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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Quando o fim não assusta mais

Vai chegando o fim de mais um ano e, pra variar, fico aqui com as minhas reflexões. A verdade é que durante muitos anos eu não gostei do fim do ano. Para mim, o fim do ano vinha com o peso de fim. E eu não queria aceitar o que é tão natural: o fim. Entender e aceitar que as coisas terminam é importante para se dar o devido valor a elas. Então hoje quero olhar para cada um dos meus dias e aproveitá-los porque eles são perecíveis. Quero aprender a fazer escolhas, ser eu a dona e protagonistas das minhas escolhas. Escolher é perder, pois perdemos tudo o que não foi escolhido. Então quero escolher o que não perder e o que perder. Não quero mais ter a sensação de que foi um ano “perdido”.

2014 está indo embora. E este foi um ano de escolhas e perdas. Mas todas foram minhas escolhas, minhas perdas. Eu fui responsável por cada uma delas.  Eu decidi o que valia a pena perder, eu decidi o que valia a pena investir. Não foi um ano excelente, feliz e maravilhoso. Foi um ano bom. Um ano em que vivenciei meus sentimentos, sem drama, sem vitimização. Teve dias que eu estava de saco cheio, com raiva, desanimada, com vontade de chorar, com ansiedade, com tristeza, com angústia, com medo, com ciúmes, com inveja, com orgulho, com vaidade, com insônia, com insegurança, com carência... Entendi que sentir dessa forma é natural e, até, saudável. Anormal é se sentir feliz e saltitante 24 horas ao dia.

Percebi que sentir o “mal estar” é o que me faz viva... é o que me faz despertar ao invés de acordar... é o que me faz decidir o que perder e o que escolher ao invés de seguir a programação que durante anos eu vinha seguindo sem me dar conta. Gastei muito tempo “me anestesiando” para dormir, para acordar, para ficar menos ansiosa, para chorar menos, para conseguir trabalhar, para ser mais produtiva, para “dar conta”. Hoje não preciso dar conta de tudo. Hoje escuto meu corpo e minha mente, principalmente quando estes estão gritando. São nesses momentos que eu preciso entender o que está errado. Qual escolha estou fazendo? O que estou perdendo? O que significa esse mal estar? Não dar conta é a porção ainda viva em mim gritando que algo está muito errado e que é necessário resistir a alienação e a “zumbitização”.

Permitir sentir, aceitar meus sentimentos, olhar para eles e começar a construir, elaborar e encontrar respostas foi o exercício feito em 2014. E por isso o ano foi bom. O final de ano vem diferente dessa vez. Não vem com tristeza pelo que eu deixei de fazer. Não vem com a sensação de um ano perdido... de um ano passado, mas não vivido. Eu vivi 2014, eu senti 2014, eu me permiti.


Sei que 2015 não vai ser mole, sempre haverá questões para serem tratadas, digeridas, elaboradas. Mas isso é viver, não é mesmo?   Que 2015 chegue com novas perguntas, novos “mal estares” ou “mal estares” ainda não resolvidos e que eu tenha coragem para seguir em movimento sem que eu perca dias de vida anestesiada ou paralisada pela falta de sentimento ou pelo medo do fim... 

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

A gente não quer só comer

Estou em uma fase que está me irritando. Apesar de não ter crises de bulimia há mais de um ano e minhas noias sobre engordar terem diminuído consideravelmente ainda tenho tido episódios de compulsões. No começo eu tentei não ligar muito para esses episódios, pois acredito que eles irão diminuir com o tempo. Acredito que com a evolução da minha terapia e do conhecimento e aceitação do que está se passando comigo, eu não precisarei mais recorrer ao alimento para tentar suprir algo que falta dentro de mim. Embora minha crença seja essa, isso não está me impedindo de ficar irritadíssima comigo por não segurar a onda em momentos de angústia, de mal estar. Nesses momentos, eu acabo comento 1 Litro de sorvete para tentar me anestesiar.  A sensação pós-comida é diferente de antigamente.  Antes eu comia muito mais que isso e vomitava, claro... Eu lembro que vomitar era parte do processo, era quase que automático para mim. Hoje não consigo me imaginar fazendo isso. Agora eu “aceito” o que fiz e sei que vomitar não será a solução para meu problema e, simplesmente, não vomito mais, eu aceito engordar... não que eu goste de engordar, mas aceito essa consequência para meu ato.   


Bom, a verdade é que sei que evolui. Sei que hoje tenho menos “problemas” que antes. Sei que estou lidando melhor com meu corpo, mesmo com as mudanças que ocorreram nele com a “recuperação”.  No entanto, ainda olho para mim e vejo que tenho tanto a percorrer. Vejo que ainda uso a comida como válvula de escape e que apesar de não me desesperar com os quilos que estou ganhando com as compulsões, eu não gosto deles. Fico me questionando sobre quando irei deixar as compulsões de lado e apenas irei comer normalmente (como faço durante todo o dia). Fico perguntando se um dia conseguirei fazer isso... Se um dia o chocolate será apenas um chocolate e não trará consigo a ilusão de preencher um vazio que é impreenchível. Fico me perguntando se um dia eu conseguirei aceitar esse vazio que é tão difícil de nomear e que parece vir disfarçado de tantas faces... 

Bom... nesse momento, lembrei de Titãs: 

Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?

A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte

A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer

Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?

A gente não quer só comer
A gente quer comer
E quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer
Pra aliviar a dor

A gente não quer só dinheiro
A gente quer dinheiro e felicidade
A gente não quer só dinheiro
A gente quer inteiro
E não pela metade

Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?

A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte

A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer

A gente não quer só comer
A gente quer comer
E quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer
Pra aliviar a dor

A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer dinheiro
E felicidade
A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer inteiro
E não pela metade
Diversão e arte
Para qualquer parte
Diversão, balé
Como a vida quer
Desejo, necessidade, vontade
Necessidade, desejo, eh!
Necessidade, vontade, eh!
Necessidade

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

As eleições um processo ainda em desenvolvimento

Interessante perceber como ainda somos imaturos. Não sei se essa é uma realidade do mundo, da humanidade, mas certamente é a do nosso país. Ainda estamos engatinhando no processo democrático. Estamos vivenciando um momento de ódio, rancor e intolerância aos pensamentos divergentes.

Uma das coisas que mais tenho aprendido nos últimos anos é a importância da diferença. A riqueza da divergência de ideias e conceitos, e a necessidade do respeito à alteridade. Tenho amigos de todo tipo: esquerda, direita, ricos, pobres, homosexuais, heterosexuais, cientistas, religiosos, escritores, boêmios, CDFs... Para mim, o que é mais importante nessas amizades é o respeito pelo outro, pelas opiniões diferentes e pela liberdade de escolha.

Com as eleições, fica evidente o quanto ainda precisamos amadurecer. Acho fundamental estarmos vivenciando essa experiência. A política deve ser sentida e vivenciada. Mas precisamos ter o coração tranquilo e o estômago forte. Precisamos lembrar que não se trata de certo ou errado, se trata de visões de mundo diferentes para a escolha de como achamos que o país deve ser conduzido. Em tese, temos o mesmo objetivo: uma vida melhor. Achar que só você tem razão e os outros são idiotas e precisam de “guias” para conduzi-los "pelo bom caminho" é típico de quem não sabe conviver com quem pensa diferente.

E por que estou trazendo esse assunto para cá? Porque a eleição mexeu comigo e fez com que eu repensasse a diferença. Fiz uma avaliação de mim mesma, de como penso e ajo, e de como já pensei e já agi. A conclusão que cheguei é que eu já tive dificuldade de lidar com a diferença. Mesmo quando meu discurso era de aceitação pelos que são diferentes, eu tinha dificuldade de me aceitar quando eu me via diferente.

Por isso, eu passei muito tempo me esforçando para ser o que achava que os outros queriam. Agradar terceiros... eu não sabia dizer não. Eu queria que o olhar do outro me dissesse quem eu era. Eu queria que o olhar do outro confirmasse que eu era boa o suficiente, inteligente o bastante, agradável satisfatoriamente, disponível regularmente. Hoje, com muita análise, eu não tenho mais a pretensão e nem a ilusão de agradar terceiros para ser amada. Hoje entendo que a coisa mais importante que posso fazer por mim é ser eu mesma, me amar da forma como sou.


Aparentemente, uma temática pode parecer não ter nada a ver com a outra. No entanto, acredito que no momento em que eu não me aceito e tento me moldar aos olhos dos outros, é porque eu não aceito as diferenças que eu possa ter diante desses olhos. Eu estou sendo intolerante comigo mesma. Hoje isso mudou. Hoje cada dia mais sei quem eu sou. Vivencio quem eu sou e por isso tenho tranquilidade para aceitar a diferença. Não apenas a minha, mas a de todos. Não apenas no discurso, mas no coração.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Conquistas e novos desafios

Não acredito em fórmulas mágicas, em receitas de bolo, em palpites. Mas preciso confessar uma coisa. Segui algumas fórmulas, algumas receitas, aceitei palpites. Algumas me fizeram bem, outras foram em vão. Mas mesmo pensando nas que me fizeram bem, preciso dizer, não acredito que elas sozinha, sem uma transformação no meu emocional resolveriam...

Faz um ano que não tenho mais bulimia. Conforme é de conhecimento de alguns, eu tive bulimia por 20 anos. Durante os últimos três anos eu comecei um processo de recuperação. Com esse processo, consegui ir, aos poucos, diminuindo a quantidade de crises diárias. Até que consegui cessá-las. Não foi um processo fácil, rápido ou mágico. Vivi momentos difíceis, momentos de medo, momentos de sofrimento, mas está valendo a pena.

Hoje sou uma nova pessoa. Não uma pessoa completamente diferente. Mas, certamente, uma pessoa transformada. Tenho descoberto a cada dia mais sobre quem eu sou, do que eu gosto e do que não gosto. Hoje sei que gosto de comida, gosto do que o meu corpo é capaz de fazer. E amo a vida.
Sei que ainda tenho questões que precisam ser resolvidas com a alimentação. Comer, para mim, ainda é mais do que me nutrir. Muitas vezes ainda “como” sentimentos e emoções. Ainda luto contra o comer emocional. Quando não como meus sentimentos, quando me permito sentir e viver minha vida, eu como com prazer, sinto os sabores, sem culpa, sem nóia.

Para mim, o comer emocional ainda é o resquício da bulimia e eu sei, eu sinto, que vou conseguir com o tempo superar isso, até porque a frequência do comer emocional vem diminuindo. No entanto, eu ainda fujo para o chocolate, bolo ou sorvete nos momentos em que eu sinto um vazio grande no peito e uma angústia que parece que não passa. Nesses momentos, a comida parece que me anestesia, e, por alguns instantes, eu me sinto abraçada por dentro. E, por alguns segundos, tudo parece estar resolvido.  Mas daí eu decido comer o segundo chocolate com a intenção de manter a sensação de alívio, a sensação parece passar rápida, então eu como o terceiro, agora mais rápido, agora sem sentir o sabor. Lá para o quinto ou sexto chocolate, percebo o que estou fazendo. Paro e fico triste. Não vomito. Nunca mais vomitarei!

Claro que eu me sinto péssima. Claro que penso “você não precisa disso, estava indo tão “bem”. Claro que sei que vou engordar com as compulsões. Mas não vomito. Já decidi que isso eu não faço mais. Sei que ainda tenho questões emocionais para resolver. Sei que tais questões tem tudo haver com meu comer emocional. Sei que é enfrentando a vida, que eu superarei minhas dificuldades. Chega de fugir!!! 

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Boa notícia

Dia dois de outubro completarei 1 ano que estou recuperada da bulimia. Bom, conforme é de conhecimento de alguns, eu tive bulimia por 20 anos. Os últimos três anos da doença eu procurei ajuda e comecei um processo de recuperação intenso. As crises de bulimia passaram a diminuir, eu passei a me alimentar melhor e seguir as recomendações da nutricionista. Há um ano as crises cessaram por completo. 

Hoje, recebi o resultado do meu exame de densitometria óssea. Há um ano atrás, eu fui diagnosticada com osteopenia (início de osteoporose) e conforme o resultado do exame que peguei hoje, estou conseguindo reverter a osteopenia. Sei que esse resultado é consequência da boa alimentação, além da reposição do Cálcio e Vitamina D. Por isso me sinto especialmente feliz hoje.


Receber essa notícia me deixou feliz. Não apenas pela notícia simples e pura, mas porque sei que não são apenas meus ossos que estão mudando. Eu mudei muito e venho mudando um pouco a cada dia.  Lembro que eu fiquei triste quando recebi o resultado que estava com osteopenia, porque é triste. Mas eu decidi encarar os fatos e não me fazer de vítima. Decidi que aquilo era um retrato tardio do meu passado e que eu faria apenas o que estava no meu alcance a partir de então.  E foi o que fiz... eu já estava mudando. 

domingo, 2 de março de 2014

USP faz triagem para tratamento odontológico de pacientes com bulimia/anorexia

A Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOUSP) do campus São Paulo recruta homens e mulheres acima de 18 anos com diagnóstico médico prévio de bulimia e/ou anorexia nervosa para triagem e possível participação em projeto de pesquisa. Esse projeto oferecerá tratamento sem custo algum e  sigilo da identidade dos participantes. Há 30 (trinta) vagas disponíveis. 

O objetivo será avaliar a saúde bucal através da análise da quantidade e qualidade da saliva, presença de cáries, erosão ácida e candidíase bucal. O estudo irá oferecer tratamento para sensibilidade dental, candidíase bucal e remoção de cáries. 

As consultas irão acontecer na Clínica de Especialidades da FOUSP e os interessados deverão enviar um email para reconstruindosorrisos@gmail.com para mais informações e agendamento para consulta.




sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Novamente, eu e o outro

Tem dias que nosso coração parece que está apertado e a gente aparentemente não consegue entender o porquê. A verdade é que sempre existe um porque e às vezes, simplesmente, preferimos não enxergar o que está nos incomodando. Do que estamos fugindo?

Hoje acordei com essa sensação. Com o coração apertado e um sentimento de angústia. Nesses momentos o meu primeiro impulso quase sempre é comer. É tapar, esconder, anestesiar esse sentimento com a comida. A vontade é de fugir. Mas, como vocês sabem, estou há mais de quatro meses sem crises de bulimia (ainda tenho algumas compulsões, mas não vomito mais, ufa!) e sair me empanturrando de comida e me anestesiando com o vômito não é mais uma saída para mim.

Agora eu estou vivenciando as minhas angústias, dores, sofrimentos e sentimentos. Isso significa encarar parte de mim que eu não estava disposta antes. O que percebo é que sem a comida como fuga, basicamente eu tenho que lidar com pequenos desconfortos quase que diariamente. É como se eu estivesse quase sempre desconfortável com algo. Tenho percebido, por exemplo, que o meu trabalho é um espaço em que me sinto bem desconfortável. E tenho tentado entender o porquê deste “desconforto”.

Analisando essa sensação em relação ao meu trabalho eu percebo que parte da minha angústia vem da necessidade de receber a aprovação dos outros. É como se eu necessidade que os outros referendassem meu trabalho para que eu me sentisse competente. Durante muitos anos eu me escondi atrás da bulimia para fingir para mim que eu era segura. Ou simplesmente para não conseguir perceber as minhas inseguranças.  

Hoje percebo como sou bastante insegurança. Percebo que um comentário ou a falta de um comentário pode atingir a percepção que tenho de mim mesma: “sou competente” X “não sou competente”. Percebo como eu me rastejo atrás dessas aprovações da mesma forma que uma criança procura a aprovação dos pais ao mostrar o boletim escolar.

Inclusive me recordo como eu buscava a aprovação dos meus pais ao mostrar minhas notas para eles. Lembro-me como eu achava que se eu tirasse notas boas seria amada, caso contrário correria o risco de perder o amor deles. Era como se sempre eu tivesse com medo de perder o amor deles (principalmente o da minha mãe). Eu já me sentia muito insegura.

Aquela insegurança é exatamente a mesma de hoje. Continuo sendo aquela menina, em busca da aprovação... em busca do amor... em busca de um espelho que me diga quem eu sou. Um outro que me assegure que eu sou boa o suficiente.


Mudar isso é um objetivo. Tornar-me alguém mais independente do olhar do outro é uma meta. Percebo pequenas evoluções nesse caminho...  Mas percebo grandes falhas também. Que a luta continue. 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Então foi Natal...

Quem tem ou teve um transtorno alimentar sabe que as épocas de festas podem ser apreensivas. O Natal para mim não foi diferente. Senti um friozinho na barriga. O meu desejo era passar o Natal sem crise bulímica e me manter na recuperação. Era inevitável a lembrança de que nos últimos anos meus Natais haviam sido todos com crise. Tentei não me impressionar com essa lembrança. Me foquei no fato de que agora as coisas são diferentes. Eu mudei, não sou mais a mesma. Não preciso mais passar o Natal fugindo e me anestesiando.

Então, me preparei e me fortaleci emocionalmente. Apesar de estar confiante confesso que senti um frio na barriga. Mas não me isolei e nem evitei nada. O Natal foi na minha casa. A família foi toda para lá, irmão, cunhado, cunhada, sogra, tios e tias, primos, etc... A festa foi uma delícia. Preparamos aquela comilança que tem em todo Natal e nem por isso eu tive compulsão. Aproveitei a festa. J

Bom, no dia 26 eu recebo um telefone, era meu irmão. Minha mãe, pai, irmão mais velho e cunhada, não participaram do evento conosco, pois haviam viajado.
 Meu irmão estava apreensivo e me disse que minha mãe não estava bem, que ela tinha tido uma “crise”, estava achando que iria morrer, e estava querendo se despedir de todo mundo. Então eu, supostamente deveria falar com ela para que ela se “despedisse” de mim.  

Eu respirei fundo e fui conversar com ela... Minha ligação com minha mãe sempre foi algo forte, algo, até, doentio. Hoje consigo perceber que durante anos a gente cultivou um círculo doentio de sofrimento. Há algum tempo venho trabalhado para sair deste círculo e me separar de minha mãe. Estou me libertando emocionalmente dela para que eu possa me transformar em mim. Acredito que o meu distanciamento emocional pode estar gerando um desconforto na minha mãe. Mas sei que o luto que as duas estão vivendo é fundamental para o meu renascimento e será para o dela também.

Bom... eu respirei fundo e fui conversar com ela. É claro que não aceitei “despedida” nenhuma. Não joguei o jogo de vítima dela. Conheço o jogo. Eu mesma já fui estrategista, já armei as peças, já montei cenários, já ganhei e perdi muitas vezes. Mas a verdade, é que nesse “xadrez” ninguém ganha. Só há perdedores. O jogo é um jogo triste, as consequências são reais e perigosas. Eu sei disso. Eu mesma vivi isso, eu mesma fui “alimentada” por pessoas queridas com “lenha para minha fogueira”. Eu mesma “queimei e fui queimada”.  

No dia 26, eu disse “não” para minha mãe. Não dei a ela conforto e nem passei a mão na cabeça dela. Não aceitei “despedida”. Me segurei e fiquei firme no meu propósito de não cair no jogo do “vou embora”, “a vida é uma merda”. Sei que o que ela quer, não é ir embora, não é acabar com a vida dela. Sei que ela quer é acabar com o sofrimento.  Mas para isso ela precisa viver!!! Ela precisa querer. Ela precisa buscar. Não sou eu, que posso fazer isso por ela. Posso apenas dizer, estou vivendo, venha para vida, estou aqui te esperando. Não posso me afundar com ela. Já estive com ela nessa “merdalância” por tantas e tantas vezes. Agora não dá mais. Escolho viver e me respeitar. 

Sofro por ver minha mãe nesse estado. Chorei algumas vezes. Tive insônia.  No entanto, não permiti que isso afetasse meu propósito de não me afundar na depressão ou de não vomitar.  Claro que estou preocupada com ela. Claro que me preocupo com meus irmãos e meu pai. Mas agora me preocupo antes comigo, meus filhos e marido. Amo minha mãe e amo minha família. Estamos nos revezando para cuidar dela. Mas não tenho me esquecido de mim. Não permito me influenciar pelas queixas ou frases que ela faz para me atingir. Hoje sei que não é pessoal. Hoje entendo que as acusações da minha mãe tem haver com ela, e muito pouco comigo.

Hoje entendo que cada pessoa tem um ritmo, um processo, uma vida. Minha vida, meu processo é distinto do da minha mãe. Durante um grande tempo, eu achei que minha melhora dependia da melhora da minha mãe. Achei que só iríamos sair da “merdalância” juntas. Que para eu melhorar, ela precisaria enxergar esse processo também, para juntas, felizes, saíssemos disso.


Mas, hoje entendo que não. Sou outra pessoa. Não estou deixando ela para trás. Estou apenas indo. Tenho responsabilidade diante da minha vida. Só posso assumir as responsabilidades diante da minha vida. E hoje decido ficar melhor. Decido quebrar um círculo que provavelmente foi transmitido de geração em geração. Respeito o tempo dela, a limitação dela. Aceito minhas próprias limitações, aceito o meu tempo, e com coragem sigo meu caminho. 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Em busca da liberdade

 E mais uma vez me vejo encenando a mesma peça. Só que eu tinha a ilusão que estava agora mais consciente. A consciência chegou de forma tardia. Após feita a ação percebo sua dimensão e suas consequencias. Como posso mais uma vez cair no mesmo “erro”? “É essa fala que fala em mim, para além de mim”... Conseguirei mudar isso?

Meu inconsciente sempre estará lá... Apesar de alguns aspectos me pertubarem, conseguirei identificá-los antes de minhas ações e quebrar o ciclo? Não sei até que ponto isso será possível. Mas preciso acreditar nisso. De certa forma, isso já vem acontecendo. E a cada “falha” vem apenas a certeza de que agora identifico o “erro” mais rapidamente. Sou eu. Eu, como, verdadeiramente, sou. Agora, com desejo de me conhecer, me aceitar, me respeitar e me transformar.

A ausência dos sintômas bulímicos me mostra uma infinidade de Eus. Lembro-me de quando disse que queria descobrir quem eu era. Eu queria saber qual roupa eu gostava, qual livro era meu predileto, qual estilo musical era o meu, quais as minhas preferências. Minha vontade era conhecer o meu desejo.

Essa vontade permanece. Quero me conhecer. Mas não apenas o que “imitei” de “bonito” nos outros. Quero conhecer o que tenho de mais podre. Quero olhar e identificar e reconhecer como meu o que tenho de mais sujo. Quero identificar as minhas fraquezas e também reconhecer as minhas virtudes. Quero ser capaz de me ver exatamente como sou. A partir daí, sim, saberei qual o meu desejo.


Nesse momento, a menina maravilha, a criança escondida em mim, que ainda deseja a aprovação da mamãe, esta criança, que me iludiu e ilude, vai morrer. E ficará EU. Adulta, segura, livre. Para expressar o meu desejo e não mais o desejo de ser o objeto do que acredito ser o desejo do outro. Então, estarei livre.  

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Paciência

Estou fascinada pelo romance que estou lendo "Quando Nietzsche chorou". O livro tem sido um convite para que eu encare minhas próprias questões existenciais e assuma a responsabilidade pelas minhas escolhas e antiescolhas. Em diversas passagens do livro me indentifico com as densas histórias dos personagens que realmente vivenciaram os fatos descritos no romance. Consigo identificar semelhanças do pensamento de Nietzche com do meu analista e verificar similaridade entre as minhas  fraqueza e a de Breuer (médico do Nietzche e ao mesmo tempo paciente, a quem ele trata de uma angústia).

O livro tem me convidado a pensar, analisar minhas próprias questões internas. A forma como Nietzche vai descrevendo Breuer meche comigo, é como se ele tivesse me descrevendo, me despindo. Me sinto desnorteada. Tenho perdido o sono e isso por si só já é um sintoma que precisa ser observado e merece algum nível de atenção. Como hoje não tenho análise, decidi escrever e falar um pouco sobre o que vem me angustiando.

Bom, vou tentar "limpar a chaminé", termo usado pela paciente histérica de Breuer (mentor de Freud), para a técnica de utilizaçao da conversa como forma de terapia para alívio dos sintomas. Para mim, "limpar a chaminé" também é reconfortante. Sei que não tenho histeria, nem nada parecido, mas usar a fala, ou escrita, para limpar minha mente das coisas tolas que crio me traz alívio. Não sei ao certo se eu limpo minha mente ou se apenas agrupo as ideias no local adequado, ou se apenas entendo o significado de certos fatos e depois de analisá-las e encontrar seus verdadeiros significados eu consigo resignificá-las de maneira mais clara e menos ameaçadora. Minha análise é um espaço para isso, aqui também.

Lendo o livro, eu me questiono.  O que quero com a bulimia? Permanecer em águas rasas? Temo me conhecer e não gostar do que verei? Porque temo sair da zona de conforto? Quero realmente ser livre? A resposta mais obvia é sim.  Mas porque a liberdade ainda me assuta? Porque meus episódicos bulímicos foram, sim, consideravelmente diminuidos mas ainda me prendo a eles? Porque uma vez por semana ainda me deixo seduzir pelo canto da sereia? Porque me mantenho presa? Do que tenho medo? De encarar a verdade? A verdade significa encarar uma vida mediocre? Minha vida é mediocre? Precisa ser? Qual vida avaliada de perto sob todos os ângulos não é mediocre? O que é mediocridade? Qual significado eu dou para isso? Porque eu quero o extraordinário? Ainda sonho em ser a mulher-maravilha? O conto de fadas me fascina?

Paciência... Paciência... Paciência...



Limpando a chaminé

Estou a algum tempo ensaiando voltar a escrever. A verdade é que depois que meu blog secreto deixou de ser secreto, me sinto bloqueada. Não me sinto mais tão à vontade para ser eu mesma, para exorcizar meus pesadelos, minhas sombras.

Nunca tive a intenção de fazer um blog para ficar conhecida, minha intenção sempre foi que ele ficasse anônimo. Apesar de meu ato falho mostrar que isso não é tão verdade assim. Algo em mim quer mostrar para o mundo quem eu sou. Mas primeiro eu preciso responder essa pergunta: Quem sou eu? A minha análise é esse espaço seguro, mas preciso de um lugar fora dele, um lugar meu, em que eu não sinta medo de extrapolar de errar o tom. Um lugar em que eu possa "limpar a chaminê". Acho que todas as pessoas deveriam ter esse espaço. Um espaço livre de julgamento, livre de acusações, um espaço de busca pelo eu, de transformação, de metamorfose.

Por isso criei o blog. Para ter esse espaço. Para me sentir livre, mas parece que me esqueci disso... Será que meu ato falho foi uma armadilha para meu aprisionamento? Terá sido meu ato falho uma vontade de mostrar quem eu sou, sendo que se nem eu ainda sei, certamente ele ajudaria e incentivaria a minha covardia?

Agora, só consigo pensar na frase do romance que estou lendo "Quando Nietzche chorou", o trecho que não me sai da cabeça: "Aquele estranho livro russo sobre o Homem Subterrâneo continua a me assombrar. Dostoiévski escreve que algumas coisas não devem ser contadas, exceto aos amigos; outras coisas não devem ser contadas mesmos aos amigos; finalmente, existem coisas que não se contam nem a si mesmo!"  Será? Preciso descobrir essas coisas pois mesmo que eu não queira ouvir tais coisas os sintomas falam por si. E já não há mais como fugir, não há como me anestesiar com a bulimia ou com fugas, preciso enfrentar o que está aqui dentro e suportar o que vem junto com essas descobertas.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Confessando o inconfessável


Vaidade, cobiça, ciúmes, ou inveja? Muitas vezes me peguei em dúvida sobre qual o sentimento que eu estava sentindo. Durante anos, fui capaz de confessar alguns dos meus pecados, mas definitivamente foi muito sofrido e muito demorado perceber, aceitar e confessar que eu sentia, e, senti por inúmeras vezes, o pecado mais inconfessável de todos: a inveja.

Acontece que, diferentemente do que eu acreditava, a inveja não é apenas não querer que o outro não tenha. A coisa é mais complexa que isso.  Eu, de fato, nunca desejei o “mal” do outro, ou tirar algo de alguém, isso nunca ocorreu (ops... mentira... quando eu era pequena já desejei a morte do meu irmão e da minha mae... mas depois escrevo um post sobre isso). Mas outro sentimento negativo me acompanhou, sim, por muito tempo, em diversas situações.

Admitir fraquezas e admitir sentimentos sombrios como vaidade, cobiça, ciúmes e inveja não é fácil. Lembro-me como foi doloroso e sofrido o dia em que eu confessei, em minha análise, que eu era vaidosa... depois ciumenta... Bom, e, é claro, a mais difícil confissão foi admitir que eu sentia inveja.

Vamos aos fatos. O invejoso é normalmente uma pessoa insegura, sensível, desconfiada e que vive fazendo comparações. Da comparação e da rivalidade nasce a inveja.  Trata-se de um sentimento caracterizado pela sensação de inferioridade, mesmo que às vezes a gente “finja” superioridade. Bom, a verdade é que eu passei muito tempo da minha vida fazendo isso, me comparando aos outros.

Eu nasci me comparando (sou a filha mais nova e a única menina, tenho dois irmãos mais velhos). Durante minha infância eu me comparei e competi com meus irmãos, o tempo todo, principalmente com o meu irmão que tem idade similar a minha. Eu sentia inveja dele. Sentia inveja do amor que, na minha percepção, minha mãe dava a mais para ele.

Como eu já disse aqui, a competição na minha casa sempre foi muito estimulada. Meus pais estavam sempre mostrando o “lado bom” da competição. Sempre que eu “ganhava” de alguém, eu recebia muitos elogios.  Por isso, acredito que competir com meus irmãos foi um caminho natural que encontrei (mesmo que a competição dentro de casa, não fosse explicitamente estimulada).

Lembro-me que eu me sentia “menos” do que meus irmãos, eu os invejei, competi com eles, tentei superá-los. Tudo isso acontecia de forma muito velada. A minha competição era interna, meu sentimento de inferioridade era interno. Externamente, eu me mostrava superior, forte. Assim como me foi ensinado... Na verdade, naquela época eu não tinha ideia do que se passava comigo. Isso tudo eu vim descobrir e confessar agora, depois de muito tempo de análise.

Bom, o fato é que essa forma de funcionar não ocorreu apenas na minha infância e no âmbito familiar. Durante muito tempo eu repliquei essa forma de agir/sentir em diversos campos da minha vida. Eu me comparava, me sentia inferior e sofria.  

A minha inveja não foi de desejar mal aos outros, mas me causou muito sofrimento interno. Dizem que em casos patológicos, quem sofre do mal é capaz de caluniar, perseguir, e, em casos mais extremos, desejar a morte do invejado. Bom, não foi meu caso, eu somatizei. Os especialistas também afirmam que, nessas situações, a pessoa pode apresentar quadro depressivo, autodestrutivo, agressividade e tendências suicidas. Eu apresentei todas elas. Tive depressão, tentei me matar, e o transtorno alimentar, a meu ver, era uma agressividade contra mim mesma, contra meu corpo, certamente um comportamento autodestrutivo.  

A insegurança, baixo auto-estima, o sentimento de incapacidade e inferioridade são combustíveis para a inveja. E eu tinha todos esses combustíveis em mim. Foi difícil reconhecer. Mas agora depois de reconhecer isso, em análise, eu começo a trilhar um caminho para trabalhar esses aspectos. Aspectos que nasceram e foram fomentados na minha infância. Em análise venho entendendo melhor o que me fez sentir dessa forma e isso vem me ajudado, aos poucos, a descontruir verdades que eu acreditei, como o sentimento de incapacidade e inferioridade.

Hoje, eu entendo que posso admirar alguém e não preciso me comparar/competir com ela.  Hoje entendo melhor que as pessoas são diferentes e o que eu “não sou” não me faz inferior a ninguém e nem o que “eu sou” me faz melhor. Cada pessoa tem um jeito e uma essência. 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Buscando minha identidade

Fiquei muito tempo sem escrever. Eu estava precisando de um tempo. Um tempo para me conhecer. Os dias passados foram difíceis, no entanto bons, cheio de conquistas e descobertas.  Em termos de recuperação do TA, posso dizer que estou evoluindo. Não tenho crises há mais de um mês. 

Quem me acompanha sabe que venho de um processo de conquistas, lentas, mas conquistas. Eu tinha crises bulímicas diárias (entre 5 a 8) e a partir de maio do ano passado, quando iniciei o blog, comecei a luta pela recuperação. Inicialmente foi muito difícil diminuir a quantidade de crises, tive crises de abstinência, sofri muito (física e psicologicamente). Mas não havia mais como ficar onde eu estava. Minha vida estava insuportável. O sofrimento de conviver com aquilo diariamente estava insustentável. 

Naquele momento começava uma grande mudança. Mergulhei de cabeça na minha recuperação. Fui descobrindo as “mentiras” por trás do meu Transtorno Alimentar. Percebi quantas ilusões eu havia vivido. Percebi que eu passei muito tempo me fazendo objeto do desejo dos outros. Por isso não fui atrás dos meus sonhos, na verdade, eu fugia do que eu julgava ser um pesadelo (não ser amada ou não ser aceita). Eu acabei vivendo uma vida que julguei ser fruto desse desejo dos outros. No momento que essa ficha caiu, sofri muito. Senti-me como um personagem, em um palco, sempre representando para uma plateia. Claro que a metáfora aqui está exagerada. Mas foi assim que me senti. Senti-me mal. 

Senti-me como se eu não soubesse de fato quem eu era, sem o transtorno, sem o papel ora de “coitadinha”, ora de “fortona” (pois muitas vezes para mim o TA teve a função, no meu caso, de trazer a falsa sensação de poder, de equilíbrio, de controle, de fortaleza, de “dou conta de tudo”). Percebi que eu não sabia ao certo o que eu gostava, pois isso nunca foi baseado de fato em mim, mas sim em minhas escolhas sobre o que eu achava que os outros poderiam esperar de mim. E assim eu fui vivendo... Escolhendo, sem escolher... Me moldando de forma completamente distorcida. Claro que qualquer visão minha no espelho seria distorcida. 

Nesse momento, não sobra mais espaço para vitimização. Não quero dizer que tudo que fiz ou escolhi não foram escolhas minhas. Pelo contrário. Tudo, absolutamente tudo foi escolha minha. Tudo que fiz e escolhi, eu me responsabilizo. Eu decidi me fazer esse objeto dos desejos dos outros. Lembro-me das vezes, de tantas vezes, que eu fui eu mesma, mas me lembro também de tantas vezes que eu me escondi por trás do TA para “agradar” ou “não desagradar” os “outros”. E, é claro, isso também era eu, também é parte do que eu fui.
Para mim, me recuperar do TA, significa passar por uma reforma íntima. Passar por uma transformação. Não se trata de mudar apenas a forma de me alimentar. Significa vivenciar uma metamorfose na forma de agir, pensar e viver. Bom, pelo menos é como está sendo para mim. 

O tempo que fiquei ausente do blog foi uma época de muita reflexão. Várias características minhas negativas foram assimiladas e reconhecidas. Minhas fragilidades e limitações ficaram evidentes e eu comecei a aprender a aceitar e respeitar a mim mesma. Percebi uma ausência de identidade, uma ausência de saber meus gostos, minhas vontades. Tive necessidade de me afastar de pessoas que eu amo para conseguir me escutar. Ainda estou aprendendo muito sobre mim mesma. Aprendendo coisas simples, desde coisas como qual roupa eu gosto mais de usar (sem pensar nos outros), até o que eu gosto de fazer. Estou aprendendo a sentir, a ouvir, a acolher e a lidar com os meus sentimentos (antes tudo isso era anestesiado e ignorado pelo TA). Agora eu sinto cada, medo, raiva, angústia, alegria, satisfação, ansiedade. Estou aprendendo o que fazer e como fazer para lidar com cada sentimento que chega. Estou aprendendo mais sobre mim, sobre o que gosto, o que não gosto, sobre minhas limitações. Estou aprendendo de fato a me respeitar e me aceitar por inteira.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

“Ser verdadeira exige coragem e simplicidade”


Estou angustiada. Muitas vezes, ou normalmente, eu não consigo perceber o motivo da minha angústia, mas hoje de alguma forma sei que estou angustiada por que ontem demonstrei minha fragilidade para uma pessoa que eu havia acabado de conhecer. Tenho dificuldade em mostrar minhas fragilidades.  Sempre me esforcei demais para aparentar forte. Agora, estou passando por um momento em que decidi que quero ser mais honesta e verdadeira, pois uma das coisas que mais me incomodava (incomoda) com a bulimia é o fato de tudo ser velado, escondido, em segredo, como se tudo fosse uma grande mentira.  Ao falar disto na terapia, lembro-me do meu analista me alertando: “Ser verdadeira exige muita coragem e simplicidade”. Não tem um dia que não penso nessa frase e na complexidade que ela tem para mim.

Coragem... Simplicidade... 

Então... tentei ter coragem, mas não foi nada simples.  Para ser honesta e verdadeira, para falar o que estava se passando comigo, eu rebolei, enrolei e falei, mas acho que não fiz isso de forma simples, e certamente não fui corajosa. Mas pelo menos, e mesmo com medo, falei a verdade sobre meu trabalho e minha licença médica. Estou de licença médica há um ano, devido à depressão, ao transtorno alimentar e à ansiedade generalizada. Para mim, estar de licença (por esses motivos) é extremamente embaraçoso.  Sinto-me envergonhada, julgada, vulnerável, fracassada e sem chances de refazer uma nova imagem. Sei que não deveria me preocupar com a minha imagem, mas me preocupo.

Odeio essa minha preocupação excessiva, exagerada e desproporcional com essa  “imagem”. Imagem de que eu quero??? De perfeitinha???? Que pessoa é essa??? Definitivamente não sou eu!!! Quanto mais eu vou atrás de uma imagem (emocional  ou física), mais eu sofro. Não preciso de uma imagem, preciso de mim. Sem espelhos, sem buscar no outro esse espelho da aprovação, preciso da minha própria aprovação. Mas isso é outro post...

Voltando a minha angústia. Bom, avaliando o fato de forma real, eu falei a verdade, mas não falei tudo sobre minha licença. Não falei sobre a bulimia. Não tenho coragem de contar para ninguém isso. Para mim, ter bulimia é algo extremamente vergonhoso, sinto-me bizarra, confesso.  Tenho uma dificuldade enorme de lidar com isso. Na verdade, ainda tenho muita dificuldade de lidar com o fato de ter tido depressão e ter que me afastar do trabalho, de não ter dado conta. “Como assim não dar conta????”  Isso parece algo que deveria estar fora do meu dia a dia, sabe? Algo inadmissível. Preciso aprender a lidar com essas coisas e a aceitar minhas dificuldades. E isso dói.

Tremendo (mais internamente que externamente), respondi a ela, após ser questionada sobre o que eu fazia da vida, que eu trabalhava para o governo, mas que no momento estava afastada. A conversa foi fluindo e ela foi me perguntando mais coisas. Falei muitas coisas que eu costumo não dizer a ninguém... Falei como foi difícil admitir para mim e, consequentemente, para o mundo que eu estava mal e fragilizada. Contei que não estava dando conta das tarefas de casa, de mãe e do trabalho sem apoio diário do meu marido (pois “tudo” ruiu na época em que ele passou um ano fora da minha cidade). Contei de como eu comecei a me sentir incompetente no trabalho (cometia erros e demorava a realizar certas tarefas). Falei da minha incompetência em casa (esquecia compras, pagar contas, etc). Contei que tudo piorou quando percebi que estava falhando como mãe, pois não tinha a paciência de costume com meus filhos. Eu estava exausta e irritada. O pouco tempo que eu tinha eu queria comer compulsivamente e vomitar (essa parte eu não disse para ela). Também não disse a ela que, para suportar a distância do meu marido e fingir que estava tudo bem, para suportar os erros no trabalho, as falhas em casa e a falta da capacidade de ficar feliz e contente com meus filhos e preencher a falta que eles sentiam do pai, eu passei várias noites em claro, comento tudo que tinha na minha geladeira e vomitando, comendo novamente e vomitando novamente, me sentindo culpada, querendo me punir e tudo começava novamente, tinha diarreias terríveis, me sentia fraca, cansada, com a memória ruim e exausta física e mentalmente.

Ela me deu os parabéns por ter tomado a decisão de ter “escolhido largar” o trabalho e ficado com meus filhos. Mas eu confessei a ela que essa decisão não foi fácil e nem foi uma decisão. Que cheguei ao fundo do poço para perceber que não estava legal. E que mesmo assim, mesmo sabendo que precisei realmente parar e me afastar, a minha vaidade ainda me pertuba. De uma maneira besta, infantil e torta, eu (por orgulho/vaidade) ainda me importo com o que as pessoas do trabalho estão pensando e com o fato de que provavelmente eu nunca mais terei uma posição profissional boa, pois afinal de contas eu serei sempre tachada como “a louca” que precisou se afastar durante mais de um ano por causa da depressão e ansiedade (imaginem se soubessem da bulimia...). Enfim, contei para ela que foi um passo difícil, mas necessário, que eu estava feliz de ter tomado, mas que ainda precisarei superar meu ego, meu orgulho, minha preocupação com o olhar do outro.

Prova melhor de que eu ainda preciso superar isso é que eu fiquei angustiada com o que ela ficou pensando de mim. Fiquei preocupada com o julgamento e interpretações que ela pode dar a nossa conversa. Fiquei preocupada com a possibilidade de ela conversar sobre esse assunto com outras pessoas. Será que sou tão importante assim???? Claro que não , mas meu ego acha que sim. Ele tem essa imaginação tão fértil em relação ao que os outros podem achar ou falar de mim...

Coragem e simplicidade: duas palavras com um significado tão denso ou seria tão simples? 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Mendigando amor


Em algum momento lá na minha infância eu entendi que eu precisava ficar doente para receber amor, carinho e atenção. Eu chegava a desejar ficar doente.  Muitas vezes eu ficava com febre.  Acho que, de certa forma, meu corpo adoecia como um mecanismo de defesa quando minha mente já não aguentava mais o sofrimento interno. Eu desejava apenas uma coisa: o amor materno.

Confessar que eu precisava do amor materno foi aterrorizante para mim. Levei quatro anos de psicanálise e chorei várias sessões seguidas para enfim conseguir sair com a frase: “acho que não me sentia suficientemente amada pela minha mãe”. Parecia que eles (meus pais) estavam lá me ouvindo. Senti-me má, ingrata, injusta, mimada, envergonhada, mal agradecida. Será que eu estaria sendo injusta? Posso dizer que ainda é muito desconfortável para eu pensar nisso. Sinto-me culpada por não ter me sentido amada. Mas o fato é que quando me lembro da minha infância e vivencio os meus sentimentos daquela época, percebo que eu não me sentia, de fato, amada, principalmente, pela minha mãe. Eu sempre achei que precisava fazer algo por ela, para merecer o amor dela, para compensar o “trabalho” que estava dando (eu não era fácil), para compensar as perdas que ela teve quando me nasci. 

Para aceitar e trabalhar com esses aspectos,  estou  vivenciando vários sintomas de ansiedade. Tem dias que sinto como se meu peito não fosse acomodar o ar que o meu corpo precisa. Parece que vou morrer. Sinto falta de ar e tenho a sensação de que não consigo respirar direito. No meu caso, tenho consciência que o que sinto é exagerado e que vai passar, mas tem horas que parece interminável.  É angustiante. Sinto uma tensão enorme no pescoço. Meu coração acelera. Além disso, sinto como se meu corpo tivesse vibrando por dentro, soltando uma espécie de descarga elétrica, como se fosse explodir, e tem horas que eu gostaria que ele explodisse. E então eu sinto raiva de estar assim. Fico com medo de ficar louca de perder o controle.  Sinto um nó na garganta e de certa forma esse nó me lembra como eu gostaria de vomitar para “aliviar” tudo!!! Sempre aliviei meus sentimentos dessa forma. Sempre foi a forma que eu consegui ficar no controle. Meu sintoma (bulimia) foi um “remédio torto” para aliviar esses outros sintomas da ansiedade.  

A verdade é que tenho vivenciado esse sentimento físico de ansiedade, angústia (ou sei lá o que), várias vezes ao dia, e não só quando penso na minha relação com minha mãe. Percebo que esse sentimento se repete em situações relacionadas a aceitação, amor e expectativas que tenho em relação a outras pessoas e não gostaria de ter, pois sempre fico me julgando.  Com certeza estou no meio do furação de ideias e me sinto confusa para chegar a algumas conclusões. Então, por enquanto, estou apenas especulando várias possibilidades, tendo insights e tentando não julgar meus pensamentos.

De certa forma para mim, eu utilizava a bulimia para me “fortalecer”. Bom, pelo menos era o que eu achava que eu fazia. Eu tinha a falsa sensação de fortaleza. De que eu não dependia de ninguém. Eu me sentia forte. Não dependia de amor, de carinho, de aceitação. Se eu ficava brava, usava a bulimia e me acalmava.  Se estava sozinha, a comida era minha companhia. Se estava ansiosa (nó na garganta), o vômito anestesiava essa sensação.  Se sentia tristeza,  uma comida quentinha,  me abraçava por dentro. E esse comportamento irritante e destruidor, que iniciei na adolescência aos 15 anos, para me “confortar”, foi se tornando um hábito, uma forma operante de viver, de lidar com tudo.

É fato que mantenho a bulimia ainda porque acho que ainda ganho algo com esse comportamento. A questão é:  a mantenho porque não consigo lidar com tudo, ou não quero lidar com tudo para receber atenção e continuar doente? O amor que mendigo é o amor que desejo? Conseguirei eu mesma me amar e suprir esse amor que tanto busco? Um dia estarei pronta para receber apenas o que vier e pronto?  

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Confissão


Estou me mantendo presa no meu comportamento alimentar. Consigo perceber quase que diariamente que escolho a manutenção do hábito doentio (ainda que de forma menos intensa que no passado) do que continuar a minha trilha pela recuperação. Nem eu consigo me enganar com os motivos que estou inventando para mim mesma para a manutenção da mentira (pois manter meus comportamentos alimentares sem um esforço latente para sair deles me parece uma manutenção da mentira).


O que me mantem presa em minha mentira? Por que não consigo de fato abrir mão da compulsão/vomito que ainda acontece quase que diariamente em minha vida? Sei que já dei passos importantes nessa jornada, isso me faz apenas concluir que sou mais que capaz de dar mais este passo. Vivi momentos de torturas físicas para dar os primeiros passos. Lembro como foi difícil passar os primeiros 15 dias sem comer e vomitar durante o dia, pois todas as refeições que eu fazia eu vomitava, isso era o meu natural. Eu precisei viver um momento de sofrimento que, a meu ver, foi bem parecido com uma abstinência (veja o post que escrevi sobre isso).

E agora? Porque não consigo me esforçar e nem tento com tanto empenho como antes.  Porque me apego a essa doença como se ela fosse minha tábua de salvação?  Porque ainda acredito que ela é a única coisa capaz de me acalentar? Porque tenho tanto medo de perder isso? Porque tenho medo de ficar sozinha e não ter o minha válvula de escape para me ninar? Porque  tenho medo de perder a única ferramenta que sempre acreditei que me alivia a tristeza quando eu precisava? Porque tenho medo de perder minha ferramenta de controle mais precisa? Racionalmente sei que tudo isso é pura ILUSÃO.  Ela não me acalma, não me ajuda, não me acalenta, não me alegra, na verdade ela me ilude!!! Cada vez que utilizo a bulimia eu tenho a sensação de que dou um pause na vida e fujo dos problemas. Quando retomo a vida, simplesmente ignoro a sujeira, ela continua lá, mas estou “drogada” demais para me importar com ela.


"Mentira é o nome dado as afirmações ou negações falsas ditas por alguém que sabe (ou suspeita) de tal falsidade, e na maioria das vezes espera que seus ouvintes acreditem nos dizeres. Dizeres falsos quando não se sabe de tal falsidade e/ou se acredita que sejam verdade, não são considerados mentira, mas sim erros."



segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Chega de boicote


Estou fraca!!! Não fisicamente dizendo, mas psicologicamente. Talvez, mentalmente, eu também esteja bem lenta... Percebo que meu poder de concentração e meu poder cognitivo dos últimos dias estão péssimos. Não estou conseguindo me concentrar em nada que estou fazendo. É como se minha mente não me respondesse.

Não sei se perceberam mais eu parei de atualizar a página “recuperação”. Quando eu criei está página minha intenção era que eu pudesse verificar o progresso da minha jornada rumo à recuperação e assim eu pudesse ter uma visão mais ampla do quadro como um todo. Bom, o último mês minha evolução não foi nada boa. Isso estava me gerando ansiedade e um sentimento terrível de frustração. Precisei deixar de atualizar aqui e de parar de contabilizar na minha cabeça o número de compulsões e vômitos na semana.

Eu já havia lido uma matéria muito interessante sobre o assunto, que mostra que a recuperação é um processo muito mais amplo do que o número de vezes que as crises ocorrem. A matéria alerta para o perigo de se contabilizar o progresso da recuperação por meio da quantidade de compulsões/vômitos. Ela mostra que o processo é formado de muitos outros fatores, como por exemplo, capacidade de se alimentar sem fazer restrição (3 refeições e 3 lanches); capacidade de comer alimentos "proibidos" (chocolates, doces, gorduras); aceitação corporal; capacidade de identificar uma compulsão e evitá-la; etc... 


Apesar de saber disso, eu me vi despreparada para enfrentar a primeira vez que percebi que eu estava piorando. Que ao invés de subir as escadinhas da recuperação eu estava ficando parada e que eu continuava comendo e vomitando uma vez ao dia e não estava mais conseguindo deixar de fazer isso durante nenhum dia sequer, como eu consegui no mês anterior. Me senti fracassada diante das recaídas e da minha “piora”.


Coloquei “piora” entre aspas pois tenho consciência que antes de começar meu processo de recuperação há cinco meses atrás, durante 20 anos da minha vida, eu comia e vomitava de 5 a 8 vezes diárias, todos  os dias então a minha “piora” é relativa. Se eu for considerar um período mais longo eu ainda estou melhor do que estava. Talvez seja meu negativismo gritando, “você não vai conseguir!!! Você é uma bosta!!!”. Sou eu me boicotando. (Quero fazer um post sobre isso)  

Estou vivendo esse momento negativo (pois estou longe de ser positiva). No entanto, hoje estou um pouco mais forte que ontem, um pouco mais otimista. Fiquei muito mal nesses dias que sumi. Mal a ponto de sumir daqui (boicote), a ponto de não conseguir pedir ajuda (boicote), a ponto de querer desistir de tudo (boicote). Mas como eu já disse lá atrás, minha vida chegou a um ponto que eu sei e tenho certeza que não quero mais a bulimia comigo. Não posso e não vou me boicotar. Parei, cai e estou levantando. Chega de boicote.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Hora de se libertar do "pacto"


Hoje fiz um exercício proposto em um dos vídeos de Fran Haag (Vencendo TA - Curando seu coração faminto – vídeo 3) em que ela nos convida a descrever o quão miserável é nossa vida com o transtorno alimentar. O exercício trouxe-me algumas reflexões.

Não tive dificuldade em colocar no papel e nomear as diversas coisas que eu acredito que perdi com a bulimia. Sim, na minha lista estavam todas as coisas que os médicos sempre mencionam: dentes estragados, perda de cabelo, pele ressecada, unha quebradiça, gastrite, complicações intestinais, refluxos, prisão de ventre, perda de memória, pressão baixa, arritmia cardíaca, fraqueza, etc. 

Fisicamente, durante anos, fui ficando cada vez pior com a Bulimia. A verdade é que eu sempre soube de todos os riscos que meu transtorno alimentar poderia me trazer fisicamente, todos mesmo. Mas saber destes riscos físicos nunca foram, para mim, argumentos suficientes para que eu quisesse me tratar. Eu vivia um sentimento paradoxal.  Ao mesmo tempo em que eu queria melhorar, eu não ligava para as consequências físicas que ocorriam. Os argumentos dos médicos, para mim, eram fracos!!! Eu pensava “Foda-se o meu corpo!!! Ele é o que menos importa, se eu morrer que se foda!”.  Tinha dias que eu até pensava: “Se eu morrer disto, seria até bom.. um alívio! Para mim e para todos”. Com certeza, era um pensamento vitimizado e egótico... cheio de ressentimento. Eu acreditava que morrer desta forma traria uma importância para minha vida. Este pensamento obviamente não era consciente na época. Eu também achava que assim as pessoas acreditariam na seriedade do meu problema. Na minha cabeça, eu achava que os outros não viam que meu problema era sério. Mas PERAÍ!!!  EU era quem não via. Eu estava em total negação.

Claro que eu não gostava de ficar doente (fisicamente fraca, necessitada...), mas ao mesmo tempo, eu gostava. Esta era uma ferramenta de manipulação que usei para chamar atenção de quem eu amava.  Hoje, eu me perdoo por ter feito isto por tanto tempo. Eu poderia justificar os motivos que me levaram a "precisar" utilizar tais “técnicas” para obter carinho, amor, etc. Mas não farei isso. Eu sei o que aconteceu, entendo o que me levou a agir assim na época (sem me julgar), e aceito a minha responsabilidade no processo.

Além dos problemas físicos, o meu transtorno alimentar “acabou” com minha saúde mental. Bom, é claro que a minha saúde mental já não estava boa quando tudo começou. Na minha humilde opinião, a bulimia, em si, não é uma doença, mas um sintoma para outros muitos problemas emocionais que venho vivendo e tentando não enxergar. Ela é a pontinha do iceberg. De qualquer forma, acredito que a bulimia maximiza e retroalimenta minhas limitações emocionais.

Este processo de retroalimentação começou a acontecer de forma muito lenta. Eu me deixei seduzir pelos benefícios aparentes e instantâneos que a bulimia me fornecia. Eu acreditava que ela me trazia confiança, determinação, felicidade, autoestima, coragem e calma. Na verdade, foi como se eu tivesse feito um “pacto com o diabo”.  Ao usar a bulimia, eu tinha um alívio instantâneo, um prazer momentâneo, um êxtase.  Eu acreditava que por alguns minutos ela era capaz de me fornecer emocionalmente o que eu precisava.  No entanto, rapidamente a sensação de alívio desaparecia e meus problemas voltavam com força total.  Cada vez eu precisava de mais uma “dose” do meu TA.  

Fui ficando mais e mais depressiva, insegura, agressiva, impaciente, obsessiva, medrosa, mentirosa.  Aos poucos fui me isolando de amigos. Deixei de frequentar vários eventos sociais. Fiquei com medo de falar em público. Comecei a perder a memória. Fazia erros bobos no trabalho. Passei a ter crises de pânico. Não conseguia me dedicar as minhas amizades, família, marido e filhos. Não conseguia estar presente. Sentia vergonha por mentir o tempo todo. Passei a me odiar por ser uma mentirosa. Passei a acreditar que eu merecia sofrer por não ser digna de confiança, já que nem a minha aparência era verdadeira. Sofri muito. Sofri desesperadamente. Fui afastada do meu trabalho. E então eu percebi: “ok, minha vida é miserável o bastante! Chega!!! Pacto desfeito!!!”. 

domingo, 29 de julho de 2012

Desafios da viagem - Relacionamento com meus pais

Acabei de voltar de uma viagem e gostaria de compartilhar minhas emoções com vocês. A viagem foi de sete dias. Estavam presentes, eu, meus filhos, meu pai e minha mãe. Meu marido não pode ir devido ao trabalho. Fomos para a cidade da minha mãe, uma cidade de praia, local onde tenho família, primos e tios. Para mim, os dias anteriores à viagem já foram bem complicados. Eu fiquei extremamente ansiosa, com medo e receio de quase tudo. Como conseguiria seguir meu plano alimentar? Como conseguiria me manter em recuperação? Como ficar tantos dias perto da minha mãe e do meu pai sem estresse? Como aguentar sem meu marido por perto? Como dizer para minha família que não quero comer tantos bolos, pizzas, sururus, camarões, cuscuz, etc? E se eu não conseguisse malhar nenhum dia? Como conseguiria comer de 3 em 3 horas tendo que ver meu corpo de biquíni todos os dias? Dá para perceber que eu estava apavorada, né? 

Então, a viagem não foi apavorante como eu imaginei. Aos poucos fui desmistificando certas crenças. Consegui superar muitos medos e curtir vários momentos. Isso foi libertador. Talvez um dos aspectos mais gratificantes da viagem tenha sido o meu contato com meus pais e a análise que pude fazer sobre o nosso relacionamento. Bom, fazia dez anos que eu não conversava com meus pais sobre meu transtorno alimentar. Eles nunca mais haviam me perguntado como eu estava e eu nunca havia mais dito nada a respeito. Isso me deixava extremamente magoada, mas ao mesmo tempo eu achava conveniente, uma vez que eu não me sentia “cobrada” para que eu mudasse minha atitude em relação ao meu problema.

Durante a viagem resolvi abrir meu coração. Contei para eles como eu estive nos últimos 10 anos (pois eles conheciam apenas meu TA durante os 10 anos em que vivi com eles). Contei como eu comia compulsivamente e vomitava todas as refeições. Que eu não havia parado e nem diminuído desde que eu saí da casa deles, pelo contrário, que as compulsões haviam aumentado e que a intensidade das crises era de 5 a 8 vezes por dia, todos os dias. Contei também sobre a minha mudança de comportamento nos últimos 60 dias e minha luta pela recuperação. Falei sobre as informações e inspirações que encontrei na internet. Falei que estava seguindo um plano alimentar feito por uma nutricionista (com 3 refeições e 3 lanches, sem vômitos!!!). Confessei que ainda tinha compulsões uma vez ao dia, quase todos os dias, que o processo ainda seria longo e que eu sabia disso, mas não iria desistir, estava confiante. Falei sobre as pessoas e grupos online que eu havia encontrado e que estavam me ajudando muito. Falei do blog, etc... 

Escolhi um momento apropriado para conversar com cada um deles, de forma separada, pois minha relação com cada um deles é bem diferente. Bom, no primeiro momento os dois tiveram a mesma reação, ficaram apenas calados, escutando, atônitos. Acho que a palavra mais positiva que ouvi foi “que bom”. Nossa... No começo, fiquei arrasada. Quase arrumei uma desculpa para ir ao supermercado mais perto, me empanturrar de comida e vomitar toda a minha frustração. Mas decidi que antes de comprar a comida, eu iria tentar meditar, tentar pensar, e se ainda estivesse me sentindo mal, sim, eu comeria tudo na minha frente e vomitaria... (este não é o meu conselho para ninguém, esta é apenas a forma como eu pensei). Deu certo!!! 

Meditei, me acalmei, depois tentei avaliar o que estava acontecendo e percebi que a minha frustração estava diretamente ligada a minha expectativa. Eu imaginei que ao falar com meus pais eles iriam agir comigo da forma como vemos as coisas acontecendo em filmes: iríamos nos abraçar, chorar, conversar durante horas, eles iriam pedir desculpa pelo tempo que não estiveram “presentes”, eu iria pedir desculpa pelos meus erros, enfim... imaginei um conto de fadas, risos. Criei expectativas e expectativas são uma merda. 

Saindo da situação, e me vendo de fora do “filme”, consigo entender o motivo dos meus pais ficarem calados. Eles simplesmente não sabiam o que fazer. Eles estavam com medo e eles têm direito a ter medo!!! Medo de falar qualquer coisa que pudesse de alguma forma atrapalhar meu processo, medo de que eu pudesse acusa-los de não dizer a coisa certa. Tenho certeza que eles sofrem por me ver sofrendo. Eu preciso respeitar o sofrimento deles e a forma como eles lidam com o meu problema. Sempre fiquei muito chateada quando eles não me respeitaram, mas, e eu estava respeitando eles? Eles têm o jeito deles, cada um tem sua própria limitação, seus próprios sentimentos, seus próprios medos. 

Naquele momento, entendi que eles estavam felizes por mim, e ficar calado, ou quase calado, era o jeito que eles encontraram para me proteger, ou para protegerem a eles mesmos. Lembrei tanto da música do Legião que diz “Você culpa seus pais por tudo, isso é um absurdo! São crianças como você, o que você vai ser quando você crescer?”. Acho que entender isso foi libertador!!! Não precisei ir ao supermercado. Fiquei bem. 

Essa conclusão me deixou aberta para que eu e meus pais conversássemos em várias outras ocasiões da viagem sobre a minha trajetória, um pouquinho de cada vez, de forma bem natural. Aos poucos percebi que eles estavam bem felizes com meu processo. Deixei as expectativas de lado. Não foquei meus ouvidos nas frases ou conselhos que me desmotivam, inclusive, consegui até dizer para eles, de forma não acusatória, que certas frases, para mim, não me faziam bem, e que eu estava escolhendo meu próprio caminho e seguindo meu coração. Se eu tivesse ido ao supermercado, talvez, seriam mais 10 anos de silêncio, acusação, culpa e ressentimento.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Relacionamentos amorosos e a bulimia


O meu comportamento com a comida é similar a meu comportamento em outras áreas da vida? Fazendo uma avaliação  (dos últimos 20 anos) de como foram os meus relacionamentos amorosos, posso concluir que há muita similaridade entre meu comportamento com a comida e minha forma de agir na minha vida afetiva.

Durante anos, meus relacionamentos amorosos foram intensos e muitas vezes não saudáveis. Era o ciclo da bulimia se repetindo: compulsão e purgação. Eu queria tudo ou nada. Envolvia-me de forma intensa com meus parceiros, me apaixonava, eles se apaixonavam, tudo era muito forte. Mas ao sinal do primeiro problema, eu simplesmente os abandonava, eu desistia do relacionamento por achar que este já não fazia sentido, dizia que não mais os amava. Fiz isso repetidamente.

Estas relações foram fruto do que acreditava ser uma forma de “proteção”. Hoje vejo que eu estava me boicotando, pois eu tinha uma visão completamente distorcida do que seria esta proteção. Do que eu fugia de fato? De amor? De ser amada? De ser abandonada? De ser compreendida? De revelar meus segredos? De ser aceita? De não ser aceita? Por que eu não me envolvia, de fato, com as pessoas com que eu me relacionava?  

Meus namoros (exceto com meu marido) sempre duraram apenas até a fase da paixão, sempre foram baseados na carne.  Tenho a sensação de que não conheci intimamente nenhum dos meus parceiros e tenho certeza que nenhum deles me conheceu. Meus relacionamentos eram similares com a forma que lido com a comida, me alimento compulsivamente sem perceber de fato o gosto de cada mordida, mas sentindo um prazer, um estase pela intensidade. Depois, quando vem o incomodo, simplesmente me dou o luxo de jogar tudo fora, purgo tudo. A diferença é que nos relacionamentos, eu fazia isso com pessoas.  Egoísta!!! Sim, fui egoísta milhões de vezes, lembro-me de repetir diante da primeira reclamação a frase “Se você não estiver satisfeito, pode ir embora!!!”.

Acho que no fundo eu tinha medo de ser abandonada, então eu preferia abandoná-los antes que eles me abandonassem. Eu não queria me expor e por isso não me envolvia com a intimidade espiritual e psicológica dos meus parceiros (os antigos), pois tinha medo que eles fizessem o mesmo comigo. Então eu mantinha os meus relacionamentos só baseado no carnal, não digeria nada. Assim como faço com a comida: como, engulo, mas vomito, não digiro. Bom, na verdade, isso era como eu fazia. Hoje, após iniciar minha trajetória rumo à recuperação, já consigo me alimentar, não vomito todas as vezes que como, digiro os alimentos e evacuo normalmente.


Bom, essa forma de agir com os meus parceiros mudou ao conhecer meu marido. Ele foi meu mentor para que eu mudasse. Lembro-me do momento em que eu disse para ele minha frase preferida “se você não estiver satisfeito, pode ir embora!!!”, ele me respondeu “isso você fez com todos os outros, eu não vou a lugar nenhum. Ficarei e vamos resolver tudo.” Todas as vezes que mandei ele embora, ele ficou, ele acreditou em mim, ele me aceitou, antes mesmo que eu me aceitasse. Quando contei para ele sobre o TA, ele disse que já desconfiava e que isso não mudava em nada o que ele sentia por mim.

Aprendi muita coisa com ele, muito sobre amor, aceitação, respeito, limites. Aprendi que o amor é possível. Compreendi que posso ter alguém do meu lado que sabe quem eu sou e me ama, apesar dos meus defeitos. Isto não significa que a pessoa precise gostar e aprovar todas as coisas que eu faço, mas ela pode me amar e me respeitar independente das minhas escolhas. Aprendi que o amor não precisa ser uma montanha russa de sentimentos, e isto não significa que ele não é profundo e intenso.

Em relação à comida ainda tenho muito a aprender, assim como em relação a outras áreas de minha vida... mas a aprendizagem que tenho tido e tive na área amorosa me traz esperança de que a mudança é possível.