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segunda-feira, 6 de maio de 2013

Triste ciclo

Ela ficava depressiva e eu a “ajudava”. Ela melhorava e eu desabava em seguida.  Depois era a vez dela de demonstrar o “amor” dela por mim. Repetimos esse ciclo doentio. Eu nunca havia percebido, conscientemente, tenho certeza que ela também não... Mas fizemos tantas vezes que nem sei ao certo quando tudo se iniciou...

Lembro-me de algumas fases, em minha infância, em que minha mãe ficou depressiva. Não são lembranças claras, mas lembro de como eu me sentia: culpada e temerosa. Eu queria ajuda-la. Tinha muito medo que ela morresse. Rezava e pedia desculpa a Deus por ela estar doente. Jurava que seria uma "boa menina"...

Eu sabia que, em meus pensamentos ocultos, eu já havia desejado que ela morresse, por isso era natural o sentimento de culpa. Quando ela estava bem, nós brigávamos muito ou, então, estávamos sempre muito distantes uma da outra.

Ao me tornar uma adolescente, eu percebi que precisava parar de brigar com ela. Resolvi que faríamos “as pazes”. Não haveria mais discussões. O problema foi o preço que pagamos para encontrarmos essa “paz”. Eu desenvolvi um transtorno alimentar (não foi consciente, obvio) e desenvolvemos um ciclo de doenças. Este ciclo foi a forma que encontramos para “mostramos” nosso amor uma para a outra. Uma forma ridícula de demonstrar amor e pedir por ele. Uma forma ridícula de abrir mão do orgulho e dar amor. E, ridiculamente, doentiamente, fomos nos odiando, nos amando, nos perdendo, nos matando e morrendo...


terça-feira, 5 de junho de 2012

Eu, mamãe e a Bulimia


Antes de começar o post, quero pedir licença para minha mãe, e deixar claro que se trata da minha versão dos fatos.  Como algumas coisas aconteceram no passado e eu era muito nova, o meu relato é baseado nas minhas memórias e na MINHA percepção e emoção de como as coisas aconteceram.   Tenho consciência que pessoas diferentes podem passar pela mesma situação e sentir e interpretar essa vivência de outra forma.   

Durante minha infância sempre tive um relacionamento mais próximo com meu pai. Na minha lembrança, minha mãe cuidava do meu irmão e meu pai de mim. Inclusive, eu morria de raiva do meu irmão por isso, para mim ele era responsável por me afastar da minha mãe. Minha relação com minha mãe sempre foi difícil da infância à adolescência. Brigávamos muito e muitas vezes eu a afastava. Muitas vezes eu a provocava como forma de testar o seu amor por mim, e ela caia nas minhas provocações de forma infantil. Minha conclusão era que ela não me amava.   Hoje analisando vejo que eu não era única criança no processo.

Durante a minha infância vi minha mãe ter depressão. Ela ficava muito tempo dentro do quarto e meu pai passou a assumir tudo em casa. Achava que de certa forma eu podia ser culpada pelo estado da minha mãe, por ter sido uma má filha. Meu pai pedia para sermos bonzinhos, pois mamãe estava dodói.  Algumas vezes eu pensei que ela estava morrendo, senti medo e culpa. No entanto, minha mãe melhorou, mas a nossa relação não.

Na minha adolescência ou pré-adolescência tivemos vários conflitos. Fomos duras uma com a outra e brigávamos muito. Nós ferimos várias vezes, com palavras e ofensas. Não sei o quanto isso doeu para ela, mas para mim as marcas ficaram até hoje. Ouvi duras palavras e acreditei nelas durante anos. Por mais que meu pai tentasse me explicar que minha mãe falava certas coisas apenas da boca para fora, apenas no momento de raiva, para mim isso era inconcebível. Ela não tinha esse direito. Eu era a adolescente. Eu tinha esse direito. Ela era mãe. Ela deveria saber mais. Ela deveria se conter. Mas não foi como aconteceu comigo. Mais uma vez eu a provocava e ela descia na minha idade e se comportava como se tivesse a mesma maturidade que eu.

Apesar de todas as brigas com minha mãe, eu desejava muito o amor dela. Percebi que irritá-la ou exigir amor não dava resultado. Quase que sem querer, descobri que ao ficar doente minha mãe cuidava de mim de verdade. Era a hora em que ela se tornava MÃE, a que provia carinho, amor, cuidado, atenção. Nesse momento ela deixava de ter a minha idade e se tornava adulta. O problema é que comecei a ficar doente sempre que precisava de carinho materno...

Como a relação com minha mãe não foi boa, e como eu só tinha irmãos homens, o meu referencial feminino ficou meio perdido. Diferente das minhas amigas, na adolescência, eu nunca ia ao cabelereiro ou ia fazer as unhas. Inclusive até hoje não sinto tanto prazer nesses rituais femininos quanto vejo que minhas amigas sentem, na verdade, acho um saco. Adoro o resultado, odeio o processo. Será que esse ritual para o embelezamento é algo que se aprende? Será que a minha falta de paciência tanto para busca da unha feita, do cabelo escovado ou do corpo bonito é resultado da minha vivência? Nada é tão simples assim.

Minha relação com minha mãe influenciou a minha bulimia??? Nenhum fator, sozinho, tem poder de determinar essa complexa doença. Talvez esta relação mãe/filha seja apenas uma das peças desse imenso quebra-cabeça. Se eu não tivesse pré-disposição para a doença provavelmente eu passaria por tudo sem problema algum. Mesmo porque as pessoas são diferentes, e reagem de formas diferentes a situações iguais. Na verdade, o que menos importa aqui é saber se isso pode ter sido algum pontapé para o começo da minha doença. O importante é saber se pode ajudar a sair dela. E acho que sim.

Faz quase dez anos que eu sai da casa dos meus pais e me casei. Ontem eu percebi que minha mãe nunca me perguntou sobre a bulimia. Ela me pergunta como estou, se estou bem, mas nunca sobre a bulimia. É como se o problema agora não existisse. “Você não suja o meu banheiro e eu finjo que não sei”. Todo mundo vai fingindo um pouquinho. Ela finge que esqueceu tudo e eu finjo que nunca tive nada. Parece que estamos em uma festa mascarada. Todos usando máscaras. Sabemos quem está do outro lado, mas fingimos que não, para não estragar a festa.

Relembrar a minha história com a minha mãe é importante para perceber que ela teve e tem limitações. É um problema dela e não meu. Eu tenho os meus problemas e tenho que cuidar deles. Já sou adulta e não preciso mais esperar para que ela pergunte como está minha bulimia. Quer saber? A doença é pesada demais para quem a tem e também para a família. Não é a toa que minha mãe bloqueou isso, os motivos podem ser os mais variados, eu não sei, mas hoje aceito. O que importa é que eu não preciso esperar que ela cuide de mim. Pois sou adulta agora e eu cuido de mim. Não vou criar mais expectativas e isso já tira um peso enorme das minhas costas e da dela também, tenho certeza.