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quinta-feira, 7 de junho de 2012

Saber a causa é necessário para levar à cura da bulimia?


Bom, este é um questionamento que sempre tive. Será que apenas sabendo o que me trouxe até aqui fará com que eu consiga voltar para onde eu estava? Bom, para começar eu nunca mais voltarei para onde estava. Já tenho uma nova história e jamais poderei apagar tudo de aconteceu comigo e tudo que vivi e senti com a doença. Mas para que eu siga a diante, eu preciso saber o que me fez iniciar esse processo? 

Não vejo sentido em buscar o que foi “responsável” ou “causador” da doença. Apesar disso, confesso que acho importante me autoconhecer. Para mim, descobrir certas coisas do meu passado, tem feito que eu desmistifique certos “fantasminhas” que criei na minha mente. Passo a entender melhor minha forma de agir e o motivo muitas vezes infantil que me faz pensar de uma forma ou de outra. Percebo que alguns “monstros”, na verdade, são apenas “sombras”,  e que eu não preciso ter medo. Isto me deixa mais segura e faz com que eu possa seguir adiante.

O que me levou a bulimia, em si, para mim, não tem muita importância. Mas o que me faz continuar com ela, isso eu quero trabalhar. Hoje eu mantenho a bulimia por quê? Por causa da ansiedade, depressão, baixo auto-estima, perfeccionismo, necessidade de aprovação? Então é isso que estou tentando resolver no meu divã.

Li em um artigo bem interessante que afirma que “nós aprendemos e amadurecemos emocionalmente por meio da experiência. Pensamentos e sentimentos são resultados de nossos comportamentos, e não o contrário. Saber o motivo pelo qual você pensa da maneira como pensa, ou porque se sente da maneira que se sente, não muda seus pensamentos ou sentimentos. O que ajudar a mudar seus pensamentos e sentimentos é a mudança em suas ações.” (veja texto completo). De acordo com a autora do texto, saber o motivo que te levou onde está é irrelevante para cura da bulimia. Para ela, o autoconhecimento pode ser benéfico para o tratamento de recuperação, mas não é essencial para a cura. Ela defende, inclusive afirmando já estar comprovado, que terapias comportamentais são mais eficientes que a psicanálise.   

Eu faço psicanálise e gosto muito. Já tentei em outro momento da minha vida fazer terapia comportamental, mas meu foco não estava na bulimia. Naquela época eu não gostei, não consegui me adaptar. Lembro que eu queria mudar a forma com que eu pensava e me sentia, no entanto, a terapia propõe uma mudança de comportamento. Não funcionou. Voltei para psicanálise. Talvez, agora que estou disposta a mudar, e já estou mudando, minhas atitudes eu enxergaria a terapia cognitiva com outros olhos. 

domingo, 27 de maio de 2012

Triste e brava


Quando imaginei escrever o blog pensei em utilizá-lo como uma ferramenta de terapia, na busca pela cura. Bom, pelo que estou percebendo hoje essa busca será muito, mas muito mais difícil do que eu imaginava. Isso porque aqui vou tratar de sentimentos muitas vezes confusos, feios e até doentes (afinal, estou doente, né?). Admitir isso é difícil, dói e não é bonito, não é nada bonito. Me mostrar, mesmo que usando a “mulher interrompida”, faz com que eu me sinta extremamente vulnerável. 

Estou angustiada, pois como vocês sabem a bulimia trata-se de uma doença secreta, silenciosa. Bom, pelo menos no meu caso, eu não consigo falar sobre ela ou confessar e admitir tê-la a amigos (nem para os melhores amigos), familiares, colegas de trabalho. Falei da minha doença apenas para meu pai, mãe, irmãos, marido e profissionais que me acompanham. Tenho vergonha da doença. Tenho pânico, pânico mesmo, só em imaginar o que os outros vão pensar de mim quando souberem. Tenho um grande problema de aceitação própria e fico tentando buscar a aceitação dos outros, como se isso fosse me satisfazer em algo. Tenho trabalhado para melhorar minha auto-estima, pois está difícil fazer o que eu acredito que os outros esperam de mim. E talvez eles nem esperem nada... mas eu crio essa personagem e a imagino com tudo que os outros a desejam, e vou tentando ser ela. Estou cada dia mais distante de mim mesma. Na verdade, já não tenho certeza de quem sou. Meus pensamentos estão cheios e minha alma vazia e comer descontroladamente não me ajuda mais, não me alivia mais. Mas porque eu não consigo simplesmente parar??? Onde está aquela garota inteligente?

Acho que essa é a parte mais difícil da doença para mim. Saber que faz muito mal e ver as consequências terríveis que já estão acontecendo no meu corpo, os efeitos negativos na família e filhos, as limitações profissionais e sociais (bom depois vou postar um pouco sobre como a bulimia tem me limitado em cada uma dessas áreas). Saber disso tudo e não conseguir ter força de vontade suficiente para mudar (como diria meu pai) me deixa brava e frustrada e isso acaba agravando ainda mais meu quadro. Acho que é isso que me faz sentir tanta vergonha em admitir que eu a tenho. Fora o fato dela ser uma coisa nojenta, correto? Vômitos, cabelos caindo, dente apodrecendo... nada é bonito na bulimia, nada mesmo. Eu invejo tanto, tanto, as pessoas que sabem lidar com o corpo que tem. Eu criei um medo de algo que sei (conscientemente) que ficaria mais bonito em mim (um corpo com mais curvas). Mas o pânico nem sempre é lógico...

Além disso, eu criei uma ilusão. Me viciei tanto na prática de comer e vomitar, que passei a utilizar a bulimia como uma válvula de escape para angústias, ansiedades, sofrimentos. Hoje, acho que até conseguiria começar a trabalhar com a mudança do meu corpo, mas ainda sou muito frágil emocionalmente. A bulimia para mim é uma espécie de fuga, válvula de escape, muleta, pois quando estou com qualquer problema é na bulimia que desconto: engulo tudo que estiver ao meu alcance, até a minha barriga ficar totalmente esticada (não é bonito, eu sei) e depois jogo fora, na forma de vômito, a angustia, a tristeza, a solidão, etc. O problema é que não está mais funcionando!!! Não fico mais aliviada e, além disso tudo, o preço que estou pagando é alto demais.

Quero me desfazer desse vício e dessa falsa sensação de conforto. Ela não se sustenta. É uma mentira que criei, assim como muitas mentiras que crio para mim mesma e para todos que finjo acreditar que não sabem o que tenho. Pessoas se curam da bulimia, tenho lido muito sobre isso. Eu serei uma delas. Tenho certeza que essa busca não vai ser fácil, nem bonita, nem vou estar sempre otimista, como hoje, na verdade, não estou. Mas quero tentar continuando, pois tentarei vomitar palavras para aprender a lidar com minhas emoções.