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quinta-feira, 9 de outubro de 2014

As eleições um processo ainda em desenvolvimento

Interessante perceber como ainda somos imaturos. Não sei se essa é uma realidade do mundo, da humanidade, mas certamente é a do nosso país. Ainda estamos engatinhando no processo democrático. Estamos vivenciando um momento de ódio, rancor e intolerância aos pensamentos divergentes.

Uma das coisas que mais tenho aprendido nos últimos anos é a importância da diferença. A riqueza da divergência de ideias e conceitos, e a necessidade do respeito à alteridade. Tenho amigos de todo tipo: esquerda, direita, ricos, pobres, homosexuais, heterosexuais, cientistas, religiosos, escritores, boêmios, CDFs... Para mim, o que é mais importante nessas amizades é o respeito pelo outro, pelas opiniões diferentes e pela liberdade de escolha.

Com as eleições, fica evidente o quanto ainda precisamos amadurecer. Acho fundamental estarmos vivenciando essa experiência. A política deve ser sentida e vivenciada. Mas precisamos ter o coração tranquilo e o estômago forte. Precisamos lembrar que não se trata de certo ou errado, se trata de visões de mundo diferentes para a escolha de como achamos que o país deve ser conduzido. Em tese, temos o mesmo objetivo: uma vida melhor. Achar que só você tem razão e os outros são idiotas e precisam de “guias” para conduzi-los "pelo bom caminho" é típico de quem não sabe conviver com quem pensa diferente.

E por que estou trazendo esse assunto para cá? Porque a eleição mexeu comigo e fez com que eu repensasse a diferença. Fiz uma avaliação de mim mesma, de como penso e ajo, e de como já pensei e já agi. A conclusão que cheguei é que eu já tive dificuldade de lidar com a diferença. Mesmo quando meu discurso era de aceitação pelos que são diferentes, eu tinha dificuldade de me aceitar quando eu me via diferente.

Por isso, eu passei muito tempo me esforçando para ser o que achava que os outros queriam. Agradar terceiros... eu não sabia dizer não. Eu queria que o olhar do outro me dissesse quem eu era. Eu queria que o olhar do outro confirmasse que eu era boa o suficiente, inteligente o bastante, agradável satisfatoriamente, disponível regularmente. Hoje, com muita análise, eu não tenho mais a pretensão e nem a ilusão de agradar terceiros para ser amada. Hoje entendo que a coisa mais importante que posso fazer por mim é ser eu mesma, me amar da forma como sou.


Aparentemente, uma temática pode parecer não ter nada a ver com a outra. No entanto, acredito que no momento em que eu não me aceito e tento me moldar aos olhos dos outros, é porque eu não aceito as diferenças que eu possa ter diante desses olhos. Eu estou sendo intolerante comigo mesma. Hoje isso mudou. Hoje cada dia mais sei quem eu sou. Vivencio quem eu sou e por isso tenho tranquilidade para aceitar a diferença. Não apenas a minha, mas a de todos. Não apenas no discurso, mas no coração.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Vítima ou agressora?


Recentemente eu li um artigo sobre a violência silenciosa exercida pelo perverso narcísico. Eu não entendo nada de psicologia, não sou formada na área, apenas sou curiosa e adoro ler artigos sobre o assunto. Esse artigo mexeu comigo.  De alguma forma, eu reconheci o que estava sendo descrito no texto, consegui me ver como personagem do artigo, não de forma literal, não integralmente, mas, ao ler, lembrei das minhas relações e me senti ora vítima, ora agressora. Chorei, me deprimi, algumas fichas caíram. Como pude ser vítima e também agressora??? Sugiro a leitura do texto, qualquer tentativa minha de resumir o artigo poderia ser equivocada. Quero me afastar da situação de vítima em que me coloquei. Quero deixar de repetir a atitude que não gosto de sofrer, a de agredir, mesmo que de forma sutil, por insegurança, por narcisismo. 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Mendigando amor


Em algum momento lá na minha infância eu entendi que eu precisava ficar doente para receber amor, carinho e atenção. Eu chegava a desejar ficar doente.  Muitas vezes eu ficava com febre.  Acho que, de certa forma, meu corpo adoecia como um mecanismo de defesa quando minha mente já não aguentava mais o sofrimento interno. Eu desejava apenas uma coisa: o amor materno.

Confessar que eu precisava do amor materno foi aterrorizante para mim. Levei quatro anos de psicanálise e chorei várias sessões seguidas para enfim conseguir sair com a frase: “acho que não me sentia suficientemente amada pela minha mãe”. Parecia que eles (meus pais) estavam lá me ouvindo. Senti-me má, ingrata, injusta, mimada, envergonhada, mal agradecida. Será que eu estaria sendo injusta? Posso dizer que ainda é muito desconfortável para eu pensar nisso. Sinto-me culpada por não ter me sentido amada. Mas o fato é que quando me lembro da minha infância e vivencio os meus sentimentos daquela época, percebo que eu não me sentia, de fato, amada, principalmente, pela minha mãe. Eu sempre achei que precisava fazer algo por ela, para merecer o amor dela, para compensar o “trabalho” que estava dando (eu não era fácil), para compensar as perdas que ela teve quando me nasci. 

Para aceitar e trabalhar com esses aspectos,  estou  vivenciando vários sintomas de ansiedade. Tem dias que sinto como se meu peito não fosse acomodar o ar que o meu corpo precisa. Parece que vou morrer. Sinto falta de ar e tenho a sensação de que não consigo respirar direito. No meu caso, tenho consciência que o que sinto é exagerado e que vai passar, mas tem horas que parece interminável.  É angustiante. Sinto uma tensão enorme no pescoço. Meu coração acelera. Além disso, sinto como se meu corpo tivesse vibrando por dentro, soltando uma espécie de descarga elétrica, como se fosse explodir, e tem horas que eu gostaria que ele explodisse. E então eu sinto raiva de estar assim. Fico com medo de ficar louca de perder o controle.  Sinto um nó na garganta e de certa forma esse nó me lembra como eu gostaria de vomitar para “aliviar” tudo!!! Sempre aliviei meus sentimentos dessa forma. Sempre foi a forma que eu consegui ficar no controle. Meu sintoma (bulimia) foi um “remédio torto” para aliviar esses outros sintomas da ansiedade.  

A verdade é que tenho vivenciado esse sentimento físico de ansiedade, angústia (ou sei lá o que), várias vezes ao dia, e não só quando penso na minha relação com minha mãe. Percebo que esse sentimento se repete em situações relacionadas a aceitação, amor e expectativas que tenho em relação a outras pessoas e não gostaria de ter, pois sempre fico me julgando.  Com certeza estou no meio do furação de ideias e me sinto confusa para chegar a algumas conclusões. Então, por enquanto, estou apenas especulando várias possibilidades, tendo insights e tentando não julgar meus pensamentos.

De certa forma para mim, eu utilizava a bulimia para me “fortalecer”. Bom, pelo menos era o que eu achava que eu fazia. Eu tinha a falsa sensação de fortaleza. De que eu não dependia de ninguém. Eu me sentia forte. Não dependia de amor, de carinho, de aceitação. Se eu ficava brava, usava a bulimia e me acalmava.  Se estava sozinha, a comida era minha companhia. Se estava ansiosa (nó na garganta), o vômito anestesiava essa sensação.  Se sentia tristeza,  uma comida quentinha,  me abraçava por dentro. E esse comportamento irritante e destruidor, que iniciei na adolescência aos 15 anos, para me “confortar”, foi se tornando um hábito, uma forma operante de viver, de lidar com tudo.

É fato que mantenho a bulimia ainda porque acho que ainda ganho algo com esse comportamento. A questão é:  a mantenho porque não consigo lidar com tudo, ou não quero lidar com tudo para receber atenção e continuar doente? O amor que mendigo é o amor que desejo? Conseguirei eu mesma me amar e suprir esse amor que tanto busco? Um dia estarei pronta para receber apenas o que vier e pronto?  

terça-feira, 26 de junho de 2012

Disciplina é liberdade - a bulimia e a falta de disciplina


Nunca fui uma pessoa muito disciplinada. Fui mais o tipo de pessoa que deixava tudo para a última hora. Aparentemente, essa forma de viver funcionava muito bem para mim. Não me esforçava no decorrer do percurso, não me importava com o caminho, apenas com o resultado. E isso era o suficiente para mim.  A verdade é que eu não chegava a ser a melhor de todas, mas sempre estive lá entre OS melhores. Esta posição de “acima da média”, “entre os melhores” (como eu me considerava) me satisfazia.

Olhando criticamente, acho que na verdade eu nunca cheguei a me aventurar em coisas que não fossem fáceis (confortáveis) para mim. Eu simplesmente tinha medo de não conseguir atingir aquele padrão que eu tinha me imposto (ficar entre os melhores, sempre acima da média). Então, por diversas vezes eu não quis nem sequer tentar realizar certas atividades. Não porque eu não me interessava por elas, mas por medo do fracasso (ou preguiça?). Para mim era insuportável a ideia de não estar entre os melhores.

Eu não me acostumei com o esforço a longo prazo, a disciplina contínua e a perseverança para atingir um bom desempenho. Sempre fui mais do tipo de pessoa que preferia os esforços intensos e que me trariam o resultado rápido e esperado. Quando virei adulta e o meu mundo se ampliou, ficou mais difícil atingir meu “padrão” desejado (ficar entre os melhores) sem esforço e disciplina contínua. Na minha competição imaginária (em que eu crio um ranking), eu não “competia” apenas com os coleguinhas da turma ou do bairro. Eu passei a “competir” com pessoas da universidade, da minha cidade. Claro a partir daí, para mim, eu passei a ser uma fracassada, pois no meu ranking eu não estava mais lá, entre as três melhores, e isso me deixava enfurecida.

Analisando minha bulimia vejo que repito esta atitude, todos os dias. Todas as vezes que não quero aceitar e ter disciplina (aprendizagem) para com meus sentimentos, frustrações, medos e angústias, eu acabo por me empanturrar de comida e vomito tudo para me dar um alívio momentâneo e desta forma  coloco a sujeira debaixo do tapete. Ela ainda está lá, só que finjo que não vejo. Quando como mais que deveria e tenho medo de engordar o que faço? Vomito, é claro. Corpo leve, consciência pesada (o que é mais importante???).

Bom, durante muito tempo eu acreditei que a bulimia era uma forma de disciplina e que com ela eu poderia ser especial, estaria “acima da média”.  Eu achava que eu estava controlando meu peso e controlando minha raiva, meus medos, ansiedades e angustias. Mas, na verdade, eu não controlava nada. Primeiro, porque meus problemas psicológicos continuavam lá, a sujeira já não cabia debaixo do tapete.

Durante estes 20 anos com a bulimia, eu fui escrava da doença. Ou seja, não havia disciplina, pois não havia escolha. Chegou o ponto em que eu não decidia o que eu queria, eu simplesmente me sentia obrigada a comer e vomitar, para poder ter aquele alívio, aquele êxtase. Sim, é verdade, eu me  permiti entrar nesta prisão, mas eu tinha a ilusão que estava livre. Agora, não mais. Hoje consigo ver que não alcancei meta nenhuma com a bulimia. Pelo contrário só me distanciei delas, só acumulei problemas e não aprendi como resolve-los, por indisciplina, falta de paciência, e de perseverança.

Hoje olho para mim, e me vejo como uma nova mulher interrompida pela bulimia, mas jamais morta. E agora estou seguindo em frente. Buscando uma nova vida, alguma vida, a minha vida, a vida plena. 

Quero sim introduzir na minha vida a disciplina, conforme o dicionário: "deriva da palavra discípulo, aquele que segue. Discípulo é aquele que escuta e põe em prática aquilo que aprendeu". Tenho aprendido muito e estou colocando em prática cada coisa aprendida. Sim, tenho milhões de medos e ainda milhões de limitações, ninguém muda do dia para a noite.

Estou me esforçando para reconhecer meus pequenos êxitos e progressos. Quando o caminho é longo não é possível atravessá-lo sem sentir sede, fome e cansaço. Não quero mais me enganar com fórmulas mágicas, pois elas não existem.  Preciso aprender a ter calma, perseverança e disciplina. Pretendo monitorar meu progresso (para manter foco em o que está dando certo) e não me preocupar excessivamente com recaídas (elas acontecem, pois sou humana). No caso de recaídas, devo aprender e seguir mais forte. “Disciplina é liberdade”. 

domingo, 24 de junho de 2012

Quando o passado bate na sua porta


Esta noite não dormi absolutamente nada. Fiquei me contorcendo na cama, andando de um lado para o outro, tendo palpitações, suando frio e tendo pensamentos repetitivos sobre fracassos, medo, compulsão, limites, etc. Foi muito, muito difícil segurar a onda e não “resolver” todos meus problemas como estou acostumada: comendo muito, até o limite, e me esvaziando (tirando de mim toda aquela angústia, aquela dor, aquele sofrimento).

Acho que a parte mais difícil da superação da doença é esta. Aprender a encarar este sentimento e entender o que fazer na hora que eles chegam. Eu simplesmente não sei (pelo menos não ainda). Sinto uma dor no fundo da minha alma. Uma dor física e psíquica. Gostaria de conseguir descrever em palavras o quão grande ela é, pois tenho a sensação que nada que eu fale vai traduzir o meu sentimento. Já experimentei algumas dores físicas, mas nada, nada se compara a essa dor, nem mesmo a dor do parto normal (que julgam ser tão grande), para mim, foi menor do que a dor que sinto quando minha alma sofre.

Depois de muito lutar para dormir, consegui enfim adormecer, por volta das 5 horas da manhã. Às 9 horas acordei, era o “meu passado batendo em minha porta”. Uma grande amiga minha tocou a campainha da minha casa, ela necessitava de ajuda. Por algum motivo, o que ela estava passando fez com que eu me lembrasse da minha história, época em que eu bebia muito e talvez, por sorte, ainda esteja aqui.

Entre os meus 18 e 25 anos, eu vivi uma fase muito conturbada da minha vida. Eu posso dizer que nesta época eu fiquei muito perdida. Vivia minha vida de uma forma descontrolada. Estava na busca do prazer, da emoção. Lembro-me de ser muito intensa e querer tudo para ontem. Era tudo ou nada, ou 8 ou 80. Minha vida parecia uma montanha russa de emoções. Eu já tinha bulimia, mas na minha lembrança a doença, na época, era mais “controlada”.

Claro que a bulimia era um problema menor naquela época. Eu “utilizava” menos a bulimia para me livrar das minhas dores psicológicas. Eu afogava minhas angústias, medos, sofrimento e frustração em outro vício: na bebida. Nesta época a minha depressão era muito forte e presente. Sentia um vazio enorme no meu peito, na minha alma. Inicialmente eu não queria estar viva, depois comecei a desejar a morte. Para esquecer a dor e o sofrimento, eu toparia fazer qualquer coisa, pois não havia futuro em meus planos.

Buscava a “felicidade, a emoção” de cada momento. Queria aproveita o dia, o momento, em toda sua potencialidade. Que inocência. O problema é que para atingir o aproveitamento total, eu fui precisando de mais: mais um gole, mais uma dose, mais um copo, mais uma garrafa, uma dose mais forte. Quando eu me dei conta, a bebida me controlava.  

Rapidamente, minha vida foi virando um inferno. Eu bebia para “ficar bem”, precisava sempre mais, de algo mais forte para sentir aquele “alívio imediato”.  No outro dia eu tinha que encarar tudo de novo, a depressão, medos, angústias, ansiedades. Aquela era a minha fuga, a minha muleta. E assim fui (sobre) vivendo. Voltei diversas vezes dirigindo para casa após beber meia garrafa de whisky ( o caminho?  É claro que não lembro). Tive coma alcoólica e fui levada a hospitais, algumas vezes. As perdas de memórias aconteceram, várias vezes. É chato lembrar o que me disseram que eu fiz.

Não me orgulho deste meu passado. Lembro que nesta época eu poderia ter me envolvido com o uso de outras drogas. Mas existia em mim (ainda que pouca, mas alguma) consciência de que eu não tinha maturidade e capacidade para encarar qualquer droga. Eu sabia que eu era fraca demais para elas e que se eu entrasse em algo mais forte, jamais eu sairia. Eu sabia que eu era uma pessoa facilmente viciável. Por isso, só por isso, nunca experimentei coisas mais pesadas.

Bom, hoje, eu ainda bebo. Não bebo todo final de semana e nem todas as vezes que saio com amigos e família. Bebo apenas quando estou a fim (provavelmente o certo fosse nunca mais beber). Mas nunca, NUNCA coloco um gole de bebida destilada em minha boca (ela tem um efeito avassalador em mim).  Tento beber com moderação. Peço ajuda aos que amo para que me avisem caso eu esteja saindo um pouquinho da linha. Nesta hora eu deixo a bebida de lado e passo a tomar água. Quase sempre isso funciona.

Mas deixar a bebida não foi algo tranquilo. Eu fui substituindo as doses de bebida pelas crises de bulimia. Como não tive acompanhamento médico e psicológico (pois eu não achava que precisava), eu fui atrás de outra muleta.   A bulimia era “perfeita” para este papel. Fui ficando viciada em comer descontroladamente e vomitar. Mas é claro que encontraria outro inferno pela frente. Pois muletas quebram... A sujeira não pode ficar para sempre debaixo do tapete.

Agora estou aqui, disposta a mudar isto. Estou mais madura, mais consciente, mais esperançosa. Estou aprendendo a me conhecer e a encarar meus medos. Não é fácil, pois sempre fugi deles, mas não quero mais fugir. Sim, foram 20 anos de fuga. Mas quer saber? Posso ter mais que 20 anos de vida. De vida plena!!!

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Mudando nossas crenças



Estou passando um momento de conflito, que não vai fazer com que eu paralise o processo que comecei (minha luta pela recuperação), mas certamente, está fazendo com que eu avalie o caminho que estou seguindo. Desde o dia que comecei a escrever o blog tenho lido muito sobre bulimia, blogs, sites de instituições e pesquisas. Eu achava que conhecia muito sobre a doença, pois convivo com ela há 20 anos. Realmente, tenho amplo conhecimento do que é viver (sobreviver) com a bulimia, mas não sabia nada sobre o processo de recuperação, cura, e tratamentos. 

Foi muito interessante perceber que várias pessoas sentem algo similar com que eu sinto e que a doença se manifesta de forma muito parecida em centenas de mulheres (e homens) no mundo. Os mecanismos que usamos para manter a doença muitas vezes são similares, as desculpas, os medos. Temos muitas coisas em comum.  Acompanhar blogs de recuperação para mim tem sido a fonte de inspiração que me faz acreditar que eu também posso conseguir sair desse mundo sombrio. Além disso, esses blogs me mantêm consciente de que o processo é difícil, longo e que é necessário ter paciência e perseverança.

Os sites de profissionais e instituições de apoio também são grande fonte de inspiração e tem me mantido com o pé no chão. Neles tenho encontrado informações interessantes que acredito que podem ajudar muito na minha busca rumo à recuperação. Por que não busquei essas informações antes? Orgulho, vaidade, falta de humildade ou simplesmente porque ainda não estava de fato em busca da cura?

Bom, de qualquer maneira agora estou aqui, em busca da cura. E estou aberta para mudança de crenças e de percepções. Pois nada mais natural que neste processo eu cresça e amadureça certas ideias. 

Como recentemente eu postei aqui no blog um pouco da minha história com meus pais eu gostaria também de comentar um artigo de extrema importância que li no site da Dr. Sarah Ravin. Ela afirma que não há evidencia científica que sustente teorias de que o relacionamento entre a família pode levar aos transtornos alimentares. Ela até concorda que o desenvolvimento infantil sem suporte emocional e aceitação do filho por parte dos pais pode levar a baixo autoestima e a outros problemas emocionais, no entanto, não há evidências que isso leve a criança a um transtorno alimentar. Para isso ela cita um estudo em que mostra que essa relação não é, necessariamente, verdadeira.  Achei legal esse estudo e decidi citar aqui. Sempre entro em conflito com meu analista em relação a isto.

Hoje eu sou mãe e acredito sim que sou responsável por muitas coisas que estarei passando para meus filhos. Quero ter filhos mentalmente saudáveis, confiantes, amorosos, etc. Esta é uma tarefa que nós pais fazemos da melhor forma possível. Amamos nossos filhos com toda nossa força. E queremos apenas o melhor para eles. Ninguém aqui é PHD em educar filhos e nessa tarefa, certamente, haverá tropeços. Somos humanos e temos nossas limitações. Isto não nos exime de nos esforçar e dar tudo que podemos para fazer com que essa tarefa seja a melhor POSSÍVEL. Mas é isso que temos que lembrar, fazemos apenas o possível. Pois às vezes erramos, tentando acertar.

Então, se você for um pai ou mãe de uma criança que tem bulimia, não se cobre tanto (caso, alguma vez já tenha feito isso). Você fez o seu melhor, na época. Tenho certeza que amou e ama muito seu filho, senão jamais estaria aqui lendo estas palavras. Então, bola para frente e lembre-se que você pode ajuda-la (o) e muito a sair dessa.  Aproveito para agradecer aos meus pais por tudo que são para mim e por tudo que me ensinaram. Pois sou muito mais que uma pessoa com bulimia. Amo vocês demais. 

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Eu, papai e a Bulimia


Agora peço licença para meu pai, pois mais uma vez, quero deixar claro que se trata da minha versão dos fatos.  O meu relato é baseado nas minhas memórias e na MINHA percepção e emoção de como as coisas aconteceram. Como eu já disse, anteriormente, as pessoas são diferentes e as lembranças dos fatos também podem ser.   

Lembro da presença constante do meu pai na minha infância. Ele sempre esteve muito próximo de mim, sempre foi atencioso, brincava bastante comigo e cuidava de mim. Para mim, ele era como um herói. Eu apreciava cada palavra e gesto dele. Achava que ele era um verdadeiro exemplo de como uma pessoa boa deveria ser. Não conseguia ver nenhum defeito nele.  Só via as virtudes.

As palavras do meu pai eram como lei para mim. Tenho certeza que nem ele sabe o quão importante cada frase dele foi na minha vida. A orientação moral que meu pai me passou foi bem rígida e até hoje escuto minha consciência repetir as frases ditas pelo meu pai, mas com a interpretação que eu fiz naquele momento. Aí que está o X da questão. O que ele disse, muitas vezes não teve nada haver com como eu interpretei.

“Parabéns, filha, pelo nove, mas podia ser dez, hein?”. Na minha interpretação, eu precisava tirar dez, não poderia decepcionar meu pai. “Você sempre pode melhorar”, dizia ele. Essa frase durante anos acabou comigo. Eu sempre a interpretei como se nunca eu fosse ser boa o suficiente, sempre, sempre eu deveria estar melhor. Então seria uma corrida contra meu próprio rabo. Se eu estivesse em segundo lugar, precisaria ficar em primeiro, se estivesse em primeiro, precisaria ir para nova categoria, se fosse a melhor de todas as categorias, precisaria atingir o recorde mundial, se atingisse o recorde, precisaria batê-lo a cada vez que eu repetisse o ato. Seria uma luta em que eu estava fadada a perder.

Para meu pai a competição era importante, ele era contra aquela frase: “o importante é participar”. Não, meu pai dizia com todas as letras que era a favor da competição. E ele me dizia que eu poderia ganhar de quem eu quisesse se eu me esforçasse o suficiente. Ele me preparou para vencer. E eu realmente venci muitas vezes. Aprendi a ser determinada e a buscar o que quero. O problema é que não aprendi a perder, e nem aprendi que está tudo bem ser imperfeita, ter defeitos, me frustrar. Não aprendi que isso faz parte da vida. Quando descobri que eu não era “a melhor” o meu mundo desabou.

Olha que louco, eu até tenho lembranças do meu pai falando algo como: “você precisa aprender a perder”. Mas por algum motivo eu não dava importância. Eu me concentrava no meu pai falando sobre ser bom, ser o melhor, vencer, melhorar.

Eu poderia até dizer que minha mania pela perfeição foi “aprendida”. Mas vários outros valores também me foram ensinados e eu simplesmente não aprendi. Por exemplo, depois que percebi que eu não era o máximo, não era a melhor em tudo fiquei com a minha auto-estima lá embaixo. Comecei a ter pânico de perder e passei a não me arriscar ou a desistir de coisas no meio do caminho, só para evitar a frustração no futuro. Fazer isso, foi completamente ideia da minha cabeça, meu pai jamais aprovou que eu desistisse ou não me arriscasse. Mas era o que eu fazia, tinha medo de não ser a melhor, então eu nem tentava, para evitar decepção futura.

E agora? Minha relação com meu pai influenciou minha bulimia??? Claro que este fator, sozinho, também não teria o poder de iniciar uma doença tão complexa. Com certeza esta é mais uma pecinha do quebra-cabeça.  A bulimia é resultado de uma combinação de fatores: minha cabeça, minhas experiências, minha predisposição, pequenos detalhes que foram ocorrendo ao longo da minha vida e que para mim foram se tornando gigantes.

Depois que sai de casa, meu pai me perguntou poucas vezes sobre a bulimia e quando o faz eu fujo para não responder. Sempre tive dificuldade de aceitar o apoio do meu pai durante os anos que vivi com eles e tive a doença. Na minha visão, o meu pai sempre acreditou que eu poderia simplesmente deixar a doença e pronto. Era só eu me esforçar o suficiente. Acho que ele nunca entendeu o que era a doença de fato. 

Hoje, já não preciso que ele entenda (até gostaria). Amo ele e minha mãe muito. Sei que eles precisam cuidar deles para que eles não fiquem doentes. Respeito às limitações deles e eles precisam entender as minhas. 

terça-feira, 5 de junho de 2012

Eu, mamãe e a Bulimia


Antes de começar o post, quero pedir licença para minha mãe, e deixar claro que se trata da minha versão dos fatos.  Como algumas coisas aconteceram no passado e eu era muito nova, o meu relato é baseado nas minhas memórias e na MINHA percepção e emoção de como as coisas aconteceram.   Tenho consciência que pessoas diferentes podem passar pela mesma situação e sentir e interpretar essa vivência de outra forma.   

Durante minha infância sempre tive um relacionamento mais próximo com meu pai. Na minha lembrança, minha mãe cuidava do meu irmão e meu pai de mim. Inclusive, eu morria de raiva do meu irmão por isso, para mim ele era responsável por me afastar da minha mãe. Minha relação com minha mãe sempre foi difícil da infância à adolescência. Brigávamos muito e muitas vezes eu a afastava. Muitas vezes eu a provocava como forma de testar o seu amor por mim, e ela caia nas minhas provocações de forma infantil. Minha conclusão era que ela não me amava.   Hoje analisando vejo que eu não era única criança no processo.

Durante a minha infância vi minha mãe ter depressão. Ela ficava muito tempo dentro do quarto e meu pai passou a assumir tudo em casa. Achava que de certa forma eu podia ser culpada pelo estado da minha mãe, por ter sido uma má filha. Meu pai pedia para sermos bonzinhos, pois mamãe estava dodói.  Algumas vezes eu pensei que ela estava morrendo, senti medo e culpa. No entanto, minha mãe melhorou, mas a nossa relação não.

Na minha adolescência ou pré-adolescência tivemos vários conflitos. Fomos duras uma com a outra e brigávamos muito. Nós ferimos várias vezes, com palavras e ofensas. Não sei o quanto isso doeu para ela, mas para mim as marcas ficaram até hoje. Ouvi duras palavras e acreditei nelas durante anos. Por mais que meu pai tentasse me explicar que minha mãe falava certas coisas apenas da boca para fora, apenas no momento de raiva, para mim isso era inconcebível. Ela não tinha esse direito. Eu era a adolescente. Eu tinha esse direito. Ela era mãe. Ela deveria saber mais. Ela deveria se conter. Mas não foi como aconteceu comigo. Mais uma vez eu a provocava e ela descia na minha idade e se comportava como se tivesse a mesma maturidade que eu.

Apesar de todas as brigas com minha mãe, eu desejava muito o amor dela. Percebi que irritá-la ou exigir amor não dava resultado. Quase que sem querer, descobri que ao ficar doente minha mãe cuidava de mim de verdade. Era a hora em que ela se tornava MÃE, a que provia carinho, amor, cuidado, atenção. Nesse momento ela deixava de ter a minha idade e se tornava adulta. O problema é que comecei a ficar doente sempre que precisava de carinho materno...

Como a relação com minha mãe não foi boa, e como eu só tinha irmãos homens, o meu referencial feminino ficou meio perdido. Diferente das minhas amigas, na adolescência, eu nunca ia ao cabelereiro ou ia fazer as unhas. Inclusive até hoje não sinto tanto prazer nesses rituais femininos quanto vejo que minhas amigas sentem, na verdade, acho um saco. Adoro o resultado, odeio o processo. Será que esse ritual para o embelezamento é algo que se aprende? Será que a minha falta de paciência tanto para busca da unha feita, do cabelo escovado ou do corpo bonito é resultado da minha vivência? Nada é tão simples assim.

Minha relação com minha mãe influenciou a minha bulimia??? Nenhum fator, sozinho, tem poder de determinar essa complexa doença. Talvez esta relação mãe/filha seja apenas uma das peças desse imenso quebra-cabeça. Se eu não tivesse pré-disposição para a doença provavelmente eu passaria por tudo sem problema algum. Mesmo porque as pessoas são diferentes, e reagem de formas diferentes a situações iguais. Na verdade, o que menos importa aqui é saber se isso pode ter sido algum pontapé para o começo da minha doença. O importante é saber se pode ajudar a sair dela. E acho que sim.

Faz quase dez anos que eu sai da casa dos meus pais e me casei. Ontem eu percebi que minha mãe nunca me perguntou sobre a bulimia. Ela me pergunta como estou, se estou bem, mas nunca sobre a bulimia. É como se o problema agora não existisse. “Você não suja o meu banheiro e eu finjo que não sei”. Todo mundo vai fingindo um pouquinho. Ela finge que esqueceu tudo e eu finjo que nunca tive nada. Parece que estamos em uma festa mascarada. Todos usando máscaras. Sabemos quem está do outro lado, mas fingimos que não, para não estragar a festa.

Relembrar a minha história com a minha mãe é importante para perceber que ela teve e tem limitações. É um problema dela e não meu. Eu tenho os meus problemas e tenho que cuidar deles. Já sou adulta e não preciso mais esperar para que ela pergunte como está minha bulimia. Quer saber? A doença é pesada demais para quem a tem e também para a família. Não é a toa que minha mãe bloqueou isso, os motivos podem ser os mais variados, eu não sei, mas hoje aceito. O que importa é que eu não preciso esperar que ela cuide de mim. Pois sou adulta agora e eu cuido de mim. Não vou criar mais expectativas e isso já tira um peso enorme das minhas costas e da dela também, tenho certeza. 

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Por que as pessoas se tornam Bulímicas?



Para tentar entender a minha própria história, conseguir me perdoar e aceitar que não sou uma fracassada. Ou seja, para que eu consiga me ver livre dos meus próprios preconceitos em relação a bulimia, tenho buscado muitas informações e algumas têm me ajudado bastante. O site Eating Disorders – Resources for Recovery traz um trecho do livro “Bulimia: Um Guia para a recuperação”, escrito por Lindsey Hall e Cohn Leigh, que eu gostaria de compartilhar com vocês. Trata-se do capítulo que explica o motivo que levam as pessoas a se tornarem bulímicas.

Durante os muitos anos em que fui levada a psiquiatras e psicólogos para o tratamento “adequado” uma das coisas que mais me irritava era a falta de capacidade dos médicos em entender a doença como um todo. Eles conversavam comigo como se o meu único problema fosse o meu corpo e a forma de me enxergar e resumiam o meu problema a isso. Nossa, isso me irritava muuuito. Até hoje sempre fico irritada quando vejo pessoas falando do assunto e resumindo a doença à busca do corpo perfeito. Quem tem bulimia sabe que a doença vai além da tentativa desesperada de controle do corpo. Queremos controlar tudo, nossa raiva, nossa angústia, nosso medo, nossa ansiedade, nossa carência. Que ilusão!!!

Bom, o texto que estou citando é interessante pois começa a mostrar para o mundo que somos mais que isso. Nosso problema é maior que a busca por um corpo de Barbie. Descobrir que o problema ultrapassa o corpo e vai para mente pode parecer assustador. Afinal não seria mais fácil se fosse apenas um único problema? Sim, provavelmente. Mas a verdade é que precisamos trabalhar o todo para buscar a cura. Como os médicos nunca associavam uma coisa com a outra eu também não fazia essa associação, então eu achava que eu era uma pessoa toda ferrada. Eu ficava pensando que tinha tudo: bulimia, depressão, transtorno bipolar, ansiedade excessiva, transtorno do pânico, etc... Comecei a perder a fé em Deus e em mim. Como eu conseguiria melhorar???

Muito, muito recentemente, percebi que as minhas limitações psicológicas eram o meu maior inimigo na cura da bulimia e a forma como eu a vejo também. Usar a bulimia como válvula de escape para minhas limitações sempre foi o motivo maior para nunca querer me desfazer dela. Sim, engordar me preocupa muuuito,  mas me incomoda mais ainda não ter mais a ferramenta de colocar tudo para dentro e depois jogar tudo fora. Perder isso me apavora. É como se no vômito todas as preocupações fossem embora. Com a bulimia eu podia aguentar tudo, todas as pressões, ela é como uma droga, fiquei viciada. O problema é que agora não consigo mais me sentir infalível, forte e poderosa.  De repente percebi que não posso e nem quero mais fazer isso comigo.

Enfim segue a traduçao de alguns trechos do texto:

“Bulimia é um transtorno multidimensional. É causada por uma combinação de fatores, incluindo, mas não se limitando, a cultura, personalidade, família, genética e trauma vivenciado."

"Indivíduos com bulimia podem identificar várias causas para a sua doença. Independentemente das razões subjacentes, a bulimia "funciona" em muitos níveis diferentes. A compulsão alimentar proporciona alívio instantâneo. Ela substitui todas as outras ações, pensamentos e emoções. A mente deixa de lado por aquele instante os problemas, e se concentra em obter comida e coloca-la para dentro. Os sentimentos negativos ficam suspensos. Mesmo o vômito pode ser agradável quando se é o contato mais íntimo com o corpo. Quando o episódio de comer e vomitar termina, por um breve momento, o bulímico recupera o controle. Já não sente a culpa por ter comido tantas calorias, ela é drenada, e o bulímico se sente relaxado e em êxtase.   Logo, este sentimento é substituído por outros negativos, e o ciclo desta dolorosa, debilitante e desgastante doença começa novamente.”

Quem quiser ver o texto integral e em inglês, clique aqui. Acho que vale a pena.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

O Começo


Durante anos eu penso em escrever sobre o que passo e sobre o que sinto. Esse é um projeto que sempre abandono por motivos mais variados possíveis : medo de me expor; preguiça; não ver um motivo real para fazê-lo. Bom, a verdade é que estou precisando a cada dia mais desabafar. Foi difícil para mim chegar a essa decisão de expor a parte mais frágil da minha vida, mas preciso encontrar outras válvulas de escape, pois as que utilizo hoje já não me sustentam mais.

Sofro de depressão há quase 20 anos e durante esse tempo já passei por três tentativas de suicídio. Durante a minha luta contra a doença já passei por muita coisa, já tive períodos em que achei que estava louca, adquiri uma bulimia, casei, tive dois filhos, melhorei muito e  agora estou passando por um momento muito difícil. Minha depressão que há muitos anos não se manifestava está bem forte, a bulimia que nunca consegui me livrar continua comigo e estou sofrendo alterações de humor. Ando irritada e as vezes tenho a sensação de que vou enlouquecer.

O começo de tudo

Bom, vou tentar contar como me lembro... Não sei ao certo quando a depressão começou, nem ao certo o que veio primeiro a bulimia ou a depressão. Mas sinceramente acredito que a bulimia é uma consequência de algo que já não vinha muito bem...  Na verdade tenho recordações de alguns pensamentos já na minha infância do tipo “não queria estar viva”. Esses pensamentos de desesperança eram espaçados e misturados com momentos normais e alegres. Apesar de não dividir os pensamentos negativos com ninguém, acredito que eles eram realmente sinceros. Eles começaram por volta dos meus oito ou sete anos.

O primeiro episódio bulímico ocorreu quando eu tinha 15 anos. Eu havia me excedido na alimentação e tive a "brilhante" ideia de colocar tudo para fora. No inicio foi uma solução fácil para me livre das calorias extras e o vômito me pareceu uma alternativa fácil e viável para meu problema. Mal sabia eu que estava entrando em talvez a pior armadilha que iria me acompanhar e me atormentar por longos anos da minha vida. Se eu pudesse eu jamais teria escolhido aquele caminho.

A bulimia, no início, foi usada para conter o peso, por pura vaidade, e para controlar de forma rápida um problema que eu mesmo tinha criado: ingerir muitas calorias, por ansiedade e descontrole.  Eu me acostumei tanto com a forma fácil de me livrar das calorias extras e da culpa de ter comido mais que precisava que a bulimia começou a fazer parte do meu dia a dia. Chegou um momento em que eu vomitava em todas as refeições, só pelo costume.  É como se o vômito fizesse parte do processo da alimentação: comer, mastigar, engolir e vomitar (deixar no estómago só o suficiente para sobreviver). Para mim, comer sem vomitar passou a ser inconcebível. Eu começava a passar mal, tremer, suar. Então deixei de ir para eventos sociais em que as pessoas serviam comida, ou seja, quase todos. E me isolei.

Bom, paralelamente a bulimia eu tive depressão. 

Essa fase foi de muito sofrimento. Eu tomava muitos remédios e ficava dopada, ou pelo menos me sentia assim. Eu sentia uma dor terrível no meu coração. Algo muito forte, na alma, indescritível. Me doía não saber descrever a causa e saber que a família, os amigos e todos a minha volta estavam preocupados.

Eu ia ao psicólogo (obrigada pela minha mãe), ao psiquiatra e tomava muitos remédios. Durante esse período, tentei largar a bulimia. No entanto, eu não conseguia comer nada e acabei desenvolvendo outro transtorno alimentar: anorexia. Durante pouco tempo perdi muito peso, me sentia muito pressionada e minha depressão ficou mais intensa. Depois de seis meses, votei para a bulimia.  

Ao longo do tempo mudei médicos várias vezes. Acho que sentia um pouco de raiva da quantidade enorme de remédio que os psiquiatras me davam. Tem horas que tenho a sensação que o terapeuta estaria muito mais apto para passar qualquer medicamento. Sempre achei superficial e artificial a conversa de uma hora que se tem mensalmente com o psiquiatra. Como assim fazer um resumo de tudo o que você está passando???? Sabe? Acho que o contato psiquiatra/paciente deveria ser mais próximo como o é o de psicólogo/paciente.

Por insistência dos outros, tentei igreja, pastor, benzedeiros, centros espírita, etc... tudo na busca de um alívio. Durante esses anos, por algumas vezes, acreditei estar melhor e então larguei todos meus remédios. Eu acreditava que os remédios me faziam muito mal, além disso era muito difícil para mim aceitar que eu dependia deles.  Cada vez que eu deixava os remédios de lado, o retorno da depressão parecia ser mais forte.