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quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Mendigando amor


Em algum momento lá na minha infância eu entendi que eu precisava ficar doente para receber amor, carinho e atenção. Eu chegava a desejar ficar doente.  Muitas vezes eu ficava com febre.  Acho que, de certa forma, meu corpo adoecia como um mecanismo de defesa quando minha mente já não aguentava mais o sofrimento interno. Eu desejava apenas uma coisa: o amor materno.

Confessar que eu precisava do amor materno foi aterrorizante para mim. Levei quatro anos de psicanálise e chorei várias sessões seguidas para enfim conseguir sair com a frase: “acho que não me sentia suficientemente amada pela minha mãe”. Parecia que eles (meus pais) estavam lá me ouvindo. Senti-me má, ingrata, injusta, mimada, envergonhada, mal agradecida. Será que eu estaria sendo injusta? Posso dizer que ainda é muito desconfortável para eu pensar nisso. Sinto-me culpada por não ter me sentido amada. Mas o fato é que quando me lembro da minha infância e vivencio os meus sentimentos daquela época, percebo que eu não me sentia, de fato, amada, principalmente, pela minha mãe. Eu sempre achei que precisava fazer algo por ela, para merecer o amor dela, para compensar o “trabalho” que estava dando (eu não era fácil), para compensar as perdas que ela teve quando me nasci. 

Para aceitar e trabalhar com esses aspectos,  estou  vivenciando vários sintomas de ansiedade. Tem dias que sinto como se meu peito não fosse acomodar o ar que o meu corpo precisa. Parece que vou morrer. Sinto falta de ar e tenho a sensação de que não consigo respirar direito. No meu caso, tenho consciência que o que sinto é exagerado e que vai passar, mas tem horas que parece interminável.  É angustiante. Sinto uma tensão enorme no pescoço. Meu coração acelera. Além disso, sinto como se meu corpo tivesse vibrando por dentro, soltando uma espécie de descarga elétrica, como se fosse explodir, e tem horas que eu gostaria que ele explodisse. E então eu sinto raiva de estar assim. Fico com medo de ficar louca de perder o controle.  Sinto um nó na garganta e de certa forma esse nó me lembra como eu gostaria de vomitar para “aliviar” tudo!!! Sempre aliviei meus sentimentos dessa forma. Sempre foi a forma que eu consegui ficar no controle. Meu sintoma (bulimia) foi um “remédio torto” para aliviar esses outros sintomas da ansiedade.  

A verdade é que tenho vivenciado esse sentimento físico de ansiedade, angústia (ou sei lá o que), várias vezes ao dia, e não só quando penso na minha relação com minha mãe. Percebo que esse sentimento se repete em situações relacionadas a aceitação, amor e expectativas que tenho em relação a outras pessoas e não gostaria de ter, pois sempre fico me julgando.  Com certeza estou no meio do furação de ideias e me sinto confusa para chegar a algumas conclusões. Então, por enquanto, estou apenas especulando várias possibilidades, tendo insights e tentando não julgar meus pensamentos.

De certa forma para mim, eu utilizava a bulimia para me “fortalecer”. Bom, pelo menos era o que eu achava que eu fazia. Eu tinha a falsa sensação de fortaleza. De que eu não dependia de ninguém. Eu me sentia forte. Não dependia de amor, de carinho, de aceitação. Se eu ficava brava, usava a bulimia e me acalmava.  Se estava sozinha, a comida era minha companhia. Se estava ansiosa (nó na garganta), o vômito anestesiava essa sensação.  Se sentia tristeza,  uma comida quentinha,  me abraçava por dentro. E esse comportamento irritante e destruidor, que iniciei na adolescência aos 15 anos, para me “confortar”, foi se tornando um hábito, uma forma operante de viver, de lidar com tudo.

É fato que mantenho a bulimia ainda porque acho que ainda ganho algo com esse comportamento. A questão é:  a mantenho porque não consigo lidar com tudo, ou não quero lidar com tudo para receber atenção e continuar doente? O amor que mendigo é o amor que desejo? Conseguirei eu mesma me amar e suprir esse amor que tanto busco? Um dia estarei pronta para receber apenas o que vier e pronto?  

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O voo do beija-flor


Acabei de passar por uma mudança.  Uma mudança física, mudei de endereço. Nem preciso dizer o quanto mudanças são difíceis para mim, né? Tenho um pavor doentio e quase infantil de coisas novas. Tenho uma grande dificuldade de lidar com qualquer tipo de mudança. Para mim, a expectativa da mudança sempre é bem pior do que a mudança de fato, mas parece que eu sempre me esqueço disso a cada vez que eu tenho que passar por algo que está prestes a acontecer.  A sensação agora que comecei a me mexer é 100 mil vezes melhor do que quando estava paralisada, imaginando tudo de ruim que poderia acontecer nesta nova etapa da minha vida.

A minha mudança física veio paralela a milhões de outras mudanças que vêm acontecendo na minha vida. Talvez por isso ela tenha um significado especial. Durante muito tempo da minha vida fiquei parada, por medo. Mas também já corri desesperadamente pensando em alcançar o inalcançável. Minha sensação é que fiquei muito tempo correndo desesperadamente sem ir para lugar algum, assim como faz um hamster em sua rodinha de exercício. Quanto mais rápido eu corria, mais presa eu ficava na roda viva... Roda vida...  Roda presa...  Roda morte... E assim fiquei... Vinte anos.

Agora: uma esperança. Esperança de sair da roda da morte. Para que eu exercite a VIDA, no seu tempo, na sua velocidade. Não está sendo fácil. Me irrita ver tudo fora do lugar, caixas espalhadas, coisas a fazer. Me irrita, eu não ter dinheiro para comprar todos os móveis que eu desejo, todas os utensílios que eu gostaria de ter. Mas chega de birra e de mimo!!! Sou adulta e consciente das minhas limitações. Vou respirar o ar puro e escolher me divertir entre os caixotes espalhados e a bagunça ainda não arrumada.

Minha falta de paciência, minha dificuldade para tolerar o tempo, minha falta de respeito com o processo, minha incapacidade de suportar minhas limitações ficaram ainda mais evidentes.  Não há nada de errado em querer melhorar a condição atual, mas não aceitar o que sou, como estou, faz com que eu viva em sofrimento. Ao aceitar quem sou, como estou agora, sou invadida por um sentimento de gratitude pelo presente, isso me traz plenitude.

Bom, me mudei. Foi difícil. Fiquei quase paralisada no princípio. Agora estou lentamente desencaixotando tudo. Não importa se vai demorar mais que eu esperava para que a casa fique como eu quero. Já marquei um jantarzinho, com as 4 tacinhas de vinho que tenho, o resto das pessoas terão que ser virar com copos de requeijão.  Quando estou cansada, eu paro um pouco, vou para o quintal e curto o passarinho voando lindamente, sem pressa. As caixas não irão a lugar nenhum. Mas não quero perder o beija-flor dar seus lindos vôos pelo jardim!!!

Espero que este exercício da mudança renda frutos.  Que eu aceite também meu corpo, com suas limitações e suas imperfeições. Que eu não afaste os outros de perto de mim, apenas por achar que estou inadequada. Que eu curta o meu processo de mudança, que eu respeite meu tempo, meu limite, minha maturação, que eu consiga parar no meio do caminho, não para ficar paralisada, mas para viver, para sentir o ar fresco e curtir o vôo do beija-flor... 

domingo, 24 de junho de 2012

Quando o passado bate na sua porta


Esta noite não dormi absolutamente nada. Fiquei me contorcendo na cama, andando de um lado para o outro, tendo palpitações, suando frio e tendo pensamentos repetitivos sobre fracassos, medo, compulsão, limites, etc. Foi muito, muito difícil segurar a onda e não “resolver” todos meus problemas como estou acostumada: comendo muito, até o limite, e me esvaziando (tirando de mim toda aquela angústia, aquela dor, aquele sofrimento).

Acho que a parte mais difícil da superação da doença é esta. Aprender a encarar este sentimento e entender o que fazer na hora que eles chegam. Eu simplesmente não sei (pelo menos não ainda). Sinto uma dor no fundo da minha alma. Uma dor física e psíquica. Gostaria de conseguir descrever em palavras o quão grande ela é, pois tenho a sensação que nada que eu fale vai traduzir o meu sentimento. Já experimentei algumas dores físicas, mas nada, nada se compara a essa dor, nem mesmo a dor do parto normal (que julgam ser tão grande), para mim, foi menor do que a dor que sinto quando minha alma sofre.

Depois de muito lutar para dormir, consegui enfim adormecer, por volta das 5 horas da manhã. Às 9 horas acordei, era o “meu passado batendo em minha porta”. Uma grande amiga minha tocou a campainha da minha casa, ela necessitava de ajuda. Por algum motivo, o que ela estava passando fez com que eu me lembrasse da minha história, época em que eu bebia muito e talvez, por sorte, ainda esteja aqui.

Entre os meus 18 e 25 anos, eu vivi uma fase muito conturbada da minha vida. Eu posso dizer que nesta época eu fiquei muito perdida. Vivia minha vida de uma forma descontrolada. Estava na busca do prazer, da emoção. Lembro-me de ser muito intensa e querer tudo para ontem. Era tudo ou nada, ou 8 ou 80. Minha vida parecia uma montanha russa de emoções. Eu já tinha bulimia, mas na minha lembrança a doença, na época, era mais “controlada”.

Claro que a bulimia era um problema menor naquela época. Eu “utilizava” menos a bulimia para me livrar das minhas dores psicológicas. Eu afogava minhas angústias, medos, sofrimento e frustração em outro vício: na bebida. Nesta época a minha depressão era muito forte e presente. Sentia um vazio enorme no meu peito, na minha alma. Inicialmente eu não queria estar viva, depois comecei a desejar a morte. Para esquecer a dor e o sofrimento, eu toparia fazer qualquer coisa, pois não havia futuro em meus planos.

Buscava a “felicidade, a emoção” de cada momento. Queria aproveita o dia, o momento, em toda sua potencialidade. Que inocência. O problema é que para atingir o aproveitamento total, eu fui precisando de mais: mais um gole, mais uma dose, mais um copo, mais uma garrafa, uma dose mais forte. Quando eu me dei conta, a bebida me controlava.  

Rapidamente, minha vida foi virando um inferno. Eu bebia para “ficar bem”, precisava sempre mais, de algo mais forte para sentir aquele “alívio imediato”.  No outro dia eu tinha que encarar tudo de novo, a depressão, medos, angústias, ansiedades. Aquela era a minha fuga, a minha muleta. E assim fui (sobre) vivendo. Voltei diversas vezes dirigindo para casa após beber meia garrafa de whisky ( o caminho?  É claro que não lembro). Tive coma alcoólica e fui levada a hospitais, algumas vezes. As perdas de memórias aconteceram, várias vezes. É chato lembrar o que me disseram que eu fiz.

Não me orgulho deste meu passado. Lembro que nesta época eu poderia ter me envolvido com o uso de outras drogas. Mas existia em mim (ainda que pouca, mas alguma) consciência de que eu não tinha maturidade e capacidade para encarar qualquer droga. Eu sabia que eu era fraca demais para elas e que se eu entrasse em algo mais forte, jamais eu sairia. Eu sabia que eu era uma pessoa facilmente viciável. Por isso, só por isso, nunca experimentei coisas mais pesadas.

Bom, hoje, eu ainda bebo. Não bebo todo final de semana e nem todas as vezes que saio com amigos e família. Bebo apenas quando estou a fim (provavelmente o certo fosse nunca mais beber). Mas nunca, NUNCA coloco um gole de bebida destilada em minha boca (ela tem um efeito avassalador em mim).  Tento beber com moderação. Peço ajuda aos que amo para que me avisem caso eu esteja saindo um pouquinho da linha. Nesta hora eu deixo a bebida de lado e passo a tomar água. Quase sempre isso funciona.

Mas deixar a bebida não foi algo tranquilo. Eu fui substituindo as doses de bebida pelas crises de bulimia. Como não tive acompanhamento médico e psicológico (pois eu não achava que precisava), eu fui atrás de outra muleta.   A bulimia era “perfeita” para este papel. Fui ficando viciada em comer descontroladamente e vomitar. Mas é claro que encontraria outro inferno pela frente. Pois muletas quebram... A sujeira não pode ficar para sempre debaixo do tapete.

Agora estou aqui, disposta a mudar isto. Estou mais madura, mais consciente, mais esperançosa. Estou aprendendo a me conhecer e a encarar meus medos. Não é fácil, pois sempre fugi deles, mas não quero mais fugir. Sim, foram 20 anos de fuga. Mas quer saber? Posso ter mais que 20 anos de vida. De vida plena!!!

sábado, 23 de junho de 2012

Deixando de lado o "tudo ou nada"


  
Li em diversos lugares que as pessoas com bulimia são pessoas extremistas e tendem a ter pensamentos baseados no “tudo ou nada”. Adoraria dizer que esta teoria é uma bobagem e que eu não me enquadro nela. Mas infelizmente isso não é verdade. Apesar de ter consciência de que não deveria tratar as coisas de forma tão radical, que o mundo não é preto ou branco, que as coisas não são necessariamente boas ou más, eu ainda me vejo várias vezes caindo em armadilhas que minha mente me coloca.


Ainda demoro a perceber que estou presa em pensamentos extremistas, para então começar a luta para desatar os nós que criei (mentalmente para chegar às conclusões que cheguei). O pior é que sofro enquanto vivencio minha crença extremista. Demoro a sair do olho do furacão.

Ontem mesmo vivenciei este sofrimento (novamente). Estou comprometida com minha jornada rumo à recuperação e lutando fortemente contra a bulimia. Tenho feito um esforço descomunal para deixar de comer compulsivamente de 5 a 8 vezes diárias (e vomitar), para fazer isso apenas uma vez ao dia. Eu poderia estar melhor? Não, eu não poderia. Outra pessoa talvez, mas eu estou fazendo o que EU POSSO.

Mas ontem, quando eu estava no olho do furacão, eu não conseguia lembrar isto.  Ontem eu estava sentindo uma dor terrível no meu corpo (possível gripe chegando) então não fui nadar. A natação tem sido para mim uma excelente forma de liberar endorfina no meu corpo.  Adoro o contato com a água, fico relaxada, menos ansiosa. Durante as braçadas vou pensando nos problemas e vou desmistificando um a um. A natação é uma terapia para mim.

Bom, ontem, não nadei, consequentemente, nada de endorfina. Para completar, eu estou passando por um momento em que preciso tomar uma decisão pessoal, o que sempre me estressa. Tenho grande dificuldade de lidar com mudança. Enfim, cheguei em casa mais cedo do que de costume, comi enlouquecidamente, vomitei mais enlouquecidamente ainda e não estava satisfeita.  Sofri durante horas para não comer novamente e não vomitar. Não dormi nada. Eu sofri, pois não queria comer e vomitar. Mas me senti muito mal por desejar do fundo da minha alma fazer isto para fugir do meu problema (ter que tomar a decisão, ter que pensar na decisão, ter que encarar a decisão).

Lutei, sofri, me contorci para não dar um passo para trás na minha jornada rumo à recuperação. Me senti uma fracassada e me vi como a pior pessoa do mundo. Agora, pela manhã, após acordar, beijar meus lindos filhos e tomar um café da manhã equilibrado, sem vômitos, vejo como minha noite foi bem sucedida. Como fui dura comigo, como fui injusta. Lá estava eu mergulhada no meu pensamento extremista do “tudo ou nada”. Naquele momento, eu achava que não bastava não comer e vomitar que eu o “certo” seria nem querer. Por isso, quase que eu comi. Uma vez, que eu já me achava perdedora...

Entendo que tenho que encarar meus pensamentos e sentimentos negativos. Preciso lutar contra eles. Mesmo que no começo isso me traga desconforto. Acredito que com o tempo irei aprender a não cair nas armadilhas que minha mente me prega. Isso não significa tampar o sol com peneira, fingir que os problemas não existem, mas apenas encarar os problemas da forma que eles são de verdade.

Ou seja, se eu desejo comer e vomitar não significa que sou uma fracassada. Se eu comi e vomitei, não significa que nunca irei conseguir fazer diferente. Significa sim, que o processo não está sendo fácil, que terei que me esforçar ainda mais.  Significa lembrar que já estive bem pior, já evolui muito no processo. Ver as evoluções passadas e reconhece-las são importantes para manter o foco de que sou capaz de ir mais além. De que consigo seguir e continuar melhorando. Tenho 35 anos de idade, mas preciso ter paciência comigo e lembrar que na busca pela cura sou apenas um bebe aprendendo a engatinhar.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Frustração mais uma vez


Hoje já fiz de tudo para evitar escrever este post. Estou com medo e receio de traduzir em palavras o que estou sentindo. Minha vontade é manter meus pensamentos em segredo, mas não dá. Os meus pensamentos já estão solidificados em minhas ações. E por mais que eu tente fugir deles, eles me perseguem. Então mudarei de estratégia. Confessarei meus “crimes” e espero que isso amoleça minhas ações, deixando que eu molde novos hábitos, novos pensamentos e novos sentimentos.

Frustração e raiva são os sentimentos de hoje. Estou extremamente chateada comigo pelo fato de ter conseguido, apenas uma única vez, durante os 18 dias em que comecei a minha jornada rumo à recuperação, ter ficado sem comer excessivamente e sem vomitar durante um dia inteiro (dia e noite). Há dois dias consegui pela primeira vez dormir sem a crise bulímica, mas ontem e hoje, fracassei.

Eu sei que deveria estar pensando pelo lado positivo, sei que deveria pensar em quanto já caminhei até agora e que deveria ter calma e blá, blá, blá. Mas hoje estou com uma dificuldade enorme em fazer isso. Estou com uma raiva enorme de mim. Tenho certeza que se fosse em outras épocas, hoje seria um daqueles dias em que comeria e vomitaria várias vezes, só para tentar aliviar essa dor que sinto no meu peito e que parece que não passa. Estou tremendo e sinceramente, não sei se conseguirei dormir...

Agora o que preciso fazer é encarar este sentimento de frustração e aprender como lidar com ele. Certamente, esta sensação vem da minha expectativa não realizada. Preciso respirar e entender que esta jornada será assim mesmo: serão tentativas, acertos, falhas, acertos, novas tentativas, mais acertos e depois menos falhas. Preciso deixar de lado a minha busca pela perfeição, pelo ideal e me contentar com o real, com o possível. Só assim deixarei de ter frustrações constantes.

Para não perder a esperança, reli posts de pessoas que contam suas trajetórias contra a bulimia. A busca de ninguém foi fácil e nem foram sem falhas ou recaídas. Mas uma coisa elas tiveram em comum: nenhuma desistiu. Recarrego minhas energias e ganho força de novo. Amanhã é um novo dia, uma nova luta, uma nova batalha. Sim, ainda virão muitas dificuldades, e eu preciso estar forte para enfrentá-las ou elas me derrotarão. Cair, aprender, levantar e seguir, continuando a jornada. 

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Jornada rumo à recuperação: quando a ansiedade paralisa

Não sei quando eu me tornei ansiosa. Não consigo me recordar bem o momento ou a época da minha vida em que esta característica apareceu. Na minha adolescência este traço da minha personalidade já estava bem aflorado. Lembro-me de ficar acordada a noite inteira por conta de algum acontecimento que ocorreria no dia seguinte. Minha mente simplesmente não conseguia relaxar e eu ficava imaginando e conjecturando tudo que poderia acontecer.

Acho que com o passar do tempo a minha ansiedade foi aumentando. Eu nunca aprendi de verdade como lidar com ela.  Minha mente, poderosamente, vai construindo monstros e fantasmas e eu vou caindo nessas armadilhas igual uma criança que tem medo do escuro.  Inacreditável como depois que passa eu percebo como meus pensamentos foram idiotas e como eu estava exagerando, mas na hora o medo, o pânico, é tão real que fico paralisada.

Há 17 dias eu comecei a mudar meu comportamento em relação à bulimia. Decidi traçar metas (difíceis para mim) rumo à recuperação.  Após anos em tratamentos com psiquiatras e psicólogos, após várias tentativas frustradas de largar os ataques à geladeira e o alívio do vômito, eu estou conseguindo traçar alguns objetivos e cumpri-los.  Acredito que dentre todos os obstáculos rumo à recuperação, a ansiedade possa ser o maior deles. O problema da minha ansiedade é que eu sofro muitas vezes por um medo imaginário, mas muito intenso, e que me deixa paralisada.

Faz cinco dias que eu venho pensando sobre tentar passar um dia inteiro sem minha crise bulímica. Como vocês sabem,  antes da “minha jornada” começar eu vomitava cerca de 5 a 8 vezes por dia, todos os dias, e esse número reduziu para uma vez por dia.  A minha primeira tentativa rumo à recuperação pareceu algo insuportável, mas estou aqui, suportei. Não só suportei como a cada dia que passa, sinto que esta meta (1 crise por dia) está menos pesada de ser atingida. Hoje já consigo lidar melhor com a falta física do comer e vomitar (crise da abstinência). Claro que ainda sinto consequências no meu corpo nessa busca pela recuperação,  mas quem disse que seria fácil? Bom, de qualquer forma, venho me sentindo preparada para dar o próximo passo, no entanto a minha ansiedade estava, até então, me impedindo.

Eu estou ansiosa pelas consequências que esse passo (ficar um dia todo sem vomitar) pode vir a causar. No meu caso, a ansiedade gera medo e o medo paralisa. Medo de ficar sem a bulimia. Medo de viver sem ela. Medo de não saber o que fazer com o tempo que terei extra. Medo de não saber lidar com as frustrações, raivas, angustias. Medo de engordar (claro ele existe). Medo de não conseguir. Medo de ter que dar esse passo todos os dias. Medo de que essa seja a última vez, o último vômito, o último alívio, o último contato com algo que eu controlo. Medo de perder o controle de tudo (...como se eu tivesse controle de algo). Medo do que eu vou me tornar. Medo de não gostar dessa nova pessoa.  São muitos medos…

Bom, então, para afastar estes fantasmas que me congelam, eu precisei enganar a minha mente. "Quer saber?" Eu pensei.  “Eu vou deixar de comer e vomitar, só hoje.  Amanhã, será tudo normal”. Minha meta foi para a noite de ontem.  Por enquanto, não vou pensar no futuro, vou com calma, aprendendo dar tempo ao tempo.  Não quero pensar no que vai acontecer. Vou viver o que está acontecendo. Vou tentar traçar metas curtas e imediatas, sem olhar para o futuro, pois o futuro está me paralisando.

O que sei agora é que viver com a bulimia está insuportável. Dói muito pensar em não tê-la mais comigo, mas dói mais ainda pensar em viver com ela para o resto da minha curta vida, pois será curta se continuar assim. Como não consigo mudar meus pensamentos, vou mudando minhas atitudes e, assim, torço para me manter acordada. Porque como disse meu terapeuta, “o perigo de acordar é querer continuar sonhando”.