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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

“Ser verdadeira exige coragem e simplicidade”


Estou angustiada. Muitas vezes, ou normalmente, eu não consigo perceber o motivo da minha angústia, mas hoje de alguma forma sei que estou angustiada por que ontem demonstrei minha fragilidade para uma pessoa que eu havia acabado de conhecer. Tenho dificuldade em mostrar minhas fragilidades.  Sempre me esforcei demais para aparentar forte. Agora, estou passando por um momento em que decidi que quero ser mais honesta e verdadeira, pois uma das coisas que mais me incomodava (incomoda) com a bulimia é o fato de tudo ser velado, escondido, em segredo, como se tudo fosse uma grande mentira.  Ao falar disto na terapia, lembro-me do meu analista me alertando: “Ser verdadeira exige muita coragem e simplicidade”. Não tem um dia que não penso nessa frase e na complexidade que ela tem para mim.

Coragem... Simplicidade... 

Então... tentei ter coragem, mas não foi nada simples.  Para ser honesta e verdadeira, para falar o que estava se passando comigo, eu rebolei, enrolei e falei, mas acho que não fiz isso de forma simples, e certamente não fui corajosa. Mas pelo menos, e mesmo com medo, falei a verdade sobre meu trabalho e minha licença médica. Estou de licença médica há um ano, devido à depressão, ao transtorno alimentar e à ansiedade generalizada. Para mim, estar de licença (por esses motivos) é extremamente embaraçoso.  Sinto-me envergonhada, julgada, vulnerável, fracassada e sem chances de refazer uma nova imagem. Sei que não deveria me preocupar com a minha imagem, mas me preocupo.

Odeio essa minha preocupação excessiva, exagerada e desproporcional com essa  “imagem”. Imagem de que eu quero??? De perfeitinha???? Que pessoa é essa??? Definitivamente não sou eu!!! Quanto mais eu vou atrás de uma imagem (emocional  ou física), mais eu sofro. Não preciso de uma imagem, preciso de mim. Sem espelhos, sem buscar no outro esse espelho da aprovação, preciso da minha própria aprovação. Mas isso é outro post...

Voltando a minha angústia. Bom, avaliando o fato de forma real, eu falei a verdade, mas não falei tudo sobre minha licença. Não falei sobre a bulimia. Não tenho coragem de contar para ninguém isso. Para mim, ter bulimia é algo extremamente vergonhoso, sinto-me bizarra, confesso.  Tenho uma dificuldade enorme de lidar com isso. Na verdade, ainda tenho muita dificuldade de lidar com o fato de ter tido depressão e ter que me afastar do trabalho, de não ter dado conta. “Como assim não dar conta????”  Isso parece algo que deveria estar fora do meu dia a dia, sabe? Algo inadmissível. Preciso aprender a lidar com essas coisas e a aceitar minhas dificuldades. E isso dói.

Tremendo (mais internamente que externamente), respondi a ela, após ser questionada sobre o que eu fazia da vida, que eu trabalhava para o governo, mas que no momento estava afastada. A conversa foi fluindo e ela foi me perguntando mais coisas. Falei muitas coisas que eu costumo não dizer a ninguém... Falei como foi difícil admitir para mim e, consequentemente, para o mundo que eu estava mal e fragilizada. Contei que não estava dando conta das tarefas de casa, de mãe e do trabalho sem apoio diário do meu marido (pois “tudo” ruiu na época em que ele passou um ano fora da minha cidade). Contei de como eu comecei a me sentir incompetente no trabalho (cometia erros e demorava a realizar certas tarefas). Falei da minha incompetência em casa (esquecia compras, pagar contas, etc). Contei que tudo piorou quando percebi que estava falhando como mãe, pois não tinha a paciência de costume com meus filhos. Eu estava exausta e irritada. O pouco tempo que eu tinha eu queria comer compulsivamente e vomitar (essa parte eu não disse para ela). Também não disse a ela que, para suportar a distância do meu marido e fingir que estava tudo bem, para suportar os erros no trabalho, as falhas em casa e a falta da capacidade de ficar feliz e contente com meus filhos e preencher a falta que eles sentiam do pai, eu passei várias noites em claro, comento tudo que tinha na minha geladeira e vomitando, comendo novamente e vomitando novamente, me sentindo culpada, querendo me punir e tudo começava novamente, tinha diarreias terríveis, me sentia fraca, cansada, com a memória ruim e exausta física e mentalmente.

Ela me deu os parabéns por ter tomado a decisão de ter “escolhido largar” o trabalho e ficado com meus filhos. Mas eu confessei a ela que essa decisão não foi fácil e nem foi uma decisão. Que cheguei ao fundo do poço para perceber que não estava legal. E que mesmo assim, mesmo sabendo que precisei realmente parar e me afastar, a minha vaidade ainda me pertuba. De uma maneira besta, infantil e torta, eu (por orgulho/vaidade) ainda me importo com o que as pessoas do trabalho estão pensando e com o fato de que provavelmente eu nunca mais terei uma posição profissional boa, pois afinal de contas eu serei sempre tachada como “a louca” que precisou se afastar durante mais de um ano por causa da depressão e ansiedade (imaginem se soubessem da bulimia...). Enfim, contei para ela que foi um passo difícil, mas necessário, que eu estava feliz de ter tomado, mas que ainda precisarei superar meu ego, meu orgulho, minha preocupação com o olhar do outro.

Prova melhor de que eu ainda preciso superar isso é que eu fiquei angustiada com o que ela ficou pensando de mim. Fiquei preocupada com o julgamento e interpretações que ela pode dar a nossa conversa. Fiquei preocupada com a possibilidade de ela conversar sobre esse assunto com outras pessoas. Será que sou tão importante assim???? Claro que não , mas meu ego acha que sim. Ele tem essa imaginação tão fértil em relação ao que os outros podem achar ou falar de mim...

Coragem e simplicidade: duas palavras com um significado tão denso ou seria tão simples? 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Mendigando amor


Em algum momento lá na minha infância eu entendi que eu precisava ficar doente para receber amor, carinho e atenção. Eu chegava a desejar ficar doente.  Muitas vezes eu ficava com febre.  Acho que, de certa forma, meu corpo adoecia como um mecanismo de defesa quando minha mente já não aguentava mais o sofrimento interno. Eu desejava apenas uma coisa: o amor materno.

Confessar que eu precisava do amor materno foi aterrorizante para mim. Levei quatro anos de psicanálise e chorei várias sessões seguidas para enfim conseguir sair com a frase: “acho que não me sentia suficientemente amada pela minha mãe”. Parecia que eles (meus pais) estavam lá me ouvindo. Senti-me má, ingrata, injusta, mimada, envergonhada, mal agradecida. Será que eu estaria sendo injusta? Posso dizer que ainda é muito desconfortável para eu pensar nisso. Sinto-me culpada por não ter me sentido amada. Mas o fato é que quando me lembro da minha infância e vivencio os meus sentimentos daquela época, percebo que eu não me sentia, de fato, amada, principalmente, pela minha mãe. Eu sempre achei que precisava fazer algo por ela, para merecer o amor dela, para compensar o “trabalho” que estava dando (eu não era fácil), para compensar as perdas que ela teve quando me nasci. 

Para aceitar e trabalhar com esses aspectos,  estou  vivenciando vários sintomas de ansiedade. Tem dias que sinto como se meu peito não fosse acomodar o ar que o meu corpo precisa. Parece que vou morrer. Sinto falta de ar e tenho a sensação de que não consigo respirar direito. No meu caso, tenho consciência que o que sinto é exagerado e que vai passar, mas tem horas que parece interminável.  É angustiante. Sinto uma tensão enorme no pescoço. Meu coração acelera. Além disso, sinto como se meu corpo tivesse vibrando por dentro, soltando uma espécie de descarga elétrica, como se fosse explodir, e tem horas que eu gostaria que ele explodisse. E então eu sinto raiva de estar assim. Fico com medo de ficar louca de perder o controle.  Sinto um nó na garganta e de certa forma esse nó me lembra como eu gostaria de vomitar para “aliviar” tudo!!! Sempre aliviei meus sentimentos dessa forma. Sempre foi a forma que eu consegui ficar no controle. Meu sintoma (bulimia) foi um “remédio torto” para aliviar esses outros sintomas da ansiedade.  

A verdade é que tenho vivenciado esse sentimento físico de ansiedade, angústia (ou sei lá o que), várias vezes ao dia, e não só quando penso na minha relação com minha mãe. Percebo que esse sentimento se repete em situações relacionadas a aceitação, amor e expectativas que tenho em relação a outras pessoas e não gostaria de ter, pois sempre fico me julgando.  Com certeza estou no meio do furação de ideias e me sinto confusa para chegar a algumas conclusões. Então, por enquanto, estou apenas especulando várias possibilidades, tendo insights e tentando não julgar meus pensamentos.

De certa forma para mim, eu utilizava a bulimia para me “fortalecer”. Bom, pelo menos era o que eu achava que eu fazia. Eu tinha a falsa sensação de fortaleza. De que eu não dependia de ninguém. Eu me sentia forte. Não dependia de amor, de carinho, de aceitação. Se eu ficava brava, usava a bulimia e me acalmava.  Se estava sozinha, a comida era minha companhia. Se estava ansiosa (nó na garganta), o vômito anestesiava essa sensação.  Se sentia tristeza,  uma comida quentinha,  me abraçava por dentro. E esse comportamento irritante e destruidor, que iniciei na adolescência aos 15 anos, para me “confortar”, foi se tornando um hábito, uma forma operante de viver, de lidar com tudo.

É fato que mantenho a bulimia ainda porque acho que ainda ganho algo com esse comportamento. A questão é:  a mantenho porque não consigo lidar com tudo, ou não quero lidar com tudo para receber atenção e continuar doente? O amor que mendigo é o amor que desejo? Conseguirei eu mesma me amar e suprir esse amor que tanto busco? Um dia estarei pronta para receber apenas o que vier e pronto?  

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Confissão


Estou me mantendo presa no meu comportamento alimentar. Consigo perceber quase que diariamente que escolho a manutenção do hábito doentio (ainda que de forma menos intensa que no passado) do que continuar a minha trilha pela recuperação. Nem eu consigo me enganar com os motivos que estou inventando para mim mesma para a manutenção da mentira (pois manter meus comportamentos alimentares sem um esforço latente para sair deles me parece uma manutenção da mentira).


O que me mantem presa em minha mentira? Por que não consigo de fato abrir mão da compulsão/vomito que ainda acontece quase que diariamente em minha vida? Sei que já dei passos importantes nessa jornada, isso me faz apenas concluir que sou mais que capaz de dar mais este passo. Vivi momentos de torturas físicas para dar os primeiros passos. Lembro como foi difícil passar os primeiros 15 dias sem comer e vomitar durante o dia, pois todas as refeições que eu fazia eu vomitava, isso era o meu natural. Eu precisei viver um momento de sofrimento que, a meu ver, foi bem parecido com uma abstinência (veja o post que escrevi sobre isso).

E agora? Porque não consigo me esforçar e nem tento com tanto empenho como antes.  Porque me apego a essa doença como se ela fosse minha tábua de salvação?  Porque ainda acredito que ela é a única coisa capaz de me acalentar? Porque tenho tanto medo de perder isso? Porque tenho medo de ficar sozinha e não ter o minha válvula de escape para me ninar? Porque  tenho medo de perder a única ferramenta que sempre acreditei que me alivia a tristeza quando eu precisava? Porque tenho medo de perder minha ferramenta de controle mais precisa? Racionalmente sei que tudo isso é pura ILUSÃO.  Ela não me acalma, não me ajuda, não me acalenta, não me alegra, na verdade ela me ilude!!! Cada vez que utilizo a bulimia eu tenho a sensação de que dou um pause na vida e fujo dos problemas. Quando retomo a vida, simplesmente ignoro a sujeira, ela continua lá, mas estou “drogada” demais para me importar com ela.


"Mentira é o nome dado as afirmações ou negações falsas ditas por alguém que sabe (ou suspeita) de tal falsidade, e na maioria das vezes espera que seus ouvintes acreditem nos dizeres. Dizeres falsos quando não se sabe de tal falsidade e/ou se acredita que sejam verdade, não são considerados mentira, mas sim erros."



domingo, 24 de junho de 2012

Quando o passado bate na sua porta


Esta noite não dormi absolutamente nada. Fiquei me contorcendo na cama, andando de um lado para o outro, tendo palpitações, suando frio e tendo pensamentos repetitivos sobre fracassos, medo, compulsão, limites, etc. Foi muito, muito difícil segurar a onda e não “resolver” todos meus problemas como estou acostumada: comendo muito, até o limite, e me esvaziando (tirando de mim toda aquela angústia, aquela dor, aquele sofrimento).

Acho que a parte mais difícil da superação da doença é esta. Aprender a encarar este sentimento e entender o que fazer na hora que eles chegam. Eu simplesmente não sei (pelo menos não ainda). Sinto uma dor no fundo da minha alma. Uma dor física e psíquica. Gostaria de conseguir descrever em palavras o quão grande ela é, pois tenho a sensação que nada que eu fale vai traduzir o meu sentimento. Já experimentei algumas dores físicas, mas nada, nada se compara a essa dor, nem mesmo a dor do parto normal (que julgam ser tão grande), para mim, foi menor do que a dor que sinto quando minha alma sofre.

Depois de muito lutar para dormir, consegui enfim adormecer, por volta das 5 horas da manhã. Às 9 horas acordei, era o “meu passado batendo em minha porta”. Uma grande amiga minha tocou a campainha da minha casa, ela necessitava de ajuda. Por algum motivo, o que ela estava passando fez com que eu me lembrasse da minha história, época em que eu bebia muito e talvez, por sorte, ainda esteja aqui.

Entre os meus 18 e 25 anos, eu vivi uma fase muito conturbada da minha vida. Eu posso dizer que nesta época eu fiquei muito perdida. Vivia minha vida de uma forma descontrolada. Estava na busca do prazer, da emoção. Lembro-me de ser muito intensa e querer tudo para ontem. Era tudo ou nada, ou 8 ou 80. Minha vida parecia uma montanha russa de emoções. Eu já tinha bulimia, mas na minha lembrança a doença, na época, era mais “controlada”.

Claro que a bulimia era um problema menor naquela época. Eu “utilizava” menos a bulimia para me livrar das minhas dores psicológicas. Eu afogava minhas angústias, medos, sofrimento e frustração em outro vício: na bebida. Nesta época a minha depressão era muito forte e presente. Sentia um vazio enorme no meu peito, na minha alma. Inicialmente eu não queria estar viva, depois comecei a desejar a morte. Para esquecer a dor e o sofrimento, eu toparia fazer qualquer coisa, pois não havia futuro em meus planos.

Buscava a “felicidade, a emoção” de cada momento. Queria aproveita o dia, o momento, em toda sua potencialidade. Que inocência. O problema é que para atingir o aproveitamento total, eu fui precisando de mais: mais um gole, mais uma dose, mais um copo, mais uma garrafa, uma dose mais forte. Quando eu me dei conta, a bebida me controlava.  

Rapidamente, minha vida foi virando um inferno. Eu bebia para “ficar bem”, precisava sempre mais, de algo mais forte para sentir aquele “alívio imediato”.  No outro dia eu tinha que encarar tudo de novo, a depressão, medos, angústias, ansiedades. Aquela era a minha fuga, a minha muleta. E assim fui (sobre) vivendo. Voltei diversas vezes dirigindo para casa após beber meia garrafa de whisky ( o caminho?  É claro que não lembro). Tive coma alcoólica e fui levada a hospitais, algumas vezes. As perdas de memórias aconteceram, várias vezes. É chato lembrar o que me disseram que eu fiz.

Não me orgulho deste meu passado. Lembro que nesta época eu poderia ter me envolvido com o uso de outras drogas. Mas existia em mim (ainda que pouca, mas alguma) consciência de que eu não tinha maturidade e capacidade para encarar qualquer droga. Eu sabia que eu era fraca demais para elas e que se eu entrasse em algo mais forte, jamais eu sairia. Eu sabia que eu era uma pessoa facilmente viciável. Por isso, só por isso, nunca experimentei coisas mais pesadas.

Bom, hoje, eu ainda bebo. Não bebo todo final de semana e nem todas as vezes que saio com amigos e família. Bebo apenas quando estou a fim (provavelmente o certo fosse nunca mais beber). Mas nunca, NUNCA coloco um gole de bebida destilada em minha boca (ela tem um efeito avassalador em mim).  Tento beber com moderação. Peço ajuda aos que amo para que me avisem caso eu esteja saindo um pouquinho da linha. Nesta hora eu deixo a bebida de lado e passo a tomar água. Quase sempre isso funciona.

Mas deixar a bebida não foi algo tranquilo. Eu fui substituindo as doses de bebida pelas crises de bulimia. Como não tive acompanhamento médico e psicológico (pois eu não achava que precisava), eu fui atrás de outra muleta.   A bulimia era “perfeita” para este papel. Fui ficando viciada em comer descontroladamente e vomitar. Mas é claro que encontraria outro inferno pela frente. Pois muletas quebram... A sujeira não pode ficar para sempre debaixo do tapete.

Agora estou aqui, disposta a mudar isto. Estou mais madura, mais consciente, mais esperançosa. Estou aprendendo a me conhecer e a encarar meus medos. Não é fácil, pois sempre fugi deles, mas não quero mais fugir. Sim, foram 20 anos de fuga. Mas quer saber? Posso ter mais que 20 anos de vida. De vida plena!!!

sábado, 23 de junho de 2012

Deixando de lado o "tudo ou nada"


  
Li em diversos lugares que as pessoas com bulimia são pessoas extremistas e tendem a ter pensamentos baseados no “tudo ou nada”. Adoraria dizer que esta teoria é uma bobagem e que eu não me enquadro nela. Mas infelizmente isso não é verdade. Apesar de ter consciência de que não deveria tratar as coisas de forma tão radical, que o mundo não é preto ou branco, que as coisas não são necessariamente boas ou más, eu ainda me vejo várias vezes caindo em armadilhas que minha mente me coloca.


Ainda demoro a perceber que estou presa em pensamentos extremistas, para então começar a luta para desatar os nós que criei (mentalmente para chegar às conclusões que cheguei). O pior é que sofro enquanto vivencio minha crença extremista. Demoro a sair do olho do furacão.

Ontem mesmo vivenciei este sofrimento (novamente). Estou comprometida com minha jornada rumo à recuperação e lutando fortemente contra a bulimia. Tenho feito um esforço descomunal para deixar de comer compulsivamente de 5 a 8 vezes diárias (e vomitar), para fazer isso apenas uma vez ao dia. Eu poderia estar melhor? Não, eu não poderia. Outra pessoa talvez, mas eu estou fazendo o que EU POSSO.

Mas ontem, quando eu estava no olho do furacão, eu não conseguia lembrar isto.  Ontem eu estava sentindo uma dor terrível no meu corpo (possível gripe chegando) então não fui nadar. A natação tem sido para mim uma excelente forma de liberar endorfina no meu corpo.  Adoro o contato com a água, fico relaxada, menos ansiosa. Durante as braçadas vou pensando nos problemas e vou desmistificando um a um. A natação é uma terapia para mim.

Bom, ontem, não nadei, consequentemente, nada de endorfina. Para completar, eu estou passando por um momento em que preciso tomar uma decisão pessoal, o que sempre me estressa. Tenho grande dificuldade de lidar com mudança. Enfim, cheguei em casa mais cedo do que de costume, comi enlouquecidamente, vomitei mais enlouquecidamente ainda e não estava satisfeita.  Sofri durante horas para não comer novamente e não vomitar. Não dormi nada. Eu sofri, pois não queria comer e vomitar. Mas me senti muito mal por desejar do fundo da minha alma fazer isto para fugir do meu problema (ter que tomar a decisão, ter que pensar na decisão, ter que encarar a decisão).

Lutei, sofri, me contorci para não dar um passo para trás na minha jornada rumo à recuperação. Me senti uma fracassada e me vi como a pior pessoa do mundo. Agora, pela manhã, após acordar, beijar meus lindos filhos e tomar um café da manhã equilibrado, sem vômitos, vejo como minha noite foi bem sucedida. Como fui dura comigo, como fui injusta. Lá estava eu mergulhada no meu pensamento extremista do “tudo ou nada”. Naquele momento, eu achava que não bastava não comer e vomitar que eu o “certo” seria nem querer. Por isso, quase que eu comi. Uma vez, que eu já me achava perdedora...

Entendo que tenho que encarar meus pensamentos e sentimentos negativos. Preciso lutar contra eles. Mesmo que no começo isso me traga desconforto. Acredito que com o tempo irei aprender a não cair nas armadilhas que minha mente me prega. Isso não significa tampar o sol com peneira, fingir que os problemas não existem, mas apenas encarar os problemas da forma que eles são de verdade.

Ou seja, se eu desejo comer e vomitar não significa que sou uma fracassada. Se eu comi e vomitei, não significa que nunca irei conseguir fazer diferente. Significa sim, que o processo não está sendo fácil, que terei que me esforçar ainda mais.  Significa lembrar que já estive bem pior, já evolui muito no processo. Ver as evoluções passadas e reconhece-las são importantes para manter o foco de que sou capaz de ir mais além. De que consigo seguir e continuar melhorando. Tenho 35 anos de idade, mas preciso ter paciência comigo e lembrar que na busca pela cura sou apenas um bebe aprendendo a engatinhar.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Lidando com o olhar dos outros


Depois de vários anos de análise e terapia, ficou claro para mim que um dos meus maiores limitantes é minha dificuldade de lidar com o “olhar do outro”. Preocupo-me de forma tão exagerada com isto que chega a ser doentio. Este assunto já foi tema de milhões de sessões de terapia, e para mim nunca ficou claro a origem dessa necessidade demasiada pela aprovação dos outros. Em que momento o terceiro se tornou tão importante na minha vida? Tenho medo exatamente de que? De não ser amada? De não ser aceita? De ser abandonada?

Esta é uma das piores prisões que uma pessoa pode viver. Falo por experiência própria. Muitas vezes deixo de fazer algo por achar que minha atitude pode fazer com que Fulano ou Beltrano achem isso ou aquilo de mim. Um exemplo concreto seria se eu contasse para todos que passei 20 anos com bulimia. Logo minha mente chega a seguinte conclusão: todos pensarão que sou uma mentirosa (pois não disse nada antes), todos pensarão que sou fútil, que sou fraca, que sou superficial. A minha mente vai fazendo julgamentos cheios de preconceitos e eu viro escrava da minha própria mente doentia. Sei que parece idiota... até para mim.  Mas é assim que minha mente funciona.  

Tento adivinhar o que os outros pensariam, como se isso tivesse qualquer importância. Tento controlar como agir, e muitas vezes não faço o que gostaria de fazer. Mas na verdade, eu não deveria me preocupar com eles, pois, provavelmente, a maior crítica vem de mim mesma. Os julgamentos mais cruéis são meus.

Racionalmente, eu sei que deveria pensar em mim e não me preocupar com o julgamento dos outros. Mas para mim isso ainda é muito difícil. Preciso entender que não estarei imune às criticas, nem se eu fosse “perfeitinha”. Como meu terapeuta diz, a busca pelo perfeccionismo é para os idiotas (me incluo aqui). Preciso entender que sempre existirão pessoas que vão discordar de mim ou apenas terão opiniões e gostos diferentes. O que me sobra é aprender a não ligar para as críticas. Não ligar para os “olhos dos outros”. Aplicar a filosofia da vaca: “ir cagando e andando” .

Adorei um texto que fala sobre críticas da psicóloga Valéria Lemos Palazzo: “Não ser vulnerável as criticas, significa se auto valorizar, ter uma auto-estima positiva. Pense....você não precisa saber o que o outro pensa sobre você, para só assim  sentir-se bem. Você não precisa saber como o outro te “vê”, para saber que você é uma pessoa de valor. Imagine se está pessoa que você está “usando” como referencial tenha uma estrutura psicológica neurótica. O “olhar” dessa pessoa sobre você será “torto”, “embaçado”. E, você vai se orientar por este “olhar” ? O que realmente interessa, é como VOCÊ SE VÊ. O problema é que poucos de nós realmente se conhecem. Não nos “enxergamos”, a não ser que usemos o “outro” como “espelho”, como “referencial”. Como não nos “enxergamos”. Temos que usar a visão do outro. Você precisa conhecer a sua REALIDADE e não a do outro. Todas as vezes que você ouviu (no sentido de se importar=trazer para dentro) a critica do outro, você não se valorizou, não se avaliou. As pessoas mais vulneráveis as criticas, são aquelas que tem pouca consciência de si.”  Bom, acho que vale a pena ler o texto completo

Ao ler o texto, passo a acreditar que é exatamente isso que acontece comigo, tenho pouca consciência de mim. E agora estou tentando buscar me conhecer e poder, de fato, aplicar a teoria da vaca. 

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Frustração mais uma vez


Hoje já fiz de tudo para evitar escrever este post. Estou com medo e receio de traduzir em palavras o que estou sentindo. Minha vontade é manter meus pensamentos em segredo, mas não dá. Os meus pensamentos já estão solidificados em minhas ações. E por mais que eu tente fugir deles, eles me perseguem. Então mudarei de estratégia. Confessarei meus “crimes” e espero que isso amoleça minhas ações, deixando que eu molde novos hábitos, novos pensamentos e novos sentimentos.

Frustração e raiva são os sentimentos de hoje. Estou extremamente chateada comigo pelo fato de ter conseguido, apenas uma única vez, durante os 18 dias em que comecei a minha jornada rumo à recuperação, ter ficado sem comer excessivamente e sem vomitar durante um dia inteiro (dia e noite). Há dois dias consegui pela primeira vez dormir sem a crise bulímica, mas ontem e hoje, fracassei.

Eu sei que deveria estar pensando pelo lado positivo, sei que deveria pensar em quanto já caminhei até agora e que deveria ter calma e blá, blá, blá. Mas hoje estou com uma dificuldade enorme em fazer isso. Estou com uma raiva enorme de mim. Tenho certeza que se fosse em outras épocas, hoje seria um daqueles dias em que comeria e vomitaria várias vezes, só para tentar aliviar essa dor que sinto no meu peito e que parece que não passa. Estou tremendo e sinceramente, não sei se conseguirei dormir...

Agora o que preciso fazer é encarar este sentimento de frustração e aprender como lidar com ele. Certamente, esta sensação vem da minha expectativa não realizada. Preciso respirar e entender que esta jornada será assim mesmo: serão tentativas, acertos, falhas, acertos, novas tentativas, mais acertos e depois menos falhas. Preciso deixar de lado a minha busca pela perfeição, pelo ideal e me contentar com o real, com o possível. Só assim deixarei de ter frustrações constantes.

Para não perder a esperança, reli posts de pessoas que contam suas trajetórias contra a bulimia. A busca de ninguém foi fácil e nem foram sem falhas ou recaídas. Mas uma coisa elas tiveram em comum: nenhuma desistiu. Recarrego minhas energias e ganho força de novo. Amanhã é um novo dia, uma nova luta, uma nova batalha. Sim, ainda virão muitas dificuldades, e eu preciso estar forte para enfrentá-las ou elas me derrotarão. Cair, aprender, levantar e seguir, continuando a jornada. 

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Primeira tentativa rumo a recuperação – primeiro fracasso

Oi gente. Ontem não consegui escrever no blog, pois estava me sentindo muito envergonhada, com raiva e fracassada. No dia 28, à noite, eu havia feito um compromisso (comigo mesma) de tentar passar 24 horas sem vomitar.  Não consegui atingir minha meta. Tenho enorme dificuldade de lidar com o fracasso. Odeio traçar um plano e não conseguir cumpri-lo. Mais uma vez é o meu perfeccionismo me limitando. Minha mania de controle. Minha falta de paciência. Meu imediatismo. Quantas vezes desisti de tentar, simplesmente com medo de não conseguir??? Quantas vezes interrompi meus planos, só por medo???

Pelo que tenho pesquisado, esses traços de personalidade são características em comum dos bulímicos: controlador, perfeccionista, imediatista, intenso, impaciente, ansioso. Muito provavelmente foram essas características que nos levaram a doença, correto? Enquanto não aprendermos a lidar com estes sentimentos que aparecem em nós (bulímicos) de forma exacerbada, não conseguiremos nos livrar verdadeiramente da bulimia. Muito provavelmente esses traços sempre estarão conosco. Precisamos cada dia encarar nossas limitações. Aceitar nossas imperfeições e ter, sobretudo, paciência.

Bom, eu sou consciente do que tenho que fazer, mas vou te contar a verdade, ontem eu estava uma fera. Não conseguiria pensar assim. Na minha cabeça só vinha “Sua burra!!! Fracassada!!!”. Quase enlouqueci. Eu tenho compulsões e regurgito todos os dias, de cinco a oito vezes ao dia. Na minha vida não existe comer algo sem exagero e não vomitar. Sempre que eu como, eu quero (preciso) vomitar. Para mim, é algo normal, é como parte do processo digestivo: mastigar, engolir, vomitar. Eu sei, parece horrível, mas é a minha realidade. Quando não posso vomitar, ou porque estou na casa de alguém, ou porque não tenho um banheiro adequado, ou outra situação qualquer, eu fico muito mal. Fico agitada, começo a tremer, me sinto inquieta, e sinto enjôo. Fico me segurando para não “dar bandeira”, mas tento dar um jeito de ir logo para casa, para poder comer (daí sim, comer tudo que eu quero) e vomitar livremente. Por isso, sempre comparo minha doença a um vício.  

Retomando a minha tentativa de ficar 24 horas sem vômitos e a analisando friamente, até que fui OK. À noite, véspera de começar a tentativa, eu não dormi nada bem. Fiquei em pânico, só por imaginar que no outro dia eu não poderia vomitar. Rolei na cama por medo de não conseguir. Pensei em desistir de tentar, mas apesar disso continuei firme no meu propósito. Pela manhã, acordei assustada e com medo. Tomei meu café da manhã, comi pouco, para não me sentir muito cheia. Não vomitei!!! Me senti enjoada. Tive tremedeiras. Fiquei angustiada e só pensava em vomitar.

Sai de casa para levar meus filhos ao dentista, o que foi bom, pois assim fiquei longe do banheiro. Tive a sensação de que meu corpo inteiro estava sentido falta da minha droga (vômito). Em alguns momentos eu suava... Após o dentista, passei em uma farmácia de manipulação e comprei um Floral de Bath (para diminuir a ansiedade e angustia). Tomei as gotinhas, mas a ansiedade continuou forte e enlouquecedora.

Almocei (saladinha, legumes e frango) e não vomitei!!! Levei as crianças para escola e fui para o supermercado (pois precisava fazer compras para a casa). Pronto, ferrou tudo!!! Naquele momento comecei a tremer mais que antes. Naquela hora eu soube que não ia dar conta. Comprei o que estava faltando em casa e tudo que eu iria comer alguns minutos mais tarde. Foi exatamente o que aconteceu. Vergonha... raiva... decepção. Ontem tive duas crises de bulímicas, em que comi exageradamente e vomitei logo em seguida.

Bom, não pensem que desisti. Hoje estou aqui, tremendo e tentando de novo. Melhor dois episódios de regurgitação do que oito, não é? Tenho lido muitos relatos de como foi a luta de quem se recuperou e sei que não será fácil. Sei que a cura não se dá de uma hora para outra. Pelo que li a cura é gradativa e acontece aos poucos. Então comigo não seria diferente, não é mesmo? Vamos lá, estou buscando exercitar minha paciência, perseverança e amor próprio.  Tenho motivo de sobra para querer sair de onde estou e começar uma vida sem a bulimia. Não serei mais uma derrotada, não vou mais desistir.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

O Começo


Durante anos eu penso em escrever sobre o que passo e sobre o que sinto. Esse é um projeto que sempre abandono por motivos mais variados possíveis : medo de me expor; preguiça; não ver um motivo real para fazê-lo. Bom, a verdade é que estou precisando a cada dia mais desabafar. Foi difícil para mim chegar a essa decisão de expor a parte mais frágil da minha vida, mas preciso encontrar outras válvulas de escape, pois as que utilizo hoje já não me sustentam mais.

Sofro de depressão há quase 20 anos e durante esse tempo já passei por três tentativas de suicídio. Durante a minha luta contra a doença já passei por muita coisa, já tive períodos em que achei que estava louca, adquiri uma bulimia, casei, tive dois filhos, melhorei muito e  agora estou passando por um momento muito difícil. Minha depressão que há muitos anos não se manifestava está bem forte, a bulimia que nunca consegui me livrar continua comigo e estou sofrendo alterações de humor. Ando irritada e as vezes tenho a sensação de que vou enlouquecer.

O começo de tudo

Bom, vou tentar contar como me lembro... Não sei ao certo quando a depressão começou, nem ao certo o que veio primeiro a bulimia ou a depressão. Mas sinceramente acredito que a bulimia é uma consequência de algo que já não vinha muito bem...  Na verdade tenho recordações de alguns pensamentos já na minha infância do tipo “não queria estar viva”. Esses pensamentos de desesperança eram espaçados e misturados com momentos normais e alegres. Apesar de não dividir os pensamentos negativos com ninguém, acredito que eles eram realmente sinceros. Eles começaram por volta dos meus oito ou sete anos.

O primeiro episódio bulímico ocorreu quando eu tinha 15 anos. Eu havia me excedido na alimentação e tive a "brilhante" ideia de colocar tudo para fora. No inicio foi uma solução fácil para me livre das calorias extras e o vômito me pareceu uma alternativa fácil e viável para meu problema. Mal sabia eu que estava entrando em talvez a pior armadilha que iria me acompanhar e me atormentar por longos anos da minha vida. Se eu pudesse eu jamais teria escolhido aquele caminho.

A bulimia, no início, foi usada para conter o peso, por pura vaidade, e para controlar de forma rápida um problema que eu mesmo tinha criado: ingerir muitas calorias, por ansiedade e descontrole.  Eu me acostumei tanto com a forma fácil de me livrar das calorias extras e da culpa de ter comido mais que precisava que a bulimia começou a fazer parte do meu dia a dia. Chegou um momento em que eu vomitava em todas as refeições, só pelo costume.  É como se o vômito fizesse parte do processo da alimentação: comer, mastigar, engolir e vomitar (deixar no estómago só o suficiente para sobreviver). Para mim, comer sem vomitar passou a ser inconcebível. Eu começava a passar mal, tremer, suar. Então deixei de ir para eventos sociais em que as pessoas serviam comida, ou seja, quase todos. E me isolei.

Bom, paralelamente a bulimia eu tive depressão. 

Essa fase foi de muito sofrimento. Eu tomava muitos remédios e ficava dopada, ou pelo menos me sentia assim. Eu sentia uma dor terrível no meu coração. Algo muito forte, na alma, indescritível. Me doía não saber descrever a causa e saber que a família, os amigos e todos a minha volta estavam preocupados.

Eu ia ao psicólogo (obrigada pela minha mãe), ao psiquiatra e tomava muitos remédios. Durante esse período, tentei largar a bulimia. No entanto, eu não conseguia comer nada e acabei desenvolvendo outro transtorno alimentar: anorexia. Durante pouco tempo perdi muito peso, me sentia muito pressionada e minha depressão ficou mais intensa. Depois de seis meses, votei para a bulimia.  

Ao longo do tempo mudei médicos várias vezes. Acho que sentia um pouco de raiva da quantidade enorme de remédio que os psiquiatras me davam. Tem horas que tenho a sensação que o terapeuta estaria muito mais apto para passar qualquer medicamento. Sempre achei superficial e artificial a conversa de uma hora que se tem mensalmente com o psiquiatra. Como assim fazer um resumo de tudo o que você está passando???? Sabe? Acho que o contato psiquiatra/paciente deveria ser mais próximo como o é o de psicólogo/paciente.

Por insistência dos outros, tentei igreja, pastor, benzedeiros, centros espírita, etc... tudo na busca de um alívio. Durante esses anos, por algumas vezes, acreditei estar melhor e então larguei todos meus remédios. Eu acreditava que os remédios me faziam muito mal, além disso era muito difícil para mim aceitar que eu dependia deles.  Cada vez que eu deixava os remédios de lado, o retorno da depressão parecia ser mais forte.