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segunda-feira, 18 de junho de 2012

Lidando com o olhar dos outros


Depois de vários anos de análise e terapia, ficou claro para mim que um dos meus maiores limitantes é minha dificuldade de lidar com o “olhar do outro”. Preocupo-me de forma tão exagerada com isto que chega a ser doentio. Este assunto já foi tema de milhões de sessões de terapia, e para mim nunca ficou claro a origem dessa necessidade demasiada pela aprovação dos outros. Em que momento o terceiro se tornou tão importante na minha vida? Tenho medo exatamente de que? De não ser amada? De não ser aceita? De ser abandonada?

Esta é uma das piores prisões que uma pessoa pode viver. Falo por experiência própria. Muitas vezes deixo de fazer algo por achar que minha atitude pode fazer com que Fulano ou Beltrano achem isso ou aquilo de mim. Um exemplo concreto seria se eu contasse para todos que passei 20 anos com bulimia. Logo minha mente chega a seguinte conclusão: todos pensarão que sou uma mentirosa (pois não disse nada antes), todos pensarão que sou fútil, que sou fraca, que sou superficial. A minha mente vai fazendo julgamentos cheios de preconceitos e eu viro escrava da minha própria mente doentia. Sei que parece idiota... até para mim.  Mas é assim que minha mente funciona.  

Tento adivinhar o que os outros pensariam, como se isso tivesse qualquer importância. Tento controlar como agir, e muitas vezes não faço o que gostaria de fazer. Mas na verdade, eu não deveria me preocupar com eles, pois, provavelmente, a maior crítica vem de mim mesma. Os julgamentos mais cruéis são meus.

Racionalmente, eu sei que deveria pensar em mim e não me preocupar com o julgamento dos outros. Mas para mim isso ainda é muito difícil. Preciso entender que não estarei imune às criticas, nem se eu fosse “perfeitinha”. Como meu terapeuta diz, a busca pelo perfeccionismo é para os idiotas (me incluo aqui). Preciso entender que sempre existirão pessoas que vão discordar de mim ou apenas terão opiniões e gostos diferentes. O que me sobra é aprender a não ligar para as críticas. Não ligar para os “olhos dos outros”. Aplicar a filosofia da vaca: “ir cagando e andando” .

Adorei um texto que fala sobre críticas da psicóloga Valéria Lemos Palazzo: “Não ser vulnerável as criticas, significa se auto valorizar, ter uma auto-estima positiva. Pense....você não precisa saber o que o outro pensa sobre você, para só assim  sentir-se bem. Você não precisa saber como o outro te “vê”, para saber que você é uma pessoa de valor. Imagine se está pessoa que você está “usando” como referencial tenha uma estrutura psicológica neurótica. O “olhar” dessa pessoa sobre você será “torto”, “embaçado”. E, você vai se orientar por este “olhar” ? O que realmente interessa, é como VOCÊ SE VÊ. O problema é que poucos de nós realmente se conhecem. Não nos “enxergamos”, a não ser que usemos o “outro” como “espelho”, como “referencial”. Como não nos “enxergamos”. Temos que usar a visão do outro. Você precisa conhecer a sua REALIDADE e não a do outro. Todas as vezes que você ouviu (no sentido de se importar=trazer para dentro) a critica do outro, você não se valorizou, não se avaliou. As pessoas mais vulneráveis as criticas, são aquelas que tem pouca consciência de si.”  Bom, acho que vale a pena ler o texto completo

Ao ler o texto, passo a acreditar que é exatamente isso que acontece comigo, tenho pouca consciência de mim. E agora estou tentando buscar me conhecer e poder, de fato, aplicar a teoria da vaca. 

domingo, 27 de maio de 2012

Triste e brava


Quando imaginei escrever o blog pensei em utilizá-lo como uma ferramenta de terapia, na busca pela cura. Bom, pelo que estou percebendo hoje essa busca será muito, mas muito mais difícil do que eu imaginava. Isso porque aqui vou tratar de sentimentos muitas vezes confusos, feios e até doentes (afinal, estou doente, né?). Admitir isso é difícil, dói e não é bonito, não é nada bonito. Me mostrar, mesmo que usando a “mulher interrompida”, faz com que eu me sinta extremamente vulnerável. 

Estou angustiada, pois como vocês sabem a bulimia trata-se de uma doença secreta, silenciosa. Bom, pelo menos no meu caso, eu não consigo falar sobre ela ou confessar e admitir tê-la a amigos (nem para os melhores amigos), familiares, colegas de trabalho. Falei da minha doença apenas para meu pai, mãe, irmãos, marido e profissionais que me acompanham. Tenho vergonha da doença. Tenho pânico, pânico mesmo, só em imaginar o que os outros vão pensar de mim quando souberem. Tenho um grande problema de aceitação própria e fico tentando buscar a aceitação dos outros, como se isso fosse me satisfazer em algo. Tenho trabalhado para melhorar minha auto-estima, pois está difícil fazer o que eu acredito que os outros esperam de mim. E talvez eles nem esperem nada... mas eu crio essa personagem e a imagino com tudo que os outros a desejam, e vou tentando ser ela. Estou cada dia mais distante de mim mesma. Na verdade, já não tenho certeza de quem sou. Meus pensamentos estão cheios e minha alma vazia e comer descontroladamente não me ajuda mais, não me alivia mais. Mas porque eu não consigo simplesmente parar??? Onde está aquela garota inteligente?

Acho que essa é a parte mais difícil da doença para mim. Saber que faz muito mal e ver as consequências terríveis que já estão acontecendo no meu corpo, os efeitos negativos na família e filhos, as limitações profissionais e sociais (bom depois vou postar um pouco sobre como a bulimia tem me limitado em cada uma dessas áreas). Saber disso tudo e não conseguir ter força de vontade suficiente para mudar (como diria meu pai) me deixa brava e frustrada e isso acaba agravando ainda mais meu quadro. Acho que é isso que me faz sentir tanta vergonha em admitir que eu a tenho. Fora o fato dela ser uma coisa nojenta, correto? Vômitos, cabelos caindo, dente apodrecendo... nada é bonito na bulimia, nada mesmo. Eu invejo tanto, tanto, as pessoas que sabem lidar com o corpo que tem. Eu criei um medo de algo que sei (conscientemente) que ficaria mais bonito em mim (um corpo com mais curvas). Mas o pânico nem sempre é lógico...

Além disso, eu criei uma ilusão. Me viciei tanto na prática de comer e vomitar, que passei a utilizar a bulimia como uma válvula de escape para angústias, ansiedades, sofrimentos. Hoje, acho que até conseguiria começar a trabalhar com a mudança do meu corpo, mas ainda sou muito frágil emocionalmente. A bulimia para mim é uma espécie de fuga, válvula de escape, muleta, pois quando estou com qualquer problema é na bulimia que desconto: engulo tudo que estiver ao meu alcance, até a minha barriga ficar totalmente esticada (não é bonito, eu sei) e depois jogo fora, na forma de vômito, a angustia, a tristeza, a solidão, etc. O problema é que não está mais funcionando!!! Não fico mais aliviada e, além disso tudo, o preço que estou pagando é alto demais.

Quero me desfazer desse vício e dessa falsa sensação de conforto. Ela não se sustenta. É uma mentira que criei, assim como muitas mentiras que crio para mim mesma e para todos que finjo acreditar que não sabem o que tenho. Pessoas se curam da bulimia, tenho lido muito sobre isso. Eu serei uma delas. Tenho certeza que essa busca não vai ser fácil, nem bonita, nem vou estar sempre otimista, como hoje, na verdade, não estou. Mas quero tentar continuando, pois tentarei vomitar palavras para aprender a lidar com minhas emoções.