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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

A gente não quer só comer

Estou em uma fase que está me irritando. Apesar de não ter crises de bulimia há mais de um ano e minhas noias sobre engordar terem diminuído consideravelmente ainda tenho tido episódios de compulsões. No começo eu tentei não ligar muito para esses episódios, pois acredito que eles irão diminuir com o tempo. Acredito que com a evolução da minha terapia e do conhecimento e aceitação do que está se passando comigo, eu não precisarei mais recorrer ao alimento para tentar suprir algo que falta dentro de mim. Embora minha crença seja essa, isso não está me impedindo de ficar irritadíssima comigo por não segurar a onda em momentos de angústia, de mal estar. Nesses momentos, eu acabo comento 1 Litro de sorvete para tentar me anestesiar.  A sensação pós-comida é diferente de antigamente.  Antes eu comia muito mais que isso e vomitava, claro... Eu lembro que vomitar era parte do processo, era quase que automático para mim. Hoje não consigo me imaginar fazendo isso. Agora eu “aceito” o que fiz e sei que vomitar não será a solução para meu problema e, simplesmente, não vomito mais, eu aceito engordar... não que eu goste de engordar, mas aceito essa consequência para meu ato.   


Bom, a verdade é que sei que evolui. Sei que hoje tenho menos “problemas” que antes. Sei que estou lidando melhor com meu corpo, mesmo com as mudanças que ocorreram nele com a “recuperação”.  No entanto, ainda olho para mim e vejo que tenho tanto a percorrer. Vejo que ainda uso a comida como válvula de escape e que apesar de não me desesperar com os quilos que estou ganhando com as compulsões, eu não gosto deles. Fico me questionando sobre quando irei deixar as compulsões de lado e apenas irei comer normalmente (como faço durante todo o dia). Fico perguntando se um dia conseguirei fazer isso... Se um dia o chocolate será apenas um chocolate e não trará consigo a ilusão de preencher um vazio que é impreenchível. Fico me perguntando se um dia eu conseguirei aceitar esse vazio que é tão difícil de nomear e que parece vir disfarçado de tantas faces... 

Bom... nesse momento, lembrei de Titãs: 

Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?

A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte

A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer

Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?

A gente não quer só comer
A gente quer comer
E quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer
Pra aliviar a dor

A gente não quer só dinheiro
A gente quer dinheiro e felicidade
A gente não quer só dinheiro
A gente quer inteiro
E não pela metade

Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?

A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte

A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer

A gente não quer só comer
A gente quer comer
E quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer
Pra aliviar a dor

A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer dinheiro
E felicidade
A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer inteiro
E não pela metade
Diversão e arte
Para qualquer parte
Diversão, balé
Como a vida quer
Desejo, necessidade, vontade
Necessidade, desejo, eh!
Necessidade, vontade, eh!
Necessidade

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Rumo a recuperação - 8 meses sem crise.

Há oito meses que não uso os comportamentos do transtorno alimentar como fuga para minha vida.  Me sinto feliz com isso e, agora, posso dizer com segurança que não pretendo voltar aos velhos hábitos. Estar livre da bulimia tem sido para mim uma conquista. A busca por essa liberdade exigiu, sim, muito trabalho interno, coragem e humildade. Tive que lidar com várias dores, limpar feridas, e enxergar um lado meu que eu não queria. Fui conquistando lentamente o afastamento de tais comportamentos.

No meio do caminho, me deparei com fragilidades e tive que aprender a aceita-las (ainda trabalhando esse aspecto). Percebi como o mundo do transtorno alimentar me afastava da realidade e da minha verdade. Não, nunca foi sobre ser ou não gorda. Esse medo de engordar sempre foi uma fuga para que eu não enxergasse o que verdadeiramente poderia estar me incomodando. O medo de enfrentar a verdade é o que me prendia no transtorno alimentar. Coragem para enfrentar dores do passado e limitações do presente foi o que precisei (e ainda preciso em vários aspectos) para sair da bulimia.

Hoje me sinto distante do transtorno alimentar. Não consigo ver lógica para aquilo que eu fazia. Analiso minha vida e sei o quanto tais comportamento eram arraigados ao meu dia a dia e como eu considerava a doença parte de mim. Hoje não vejo a bulimia nada perto de mim, não sinto mais impulsos para retornar aos velhos hábitos. No entanto, ainda percebo como os sentimentos que me levaram a desenvolver a bulimia ainda mexem bastante comigo. E estou aprendendo a lidar com cada um desses sentimentos.

Hoje, procuro escutar a mim mesma, ouvir meus sentimentos, tentar entendê-los, desvenda-los, sem julgamentos. Me observo o tempo todo. Porque fiquei brava? Porque fiquei triste? O que da atitude do outro está tão ligado a mim que mexeu comigo, seja me irritando, me deixando impaciente? Qual é a percepção que estou tendo de um fato? Eu teria essa percepção se a mesma coisa acontecesse um ano antes?  E terei essa mesma percepção no futuro? O que esse fato diz sobre mim, hoje?   Essa auto analise tem me ajudado a me entender, me aceitar, com minhas limitações e me respeitar. A jornada é longa, mas é gratificante ir me desacorrentando do que me prendia.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Novamente, eu e o outro

Tem dias que nosso coração parece que está apertado e a gente aparentemente não consegue entender o porquê. A verdade é que sempre existe um porque e às vezes, simplesmente, preferimos não enxergar o que está nos incomodando. Do que estamos fugindo?

Hoje acordei com essa sensação. Com o coração apertado e um sentimento de angústia. Nesses momentos o meu primeiro impulso quase sempre é comer. É tapar, esconder, anestesiar esse sentimento com a comida. A vontade é de fugir. Mas, como vocês sabem, estou há mais de quatro meses sem crises de bulimia (ainda tenho algumas compulsões, mas não vomito mais, ufa!) e sair me empanturrando de comida e me anestesiando com o vômito não é mais uma saída para mim.

Agora eu estou vivenciando as minhas angústias, dores, sofrimentos e sentimentos. Isso significa encarar parte de mim que eu não estava disposta antes. O que percebo é que sem a comida como fuga, basicamente eu tenho que lidar com pequenos desconfortos quase que diariamente. É como se eu estivesse quase sempre desconfortável com algo. Tenho percebido, por exemplo, que o meu trabalho é um espaço em que me sinto bem desconfortável. E tenho tentado entender o porquê deste “desconforto”.

Analisando essa sensação em relação ao meu trabalho eu percebo que parte da minha angústia vem da necessidade de receber a aprovação dos outros. É como se eu necessidade que os outros referendassem meu trabalho para que eu me sentisse competente. Durante muitos anos eu me escondi atrás da bulimia para fingir para mim que eu era segura. Ou simplesmente para não conseguir perceber as minhas inseguranças.  

Hoje percebo como sou bastante insegurança. Percebo que um comentário ou a falta de um comentário pode atingir a percepção que tenho de mim mesma: “sou competente” X “não sou competente”. Percebo como eu me rastejo atrás dessas aprovações da mesma forma que uma criança procura a aprovação dos pais ao mostrar o boletim escolar.

Inclusive me recordo como eu buscava a aprovação dos meus pais ao mostrar minhas notas para eles. Lembro-me como eu achava que se eu tirasse notas boas seria amada, caso contrário correria o risco de perder o amor deles. Era como se sempre eu tivesse com medo de perder o amor deles (principalmente o da minha mãe). Eu já me sentia muito insegura.

Aquela insegurança é exatamente a mesma de hoje. Continuo sendo aquela menina, em busca da aprovação... em busca do amor... em busca de um espelho que me diga quem eu sou. Um outro que me assegure que eu sou boa o suficiente.


Mudar isso é um objetivo. Tornar-me alguém mais independente do olhar do outro é uma meta. Percebo pequenas evoluções nesse caminho...  Mas percebo grandes falhas também. Que a luta continue. 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Então foi Natal...

Quem tem ou teve um transtorno alimentar sabe que as épocas de festas podem ser apreensivas. O Natal para mim não foi diferente. Senti um friozinho na barriga. O meu desejo era passar o Natal sem crise bulímica e me manter na recuperação. Era inevitável a lembrança de que nos últimos anos meus Natais haviam sido todos com crise. Tentei não me impressionar com essa lembrança. Me foquei no fato de que agora as coisas são diferentes. Eu mudei, não sou mais a mesma. Não preciso mais passar o Natal fugindo e me anestesiando.

Então, me preparei e me fortaleci emocionalmente. Apesar de estar confiante confesso que senti um frio na barriga. Mas não me isolei e nem evitei nada. O Natal foi na minha casa. A família foi toda para lá, irmão, cunhado, cunhada, sogra, tios e tias, primos, etc... A festa foi uma delícia. Preparamos aquela comilança que tem em todo Natal e nem por isso eu tive compulsão. Aproveitei a festa. J

Bom, no dia 26 eu recebo um telefone, era meu irmão. Minha mãe, pai, irmão mais velho e cunhada, não participaram do evento conosco, pois haviam viajado.
 Meu irmão estava apreensivo e me disse que minha mãe não estava bem, que ela tinha tido uma “crise”, estava achando que iria morrer, e estava querendo se despedir de todo mundo. Então eu, supostamente deveria falar com ela para que ela se “despedisse” de mim.  

Eu respirei fundo e fui conversar com ela... Minha ligação com minha mãe sempre foi algo forte, algo, até, doentio. Hoje consigo perceber que durante anos a gente cultivou um círculo doentio de sofrimento. Há algum tempo venho trabalhado para sair deste círculo e me separar de minha mãe. Estou me libertando emocionalmente dela para que eu possa me transformar em mim. Acredito que o meu distanciamento emocional pode estar gerando um desconforto na minha mãe. Mas sei que o luto que as duas estão vivendo é fundamental para o meu renascimento e será para o dela também.

Bom... eu respirei fundo e fui conversar com ela. É claro que não aceitei “despedida” nenhuma. Não joguei o jogo de vítima dela. Conheço o jogo. Eu mesma já fui estrategista, já armei as peças, já montei cenários, já ganhei e perdi muitas vezes. Mas a verdade, é que nesse “xadrez” ninguém ganha. Só há perdedores. O jogo é um jogo triste, as consequências são reais e perigosas. Eu sei disso. Eu mesma vivi isso, eu mesma fui “alimentada” por pessoas queridas com “lenha para minha fogueira”. Eu mesma “queimei e fui queimada”.  

No dia 26, eu disse “não” para minha mãe. Não dei a ela conforto e nem passei a mão na cabeça dela. Não aceitei “despedida”. Me segurei e fiquei firme no meu propósito de não cair no jogo do “vou embora”, “a vida é uma merda”. Sei que o que ela quer, não é ir embora, não é acabar com a vida dela. Sei que ela quer é acabar com o sofrimento.  Mas para isso ela precisa viver!!! Ela precisa querer. Ela precisa buscar. Não sou eu, que posso fazer isso por ela. Posso apenas dizer, estou vivendo, venha para vida, estou aqui te esperando. Não posso me afundar com ela. Já estive com ela nessa “merdalância” por tantas e tantas vezes. Agora não dá mais. Escolho viver e me respeitar. 

Sofro por ver minha mãe nesse estado. Chorei algumas vezes. Tive insônia.  No entanto, não permiti que isso afetasse meu propósito de não me afundar na depressão ou de não vomitar.  Claro que estou preocupada com ela. Claro que me preocupo com meus irmãos e meu pai. Mas agora me preocupo antes comigo, meus filhos e marido. Amo minha mãe e amo minha família. Estamos nos revezando para cuidar dela. Mas não tenho me esquecido de mim. Não permito me influenciar pelas queixas ou frases que ela faz para me atingir. Hoje sei que não é pessoal. Hoje entendo que as acusações da minha mãe tem haver com ela, e muito pouco comigo.

Hoje entendo que cada pessoa tem um ritmo, um processo, uma vida. Minha vida, meu processo é distinto do da minha mãe. Durante um grande tempo, eu achei que minha melhora dependia da melhora da minha mãe. Achei que só iríamos sair da “merdalância” juntas. Que para eu melhorar, ela precisaria enxergar esse processo também, para juntas, felizes, saíssemos disso.


Mas, hoje entendo que não. Sou outra pessoa. Não estou deixando ela para trás. Estou apenas indo. Tenho responsabilidade diante da minha vida. Só posso assumir as responsabilidades diante da minha vida. E hoje decido ficar melhor. Decido quebrar um círculo que provavelmente foi transmitido de geração em geração. Respeito o tempo dela, a limitação dela. Aceito minhas próprias limitações, aceito o meu tempo, e com coragem sigo meu caminho. 

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Trilhando o meu caminho

Durante minha jornada pelo caminho da recuperação, aprendi muito. Com certeza amadureci bastante, e sei que ainda tenho um longo caminho a percorrer. Aprendi que cada pessoa tem um tempo e cada estrada é diferente. Aprendi a respeitar meus limites e a conhecer a minha própria estrada. No momento que parei de olhar para estrada dos outros e me foquei em mim, nas minhas questões, foi quando eu avancei. Não se trata de ser egoísta, mas de respeitar a vontade e o movimento de cada pessoa e principalmente de respeitar as minhas próprias vontades, os meus próprios desejos.

Para isso tive que me perceber diferente, tive que aceitar as minhas diferenças. Tive que deixar de lado a tentativa (sempre em vão) de me enquadrar em algo que eu nem mesmo sabia nomear o que era. Quando compreendi isso, quando consegui me ver como uma pessoa, com vontades, desejos, eu comecei a me movimentar para me libertar, do que eu considerava uma prisão. A verdade é que isso não aconteceu de repente. Para ser bem sincera, ainda estou na busca da minha identidade, das minhas vontades, dos meus desejos. Isso está sendo gostoso! Delicioso! Uma descoberta de quem sou.

Hoje sei que estou em um momento diferente, em uma caminhada sem volta. Não me iludo mais na tentativa de querer ser o que achava que os outros desejavam de mim. Não temo mais dizer não. Tem ocasiões que ainda me dá um receio, um aperto no coração, quando vou dizer um não. Mas hoje compreendo o que está por traz das minhas atitudes quando eu me esforçava tanto para fazer algo que eu não queria para “agradar” o outro. E digo agradar o outro, pois durante muito tempo eu fiz o que pensei (imaginei) que o outro desejava. Me iludia que era capaz de ser o objeto do desejo do outro, porque eu queria que o outro me aceitasse, me afirmasse, me reconhecesse.

Ao tirar os comportamentos do transtorno alimentar no meu dia a dia, eu comecei a me conhecer melhor. Trabalhei de forma mais intensa as minhas questões na análise e aprendi a lidar com o meu lado bom e a reconhecer o meu lado ruim. Aceitei que tenho dentro de mim sombra e luz. Percebi que minha sombra, não apaga minha luz. Na verdade, comecei a deixar de lado muito dos meus julgamentos e aprendi verdadeiramente a trilhar o caminho da aceitação e respeito das limitações. Na verdade, ainda estou aprendendo.

Sem os comportamentos do TA, eu consigo perceber o que aflinge, o que me incomoda, o que me causa desconforto. Eu passo a analisar essas questões e entender porque certas questões me incomodam, me afligem, me angustiam. No momento que encaro tais questões, eu me conheço melhor, aprendo a lidar comigo.

Não vou dizer que encarar certos fatos foram fáceis, que aceitar algumas realidades aconteceu sem sofrimento, mas posso garantir que foi libertador. Continuo na luta, a cada dia buscando me conhecer, me entender melhor e reafirmando o compromisso de me respeitar.

Agora, estou vivendo esse momento de encantamento com livros e informações. Parece que o mundo está aberto de possibilidades e eu gosto disso. Gosto de poder ter escolhas. Gosto que eu esteja mudando. Sinto minha mudança no meu jeito de falar, vestir, comer, agir. Estou redescobrindo o prazer de brincar com meus filhos e estou descobrindo o quanto eles são encantadores. Confesso que vem uma dor no meu peito quando penso no quanto eu devo ter perdido. Seria ingenuidade achar que não. Mas estou abrindo mão da minha dor e perdoando a mim e aos que de alguma forma tiveram alguma responsabilidade por tudo que vivi e assim sigo.

Magicamente redescubro a beleza de ser mãe e percebo como é maravilhoso ser mulher!!! Termino essa frase e meu lado racional, acha ele piegas, mas e daí? Parte de mim é exatamente isso, puro sentimento, emoção e, nesse momento, encantamento. E assim vou me redescobrindo, me transformando, me apaixonando.


quinta-feira, 4 de abril de 2013

Buscando minha identidade

Fiquei muito tempo sem escrever. Eu estava precisando de um tempo. Um tempo para me conhecer. Os dias passados foram difíceis, no entanto bons, cheio de conquistas e descobertas.  Em termos de recuperação do TA, posso dizer que estou evoluindo. Não tenho crises há mais de um mês. 

Quem me acompanha sabe que venho de um processo de conquistas, lentas, mas conquistas. Eu tinha crises bulímicas diárias (entre 5 a 8) e a partir de maio do ano passado, quando iniciei o blog, comecei a luta pela recuperação. Inicialmente foi muito difícil diminuir a quantidade de crises, tive crises de abstinência, sofri muito (física e psicologicamente). Mas não havia mais como ficar onde eu estava. Minha vida estava insuportável. O sofrimento de conviver com aquilo diariamente estava insustentável. 

Naquele momento começava uma grande mudança. Mergulhei de cabeça na minha recuperação. Fui descobrindo as “mentiras” por trás do meu Transtorno Alimentar. Percebi quantas ilusões eu havia vivido. Percebi que eu passei muito tempo me fazendo objeto do desejo dos outros. Por isso não fui atrás dos meus sonhos, na verdade, eu fugia do que eu julgava ser um pesadelo (não ser amada ou não ser aceita). Eu acabei vivendo uma vida que julguei ser fruto desse desejo dos outros. No momento que essa ficha caiu, sofri muito. Senti-me como um personagem, em um palco, sempre representando para uma plateia. Claro que a metáfora aqui está exagerada. Mas foi assim que me senti. Senti-me mal. 

Senti-me como se eu não soubesse de fato quem eu era, sem o transtorno, sem o papel ora de “coitadinha”, ora de “fortona” (pois muitas vezes para mim o TA teve a função, no meu caso, de trazer a falsa sensação de poder, de equilíbrio, de controle, de fortaleza, de “dou conta de tudo”). Percebi que eu não sabia ao certo o que eu gostava, pois isso nunca foi baseado de fato em mim, mas sim em minhas escolhas sobre o que eu achava que os outros poderiam esperar de mim. E assim eu fui vivendo... Escolhendo, sem escolher... Me moldando de forma completamente distorcida. Claro que qualquer visão minha no espelho seria distorcida. 

Nesse momento, não sobra mais espaço para vitimização. Não quero dizer que tudo que fiz ou escolhi não foram escolhas minhas. Pelo contrário. Tudo, absolutamente tudo foi escolha minha. Tudo que fiz e escolhi, eu me responsabilizo. Eu decidi me fazer esse objeto dos desejos dos outros. Lembro-me das vezes, de tantas vezes, que eu fui eu mesma, mas me lembro também de tantas vezes que eu me escondi por trás do TA para “agradar” ou “não desagradar” os “outros”. E, é claro, isso também era eu, também é parte do que eu fui.
Para mim, me recuperar do TA, significa passar por uma reforma íntima. Passar por uma transformação. Não se trata de mudar apenas a forma de me alimentar. Significa vivenciar uma metamorfose na forma de agir, pensar e viver. Bom, pelo menos é como está sendo para mim. 

O tempo que fiquei ausente do blog foi uma época de muita reflexão. Várias características minhas negativas foram assimiladas e reconhecidas. Minhas fragilidades e limitações ficaram evidentes e eu comecei a aprender a aceitar e respeitar a mim mesma. Percebi uma ausência de identidade, uma ausência de saber meus gostos, minhas vontades. Tive necessidade de me afastar de pessoas que eu amo para conseguir me escutar. Ainda estou aprendendo muito sobre mim mesma. Aprendendo coisas simples, desde coisas como qual roupa eu gosto mais de usar (sem pensar nos outros), até o que eu gosto de fazer. Estou aprendendo a sentir, a ouvir, a acolher e a lidar com os meus sentimentos (antes tudo isso era anestesiado e ignorado pelo TA). Agora eu sinto cada, medo, raiva, angústia, alegria, satisfação, ansiedade. Estou aprendendo o que fazer e como fazer para lidar com cada sentimento que chega. Estou aprendendo mais sobre mim, sobre o que gosto, o que não gosto, sobre minhas limitações. Estou aprendendo de fato a me respeitar e me aceitar por inteira.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

“Ser verdadeira exige coragem e simplicidade”


Estou angustiada. Muitas vezes, ou normalmente, eu não consigo perceber o motivo da minha angústia, mas hoje de alguma forma sei que estou angustiada por que ontem demonstrei minha fragilidade para uma pessoa que eu havia acabado de conhecer. Tenho dificuldade em mostrar minhas fragilidades.  Sempre me esforcei demais para aparentar forte. Agora, estou passando por um momento em que decidi que quero ser mais honesta e verdadeira, pois uma das coisas que mais me incomodava (incomoda) com a bulimia é o fato de tudo ser velado, escondido, em segredo, como se tudo fosse uma grande mentira.  Ao falar disto na terapia, lembro-me do meu analista me alertando: “Ser verdadeira exige muita coragem e simplicidade”. Não tem um dia que não penso nessa frase e na complexidade que ela tem para mim.

Coragem... Simplicidade... 

Então... tentei ter coragem, mas não foi nada simples.  Para ser honesta e verdadeira, para falar o que estava se passando comigo, eu rebolei, enrolei e falei, mas acho que não fiz isso de forma simples, e certamente não fui corajosa. Mas pelo menos, e mesmo com medo, falei a verdade sobre meu trabalho e minha licença médica. Estou de licença médica há um ano, devido à depressão, ao transtorno alimentar e à ansiedade generalizada. Para mim, estar de licença (por esses motivos) é extremamente embaraçoso.  Sinto-me envergonhada, julgada, vulnerável, fracassada e sem chances de refazer uma nova imagem. Sei que não deveria me preocupar com a minha imagem, mas me preocupo.

Odeio essa minha preocupação excessiva, exagerada e desproporcional com essa  “imagem”. Imagem de que eu quero??? De perfeitinha???? Que pessoa é essa??? Definitivamente não sou eu!!! Quanto mais eu vou atrás de uma imagem (emocional  ou física), mais eu sofro. Não preciso de uma imagem, preciso de mim. Sem espelhos, sem buscar no outro esse espelho da aprovação, preciso da minha própria aprovação. Mas isso é outro post...

Voltando a minha angústia. Bom, avaliando o fato de forma real, eu falei a verdade, mas não falei tudo sobre minha licença. Não falei sobre a bulimia. Não tenho coragem de contar para ninguém isso. Para mim, ter bulimia é algo extremamente vergonhoso, sinto-me bizarra, confesso.  Tenho uma dificuldade enorme de lidar com isso. Na verdade, ainda tenho muita dificuldade de lidar com o fato de ter tido depressão e ter que me afastar do trabalho, de não ter dado conta. “Como assim não dar conta????”  Isso parece algo que deveria estar fora do meu dia a dia, sabe? Algo inadmissível. Preciso aprender a lidar com essas coisas e a aceitar minhas dificuldades. E isso dói.

Tremendo (mais internamente que externamente), respondi a ela, após ser questionada sobre o que eu fazia da vida, que eu trabalhava para o governo, mas que no momento estava afastada. A conversa foi fluindo e ela foi me perguntando mais coisas. Falei muitas coisas que eu costumo não dizer a ninguém... Falei como foi difícil admitir para mim e, consequentemente, para o mundo que eu estava mal e fragilizada. Contei que não estava dando conta das tarefas de casa, de mãe e do trabalho sem apoio diário do meu marido (pois “tudo” ruiu na época em que ele passou um ano fora da minha cidade). Contei de como eu comecei a me sentir incompetente no trabalho (cometia erros e demorava a realizar certas tarefas). Falei da minha incompetência em casa (esquecia compras, pagar contas, etc). Contei que tudo piorou quando percebi que estava falhando como mãe, pois não tinha a paciência de costume com meus filhos. Eu estava exausta e irritada. O pouco tempo que eu tinha eu queria comer compulsivamente e vomitar (essa parte eu não disse para ela). Também não disse a ela que, para suportar a distância do meu marido e fingir que estava tudo bem, para suportar os erros no trabalho, as falhas em casa e a falta da capacidade de ficar feliz e contente com meus filhos e preencher a falta que eles sentiam do pai, eu passei várias noites em claro, comento tudo que tinha na minha geladeira e vomitando, comendo novamente e vomitando novamente, me sentindo culpada, querendo me punir e tudo começava novamente, tinha diarreias terríveis, me sentia fraca, cansada, com a memória ruim e exausta física e mentalmente.

Ela me deu os parabéns por ter tomado a decisão de ter “escolhido largar” o trabalho e ficado com meus filhos. Mas eu confessei a ela que essa decisão não foi fácil e nem foi uma decisão. Que cheguei ao fundo do poço para perceber que não estava legal. E que mesmo assim, mesmo sabendo que precisei realmente parar e me afastar, a minha vaidade ainda me pertuba. De uma maneira besta, infantil e torta, eu (por orgulho/vaidade) ainda me importo com o que as pessoas do trabalho estão pensando e com o fato de que provavelmente eu nunca mais terei uma posição profissional boa, pois afinal de contas eu serei sempre tachada como “a louca” que precisou se afastar durante mais de um ano por causa da depressão e ansiedade (imaginem se soubessem da bulimia...). Enfim, contei para ela que foi um passo difícil, mas necessário, que eu estava feliz de ter tomado, mas que ainda precisarei superar meu ego, meu orgulho, minha preocupação com o olhar do outro.

Prova melhor de que eu ainda preciso superar isso é que eu fiquei angustiada com o que ela ficou pensando de mim. Fiquei preocupada com o julgamento e interpretações que ela pode dar a nossa conversa. Fiquei preocupada com a possibilidade de ela conversar sobre esse assunto com outras pessoas. Será que sou tão importante assim???? Claro que não , mas meu ego acha que sim. Ele tem essa imaginação tão fértil em relação ao que os outros podem achar ou falar de mim...

Coragem e simplicidade: duas palavras com um significado tão denso ou seria tão simples? 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Mendigando amor


Em algum momento lá na minha infância eu entendi que eu precisava ficar doente para receber amor, carinho e atenção. Eu chegava a desejar ficar doente.  Muitas vezes eu ficava com febre.  Acho que, de certa forma, meu corpo adoecia como um mecanismo de defesa quando minha mente já não aguentava mais o sofrimento interno. Eu desejava apenas uma coisa: o amor materno.

Confessar que eu precisava do amor materno foi aterrorizante para mim. Levei quatro anos de psicanálise e chorei várias sessões seguidas para enfim conseguir sair com a frase: “acho que não me sentia suficientemente amada pela minha mãe”. Parecia que eles (meus pais) estavam lá me ouvindo. Senti-me má, ingrata, injusta, mimada, envergonhada, mal agradecida. Será que eu estaria sendo injusta? Posso dizer que ainda é muito desconfortável para eu pensar nisso. Sinto-me culpada por não ter me sentido amada. Mas o fato é que quando me lembro da minha infância e vivencio os meus sentimentos daquela época, percebo que eu não me sentia, de fato, amada, principalmente, pela minha mãe. Eu sempre achei que precisava fazer algo por ela, para merecer o amor dela, para compensar o “trabalho” que estava dando (eu não era fácil), para compensar as perdas que ela teve quando me nasci. 

Para aceitar e trabalhar com esses aspectos,  estou  vivenciando vários sintomas de ansiedade. Tem dias que sinto como se meu peito não fosse acomodar o ar que o meu corpo precisa. Parece que vou morrer. Sinto falta de ar e tenho a sensação de que não consigo respirar direito. No meu caso, tenho consciência que o que sinto é exagerado e que vai passar, mas tem horas que parece interminável.  É angustiante. Sinto uma tensão enorme no pescoço. Meu coração acelera. Além disso, sinto como se meu corpo tivesse vibrando por dentro, soltando uma espécie de descarga elétrica, como se fosse explodir, e tem horas que eu gostaria que ele explodisse. E então eu sinto raiva de estar assim. Fico com medo de ficar louca de perder o controle.  Sinto um nó na garganta e de certa forma esse nó me lembra como eu gostaria de vomitar para “aliviar” tudo!!! Sempre aliviei meus sentimentos dessa forma. Sempre foi a forma que eu consegui ficar no controle. Meu sintoma (bulimia) foi um “remédio torto” para aliviar esses outros sintomas da ansiedade.  

A verdade é que tenho vivenciado esse sentimento físico de ansiedade, angústia (ou sei lá o que), várias vezes ao dia, e não só quando penso na minha relação com minha mãe. Percebo que esse sentimento se repete em situações relacionadas a aceitação, amor e expectativas que tenho em relação a outras pessoas e não gostaria de ter, pois sempre fico me julgando.  Com certeza estou no meio do furação de ideias e me sinto confusa para chegar a algumas conclusões. Então, por enquanto, estou apenas especulando várias possibilidades, tendo insights e tentando não julgar meus pensamentos.

De certa forma para mim, eu utilizava a bulimia para me “fortalecer”. Bom, pelo menos era o que eu achava que eu fazia. Eu tinha a falsa sensação de fortaleza. De que eu não dependia de ninguém. Eu me sentia forte. Não dependia de amor, de carinho, de aceitação. Se eu ficava brava, usava a bulimia e me acalmava.  Se estava sozinha, a comida era minha companhia. Se estava ansiosa (nó na garganta), o vômito anestesiava essa sensação.  Se sentia tristeza,  uma comida quentinha,  me abraçava por dentro. E esse comportamento irritante e destruidor, que iniciei na adolescência aos 15 anos, para me “confortar”, foi se tornando um hábito, uma forma operante de viver, de lidar com tudo.

É fato que mantenho a bulimia ainda porque acho que ainda ganho algo com esse comportamento. A questão é:  a mantenho porque não consigo lidar com tudo, ou não quero lidar com tudo para receber atenção e continuar doente? O amor que mendigo é o amor que desejo? Conseguirei eu mesma me amar e suprir esse amor que tanto busco? Um dia estarei pronta para receber apenas o que vier e pronto?  

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O voo do beija-flor


Acabei de passar por uma mudança.  Uma mudança física, mudei de endereço. Nem preciso dizer o quanto mudanças são difíceis para mim, né? Tenho um pavor doentio e quase infantil de coisas novas. Tenho uma grande dificuldade de lidar com qualquer tipo de mudança. Para mim, a expectativa da mudança sempre é bem pior do que a mudança de fato, mas parece que eu sempre me esqueço disso a cada vez que eu tenho que passar por algo que está prestes a acontecer.  A sensação agora que comecei a me mexer é 100 mil vezes melhor do que quando estava paralisada, imaginando tudo de ruim que poderia acontecer nesta nova etapa da minha vida.

A minha mudança física veio paralela a milhões de outras mudanças que vêm acontecendo na minha vida. Talvez por isso ela tenha um significado especial. Durante muito tempo da minha vida fiquei parada, por medo. Mas também já corri desesperadamente pensando em alcançar o inalcançável. Minha sensação é que fiquei muito tempo correndo desesperadamente sem ir para lugar algum, assim como faz um hamster em sua rodinha de exercício. Quanto mais rápido eu corria, mais presa eu ficava na roda viva... Roda vida...  Roda presa...  Roda morte... E assim fiquei... Vinte anos.

Agora: uma esperança. Esperança de sair da roda da morte. Para que eu exercite a VIDA, no seu tempo, na sua velocidade. Não está sendo fácil. Me irrita ver tudo fora do lugar, caixas espalhadas, coisas a fazer. Me irrita, eu não ter dinheiro para comprar todos os móveis que eu desejo, todas os utensílios que eu gostaria de ter. Mas chega de birra e de mimo!!! Sou adulta e consciente das minhas limitações. Vou respirar o ar puro e escolher me divertir entre os caixotes espalhados e a bagunça ainda não arrumada.

Minha falta de paciência, minha dificuldade para tolerar o tempo, minha falta de respeito com o processo, minha incapacidade de suportar minhas limitações ficaram ainda mais evidentes.  Não há nada de errado em querer melhorar a condição atual, mas não aceitar o que sou, como estou, faz com que eu viva em sofrimento. Ao aceitar quem sou, como estou agora, sou invadida por um sentimento de gratitude pelo presente, isso me traz plenitude.

Bom, me mudei. Foi difícil. Fiquei quase paralisada no princípio. Agora estou lentamente desencaixotando tudo. Não importa se vai demorar mais que eu esperava para que a casa fique como eu quero. Já marquei um jantarzinho, com as 4 tacinhas de vinho que tenho, o resto das pessoas terão que ser virar com copos de requeijão.  Quando estou cansada, eu paro um pouco, vou para o quintal e curto o passarinho voando lindamente, sem pressa. As caixas não irão a lugar nenhum. Mas não quero perder o beija-flor dar seus lindos vôos pelo jardim!!!

Espero que este exercício da mudança renda frutos.  Que eu aceite também meu corpo, com suas limitações e suas imperfeições. Que eu não afaste os outros de perto de mim, apenas por achar que estou inadequada. Que eu curta o meu processo de mudança, que eu respeite meu tempo, meu limite, minha maturação, que eu consiga parar no meio do caminho, não para ficar paralisada, mas para viver, para sentir o ar fresco e curtir o vôo do beija-flor... 

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Eu e a síndrome de Peter Pan?


Uso minha bulimia para não crescer. Será que é isso? Então, estes últimos dias eu estava me sentindo péssima, estava me julgando. Pensando sobre a minha recuperação, sobre o fato de estar estagnada no meu processo de recuperação. Estou passando por uma fase em que, aparentemente, eu não estou subindo os degraus da minha escadinha. O pior de tudo é que tenho pura consciência de estar parada. Isso me traz ansiedade e até raiva. Poderia arrumar mil desculpas para não dar os próximos passos, mas eu estaria em negação.  A verdade é que ainda estou presa em muitas “coisinhas” que sei que não quero mais ficar presa. Tenho certeza que não quero, mas ainda não consigo me libertar completamente. Estou vivendo uma luta interna.

Entre os aspectos que estão me mantendo presa ao transtorno alimentar está o fato de não assumir de fato, na sua totalidade, minha posição de mulher – MULHER com todas letras maiúsculas, mulher com curvas, desejada, mãe, responsável, mulher ADULTA, mulher feminina, mulher de verdade.  Quais são os “ganhos secundários” que tenho com minha bulimia? Quanto tempo eu gasto com meus rituais e fujo da vida, das minhas responsabilidades, da maternidade, das amizades, do companheirismo, para me entregar ao meu vício? Claro, posso até dizer que hoje fujo muito menos. Sim, é verdade. Estou de parabéns e sei disso. Sei que chegar até aqui não foi nenhum caminho fácil. Mas agora quero me concentrar em continuar, avançar. Já estou preparada para dar os próximos passos, mas continuo parada. Então vamos trabalhar com isso.  

Tenho percebido que, ao me envolver com meu TA, vou me escondendo do mundo. Fico mergulhada noutro mundinho, minha “Terra do Nunca”. Vamos ser realista: sim, eu me casei, tive meus filhos, tenho um bom emprego. Adoro ver minha casa arrumada, mas detesto arrumá-la, sempre que posso jogo esta responsabilidade para outra pessoa (no meu caso, para meu marido). Faço parte do trabalho, é verdade, mas se der eu deixo grande parte do trabalho para ele. E já utilizei muito, muito mesmo o meu problema para dizer que eu não dava conta, que eu não fazia mais por não conseguir. Sempre que algo novo aparecia, sempre que eu precisava assumir alguma responsabilidade eu fugia para a “Terra do Nunca”.

A parte difícil de admitir é que Peter Pan jamais existiria se não existisse uma Wendy. Eu abusei da minha bulimia para me vitimizar e buscar pessoas que fossem minhas “Wendys”. Foram pessoas que se encarregaram de fazer tudo aquilo que eu não fazia. E assumir isso é difícil demais. Precisei que meu marido estivesse um ano fora da minha cidade para perceber que meu mundo não estava funcionando.

Eu “abusava” dele sem nem mesmo ter consciência disto. Claro que eu faço várias coisas também no nosso relacionamento, não seria justo comigo dizer que sou uma completa desnaturada com a casa e com os meus filhos. Mas é verdade que me escondi diversas vezes atrás da minha bulimia. Por inúmeras vezes eu abandonei o barco da realidade e deixei que ele tomasse conta de tudo. Em alguns momentos quando eu achava que tudo estava difícil demais, complicado demais, chato demais, eu me afogava na minha compulsão, me perdia em meu transtorno e ficava tranquila, pois sabia que ele estaria lá.  Suportando tudo enquanto eu alimentava meu monstro, meu vício.

Nunca tinha me visto desta forma. Nunca mesmo. Nunca tinha me percebido como uma pessoa que não queria crescer. Sempre me achei madura. Apesar da bulimia consegui superar alguns obstáculos, me formei, passei em um concurso concorrido, me casei, tive dois filhos lindos, etc... Enfim, me sentia realizada e responsável pelo meu “sucesso”. Mas na verdade...

Conversar com meu marido sobre isto, pedir para que ele não fosse minha “Wendy”, foi uma das coisas mais difíceis que fiz na minha vida. Tive medo de perder minha ajuda, tive medo de perder meu apoio, meus ganho secundários, tive medo de perdê-lo. Mas isso foi algo que precisei fazer. A verdade é que de nada adianta eu conversar com ele e pedir que ele mude de atitude se EU não mudar a minha atitude. Primeiro porque ele afirma que nunca se viu nessa posição, que não se sente como “Wendy”, a responsabilidade de assumir a responsabilidade precisa ser minha. 

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Rumo à recuperação: segundo mês


Dois mês se passaram. Como vocês sabem, tenho bulimia há 20 anos. Antes de começar o blog e iniciar essa jornada rumo a cura do transtorno alimentar, eu comia compulsivamente de 5 a 8 vezes diárias e vomitava todas elas (veja gráfico - linha azul). Hoje, essa média diminui e minhas crises diárias estão cada dia menores (ver gráfico – linha verde).

Para meu controle pessoal, deixo registrado tabela resumo da minha jornada no mês de julho. Uso ela para que eu não perca a “grande figura”. Quando acho que estou fracassando volto e olho aqui. Vejo o que quanto já superei, então percebo que posso seguir. 



Processo de Recuperaçao
Dia
 Crises bulímicas
Exercícios
Observações gerais
01/07/2012
1
Descanso
Ansiedade, angústia, pensamento obsessivo.
02/07/2012
1
Natação - 30 min
Ansiedade, angústia, insônia. 
03/07/2012
1
Corrida - 1h
Ansiedade, angústia, insônia. 
04/07/2012
0
Descanso 
Ansiedade, angústia, insônia, raiva, alívio.
05/07/2012
1
Corrida - 1h
Ansiedade, angústia, insônia, raiva.
06/07/2012
0
Descanso 
Ansiedade, angústia, raiva.
07/07/2012
0
Descanso
Ansiedade, insônia, agitação.
08/07/2012
1
Descanso
Ansiedade, insônia.
09/07/2012
0
Natação - 1h
Ansiedade, melancolia.
10/07/2012
0
Corrida - 1h
Ansiedade.
11/07/2012
1
Corrida - 1h
Ansiedade, angústia, insônia, medo, tristeza.
12/07/2012
0
Descanso
Ansiedade, insônia.
13/07/2012
1
Natação - 1h
Ansiedade, angústia, insônia, raiva.
14/07/2012
1
Descanso
Ansiedade, angústia, insônia.
15/07/2012
1
Descanso
Ansiedade, angústia, insônia, raiva.
16/07/2012
1
Natação - 1h
Ansiedade forte, angústia, insônia.
17/07/2012
1
Corrida - 1h
Ansiedade forte, angústia, insônia.
18/07/2012
1
Natação - 1h
Ansiedade forte, angústia, insônia, tristeza.
19/07/2012
1
Corrida - 40 min
 Ansiedade forte, angústia, insônia, tristeza.
 20/07/2012
1
Descanso
Ansiedade forte, angústia, insônia forte, nervosismo.
 21/07/2012
0
Descanso
Ansiedade. 
 22/07/2012
0
Corrida - 1h
Ansiedade, insônia.
 23/07/2012
0
Corrida - 1h
Ansiedade, insônia.
 24/07/2012
1
Corrida - 1h
Ansiedade, insônia.
 25/07/2012
1
Descanso
Ansiedade, insônia.
 26/07/2012
1
Corrida - 1h
Ansiedade, insônia, nervosismo.
 27/07/2012
1
Caminhada - 1h
Ansiedade. (FID= 25)
 28/07/2012
1
Descanso
Ansiedade. (FID = 25) 
 29/07/2012
1
Natação - 1h 
Ansiedade. (FID = 30) 
 30/07/2012
1
Descanso 
Ansiedade. (FID = 30)