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terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Frustração

Hoje falhei. Me enchi de comida, me entupi de comida, para tentar fugir da descoberta que fiz e não queria ter feito. Tentando fugir do que sei que está ali, mas finjo não estar, mas agora já sei e não quero saber. Como sem fome, tentando encher minha alma com algo que a comida não consegue me preencher.  A barriga doi e eu gosto dessa sensação, me afasta da realidade que eu não quero lembrar. Mas eu lembro. E isso me deixa frustrada. A bulimia não me ajuda mais. 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Mendigando amor


Em algum momento lá na minha infância eu entendi que eu precisava ficar doente para receber amor, carinho e atenção. Eu chegava a desejar ficar doente.  Muitas vezes eu ficava com febre.  Acho que, de certa forma, meu corpo adoecia como um mecanismo de defesa quando minha mente já não aguentava mais o sofrimento interno. Eu desejava apenas uma coisa: o amor materno.

Confessar que eu precisava do amor materno foi aterrorizante para mim. Levei quatro anos de psicanálise e chorei várias sessões seguidas para enfim conseguir sair com a frase: “acho que não me sentia suficientemente amada pela minha mãe”. Parecia que eles (meus pais) estavam lá me ouvindo. Senti-me má, ingrata, injusta, mimada, envergonhada, mal agradecida. Será que eu estaria sendo injusta? Posso dizer que ainda é muito desconfortável para eu pensar nisso. Sinto-me culpada por não ter me sentido amada. Mas o fato é que quando me lembro da minha infância e vivencio os meus sentimentos daquela época, percebo que eu não me sentia, de fato, amada, principalmente, pela minha mãe. Eu sempre achei que precisava fazer algo por ela, para merecer o amor dela, para compensar o “trabalho” que estava dando (eu não era fácil), para compensar as perdas que ela teve quando me nasci. 

Para aceitar e trabalhar com esses aspectos,  estou  vivenciando vários sintomas de ansiedade. Tem dias que sinto como se meu peito não fosse acomodar o ar que o meu corpo precisa. Parece que vou morrer. Sinto falta de ar e tenho a sensação de que não consigo respirar direito. No meu caso, tenho consciência que o que sinto é exagerado e que vai passar, mas tem horas que parece interminável.  É angustiante. Sinto uma tensão enorme no pescoço. Meu coração acelera. Além disso, sinto como se meu corpo tivesse vibrando por dentro, soltando uma espécie de descarga elétrica, como se fosse explodir, e tem horas que eu gostaria que ele explodisse. E então eu sinto raiva de estar assim. Fico com medo de ficar louca de perder o controle.  Sinto um nó na garganta e de certa forma esse nó me lembra como eu gostaria de vomitar para “aliviar” tudo!!! Sempre aliviei meus sentimentos dessa forma. Sempre foi a forma que eu consegui ficar no controle. Meu sintoma (bulimia) foi um “remédio torto” para aliviar esses outros sintomas da ansiedade.  

A verdade é que tenho vivenciado esse sentimento físico de ansiedade, angústia (ou sei lá o que), várias vezes ao dia, e não só quando penso na minha relação com minha mãe. Percebo que esse sentimento se repete em situações relacionadas a aceitação, amor e expectativas que tenho em relação a outras pessoas e não gostaria de ter, pois sempre fico me julgando.  Com certeza estou no meio do furação de ideias e me sinto confusa para chegar a algumas conclusões. Então, por enquanto, estou apenas especulando várias possibilidades, tendo insights e tentando não julgar meus pensamentos.

De certa forma para mim, eu utilizava a bulimia para me “fortalecer”. Bom, pelo menos era o que eu achava que eu fazia. Eu tinha a falsa sensação de fortaleza. De que eu não dependia de ninguém. Eu me sentia forte. Não dependia de amor, de carinho, de aceitação. Se eu ficava brava, usava a bulimia e me acalmava.  Se estava sozinha, a comida era minha companhia. Se estava ansiosa (nó na garganta), o vômito anestesiava essa sensação.  Se sentia tristeza,  uma comida quentinha,  me abraçava por dentro. E esse comportamento irritante e destruidor, que iniciei na adolescência aos 15 anos, para me “confortar”, foi se tornando um hábito, uma forma operante de viver, de lidar com tudo.

É fato que mantenho a bulimia ainda porque acho que ainda ganho algo com esse comportamento. A questão é:  a mantenho porque não consigo lidar com tudo, ou não quero lidar com tudo para receber atenção e continuar doente? O amor que mendigo é o amor que desejo? Conseguirei eu mesma me amar e suprir esse amor que tanto busco? Um dia estarei pronta para receber apenas o que vier e pronto?  

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Confissão


Estou me mantendo presa no meu comportamento alimentar. Consigo perceber quase que diariamente que escolho a manutenção do hábito doentio (ainda que de forma menos intensa que no passado) do que continuar a minha trilha pela recuperação. Nem eu consigo me enganar com os motivos que estou inventando para mim mesma para a manutenção da mentira (pois manter meus comportamentos alimentares sem um esforço latente para sair deles me parece uma manutenção da mentira).


O que me mantem presa em minha mentira? Por que não consigo de fato abrir mão da compulsão/vomito que ainda acontece quase que diariamente em minha vida? Sei que já dei passos importantes nessa jornada, isso me faz apenas concluir que sou mais que capaz de dar mais este passo. Vivi momentos de torturas físicas para dar os primeiros passos. Lembro como foi difícil passar os primeiros 15 dias sem comer e vomitar durante o dia, pois todas as refeições que eu fazia eu vomitava, isso era o meu natural. Eu precisei viver um momento de sofrimento que, a meu ver, foi bem parecido com uma abstinência (veja o post que escrevi sobre isso).

E agora? Porque não consigo me esforçar e nem tento com tanto empenho como antes.  Porque me apego a essa doença como se ela fosse minha tábua de salvação?  Porque ainda acredito que ela é a única coisa capaz de me acalentar? Porque tenho tanto medo de perder isso? Porque tenho medo de ficar sozinha e não ter o minha válvula de escape para me ninar? Porque  tenho medo de perder a única ferramenta que sempre acreditei que me alivia a tristeza quando eu precisava? Porque tenho medo de perder minha ferramenta de controle mais precisa? Racionalmente sei que tudo isso é pura ILUSÃO.  Ela não me acalma, não me ajuda, não me acalenta, não me alegra, na verdade ela me ilude!!! Cada vez que utilizo a bulimia eu tenho a sensação de que dou um pause na vida e fujo dos problemas. Quando retomo a vida, simplesmente ignoro a sujeira, ela continua lá, mas estou “drogada” demais para me importar com ela.


"Mentira é o nome dado as afirmações ou negações falsas ditas por alguém que sabe (ou suspeita) de tal falsidade, e na maioria das vezes espera que seus ouvintes acreditem nos dizeres. Dizeres falsos quando não se sabe de tal falsidade e/ou se acredita que sejam verdade, não são considerados mentira, mas sim erros."



segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Chega de boicote


Estou fraca!!! Não fisicamente dizendo, mas psicologicamente. Talvez, mentalmente, eu também esteja bem lenta... Percebo que meu poder de concentração e meu poder cognitivo dos últimos dias estão péssimos. Não estou conseguindo me concentrar em nada que estou fazendo. É como se minha mente não me respondesse.

Não sei se perceberam mais eu parei de atualizar a página “recuperação”. Quando eu criei está página minha intenção era que eu pudesse verificar o progresso da minha jornada rumo à recuperação e assim eu pudesse ter uma visão mais ampla do quadro como um todo. Bom, o último mês minha evolução não foi nada boa. Isso estava me gerando ansiedade e um sentimento terrível de frustração. Precisei deixar de atualizar aqui e de parar de contabilizar na minha cabeça o número de compulsões e vômitos na semana.

Eu já havia lido uma matéria muito interessante sobre o assunto, que mostra que a recuperação é um processo muito mais amplo do que o número de vezes que as crises ocorrem. A matéria alerta para o perigo de se contabilizar o progresso da recuperação por meio da quantidade de compulsões/vômitos. Ela mostra que o processo é formado de muitos outros fatores, como por exemplo, capacidade de se alimentar sem fazer restrição (3 refeições e 3 lanches); capacidade de comer alimentos "proibidos" (chocolates, doces, gorduras); aceitação corporal; capacidade de identificar uma compulsão e evitá-la; etc... 


Apesar de saber disso, eu me vi despreparada para enfrentar a primeira vez que percebi que eu estava piorando. Que ao invés de subir as escadinhas da recuperação eu estava ficando parada e que eu continuava comendo e vomitando uma vez ao dia e não estava mais conseguindo deixar de fazer isso durante nenhum dia sequer, como eu consegui no mês anterior. Me senti fracassada diante das recaídas e da minha “piora”.


Coloquei “piora” entre aspas pois tenho consciência que antes de começar meu processo de recuperação há cinco meses atrás, durante 20 anos da minha vida, eu comia e vomitava de 5 a 8 vezes diárias, todos  os dias então a minha “piora” é relativa. Se eu for considerar um período mais longo eu ainda estou melhor do que estava. Talvez seja meu negativismo gritando, “você não vai conseguir!!! Você é uma bosta!!!”. Sou eu me boicotando. (Quero fazer um post sobre isso)  

Estou vivendo esse momento negativo (pois estou longe de ser positiva). No entanto, hoje estou um pouco mais forte que ontem, um pouco mais otimista. Fiquei muito mal nesses dias que sumi. Mal a ponto de sumir daqui (boicote), a ponto de não conseguir pedir ajuda (boicote), a ponto de querer desistir de tudo (boicote). Mas como eu já disse lá atrás, minha vida chegou a um ponto que eu sei e tenho certeza que não quero mais a bulimia comigo. Não posso e não vou me boicotar. Parei, cai e estou levantando. Chega de boicote.

domingo, 8 de julho de 2012

Desafio: jantar com os amigos (sem vomitar) – batalha perdida


Incompetente. É assim que tenho me sentido desde ontem.  Ontem eu encarei um desafio que eu já sabia que estaria por vir. E eu fracassei.  Hoje, estou me sentindo muito mal. Triste, com vontade de me isolar, de me castigar. Estou sentindo uma dor no meu peito que conscientemente sei que é grande demais para uma falha que eu não deveria considerar tão grande assim, quando comparado com o progresso que venho feito nos últimos dias.

Como vocês sabem, eu comia e vomitava de 5 a 8 vezes por dia, todos os dias. Essa marca vem diminuiu para uma vez ao dia. No entanto,  eu só consegui ficar sem vomitar durante as 24 horas, apenas por 7 vezes (desde que eu comecei a minha trajetória).  Talvez o desafio e a expectativa de passar 24h sem vomitar no dia do jantar com meus amigos tenham sido altos demais para este momento.  Não é sem motivo que existem diversos aconselhamentos para que sejam dados passos de bebês durante a recuperação do transtorno alimentar.  Eu sei de tudo isso. Mas me senti mal. Muuuuuito mal. Odeio  traçar metas, objetivos e não alcança-los. Tendo a ser muito rígida comigo.

Por causa da minha falha e da expectativa não cumprida, hoje está sendo um dia particularmente bem difícil. De alguma forma paradoxal, sofro por sentir falta da bulimia, do alívio que ela me proporcionaria em momentos como este, da forma que ela me castiga sem que ninguém perceba, da anestesia e da alienação que ela me oferece, quando tudo que mais quero é esquecer-me de tudo.


Mas SÓ POR HOJE, EU DECIDO: não vou utilizar a bulimia.  Assim farei a cada dia.  Recomecerei a cada manhã.  Não vou evitar o desconforto de emoções difíceis.  O fracasso dói, dói muito,  mas jamais aprenderei a enfrentá-lo, sem encará-lo.  


Ainda não sei como será minha vida, ainda estou aprendendo e experimentando novas formas de lidar com meus sentimentos. Ver, reconhecer, entender e aprender a lidar com o que tenho de feio, não vai ser fácil. A bulimia escondia tudo isso para mim.


Em relação ao jantar, o que posso dizer é que fiquei triste e deprimida. Agora, porém, após escrever este post, me sinto um pouquinho melhor. Vou tentar analisar o que aconteceu na noite de ontem, avaliar meus sentimentos, pensamentos e o que desencadeou a minha crise.  Para tanto, utilizarei a técnica (baseada na terapia cognitiva-comportamental) proposta por uma pessoa muito querida, que cruzou o meu caminho recentemente.  Obrigada, Fran!!!

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Uma Mudança no Olhar. O Início da Cura?


Hoje eu estava desanimada, um pouco triste. Não havia nem um motivo específico, mas simplesmente eu estava me sentindo assim. Comecei a pensar sobre os 20 anos em que vivi com bulimia e pensei na causa que me levou a decidir apenas agora a me entregar à cura e aceitar os desafios que o tratamento do transtorno alimentar propõe. Claro, estou no início da minha jornada, mas, agora, de certa forma, sinto que algo dentro de mim mudou. Consigo me ver lá do outro lado superando cada desafio. Estou disposta a enfrentar um por um.

Lembro-me das diversas vezes que falei para mim mesma: “Esta é a última vez. Estou cansada desta vida. Seguirei o tratamento”. No entanto, a cada sugestão feita pelos profissionais que mudasse minha rotina e que pudesse me fazer engordar, perder meus “benefícios”, me expor, ou se simplesmente eu não concordasse, eu os boicotava. Era simples assim: “farei tudo o que vocês pedirem, para isso, basta apenas que vocês me falem para que eu faça somente o que eu quero”.
  
Olhando para o passado friamente, eu posso concluir que as milhões de decisões “sinceras” que fiz pela cura, não foram tão sinceras assim. Mas eu estaria sendo muito injusta se, ao olhar para trás, eu dissesse que não houve nenhuma verdade nas minhas decisões em relação ao tratamento. Eu verdadeiramente tentei cumprir algumas tarefas feitas pelos médicos, no entanto, ao não conseguir eu desistia, eu desistia da guerra. Na época eu não entendia que nunca se perde uma guerra ao se perder uma batalha. Nunca!!!

Além disso, havia um fato que eu preciso admitir, eu queria melhorar, mas eu também queria manter a bulimia.  Para mim a bulimia ainda era minha muleta, meu trunfo, meu plano B. Fui a vários psiquiatras diferentes, tomei vários remédios. Procurei muitos psicólogos. Mas a verdade é que para mim os remédios aliviaram pouco a dor que eu sentia. Largava os remédios e trocava de médico. Apesar da minha forma caótica de lidar com o tratamento, sempre havia uma boa intenção.

Cada tentativa e falha subsequente me convenceram de que eu nunca seria capaz de parar. Isso me levou durante alguns anos a desistir de sonhar com a recuperação. Sim eu continuava a ir ao psiquiatra e à terapia, mas nesse ponto eu não queria largar a bulimia. Eu ia aos médicos com o objetivo de aliviar o sofrimento de viver com o transtorno alimentar, mas não com a intenção de largá-lo. 

Não posso desfazer as coisas que fiz e a forma como agi. Realmente acho que perdi muito tempo. No entanto, de alguma maneira paradoxal, algo mudou em mim, e a forma como agi, hoje, me dá força para que eu não queira abrir mão de algo que eu quero desesperadamente. Hoje continuo com muito medo de muitas coisas no futuro, mas o meu passado já não me ilude mais. Já sei o quão negativo é viver com a doença e agora já tenho certeza que, para onde quer que eu vá, será melhor do que onde eu estou.

Sim, tenho meus momentos de fraqueza, continuo me sentindo acuada diante de várias situações. Mas estou exercitando minha paciência e trabalhando na minha persistência. Mudei meu foco na terapia e na psiquiatria. Hoje tomo menos remédios e trabalho de uma forma mais profunda. Não busco aliviar sintomas, busco a cura. Hoje sonho com isso, acredito nisso, inclusive já me visualizo do outro lado, curada.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Bulimia e a falta de capacidade de lidar com a frustração


Tenho que admitir, por mais difícil que seja, que tenho muita dificuldade de lidar com frustração. Odeio planejar algo em minha mente e não conseguir atingir o objetivo desejado. Odeio criar uma expectativa e não vê-la ser concretizada. Fico frustrada, com raiva e me sinto uma merda. Ainda estou aprendendo a lidar com o “tudo ou nada”, e enquanto isso não se tornar algo real em minha vida, continuarei me frustrando e sofrendo emocionalmente com minhas “falhas”. Flexibilização e busca de equilíbrio é o que preciso fazer, sim, eu já sei, mas confesso que o caminho ainda está difícil para mim.

Ao me analisar, percebo que tento evitar situações que possam me levar à frustração. Isso muitas vezes faz com que eu simplesmente desista de muitas coisas, apenas por medo. Não me dou à oportunidade de tentar realizar coisas que eu desejaria muito. O medo do fracasso e falta de capacidade de lidar com a frustração, me deixam completamente paralisada.

A bulimia, no meu caso, é uma marca clara da minha falta de capacidade de lidar com a frustração. Da minha falta de capacidade de aceitar meu corpo, da minha falta de capacidade de aceitar o meu peso, da minha falta de capacidade de aceitar meus erros, da minha falta de capacidade de aceitar minhas falhas, medos, ansiedades e frustrações. Eu traço expectativas e metas, e quando não consigo cumpri-las fico frustrada e agressiva comigo.  Pois a bulimia é uma forma de autoagressão. Ela vai te matando aos poucos, primeiro você perde os amigos, depois o cabelo, os dentes... a saúde, a vida.

Mas como aprender a mudar de atitude? Como aprender a lidar com a frustração? Tenho me esforçado para mudar minha forma de lidar com meus fracassos. Hoje, busco enfrentar meus erros, encará-los, ao invés de fugir deles.  Quero fazer as pazes comigo quando não consigo alcançar exatamente o que eu planejava. Estou mais disposta a analisar o que aconteceu de fato e desta forma ser mais justa comigo. Tentarei procurar me parabenizar pelo meu progresso durante o processo (em longas jornadas), ao invés de ficar me concentrando em um deslize no meio do caminho. Quando eu olho para trás vejo o quanto já cresci. 

Minha caminhada para frente ainda é infinitamente maior do que a que eu já realizei. Mas agora tenho a certeza de que não estou mais parada. Agora, sei que posso continuar andando (que sou capaz de andar) e cada vez tenho mais força para continuar minha busca, de forma mais plena para um futuro promissor. 

terça-feira, 26 de junho de 2012

Disciplina é liberdade - a bulimia e a falta de disciplina


Nunca fui uma pessoa muito disciplinada. Fui mais o tipo de pessoa que deixava tudo para a última hora. Aparentemente, essa forma de viver funcionava muito bem para mim. Não me esforçava no decorrer do percurso, não me importava com o caminho, apenas com o resultado. E isso era o suficiente para mim.  A verdade é que eu não chegava a ser a melhor de todas, mas sempre estive lá entre OS melhores. Esta posição de “acima da média”, “entre os melhores” (como eu me considerava) me satisfazia.

Olhando criticamente, acho que na verdade eu nunca cheguei a me aventurar em coisas que não fossem fáceis (confortáveis) para mim. Eu simplesmente tinha medo de não conseguir atingir aquele padrão que eu tinha me imposto (ficar entre os melhores, sempre acima da média). Então, por diversas vezes eu não quis nem sequer tentar realizar certas atividades. Não porque eu não me interessava por elas, mas por medo do fracasso (ou preguiça?). Para mim era insuportável a ideia de não estar entre os melhores.

Eu não me acostumei com o esforço a longo prazo, a disciplina contínua e a perseverança para atingir um bom desempenho. Sempre fui mais do tipo de pessoa que preferia os esforços intensos e que me trariam o resultado rápido e esperado. Quando virei adulta e o meu mundo se ampliou, ficou mais difícil atingir meu “padrão” desejado (ficar entre os melhores) sem esforço e disciplina contínua. Na minha competição imaginária (em que eu crio um ranking), eu não “competia” apenas com os coleguinhas da turma ou do bairro. Eu passei a “competir” com pessoas da universidade, da minha cidade. Claro a partir daí, para mim, eu passei a ser uma fracassada, pois no meu ranking eu não estava mais lá, entre as três melhores, e isso me deixava enfurecida.

Analisando minha bulimia vejo que repito esta atitude, todos os dias. Todas as vezes que não quero aceitar e ter disciplina (aprendizagem) para com meus sentimentos, frustrações, medos e angústias, eu acabo por me empanturrar de comida e vomito tudo para me dar um alívio momentâneo e desta forma  coloco a sujeira debaixo do tapete. Ela ainda está lá, só que finjo que não vejo. Quando como mais que deveria e tenho medo de engordar o que faço? Vomito, é claro. Corpo leve, consciência pesada (o que é mais importante???).

Bom, durante muito tempo eu acreditei que a bulimia era uma forma de disciplina e que com ela eu poderia ser especial, estaria “acima da média”.  Eu achava que eu estava controlando meu peso e controlando minha raiva, meus medos, ansiedades e angustias. Mas, na verdade, eu não controlava nada. Primeiro, porque meus problemas psicológicos continuavam lá, a sujeira já não cabia debaixo do tapete.

Durante estes 20 anos com a bulimia, eu fui escrava da doença. Ou seja, não havia disciplina, pois não havia escolha. Chegou o ponto em que eu não decidia o que eu queria, eu simplesmente me sentia obrigada a comer e vomitar, para poder ter aquele alívio, aquele êxtase. Sim, é verdade, eu me  permiti entrar nesta prisão, mas eu tinha a ilusão que estava livre. Agora, não mais. Hoje consigo ver que não alcancei meta nenhuma com a bulimia. Pelo contrário só me distanciei delas, só acumulei problemas e não aprendi como resolve-los, por indisciplina, falta de paciência, e de perseverança.

Hoje olho para mim, e me vejo como uma nova mulher interrompida pela bulimia, mas jamais morta. E agora estou seguindo em frente. Buscando uma nova vida, alguma vida, a minha vida, a vida plena. 

Quero sim introduzir na minha vida a disciplina, conforme o dicionário: "deriva da palavra discípulo, aquele que segue. Discípulo é aquele que escuta e põe em prática aquilo que aprendeu". Tenho aprendido muito e estou colocando em prática cada coisa aprendida. Sim, tenho milhões de medos e ainda milhões de limitações, ninguém muda do dia para a noite.

Estou me esforçando para reconhecer meus pequenos êxitos e progressos. Quando o caminho é longo não é possível atravessá-lo sem sentir sede, fome e cansaço. Não quero mais me enganar com fórmulas mágicas, pois elas não existem.  Preciso aprender a ter calma, perseverança e disciplina. Pretendo monitorar meu progresso (para manter foco em o que está dando certo) e não me preocupar excessivamente com recaídas (elas acontecem, pois sou humana). No caso de recaídas, devo aprender e seguir mais forte. “Disciplina é liberdade”. 

domingo, 24 de junho de 2012

Quando o passado bate na sua porta


Esta noite não dormi absolutamente nada. Fiquei me contorcendo na cama, andando de um lado para o outro, tendo palpitações, suando frio e tendo pensamentos repetitivos sobre fracassos, medo, compulsão, limites, etc. Foi muito, muito difícil segurar a onda e não “resolver” todos meus problemas como estou acostumada: comendo muito, até o limite, e me esvaziando (tirando de mim toda aquela angústia, aquela dor, aquele sofrimento).

Acho que a parte mais difícil da superação da doença é esta. Aprender a encarar este sentimento e entender o que fazer na hora que eles chegam. Eu simplesmente não sei (pelo menos não ainda). Sinto uma dor no fundo da minha alma. Uma dor física e psíquica. Gostaria de conseguir descrever em palavras o quão grande ela é, pois tenho a sensação que nada que eu fale vai traduzir o meu sentimento. Já experimentei algumas dores físicas, mas nada, nada se compara a essa dor, nem mesmo a dor do parto normal (que julgam ser tão grande), para mim, foi menor do que a dor que sinto quando minha alma sofre.

Depois de muito lutar para dormir, consegui enfim adormecer, por volta das 5 horas da manhã. Às 9 horas acordei, era o “meu passado batendo em minha porta”. Uma grande amiga minha tocou a campainha da minha casa, ela necessitava de ajuda. Por algum motivo, o que ela estava passando fez com que eu me lembrasse da minha história, época em que eu bebia muito e talvez, por sorte, ainda esteja aqui.

Entre os meus 18 e 25 anos, eu vivi uma fase muito conturbada da minha vida. Eu posso dizer que nesta época eu fiquei muito perdida. Vivia minha vida de uma forma descontrolada. Estava na busca do prazer, da emoção. Lembro-me de ser muito intensa e querer tudo para ontem. Era tudo ou nada, ou 8 ou 80. Minha vida parecia uma montanha russa de emoções. Eu já tinha bulimia, mas na minha lembrança a doença, na época, era mais “controlada”.

Claro que a bulimia era um problema menor naquela época. Eu “utilizava” menos a bulimia para me livrar das minhas dores psicológicas. Eu afogava minhas angústias, medos, sofrimento e frustração em outro vício: na bebida. Nesta época a minha depressão era muito forte e presente. Sentia um vazio enorme no meu peito, na minha alma. Inicialmente eu não queria estar viva, depois comecei a desejar a morte. Para esquecer a dor e o sofrimento, eu toparia fazer qualquer coisa, pois não havia futuro em meus planos.

Buscava a “felicidade, a emoção” de cada momento. Queria aproveita o dia, o momento, em toda sua potencialidade. Que inocência. O problema é que para atingir o aproveitamento total, eu fui precisando de mais: mais um gole, mais uma dose, mais um copo, mais uma garrafa, uma dose mais forte. Quando eu me dei conta, a bebida me controlava.  

Rapidamente, minha vida foi virando um inferno. Eu bebia para “ficar bem”, precisava sempre mais, de algo mais forte para sentir aquele “alívio imediato”.  No outro dia eu tinha que encarar tudo de novo, a depressão, medos, angústias, ansiedades. Aquela era a minha fuga, a minha muleta. E assim fui (sobre) vivendo. Voltei diversas vezes dirigindo para casa após beber meia garrafa de whisky ( o caminho?  É claro que não lembro). Tive coma alcoólica e fui levada a hospitais, algumas vezes. As perdas de memórias aconteceram, várias vezes. É chato lembrar o que me disseram que eu fiz.

Não me orgulho deste meu passado. Lembro que nesta época eu poderia ter me envolvido com o uso de outras drogas. Mas existia em mim (ainda que pouca, mas alguma) consciência de que eu não tinha maturidade e capacidade para encarar qualquer droga. Eu sabia que eu era fraca demais para elas e que se eu entrasse em algo mais forte, jamais eu sairia. Eu sabia que eu era uma pessoa facilmente viciável. Por isso, só por isso, nunca experimentei coisas mais pesadas.

Bom, hoje, eu ainda bebo. Não bebo todo final de semana e nem todas as vezes que saio com amigos e família. Bebo apenas quando estou a fim (provavelmente o certo fosse nunca mais beber). Mas nunca, NUNCA coloco um gole de bebida destilada em minha boca (ela tem um efeito avassalador em mim).  Tento beber com moderação. Peço ajuda aos que amo para que me avisem caso eu esteja saindo um pouquinho da linha. Nesta hora eu deixo a bebida de lado e passo a tomar água. Quase sempre isso funciona.

Mas deixar a bebida não foi algo tranquilo. Eu fui substituindo as doses de bebida pelas crises de bulimia. Como não tive acompanhamento médico e psicológico (pois eu não achava que precisava), eu fui atrás de outra muleta.   A bulimia era “perfeita” para este papel. Fui ficando viciada em comer descontroladamente e vomitar. Mas é claro que encontraria outro inferno pela frente. Pois muletas quebram... A sujeira não pode ficar para sempre debaixo do tapete.

Agora estou aqui, disposta a mudar isto. Estou mais madura, mais consciente, mais esperançosa. Estou aprendendo a me conhecer e a encarar meus medos. Não é fácil, pois sempre fugi deles, mas não quero mais fugir. Sim, foram 20 anos de fuga. Mas quer saber? Posso ter mais que 20 anos de vida. De vida plena!!!

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Frustração mais uma vez


Hoje já fiz de tudo para evitar escrever este post. Estou com medo e receio de traduzir em palavras o que estou sentindo. Minha vontade é manter meus pensamentos em segredo, mas não dá. Os meus pensamentos já estão solidificados em minhas ações. E por mais que eu tente fugir deles, eles me perseguem. Então mudarei de estratégia. Confessarei meus “crimes” e espero que isso amoleça minhas ações, deixando que eu molde novos hábitos, novos pensamentos e novos sentimentos.

Frustração e raiva são os sentimentos de hoje. Estou extremamente chateada comigo pelo fato de ter conseguido, apenas uma única vez, durante os 18 dias em que comecei a minha jornada rumo à recuperação, ter ficado sem comer excessivamente e sem vomitar durante um dia inteiro (dia e noite). Há dois dias consegui pela primeira vez dormir sem a crise bulímica, mas ontem e hoje, fracassei.

Eu sei que deveria estar pensando pelo lado positivo, sei que deveria pensar em quanto já caminhei até agora e que deveria ter calma e blá, blá, blá. Mas hoje estou com uma dificuldade enorme em fazer isso. Estou com uma raiva enorme de mim. Tenho certeza que se fosse em outras épocas, hoje seria um daqueles dias em que comeria e vomitaria várias vezes, só para tentar aliviar essa dor que sinto no meu peito e que parece que não passa. Estou tremendo e sinceramente, não sei se conseguirei dormir...

Agora o que preciso fazer é encarar este sentimento de frustração e aprender como lidar com ele. Certamente, esta sensação vem da minha expectativa não realizada. Preciso respirar e entender que esta jornada será assim mesmo: serão tentativas, acertos, falhas, acertos, novas tentativas, mais acertos e depois menos falhas. Preciso deixar de lado a minha busca pela perfeição, pelo ideal e me contentar com o real, com o possível. Só assim deixarei de ter frustrações constantes.

Para não perder a esperança, reli posts de pessoas que contam suas trajetórias contra a bulimia. A busca de ninguém foi fácil e nem foram sem falhas ou recaídas. Mas uma coisa elas tiveram em comum: nenhuma desistiu. Recarrego minhas energias e ganho força de novo. Amanhã é um novo dia, uma nova luta, uma nova batalha. Sim, ainda virão muitas dificuldades, e eu preciso estar forte para enfrentá-las ou elas me derrotarão. Cair, aprender, levantar e seguir, continuando a jornada.