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segunda-feira, 6 de maio de 2013

Triste ciclo

Ela ficava depressiva e eu a “ajudava”. Ela melhorava e eu desabava em seguida.  Depois era a vez dela de demonstrar o “amor” dela por mim. Repetimos esse ciclo doentio. Eu nunca havia percebido, conscientemente, tenho certeza que ela também não... Mas fizemos tantas vezes que nem sei ao certo quando tudo se iniciou...

Lembro-me de algumas fases, em minha infância, em que minha mãe ficou depressiva. Não são lembranças claras, mas lembro de como eu me sentia: culpada e temerosa. Eu queria ajuda-la. Tinha muito medo que ela morresse. Rezava e pedia desculpa a Deus por ela estar doente. Jurava que seria uma "boa menina"...

Eu sabia que, em meus pensamentos ocultos, eu já havia desejado que ela morresse, por isso era natural o sentimento de culpa. Quando ela estava bem, nós brigávamos muito ou, então, estávamos sempre muito distantes uma da outra.

Ao me tornar uma adolescente, eu percebi que precisava parar de brigar com ela. Resolvi que faríamos “as pazes”. Não haveria mais discussões. O problema foi o preço que pagamos para encontrarmos essa “paz”. Eu desenvolvi um transtorno alimentar (não foi consciente, obvio) e desenvolvemos um ciclo de doenças. Este ciclo foi a forma que encontramos para “mostramos” nosso amor uma para a outra. Uma forma ridícula de demonstrar amor e pedir por ele. Uma forma ridícula de abrir mão do orgulho e dar amor. E, ridiculamente, doentiamente, fomos nos odiando, nos amando, nos perdendo, nos matando e morrendo...


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

“Ser verdadeira exige coragem e simplicidade”


Estou angustiada. Muitas vezes, ou normalmente, eu não consigo perceber o motivo da minha angústia, mas hoje de alguma forma sei que estou angustiada por que ontem demonstrei minha fragilidade para uma pessoa que eu havia acabado de conhecer. Tenho dificuldade em mostrar minhas fragilidades.  Sempre me esforcei demais para aparentar forte. Agora, estou passando por um momento em que decidi que quero ser mais honesta e verdadeira, pois uma das coisas que mais me incomodava (incomoda) com a bulimia é o fato de tudo ser velado, escondido, em segredo, como se tudo fosse uma grande mentira.  Ao falar disto na terapia, lembro-me do meu analista me alertando: “Ser verdadeira exige muita coragem e simplicidade”. Não tem um dia que não penso nessa frase e na complexidade que ela tem para mim.

Coragem... Simplicidade... 

Então... tentei ter coragem, mas não foi nada simples.  Para ser honesta e verdadeira, para falar o que estava se passando comigo, eu rebolei, enrolei e falei, mas acho que não fiz isso de forma simples, e certamente não fui corajosa. Mas pelo menos, e mesmo com medo, falei a verdade sobre meu trabalho e minha licença médica. Estou de licença médica há um ano, devido à depressão, ao transtorno alimentar e à ansiedade generalizada. Para mim, estar de licença (por esses motivos) é extremamente embaraçoso.  Sinto-me envergonhada, julgada, vulnerável, fracassada e sem chances de refazer uma nova imagem. Sei que não deveria me preocupar com a minha imagem, mas me preocupo.

Odeio essa minha preocupação excessiva, exagerada e desproporcional com essa  “imagem”. Imagem de que eu quero??? De perfeitinha???? Que pessoa é essa??? Definitivamente não sou eu!!! Quanto mais eu vou atrás de uma imagem (emocional  ou física), mais eu sofro. Não preciso de uma imagem, preciso de mim. Sem espelhos, sem buscar no outro esse espelho da aprovação, preciso da minha própria aprovação. Mas isso é outro post...

Voltando a minha angústia. Bom, avaliando o fato de forma real, eu falei a verdade, mas não falei tudo sobre minha licença. Não falei sobre a bulimia. Não tenho coragem de contar para ninguém isso. Para mim, ter bulimia é algo extremamente vergonhoso, sinto-me bizarra, confesso.  Tenho uma dificuldade enorme de lidar com isso. Na verdade, ainda tenho muita dificuldade de lidar com o fato de ter tido depressão e ter que me afastar do trabalho, de não ter dado conta. “Como assim não dar conta????”  Isso parece algo que deveria estar fora do meu dia a dia, sabe? Algo inadmissível. Preciso aprender a lidar com essas coisas e a aceitar minhas dificuldades. E isso dói.

Tremendo (mais internamente que externamente), respondi a ela, após ser questionada sobre o que eu fazia da vida, que eu trabalhava para o governo, mas que no momento estava afastada. A conversa foi fluindo e ela foi me perguntando mais coisas. Falei muitas coisas que eu costumo não dizer a ninguém... Falei como foi difícil admitir para mim e, consequentemente, para o mundo que eu estava mal e fragilizada. Contei que não estava dando conta das tarefas de casa, de mãe e do trabalho sem apoio diário do meu marido (pois “tudo” ruiu na época em que ele passou um ano fora da minha cidade). Contei de como eu comecei a me sentir incompetente no trabalho (cometia erros e demorava a realizar certas tarefas). Falei da minha incompetência em casa (esquecia compras, pagar contas, etc). Contei que tudo piorou quando percebi que estava falhando como mãe, pois não tinha a paciência de costume com meus filhos. Eu estava exausta e irritada. O pouco tempo que eu tinha eu queria comer compulsivamente e vomitar (essa parte eu não disse para ela). Também não disse a ela que, para suportar a distância do meu marido e fingir que estava tudo bem, para suportar os erros no trabalho, as falhas em casa e a falta da capacidade de ficar feliz e contente com meus filhos e preencher a falta que eles sentiam do pai, eu passei várias noites em claro, comento tudo que tinha na minha geladeira e vomitando, comendo novamente e vomitando novamente, me sentindo culpada, querendo me punir e tudo começava novamente, tinha diarreias terríveis, me sentia fraca, cansada, com a memória ruim e exausta física e mentalmente.

Ela me deu os parabéns por ter tomado a decisão de ter “escolhido largar” o trabalho e ficado com meus filhos. Mas eu confessei a ela que essa decisão não foi fácil e nem foi uma decisão. Que cheguei ao fundo do poço para perceber que não estava legal. E que mesmo assim, mesmo sabendo que precisei realmente parar e me afastar, a minha vaidade ainda me pertuba. De uma maneira besta, infantil e torta, eu (por orgulho/vaidade) ainda me importo com o que as pessoas do trabalho estão pensando e com o fato de que provavelmente eu nunca mais terei uma posição profissional boa, pois afinal de contas eu serei sempre tachada como “a louca” que precisou se afastar durante mais de um ano por causa da depressão e ansiedade (imaginem se soubessem da bulimia...). Enfim, contei para ela que foi um passo difícil, mas necessário, que eu estava feliz de ter tomado, mas que ainda precisarei superar meu ego, meu orgulho, minha preocupação com o olhar do outro.

Prova melhor de que eu ainda preciso superar isso é que eu fiquei angustiada com o que ela ficou pensando de mim. Fiquei preocupada com o julgamento e interpretações que ela pode dar a nossa conversa. Fiquei preocupada com a possibilidade de ela conversar sobre esse assunto com outras pessoas. Será que sou tão importante assim???? Claro que não , mas meu ego acha que sim. Ele tem essa imaginação tão fértil em relação ao que os outros podem achar ou falar de mim...

Coragem e simplicidade: duas palavras com um significado tão denso ou seria tão simples? 

domingo, 8 de julho de 2012

Desafio: jantar com os amigos (sem vomitar) – batalha perdida


Incompetente. É assim que tenho me sentido desde ontem.  Ontem eu encarei um desafio que eu já sabia que estaria por vir. E eu fracassei.  Hoje, estou me sentindo muito mal. Triste, com vontade de me isolar, de me castigar. Estou sentindo uma dor no meu peito que conscientemente sei que é grande demais para uma falha que eu não deveria considerar tão grande assim, quando comparado com o progresso que venho feito nos últimos dias.

Como vocês sabem, eu comia e vomitava de 5 a 8 vezes por dia, todos os dias. Essa marca vem diminuiu para uma vez ao dia. No entanto,  eu só consegui ficar sem vomitar durante as 24 horas, apenas por 7 vezes (desde que eu comecei a minha trajetória).  Talvez o desafio e a expectativa de passar 24h sem vomitar no dia do jantar com meus amigos tenham sido altos demais para este momento.  Não é sem motivo que existem diversos aconselhamentos para que sejam dados passos de bebês durante a recuperação do transtorno alimentar.  Eu sei de tudo isso. Mas me senti mal. Muuuuuito mal. Odeio  traçar metas, objetivos e não alcança-los. Tendo a ser muito rígida comigo.

Por causa da minha falha e da expectativa não cumprida, hoje está sendo um dia particularmente bem difícil. De alguma forma paradoxal, sofro por sentir falta da bulimia, do alívio que ela me proporcionaria em momentos como este, da forma que ela me castiga sem que ninguém perceba, da anestesia e da alienação que ela me oferece, quando tudo que mais quero é esquecer-me de tudo.


Mas SÓ POR HOJE, EU DECIDO: não vou utilizar a bulimia.  Assim farei a cada dia.  Recomecerei a cada manhã.  Não vou evitar o desconforto de emoções difíceis.  O fracasso dói, dói muito,  mas jamais aprenderei a enfrentá-lo, sem encará-lo.  


Ainda não sei como será minha vida, ainda estou aprendendo e experimentando novas formas de lidar com meus sentimentos. Ver, reconhecer, entender e aprender a lidar com o que tenho de feio, não vai ser fácil. A bulimia escondia tudo isso para mim.


Em relação ao jantar, o que posso dizer é que fiquei triste e deprimida. Agora, porém, após escrever este post, me sinto um pouquinho melhor. Vou tentar analisar o que aconteceu na noite de ontem, avaliar meus sentimentos, pensamentos e o que desencadeou a minha crise.  Para tanto, utilizarei a técnica (baseada na terapia cognitiva-comportamental) proposta por uma pessoa muito querida, que cruzou o meu caminho recentemente.  Obrigada, Fran!!!

domingo, 24 de junho de 2012

Quando o passado bate na sua porta


Esta noite não dormi absolutamente nada. Fiquei me contorcendo na cama, andando de um lado para o outro, tendo palpitações, suando frio e tendo pensamentos repetitivos sobre fracassos, medo, compulsão, limites, etc. Foi muito, muito difícil segurar a onda e não “resolver” todos meus problemas como estou acostumada: comendo muito, até o limite, e me esvaziando (tirando de mim toda aquela angústia, aquela dor, aquele sofrimento).

Acho que a parte mais difícil da superação da doença é esta. Aprender a encarar este sentimento e entender o que fazer na hora que eles chegam. Eu simplesmente não sei (pelo menos não ainda). Sinto uma dor no fundo da minha alma. Uma dor física e psíquica. Gostaria de conseguir descrever em palavras o quão grande ela é, pois tenho a sensação que nada que eu fale vai traduzir o meu sentimento. Já experimentei algumas dores físicas, mas nada, nada se compara a essa dor, nem mesmo a dor do parto normal (que julgam ser tão grande), para mim, foi menor do que a dor que sinto quando minha alma sofre.

Depois de muito lutar para dormir, consegui enfim adormecer, por volta das 5 horas da manhã. Às 9 horas acordei, era o “meu passado batendo em minha porta”. Uma grande amiga minha tocou a campainha da minha casa, ela necessitava de ajuda. Por algum motivo, o que ela estava passando fez com que eu me lembrasse da minha história, época em que eu bebia muito e talvez, por sorte, ainda esteja aqui.

Entre os meus 18 e 25 anos, eu vivi uma fase muito conturbada da minha vida. Eu posso dizer que nesta época eu fiquei muito perdida. Vivia minha vida de uma forma descontrolada. Estava na busca do prazer, da emoção. Lembro-me de ser muito intensa e querer tudo para ontem. Era tudo ou nada, ou 8 ou 80. Minha vida parecia uma montanha russa de emoções. Eu já tinha bulimia, mas na minha lembrança a doença, na época, era mais “controlada”.

Claro que a bulimia era um problema menor naquela época. Eu “utilizava” menos a bulimia para me livrar das minhas dores psicológicas. Eu afogava minhas angústias, medos, sofrimento e frustração em outro vício: na bebida. Nesta época a minha depressão era muito forte e presente. Sentia um vazio enorme no meu peito, na minha alma. Inicialmente eu não queria estar viva, depois comecei a desejar a morte. Para esquecer a dor e o sofrimento, eu toparia fazer qualquer coisa, pois não havia futuro em meus planos.

Buscava a “felicidade, a emoção” de cada momento. Queria aproveita o dia, o momento, em toda sua potencialidade. Que inocência. O problema é que para atingir o aproveitamento total, eu fui precisando de mais: mais um gole, mais uma dose, mais um copo, mais uma garrafa, uma dose mais forte. Quando eu me dei conta, a bebida me controlava.  

Rapidamente, minha vida foi virando um inferno. Eu bebia para “ficar bem”, precisava sempre mais, de algo mais forte para sentir aquele “alívio imediato”.  No outro dia eu tinha que encarar tudo de novo, a depressão, medos, angústias, ansiedades. Aquela era a minha fuga, a minha muleta. E assim fui (sobre) vivendo. Voltei diversas vezes dirigindo para casa após beber meia garrafa de whisky ( o caminho?  É claro que não lembro). Tive coma alcoólica e fui levada a hospitais, algumas vezes. As perdas de memórias aconteceram, várias vezes. É chato lembrar o que me disseram que eu fiz.

Não me orgulho deste meu passado. Lembro que nesta época eu poderia ter me envolvido com o uso de outras drogas. Mas existia em mim (ainda que pouca, mas alguma) consciência de que eu não tinha maturidade e capacidade para encarar qualquer droga. Eu sabia que eu era fraca demais para elas e que se eu entrasse em algo mais forte, jamais eu sairia. Eu sabia que eu era uma pessoa facilmente viciável. Por isso, só por isso, nunca experimentei coisas mais pesadas.

Bom, hoje, eu ainda bebo. Não bebo todo final de semana e nem todas as vezes que saio com amigos e família. Bebo apenas quando estou a fim (provavelmente o certo fosse nunca mais beber). Mas nunca, NUNCA coloco um gole de bebida destilada em minha boca (ela tem um efeito avassalador em mim).  Tento beber com moderação. Peço ajuda aos que amo para que me avisem caso eu esteja saindo um pouquinho da linha. Nesta hora eu deixo a bebida de lado e passo a tomar água. Quase sempre isso funciona.

Mas deixar a bebida não foi algo tranquilo. Eu fui substituindo as doses de bebida pelas crises de bulimia. Como não tive acompanhamento médico e psicológico (pois eu não achava que precisava), eu fui atrás de outra muleta.   A bulimia era “perfeita” para este papel. Fui ficando viciada em comer descontroladamente e vomitar. Mas é claro que encontraria outro inferno pela frente. Pois muletas quebram... A sujeira não pode ficar para sempre debaixo do tapete.

Agora estou aqui, disposta a mudar isto. Estou mais madura, mais consciente, mais esperançosa. Estou aprendendo a me conhecer e a encarar meus medos. Não é fácil, pois sempre fugi deles, mas não quero mais fugir. Sim, foram 20 anos de fuga. Mas quer saber? Posso ter mais que 20 anos de vida. De vida plena!!!

domingo, 27 de maio de 2012

Triste e brava


Quando imaginei escrever o blog pensei em utilizá-lo como uma ferramenta de terapia, na busca pela cura. Bom, pelo que estou percebendo hoje essa busca será muito, mas muito mais difícil do que eu imaginava. Isso porque aqui vou tratar de sentimentos muitas vezes confusos, feios e até doentes (afinal, estou doente, né?). Admitir isso é difícil, dói e não é bonito, não é nada bonito. Me mostrar, mesmo que usando a “mulher interrompida”, faz com que eu me sinta extremamente vulnerável. 

Estou angustiada, pois como vocês sabem a bulimia trata-se de uma doença secreta, silenciosa. Bom, pelo menos no meu caso, eu não consigo falar sobre ela ou confessar e admitir tê-la a amigos (nem para os melhores amigos), familiares, colegas de trabalho. Falei da minha doença apenas para meu pai, mãe, irmãos, marido e profissionais que me acompanham. Tenho vergonha da doença. Tenho pânico, pânico mesmo, só em imaginar o que os outros vão pensar de mim quando souberem. Tenho um grande problema de aceitação própria e fico tentando buscar a aceitação dos outros, como se isso fosse me satisfazer em algo. Tenho trabalhado para melhorar minha auto-estima, pois está difícil fazer o que eu acredito que os outros esperam de mim. E talvez eles nem esperem nada... mas eu crio essa personagem e a imagino com tudo que os outros a desejam, e vou tentando ser ela. Estou cada dia mais distante de mim mesma. Na verdade, já não tenho certeza de quem sou. Meus pensamentos estão cheios e minha alma vazia e comer descontroladamente não me ajuda mais, não me alivia mais. Mas porque eu não consigo simplesmente parar??? Onde está aquela garota inteligente?

Acho que essa é a parte mais difícil da doença para mim. Saber que faz muito mal e ver as consequências terríveis que já estão acontecendo no meu corpo, os efeitos negativos na família e filhos, as limitações profissionais e sociais (bom depois vou postar um pouco sobre como a bulimia tem me limitado em cada uma dessas áreas). Saber disso tudo e não conseguir ter força de vontade suficiente para mudar (como diria meu pai) me deixa brava e frustrada e isso acaba agravando ainda mais meu quadro. Acho que é isso que me faz sentir tanta vergonha em admitir que eu a tenho. Fora o fato dela ser uma coisa nojenta, correto? Vômitos, cabelos caindo, dente apodrecendo... nada é bonito na bulimia, nada mesmo. Eu invejo tanto, tanto, as pessoas que sabem lidar com o corpo que tem. Eu criei um medo de algo que sei (conscientemente) que ficaria mais bonito em mim (um corpo com mais curvas). Mas o pânico nem sempre é lógico...

Além disso, eu criei uma ilusão. Me viciei tanto na prática de comer e vomitar, que passei a utilizar a bulimia como uma válvula de escape para angústias, ansiedades, sofrimentos. Hoje, acho que até conseguiria começar a trabalhar com a mudança do meu corpo, mas ainda sou muito frágil emocionalmente. A bulimia para mim é uma espécie de fuga, válvula de escape, muleta, pois quando estou com qualquer problema é na bulimia que desconto: engulo tudo que estiver ao meu alcance, até a minha barriga ficar totalmente esticada (não é bonito, eu sei) e depois jogo fora, na forma de vômito, a angustia, a tristeza, a solidão, etc. O problema é que não está mais funcionando!!! Não fico mais aliviada e, além disso tudo, o preço que estou pagando é alto demais.

Quero me desfazer desse vício e dessa falsa sensação de conforto. Ela não se sustenta. É uma mentira que criei, assim como muitas mentiras que crio para mim mesma e para todos que finjo acreditar que não sabem o que tenho. Pessoas se curam da bulimia, tenho lido muito sobre isso. Eu serei uma delas. Tenho certeza que essa busca não vai ser fácil, nem bonita, nem vou estar sempre otimista, como hoje, na verdade, não estou. Mas quero tentar continuando, pois tentarei vomitar palavras para aprender a lidar com minhas emoções.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Suicídio nunca é a saída




Oi gente, vou tentar falar um pouquinho de suicídio. Como já disse, eu já tentei me matar. As três tentativas, graças a Deus mal sucedidas, todas,  foram usando remédio.  Acho que muita gente pode estar pensando que na verdade nunca tive vontade real de morrer, mas apenas vontade de chamar atenção. 

Bom, estou em um momento que, sinceramente, o que os outros pensam sobre isso pouco me importa. Sei, sim, que não tinha vontade de viver, queria acabar com toda dor que estava sentindo: uma dor na alma, uma dor mais forte do que tudo que já experimentei (bem superior, por exemplo, que a dor do parto normal,  sem anestesia). É verdade, não tive "coragem" de pular da janela do quinto andar. Mas e daí? Quase morri também... fiquei cinco dias em coma e depois um mês internada. Agradeço por hoje estar aqui. 

Estou tocando nesse assunto, sobre o que os outros pensam, pois acho extremamente perigoso para quem esta passando por uma depressão ouvir esse tipo de acusação. A tentativa do suicídio muitas vezes é uma forma desesperada ( e por que não dizer despreparada) de pedir ajuda. Pode até ser uma forma errada, mas é um pedido de socorro. Não acredito que as pessoas usem isso como ferramenta para chamar a atenção única e simplesmente, bom, pelo menos acho super arriscado esse julgamento. Acho que existe várias formas de chamar atenção e não acredito que a tentativa de suicídio seja uma delas. 

No meu caso, a tentativa de finalizar minha vida foi uma forma desesperada de tentar eliminar a dor que estava sentindo. Sempre tive e ainda tenho muita dificuldade de entender a minha depressão. Gosto de muitas coisas da minha vida, amo minha família, amigos, sou razoavelmente inteligente, até certo ponto bonita, nunca tive dificuldade para arrumar namorados, não passei fome, nem nada, Tenho um bom emprego. Então, por que eu me sentia assim, tão vazia? Porque essa dor na minha alma que eu não consigo explicar? Falta de Deus? Os mais religiosos poderiam dizer que sim... Os médicos me diriam que é fisiológico. Outros diriam que é espiritual... Bom, talvez seja tudo um pouco, o fato é que a dor está aqui,  e não consigo mudar isso. 

Uma das coisas que me angustiava ainda mais era o fato de eu não conseguir explicar, por não entender, o que acontecia comigo para as pessoas que eu mais amo. Quando estes me perguntavam "mas você sente falta do que? O que você quer?" eu simplesmente me sentia ainda pior. Me cobrava mais, me sentia mais culpada e mais frustrada. Dar fim a minha vida parecia a solução mais fácil, ou talvez a única solução, pois como eu não sabia o que me faltava, como eu poderia procurar? 

Agora estou disposta a nunca mais fazer isso. Acredito que preciso passar pelo que estou vivendo para aprender algo com isso. Ainda não sei direito o que, mas estou nessa luta. Tenho buscado ajuda profissional e tentando entender o meu problema, no meu caso, a minha doença. Não desisto mais de mim e nem da minha vida e nem de quem amo.  

Novos medicamentos

Ontem fui novamente a minha psiquiatra. (Quando eu tiver um tempo vou tentar detalhar para vocês um pouquinho como tem sido meu tratamento durante o decorrer dos anos, ok?) Ela me mandou trocar os medicamentos. A verdade é que nos últimos meses tenho a sensação que estou piorando, e muito. Já troquei de medicamento três vezes e não consigo ver melhora. Será que o problema é minha falta de paciência? Ou será que tudo que tenho passado é resultado dos momentos que tenho vivido? O que sei é que tenho me sentido bem triste, mais intolerante, com pensamentos autodestrutivos e bem agressiva. Tento não ser agressiva com os outros. Mas acabo sendo agressiva comigo. A bulimia é uma das formas mais autodestrutivas que já conheci. Toda a minha raiva é colocada nela e só ataca a mim mesma. Preciso aprender a fazer algo diferente. Ainda não sei o que fazer, pois para mim é muito claro que prefiro ter a bulimia para me controlar do que agredir qualquer pessoa, eu simplesmente não conseguiria... Mas isso é certo?  Bom, vou torcer para que os novos medicamentos sejam mais efetivos. Agora, depois de vinte anos com a doença, estou pela primeira vez realmente acreditando que preciso deles.


quinta-feira, 24 de maio de 2012

O Começo


Durante anos eu penso em escrever sobre o que passo e sobre o que sinto. Esse é um projeto que sempre abandono por motivos mais variados possíveis : medo de me expor; preguiça; não ver um motivo real para fazê-lo. Bom, a verdade é que estou precisando a cada dia mais desabafar. Foi difícil para mim chegar a essa decisão de expor a parte mais frágil da minha vida, mas preciso encontrar outras válvulas de escape, pois as que utilizo hoje já não me sustentam mais.

Sofro de depressão há quase 20 anos e durante esse tempo já passei por três tentativas de suicídio. Durante a minha luta contra a doença já passei por muita coisa, já tive períodos em que achei que estava louca, adquiri uma bulimia, casei, tive dois filhos, melhorei muito e  agora estou passando por um momento muito difícil. Minha depressão que há muitos anos não se manifestava está bem forte, a bulimia que nunca consegui me livrar continua comigo e estou sofrendo alterações de humor. Ando irritada e as vezes tenho a sensação de que vou enlouquecer.

O começo de tudo

Bom, vou tentar contar como me lembro... Não sei ao certo quando a depressão começou, nem ao certo o que veio primeiro a bulimia ou a depressão. Mas sinceramente acredito que a bulimia é uma consequência de algo que já não vinha muito bem...  Na verdade tenho recordações de alguns pensamentos já na minha infância do tipo “não queria estar viva”. Esses pensamentos de desesperança eram espaçados e misturados com momentos normais e alegres. Apesar de não dividir os pensamentos negativos com ninguém, acredito que eles eram realmente sinceros. Eles começaram por volta dos meus oito ou sete anos.

O primeiro episódio bulímico ocorreu quando eu tinha 15 anos. Eu havia me excedido na alimentação e tive a "brilhante" ideia de colocar tudo para fora. No inicio foi uma solução fácil para me livre das calorias extras e o vômito me pareceu uma alternativa fácil e viável para meu problema. Mal sabia eu que estava entrando em talvez a pior armadilha que iria me acompanhar e me atormentar por longos anos da minha vida. Se eu pudesse eu jamais teria escolhido aquele caminho.

A bulimia, no início, foi usada para conter o peso, por pura vaidade, e para controlar de forma rápida um problema que eu mesmo tinha criado: ingerir muitas calorias, por ansiedade e descontrole.  Eu me acostumei tanto com a forma fácil de me livrar das calorias extras e da culpa de ter comido mais que precisava que a bulimia começou a fazer parte do meu dia a dia. Chegou um momento em que eu vomitava em todas as refeições, só pelo costume.  É como se o vômito fizesse parte do processo da alimentação: comer, mastigar, engolir e vomitar (deixar no estómago só o suficiente para sobreviver). Para mim, comer sem vomitar passou a ser inconcebível. Eu começava a passar mal, tremer, suar. Então deixei de ir para eventos sociais em que as pessoas serviam comida, ou seja, quase todos. E me isolei.

Bom, paralelamente a bulimia eu tive depressão. 

Essa fase foi de muito sofrimento. Eu tomava muitos remédios e ficava dopada, ou pelo menos me sentia assim. Eu sentia uma dor terrível no meu coração. Algo muito forte, na alma, indescritível. Me doía não saber descrever a causa e saber que a família, os amigos e todos a minha volta estavam preocupados.

Eu ia ao psicólogo (obrigada pela minha mãe), ao psiquiatra e tomava muitos remédios. Durante esse período, tentei largar a bulimia. No entanto, eu não conseguia comer nada e acabei desenvolvendo outro transtorno alimentar: anorexia. Durante pouco tempo perdi muito peso, me sentia muito pressionada e minha depressão ficou mais intensa. Depois de seis meses, votei para a bulimia.  

Ao longo do tempo mudei médicos várias vezes. Acho que sentia um pouco de raiva da quantidade enorme de remédio que os psiquiatras me davam. Tem horas que tenho a sensação que o terapeuta estaria muito mais apto para passar qualquer medicamento. Sempre achei superficial e artificial a conversa de uma hora que se tem mensalmente com o psiquiatra. Como assim fazer um resumo de tudo o que você está passando???? Sabe? Acho que o contato psiquiatra/paciente deveria ser mais próximo como o é o de psicólogo/paciente.

Por insistência dos outros, tentei igreja, pastor, benzedeiros, centros espírita, etc... tudo na busca de um alívio. Durante esses anos, por algumas vezes, acreditei estar melhor e então larguei todos meus remédios. Eu acreditava que os remédios me faziam muito mal, além disso era muito difícil para mim aceitar que eu dependia deles.  Cada vez que eu deixava os remédios de lado, o retorno da depressão parecia ser mais forte.