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quinta-feira, 24 de maio de 2012

O Começo


Durante anos eu penso em escrever sobre o que passo e sobre o que sinto. Esse é um projeto que sempre abandono por motivos mais variados possíveis : medo de me expor; preguiça; não ver um motivo real para fazê-lo. Bom, a verdade é que estou precisando a cada dia mais desabafar. Foi difícil para mim chegar a essa decisão de expor a parte mais frágil da minha vida, mas preciso encontrar outras válvulas de escape, pois as que utilizo hoje já não me sustentam mais.

Sofro de depressão há quase 20 anos e durante esse tempo já passei por três tentativas de suicídio. Durante a minha luta contra a doença já passei por muita coisa, já tive períodos em que achei que estava louca, adquiri uma bulimia, casei, tive dois filhos, melhorei muito e  agora estou passando por um momento muito difícil. Minha depressão que há muitos anos não se manifestava está bem forte, a bulimia que nunca consegui me livrar continua comigo e estou sofrendo alterações de humor. Ando irritada e as vezes tenho a sensação de que vou enlouquecer.

O começo de tudo

Bom, vou tentar contar como me lembro... Não sei ao certo quando a depressão começou, nem ao certo o que veio primeiro a bulimia ou a depressão. Mas sinceramente acredito que a bulimia é uma consequência de algo que já não vinha muito bem...  Na verdade tenho recordações de alguns pensamentos já na minha infância do tipo “não queria estar viva”. Esses pensamentos de desesperança eram espaçados e misturados com momentos normais e alegres. Apesar de não dividir os pensamentos negativos com ninguém, acredito que eles eram realmente sinceros. Eles começaram por volta dos meus oito ou sete anos.

O primeiro episódio bulímico ocorreu quando eu tinha 15 anos. Eu havia me excedido na alimentação e tive a "brilhante" ideia de colocar tudo para fora. No inicio foi uma solução fácil para me livre das calorias extras e o vômito me pareceu uma alternativa fácil e viável para meu problema. Mal sabia eu que estava entrando em talvez a pior armadilha que iria me acompanhar e me atormentar por longos anos da minha vida. Se eu pudesse eu jamais teria escolhido aquele caminho.

A bulimia, no início, foi usada para conter o peso, por pura vaidade, e para controlar de forma rápida um problema que eu mesmo tinha criado: ingerir muitas calorias, por ansiedade e descontrole.  Eu me acostumei tanto com a forma fácil de me livrar das calorias extras e da culpa de ter comido mais que precisava que a bulimia começou a fazer parte do meu dia a dia. Chegou um momento em que eu vomitava em todas as refeições, só pelo costume.  É como se o vômito fizesse parte do processo da alimentação: comer, mastigar, engolir e vomitar (deixar no estómago só o suficiente para sobreviver). Para mim, comer sem vomitar passou a ser inconcebível. Eu começava a passar mal, tremer, suar. Então deixei de ir para eventos sociais em que as pessoas serviam comida, ou seja, quase todos. E me isolei.

Bom, paralelamente a bulimia eu tive depressão. 

Essa fase foi de muito sofrimento. Eu tomava muitos remédios e ficava dopada, ou pelo menos me sentia assim. Eu sentia uma dor terrível no meu coração. Algo muito forte, na alma, indescritível. Me doía não saber descrever a causa e saber que a família, os amigos e todos a minha volta estavam preocupados.

Eu ia ao psicólogo (obrigada pela minha mãe), ao psiquiatra e tomava muitos remédios. Durante esse período, tentei largar a bulimia. No entanto, eu não conseguia comer nada e acabei desenvolvendo outro transtorno alimentar: anorexia. Durante pouco tempo perdi muito peso, me sentia muito pressionada e minha depressão ficou mais intensa. Depois de seis meses, votei para a bulimia.  

Ao longo do tempo mudei médicos várias vezes. Acho que sentia um pouco de raiva da quantidade enorme de remédio que os psiquiatras me davam. Tem horas que tenho a sensação que o terapeuta estaria muito mais apto para passar qualquer medicamento. Sempre achei superficial e artificial a conversa de uma hora que se tem mensalmente com o psiquiatra. Como assim fazer um resumo de tudo o que você está passando???? Sabe? Acho que o contato psiquiatra/paciente deveria ser mais próximo como o é o de psicólogo/paciente.

Por insistência dos outros, tentei igreja, pastor, benzedeiros, centros espírita, etc... tudo na busca de um alívio. Durante esses anos, por algumas vezes, acreditei estar melhor e então larguei todos meus remédios. Eu acreditava que os remédios me faziam muito mal, além disso era muito difícil para mim aceitar que eu dependia deles.  Cada vez que eu deixava os remédios de lado, o retorno da depressão parecia ser mais forte.