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sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Então foi Natal...

Quem tem ou teve um transtorno alimentar sabe que as épocas de festas podem ser apreensivas. O Natal para mim não foi diferente. Senti um friozinho na barriga. O meu desejo era passar o Natal sem crise bulímica e me manter na recuperação. Era inevitável a lembrança de que nos últimos anos meus Natais haviam sido todos com crise. Tentei não me impressionar com essa lembrança. Me foquei no fato de que agora as coisas são diferentes. Eu mudei, não sou mais a mesma. Não preciso mais passar o Natal fugindo e me anestesiando.

Então, me preparei e me fortaleci emocionalmente. Apesar de estar confiante confesso que senti um frio na barriga. Mas não me isolei e nem evitei nada. O Natal foi na minha casa. A família foi toda para lá, irmão, cunhado, cunhada, sogra, tios e tias, primos, etc... A festa foi uma delícia. Preparamos aquela comilança que tem em todo Natal e nem por isso eu tive compulsão. Aproveitei a festa. J

Bom, no dia 26 eu recebo um telefone, era meu irmão. Minha mãe, pai, irmão mais velho e cunhada, não participaram do evento conosco, pois haviam viajado.
 Meu irmão estava apreensivo e me disse que minha mãe não estava bem, que ela tinha tido uma “crise”, estava achando que iria morrer, e estava querendo se despedir de todo mundo. Então eu, supostamente deveria falar com ela para que ela se “despedisse” de mim.  

Eu respirei fundo e fui conversar com ela... Minha ligação com minha mãe sempre foi algo forte, algo, até, doentio. Hoje consigo perceber que durante anos a gente cultivou um círculo doentio de sofrimento. Há algum tempo venho trabalhado para sair deste círculo e me separar de minha mãe. Estou me libertando emocionalmente dela para que eu possa me transformar em mim. Acredito que o meu distanciamento emocional pode estar gerando um desconforto na minha mãe. Mas sei que o luto que as duas estão vivendo é fundamental para o meu renascimento e será para o dela também.

Bom... eu respirei fundo e fui conversar com ela. É claro que não aceitei “despedida” nenhuma. Não joguei o jogo de vítima dela. Conheço o jogo. Eu mesma já fui estrategista, já armei as peças, já montei cenários, já ganhei e perdi muitas vezes. Mas a verdade, é que nesse “xadrez” ninguém ganha. Só há perdedores. O jogo é um jogo triste, as consequências são reais e perigosas. Eu sei disso. Eu mesma vivi isso, eu mesma fui “alimentada” por pessoas queridas com “lenha para minha fogueira”. Eu mesma “queimei e fui queimada”.  

No dia 26, eu disse “não” para minha mãe. Não dei a ela conforto e nem passei a mão na cabeça dela. Não aceitei “despedida”. Me segurei e fiquei firme no meu propósito de não cair no jogo do “vou embora”, “a vida é uma merda”. Sei que o que ela quer, não é ir embora, não é acabar com a vida dela. Sei que ela quer é acabar com o sofrimento.  Mas para isso ela precisa viver!!! Ela precisa querer. Ela precisa buscar. Não sou eu, que posso fazer isso por ela. Posso apenas dizer, estou vivendo, venha para vida, estou aqui te esperando. Não posso me afundar com ela. Já estive com ela nessa “merdalância” por tantas e tantas vezes. Agora não dá mais. Escolho viver e me respeitar. 

Sofro por ver minha mãe nesse estado. Chorei algumas vezes. Tive insônia.  No entanto, não permiti que isso afetasse meu propósito de não me afundar na depressão ou de não vomitar.  Claro que estou preocupada com ela. Claro que me preocupo com meus irmãos e meu pai. Mas agora me preocupo antes comigo, meus filhos e marido. Amo minha mãe e amo minha família. Estamos nos revezando para cuidar dela. Mas não tenho me esquecido de mim. Não permito me influenciar pelas queixas ou frases que ela faz para me atingir. Hoje sei que não é pessoal. Hoje entendo que as acusações da minha mãe tem haver com ela, e muito pouco comigo.

Hoje entendo que cada pessoa tem um ritmo, um processo, uma vida. Minha vida, meu processo é distinto do da minha mãe. Durante um grande tempo, eu achei que minha melhora dependia da melhora da minha mãe. Achei que só iríamos sair da “merdalância” juntas. Que para eu melhorar, ela precisaria enxergar esse processo também, para juntas, felizes, saíssemos disso.


Mas, hoje entendo que não. Sou outra pessoa. Não estou deixando ela para trás. Estou apenas indo. Tenho responsabilidade diante da minha vida. Só posso assumir as responsabilidades diante da minha vida. E hoje decido ficar melhor. Decido quebrar um círculo que provavelmente foi transmitido de geração em geração. Respeito o tempo dela, a limitação dela. Aceito minhas próprias limitações, aceito o meu tempo, e com coragem sigo meu caminho. 

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Suicídio nunca é a saída




Oi gente, vou tentar falar um pouquinho de suicídio. Como já disse, eu já tentei me matar. As três tentativas, graças a Deus mal sucedidas, todas,  foram usando remédio.  Acho que muita gente pode estar pensando que na verdade nunca tive vontade real de morrer, mas apenas vontade de chamar atenção. 

Bom, estou em um momento que, sinceramente, o que os outros pensam sobre isso pouco me importa. Sei, sim, que não tinha vontade de viver, queria acabar com toda dor que estava sentindo: uma dor na alma, uma dor mais forte do que tudo que já experimentei (bem superior, por exemplo, que a dor do parto normal,  sem anestesia). É verdade, não tive "coragem" de pular da janela do quinto andar. Mas e daí? Quase morri também... fiquei cinco dias em coma e depois um mês internada. Agradeço por hoje estar aqui. 

Estou tocando nesse assunto, sobre o que os outros pensam, pois acho extremamente perigoso para quem esta passando por uma depressão ouvir esse tipo de acusação. A tentativa do suicídio muitas vezes é uma forma desesperada ( e por que não dizer despreparada) de pedir ajuda. Pode até ser uma forma errada, mas é um pedido de socorro. Não acredito que as pessoas usem isso como ferramenta para chamar a atenção única e simplesmente, bom, pelo menos acho super arriscado esse julgamento. Acho que existe várias formas de chamar atenção e não acredito que a tentativa de suicídio seja uma delas. 

No meu caso, a tentativa de finalizar minha vida foi uma forma desesperada de tentar eliminar a dor que estava sentindo. Sempre tive e ainda tenho muita dificuldade de entender a minha depressão. Gosto de muitas coisas da minha vida, amo minha família, amigos, sou razoavelmente inteligente, até certo ponto bonita, nunca tive dificuldade para arrumar namorados, não passei fome, nem nada, Tenho um bom emprego. Então, por que eu me sentia assim, tão vazia? Porque essa dor na minha alma que eu não consigo explicar? Falta de Deus? Os mais religiosos poderiam dizer que sim... Os médicos me diriam que é fisiológico. Outros diriam que é espiritual... Bom, talvez seja tudo um pouco, o fato é que a dor está aqui,  e não consigo mudar isso. 

Uma das coisas que me angustiava ainda mais era o fato de eu não conseguir explicar, por não entender, o que acontecia comigo para as pessoas que eu mais amo. Quando estes me perguntavam "mas você sente falta do que? O que você quer?" eu simplesmente me sentia ainda pior. Me cobrava mais, me sentia mais culpada e mais frustrada. Dar fim a minha vida parecia a solução mais fácil, ou talvez a única solução, pois como eu não sabia o que me faltava, como eu poderia procurar? 

Agora estou disposta a nunca mais fazer isso. Acredito que preciso passar pelo que estou vivendo para aprender algo com isso. Ainda não sei direito o que, mas estou nessa luta. Tenho buscado ajuda profissional e tentando entender o meu problema, no meu caso, a minha doença. Não desisto mais de mim e nem da minha vida e nem de quem amo.  

quinta-feira, 24 de maio de 2012

O Começo


Durante anos eu penso em escrever sobre o que passo e sobre o que sinto. Esse é um projeto que sempre abandono por motivos mais variados possíveis : medo de me expor; preguiça; não ver um motivo real para fazê-lo. Bom, a verdade é que estou precisando a cada dia mais desabafar. Foi difícil para mim chegar a essa decisão de expor a parte mais frágil da minha vida, mas preciso encontrar outras válvulas de escape, pois as que utilizo hoje já não me sustentam mais.

Sofro de depressão há quase 20 anos e durante esse tempo já passei por três tentativas de suicídio. Durante a minha luta contra a doença já passei por muita coisa, já tive períodos em que achei que estava louca, adquiri uma bulimia, casei, tive dois filhos, melhorei muito e  agora estou passando por um momento muito difícil. Minha depressão que há muitos anos não se manifestava está bem forte, a bulimia que nunca consegui me livrar continua comigo e estou sofrendo alterações de humor. Ando irritada e as vezes tenho a sensação de que vou enlouquecer.

O começo de tudo

Bom, vou tentar contar como me lembro... Não sei ao certo quando a depressão começou, nem ao certo o que veio primeiro a bulimia ou a depressão. Mas sinceramente acredito que a bulimia é uma consequência de algo que já não vinha muito bem...  Na verdade tenho recordações de alguns pensamentos já na minha infância do tipo “não queria estar viva”. Esses pensamentos de desesperança eram espaçados e misturados com momentos normais e alegres. Apesar de não dividir os pensamentos negativos com ninguém, acredito que eles eram realmente sinceros. Eles começaram por volta dos meus oito ou sete anos.

O primeiro episódio bulímico ocorreu quando eu tinha 15 anos. Eu havia me excedido na alimentação e tive a "brilhante" ideia de colocar tudo para fora. No inicio foi uma solução fácil para me livre das calorias extras e o vômito me pareceu uma alternativa fácil e viável para meu problema. Mal sabia eu que estava entrando em talvez a pior armadilha que iria me acompanhar e me atormentar por longos anos da minha vida. Se eu pudesse eu jamais teria escolhido aquele caminho.

A bulimia, no início, foi usada para conter o peso, por pura vaidade, e para controlar de forma rápida um problema que eu mesmo tinha criado: ingerir muitas calorias, por ansiedade e descontrole.  Eu me acostumei tanto com a forma fácil de me livrar das calorias extras e da culpa de ter comido mais que precisava que a bulimia começou a fazer parte do meu dia a dia. Chegou um momento em que eu vomitava em todas as refeições, só pelo costume.  É como se o vômito fizesse parte do processo da alimentação: comer, mastigar, engolir e vomitar (deixar no estómago só o suficiente para sobreviver). Para mim, comer sem vomitar passou a ser inconcebível. Eu começava a passar mal, tremer, suar. Então deixei de ir para eventos sociais em que as pessoas serviam comida, ou seja, quase todos. E me isolei.

Bom, paralelamente a bulimia eu tive depressão. 

Essa fase foi de muito sofrimento. Eu tomava muitos remédios e ficava dopada, ou pelo menos me sentia assim. Eu sentia uma dor terrível no meu coração. Algo muito forte, na alma, indescritível. Me doía não saber descrever a causa e saber que a família, os amigos e todos a minha volta estavam preocupados.

Eu ia ao psicólogo (obrigada pela minha mãe), ao psiquiatra e tomava muitos remédios. Durante esse período, tentei largar a bulimia. No entanto, eu não conseguia comer nada e acabei desenvolvendo outro transtorno alimentar: anorexia. Durante pouco tempo perdi muito peso, me sentia muito pressionada e minha depressão ficou mais intensa. Depois de seis meses, votei para a bulimia.  

Ao longo do tempo mudei médicos várias vezes. Acho que sentia um pouco de raiva da quantidade enorme de remédio que os psiquiatras me davam. Tem horas que tenho a sensação que o terapeuta estaria muito mais apto para passar qualquer medicamento. Sempre achei superficial e artificial a conversa de uma hora que se tem mensalmente com o psiquiatra. Como assim fazer um resumo de tudo o que você está passando???? Sabe? Acho que o contato psiquiatra/paciente deveria ser mais próximo como o é o de psicólogo/paciente.

Por insistência dos outros, tentei igreja, pastor, benzedeiros, centros espírita, etc... tudo na busca de um alívio. Durante esses anos, por algumas vezes, acreditei estar melhor e então larguei todos meus remédios. Eu acreditava que os remédios me faziam muito mal, além disso era muito difícil para mim aceitar que eu dependia deles.  Cada vez que eu deixava os remédios de lado, o retorno da depressão parecia ser mais forte.