para trás, eu dissesse que não houve nenhuma verdade nas minhas decisões em relação ao tratamento. Eu verdadeiramente tentei cumprir algumas tarefas feitas pelos médicos, no entanto, ao não conseguir eu desistia, eu desistia da guerra. Na época eu não entendia que nunca se perde uma guerra ao se perder uma batalha. Nunca!!!

Além disso, havia um fato que eu preciso admitir, eu queria melhorar, mas eu também queria manter a bulimia.  Para mim a bulimia ainda era minha muleta, meu trunfo, meu plano B. Fui a vários psiquiatras diferentes, tomei vários remédios. Procurei muitos psicólogos. Mas a verdade é que para mim os remédios aliviaram pouco a dor que eu sentia. Largava os remédios e trocava de médico. Apesar da minha forma caótica de lidar com o tratamento, sempre havia uma boa intenção.

Cada tentativa e falha subsequente me convenceram de que eu nunca seria capaz de parar. Isso me levou durante alguns anos a desistir de sonhar com a recuperação. Sim eu continuava a ir ao psiquiatra e à terapia, mas nesse ponto eu não queria largar a bulimia. Eu ia aos médicos com o objetivo de aliviar o sofrimento de viver com o transtorno alimentar, mas não com a intenção de largá-lo. 

Não posso desfazer as coisas que fiz e a forma como agi. Realmente acho que perdi muito tempo. No entanto, de alguma maneira paradoxal, algo mudou em mim, e a forma como agi, hoje, me dá força para que eu não queira abrir mão de algo que eu quero desesperadamente. Hoje continuo com muito medo de muitas coisas no futuro, mas o meu passado já não me ilude mais. Já sei o quão negativo é viver com a doença e agora já tenho certeza que, para onde quer que eu vá, será melhor do que onde eu estou.

Sim, tenho meus momentos de fraqueza, continuo me sentindo acuada diante de várias situações. Mas estou exercitando minha paciência e trabalhando na minha persistência. Mudei meu foco na terapia e na psiquiatria. Hoje tomo menos remédios e trabalho de uma forma mais profunda. Não busco aliviar sintomas, busco a cura. Hoje sonho com isso, acredito nisso, inclusive já me visualizo do outro lado, curada.

domingo, 1 de julho de 2012

Bulimia é um vício?

Mês passado, escrevi um post (Cuidado: Bulimia = droga com alto teor de dependência) em que eu especulava sobre a possibilidade da bulimia ser viciante. Recentemente foi publicada uma pesquisa que analisa as semelhanças entre a bulimia e a dependência das drogas.  A pesquisa afirma que resistir ao impulso de comer compulsivamente e depois vomitar (ato realizado pelos bulímicos) pode ser comparado com o sentimento do viciado de resistir ao uso drogas.

A pesquisa, publicada no Journal of Clinical Psychopharmocology, destaca várias semelhanças no comportamento de bulimicos e drogados.  Os pesquisadores especulam ainda que pode haver uma resposta neurológica semelhante na retirada do bulimico de seu vício à do drogado.  O estudo, porém, não é conclusivo. Trata-se mais de uma análise das similaridades e em especulações sofre a possibilidade de que exista uma ligação biológica entre bulimia e dependência de drogas. 

Não sei como o drogado se sente quando se coloca na situação de abstinência, mas confesso que a primeira semana em que eu me abstive de comer caoticamente, fiquei ansiosa, agitada, tive insônia, tremia. Pensei que jamais conseguiria aguentar aquela sensação. Na primeira tentativa rumo a recuperação me deparei com meu primeiro fracasso. A segunda tentativa não foi tão diferente. Hoje (um mês depois), ainda sofro ao dizer não para o comer compulsivo e vômitos, mas sofro menos. Estou mais forte.



sexta-feira, 29 de junho de 2012

Bulimia e a falta de capacidade de lidar com a frustração


Tenho que admitir, por mais difícil que seja, que tenho muita dificuldade de lidar com frustração. Odeio planejar algo em minha mente e não conseguir atingir o objetivo desejado. Odeio criar uma expectativa e não vê-la ser concretizada. Fico frustrada, com raiva e me sinto uma merda. Ainda estou aprendendo a lidar com o “tudo ou nada”, e enquanto isso não se tornar algo real em minha vida, continuarei me frustrando e sofrendo emocionalmente com minhas “falhas”. Flexibilização e busca de equilíbrio é o que preciso fazer, sim, eu já sei, mas confesso que o caminho ainda está difícil para mim.

Ao me analisar, percebo que tento evitar situações que possam me levar à frustração. Isso muitas vezes faz com que eu simplesmente desista de muitas coisas, apenas por medo. Não me dou à oportunidade de tentar realizar coisas que eu desejaria muito. O medo do fracasso e falta de capacidade de lidar com a frustração, me deixam completamente paralisada.

A bulimia, no meu caso, é uma marca clara da minha falta de capacidade de lidar com a frustração. Da minha falta de capacidade de aceitar meu corpo, da minha falta de capacidade de aceitar o meu peso, da minha falta de capacidade de aceitar meus erros, da minha falta de capacidade de aceitar minhas falhas, medos, ansiedades e frustrações. Eu traço expectativas e metas, e quando não consigo cumpri-las fico frustrada e agressiva comigo.  Pois a bulimia é uma forma de autoagressão. Ela vai te matando aos poucos, primeiro você perde os amigos, depois o cabelo, os dentes... a saúde, a vida.

Mas como aprender a mudar de atitude? Como aprender a lidar com a frustração? Tenho me esforçado para mudar minha forma de lidar com meus fracassos. Hoje, busco enfrentar meus erros, encará-los, ao invés de fugir deles.  Quero fazer as pazes comigo quando não consigo alcançar exatamente o que eu planejava. Estou mais disposta a analisar o que aconteceu de fato e desta forma ser mais justa comigo. Tentarei procurar me parabenizar pelo meu progresso durante o processo (em longas jornadas), ao invés de ficar me concentrando em um deslize no meio do caminho. Quando eu olho para trás vejo o quanto já cresci. 

Minha caminhada para frente ainda é infinitamente maior do que a que eu já realizei. Mas agora tenho a certeza de que não estou mais parada. Agora, sei que posso continuar andando (que sou capaz de andar) e cada vez tenho mais força para continuar minha busca, de forma mais plena para um futuro promissor. 

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Me perdoando pelo passado, para seguir em frente


Hoje eu estava pensando sobre meus erros. Pensei sobre os meus 20 anos com a bulimia. (Não me entendam mal, eu não tenho 20 anos de idade! Eu tenho 35 anos, dos quais 20 anos eu fui escrava da bulimia) Pensei sobre o meu passado, sobre as tentativas de suicídio, sobre as coisas que desisti, sobre as coisas que nem tentei, sobre as pessoas que culpei e sobre as punições a que me submeti.  

Quantas vezes que não assumi meus próprios erros, não admiti minhas falhas, não busquei me aperfeiçoar nem melhorar? Quantas vezes neguei que errei, fingi que eu não tinha problema algum, apenas para mostrar para os outros o quão “perfeita” eu era? Quantas vezes eu ainda caio nessa armadilha e me pego fazendo isso? Enquanto eu não assumir minhas falhas, erros e responsabilidades, jamais conseguirei aprender com eles.

É verdade, tenho melhorado. Hoje, olho para trás e vejo quanta besteira fiz, mas também vejo o quanto aprendi. No meu caminho tortuoso, também construí coisas maravilhosas, conheci pessoas lindas que valeram à pena. Poderia ter sido diferente?  NÃO. Eu não acredito que poderia ter sido diferente. Eu vivi o que precisava viver. Eu vivi exatamente da forma que foi possível. Vivi, da única forma que eu sabia, com a maturidade que eu tinha e fiz o que podia.  Hoje, entendo e não vou mais me culpar ou me punir por não ter sido melhor, por não ter sido “perfeita”. Aceito os ensinamentos do meu passado, e reconheço que foi ele que me trouxe até aqui.  

O meu passado é a minha referência, meu ponto de partida. Ele não me define, mas me ajuda a entender meu presente. Por causa do meu passado sei para onde não quero mais ir. O que vivi já passou, o que fiz já aconteceu. Tenho consciência de minhas decisões de hoje não precisam ser as mesmas de ontem. Hoje escolho seguir e escolho a cada minuto para onde ir. Agora, enfim, já sei onde quero chegar, não estou apenas sendo levada. Estou caminhando, com minhas próprias pernas e, claro, acompanhada e apoiada por  pessoas muito queridas e especiais que fazem toda diferença.


Sim, ainda me vejo cometendo deslizes, muitas vezes parecidos com os de antes. Mas agora existe uma grande diferença, agora eu quero mudar. Chega de punição, mas também chega de desculpas para não mudar. Hoje sei que a mudança me obriga a sair da minha zona de conforto. Bom, sair da zona de conforto dói, dá medo e exige coragem e perseverança.  Preciso entender que no meu caminho (principalmente na jornada contra a bulimia) haverá deslizes, mas isso não significa o fracasso do processo, cabe a mim levantar e continuar a caminhada.  Sei que ainda estou longe da cura, mas já consigo sentir satisfação pelo processo.  Me sinto feliz pelo direção que decidi seguir e isso, por si só já  está sendo uma boa recompensa. 

domingo, 24 de junho de 2012

Quando o passado bate na sua porta


Esta noite não dormi absolutamente nada. Fiquei me contorcendo na cama, andando de um lado para o outro, tendo palpitações, suando frio e tendo pensamentos repetitivos sobre fracassos, medo, compulsão, limites, etc. Foi muito, muito difícil segurar a onda e não “resolver” todos meus problemas como estou acostumada: comendo muito, até o limite, e me esvaziando (tirando de mim toda aquela angústia, aquela dor, aquele sofrimento).

Acho que a parte mais difícil da superação da doença é esta. Aprender a encarar este sentimento e entender o que fazer na hora que eles chegam. Eu simplesmente não sei (pelo menos não ainda). Sinto uma dor no fundo da minha alma. Uma dor física e psíquica. Gostaria de conseguir descrever em palavras o quão grande ela é, pois tenho a sensação que nada que eu fale vai traduzir o meu sentimento. Já experimentei algumas dores físicas, mas nada, nada se compara a essa dor, nem mesmo a dor do parto normal (que julgam ser tão grande), para mim, foi menor do que a dor que sinto quando minha alma sofre.

Depois de muito lutar para dormir, consegui enfim adormecer, por volta das 5 horas da manhã. Às 9 horas acordei, era o “meu passado batendo em minha porta”. Uma grande amiga minha tocou a campainha da minha casa, ela necessitava de ajuda. Por algum motivo, o que ela estava passando fez com que eu me lembrasse da minha história, época em que eu bebia muito e talvez, por sorte, ainda esteja aqui.

Entre os meus 18 e 25 anos, eu vivi uma fase muito conturbada da minha vida. Eu posso dizer que nesta época eu fiquei muito perdida. Vivia minha vida de uma forma descontrolada. Estava na busca do prazer, da emoção. Lembro-me de ser muito intensa e querer tudo para ontem. Era tudo ou nada, ou 8 ou 80. Minha vida parecia uma montanha russa de emoções. Eu já tinha bulimia, mas na minha lembrança a doença, na época, era mais “controlada”.

Claro que a bulimia era um problema menor naquela época. Eu “utilizava” menos a bulimia para me livrar das minhas dores psicológicas. Eu afogava minhas angústias, medos, sofrimento e frustração em outro vício: na bebida. Nesta época a minha depressão era muito forte e presente. Sentia um vazio enorme no meu peito, na minha alma. Inicialmente eu não queria estar viva, depois comecei a desejar a morte. Para esquecer a dor e o sofrimento, eu toparia fazer qualquer coisa, pois não havia futuro em meus planos.

Buscava a “felicidade, a emoção” de cada momento. Queria aproveita o dia, o momento, em toda sua potencialidade. Que inocência. O problema é que para atingir o aproveitamento total, eu fui precisando de mais: mais um gole, mais uma dose, mais um copo, mais uma garrafa, uma dose mais forte. Quando eu me dei conta, a bebida me controlava.  

Rapidamente, minha vida foi virando um inferno. Eu bebia para “ficar bem”, precisava sempre mais, de algo mais forte para sentir aquele “alívio imediato”.  No outro dia eu tinha que encarar tudo de novo, a depressão, medos, angústias, ansiedades. Aquela era a minha fuga, a minha muleta. E assim fui (sobre) vivendo. Voltei diversas vezes dirigindo para casa após beber meia garrafa de whisky ( o caminho?  É claro que não lembro). Tive coma alcoólica e fui levada a hospitais, algumas vezes. As perdas de memórias aconteceram, várias vezes. É chato lembrar o que me disseram que eu fiz.

Não me orgulho deste meu passado. Lembro que nesta época eu poderia ter me envolvido com o uso de outras drogas. Mas existia em mim (ainda que pouca, mas alguma) consciência de que eu não tinha maturidade e capacidade para encarar qualquer droga. Eu sabia que eu era fraca demais para elas e que se eu entrasse em algo mais forte, jamais eu sairia. Eu sabia que eu era uma pessoa facilmente viciável. Por isso, só por isso, nunca experimentei coisas mais pesadas.

Bom, hoje, eu ainda bebo. Não bebo todo final de semana e nem todas as vezes que saio com amigos e família. Bebo apenas quando estou a fim (provavelmente o certo fosse nunca mais beber). Mas nunca, NUNCA coloco um gole de bebida destilada em minha boca (ela tem um efeito avassalador em mim).  Tento beber com moderação. Peço ajuda aos que amo para que me avisem caso eu esteja saindo um pouquinho da linha. Nesta hora eu deixo a bebida de lado e passo a tomar água. Quase sempre isso funciona.

Mas deixar a bebida não foi algo tranquilo. Eu fui substituindo as doses de bebida pelas crises de bulimia. Como não tive acompanhamento médico e psicológico (pois eu não achava que precisava), eu fui atrás de outra muleta.   A bulimia era “perfeita” para este papel. Fui ficando viciada em comer descontroladamente e vomitar. Mas é claro que encontraria outro inferno pela frente. Pois muletas quebram... A sujeira não pode ficar para sempre debaixo do tapete.

Agora estou aqui, disposta a mudar isto. Estou mais madura, mais consciente, mais esperançosa. Estou aprendendo a me conhecer e a encarar meus medos. Não é fácil, pois sempre fugi deles, mas não quero mais fugir. Sim, foram 20 anos de fuga. Mas quer saber? Posso ter mais que 20 anos de vida. De vida plena!!!

sábado, 23 de junho de 2012

Deixando de lado o "tudo ou nada"


  
Li em diversos lugares que as pessoas com bulimia são pessoas extremistas e tendem a ter pensamentos baseados no “tudo ou nada”. Adoraria dizer que esta teoria é uma bobagem e que eu não me enquadro nela. Mas infelizmente isso não é verdade. Apesar de ter consciência de que não deveria tratar as coisas de forma tão radical, que o mundo não é preto ou branco, que as coisas não são necessariamente boas ou más, eu ainda me vejo várias vezes caindo em armadilhas que minha mente me coloca.


Ainda demoro a perceber que estou presa em pensamentos extremistas, para então começar a luta para desatar os nós que criei (mentalmente para chegar às conclusões que cheguei). O pior é que sofro enquanto vivencio minha crença extremista. Demoro a sair do olho do furacão.

Ontem mesmo vivenciei este sofrimento (novamente). Estou comprometida com minha jornada rumo à recuperação e lutando fortemente contra a bulimia. Tenho feito um esforço descomunal para deixar de comer compulsivamente de 5 a 8 vezes diárias (e vomitar), para fazer isso apenas uma vez ao dia. Eu poderia estar melhor? Não, eu não poderia. Outra pessoa talvez, mas eu estou fazendo o que EU POSSO.

Mas ontem, quando eu estava no olho do furacão, eu não conseguia lembrar isto.  Ontem eu estava sentindo uma dor terrível no meu corpo (possível gripe chegando) então não fui nadar. A natação tem sido para mim uma excelente forma de liberar endorfina no meu corpo.  Adoro o contato com a água, fico relaxada, menos ansiosa. Durante as braçadas vou pensando nos problemas e vou desmistificando um a um. A natação é uma terapia para mim.

Bom, ontem, não nadei, consequentemente, nada de endorfina. Para completar, eu estou passando por um momento em que preciso tomar uma decisão pessoal, o que sempre me estressa. Tenho grande dificuldade de lidar com mudança. Enfim, cheguei em casa mais cedo do que de costume, comi enlouquecidamente, vomitei mais enlouquecidamente ainda e não estava satisfeita.  Sofri durante horas para não comer novamente e não vomitar. Não dormi nada. Eu sofri, pois não queria comer e vomitar. Mas me senti muito mal por desejar do fundo da minha alma fazer isto para fugir do meu problema (ter que tomar a decisão, ter que pensar na decisão, ter que encarar a decisão).

Lutei, sofri, me contorci para não dar um passo para trás na minha jornada rumo à recuperação. Me senti uma fracassada e me vi como a pior pessoa do mundo. Agora, pela manhã, após acordar, beijar meus lindos filhos e tomar um café da manhã equilibrado, sem vômitos, vejo como minha noite foi bem sucedida. Como fui dura comigo, como fui injusta. Lá estava eu mergulhada no meu pensamento extremista do “tudo ou nada”. Naquele momento, eu achava que não bastava não comer e vomitar que eu o “certo” seria nem querer. Por isso, quase que eu comi. Uma vez, que eu já me achava perdedora...

Entendo que tenho que encarar meus pensamentos e sentimentos negativos. Preciso lutar contra eles. Mesmo que no começo isso me traga desconforto. Acredito que com o tempo irei aprender a não cair nas armadilhas que minha mente me prega. Isso não significa tampar o sol com peneira, fingir que os problemas não existem, mas apenas encarar os problemas da forma que eles são de verdade.

Ou seja, se eu desejo comer e vomitar não significa que sou uma fracassada. Se eu comi e vomitei, não significa que nunca irei conseguir fazer diferente. Significa sim, que o processo não está sendo fácil, que terei que me esforçar ainda mais.  Significa lembrar que já estive bem pior, já evolui muito no processo. Ver as evoluções passadas e reconhece-las são importantes para manter o foco de que sou capaz de ir mais além. De que consigo seguir e continuar melhorando. Tenho 35 anos de idade, mas preciso ter paciência comigo e lembrar que na busca pela cura sou apenas um bebe aprendendo a engatinhar.