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quinta-feira, 9 de outubro de 2014

As eleições um processo ainda em desenvolvimento

Interessante perceber como ainda somos imaturos. Não sei se essa é uma realidade do mundo, da humanidade, mas certamente é a do nosso país. Ainda estamos engatinhando no processo democrático. Estamos vivenciando um momento de ódio, rancor e intolerância aos pensamentos divergentes.

Uma das coisas que mais tenho aprendido nos últimos anos é a importância da diferença. A riqueza da divergência de ideias e conceitos, e a necessidade do respeito à alteridade. Tenho amigos de todo tipo: esquerda, direita, ricos, pobres, homosexuais, heterosexuais, cientistas, religiosos, escritores, boêmios, CDFs... Para mim, o que é mais importante nessas amizades é o respeito pelo outro, pelas opiniões diferentes e pela liberdade de escolha.

Com as eleições, fica evidente o quanto ainda precisamos amadurecer. Acho fundamental estarmos vivenciando essa experiência. A política deve ser sentida e vivenciada. Mas precisamos ter o coração tranquilo e o estômago forte. Precisamos lembrar que não se trata de certo ou errado, se trata de visões de mundo diferentes para a escolha de como achamos que o país deve ser conduzido. Em tese, temos o mesmo objetivo: uma vida melhor. Achar que só você tem razão e os outros são idiotas e precisam de “guias” para conduzi-los "pelo bom caminho" é típico de quem não sabe conviver com quem pensa diferente.

E por que estou trazendo esse assunto para cá? Porque a eleição mexeu comigo e fez com que eu repensasse a diferença. Fiz uma avaliação de mim mesma, de como penso e ajo, e de como já pensei e já agi. A conclusão que cheguei é que eu já tive dificuldade de lidar com a diferença. Mesmo quando meu discurso era de aceitação pelos que são diferentes, eu tinha dificuldade de me aceitar quando eu me via diferente.

Por isso, eu passei muito tempo me esforçando para ser o que achava que os outros queriam. Agradar terceiros... eu não sabia dizer não. Eu queria que o olhar do outro me dissesse quem eu era. Eu queria que o olhar do outro confirmasse que eu era boa o suficiente, inteligente o bastante, agradável satisfatoriamente, disponível regularmente. Hoje, com muita análise, eu não tenho mais a pretensão e nem a ilusão de agradar terceiros para ser amada. Hoje entendo que a coisa mais importante que posso fazer por mim é ser eu mesma, me amar da forma como sou.


Aparentemente, uma temática pode parecer não ter nada a ver com a outra. No entanto, acredito que no momento em que eu não me aceito e tento me moldar aos olhos dos outros, é porque eu não aceito as diferenças que eu possa ter diante desses olhos. Eu estou sendo intolerante comigo mesma. Hoje isso mudou. Hoje cada dia mais sei quem eu sou. Vivencio quem eu sou e por isso tenho tranquilidade para aceitar a diferença. Não apenas a minha, mas a de todos. Não apenas no discurso, mas no coração.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Boa notícia

Dia dois de outubro completarei 1 ano que estou recuperada da bulimia. Bom, conforme é de conhecimento de alguns, eu tive bulimia por 20 anos. Os últimos três anos da doença eu procurei ajuda e comecei um processo de recuperação intenso. As crises de bulimia passaram a diminuir, eu passei a me alimentar melhor e seguir as recomendações da nutricionista. Há um ano as crises cessaram por completo. 

Hoje, recebi o resultado do meu exame de densitometria óssea. Há um ano atrás, eu fui diagnosticada com osteopenia (início de osteoporose) e conforme o resultado do exame que peguei hoje, estou conseguindo reverter a osteopenia. Sei que esse resultado é consequência da boa alimentação, além da reposição do Cálcio e Vitamina D. Por isso me sinto especialmente feliz hoje.


Receber essa notícia me deixou feliz. Não apenas pela notícia simples e pura, mas porque sei que não são apenas meus ossos que estão mudando. Eu mudei muito e venho mudando um pouco a cada dia.  Lembro que eu fiquei triste quando recebi o resultado que estava com osteopenia, porque é triste. Mas eu decidi encarar os fatos e não me fazer de vítima. Decidi que aquilo era um retrato tardio do meu passado e que eu faria apenas o que estava no meu alcance a partir de então.  E foi o que fiz... eu já estava mudando. 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Buscando minha identidade

Fiquei muito tempo sem escrever. Eu estava precisando de um tempo. Um tempo para me conhecer. Os dias passados foram difíceis, no entanto bons, cheio de conquistas e descobertas.  Em termos de recuperação do TA, posso dizer que estou evoluindo. Não tenho crises há mais de um mês. 

Quem me acompanha sabe que venho de um processo de conquistas, lentas, mas conquistas. Eu tinha crises bulímicas diárias (entre 5 a 8) e a partir de maio do ano passado, quando iniciei o blog, comecei a luta pela recuperação. Inicialmente foi muito difícil diminuir a quantidade de crises, tive crises de abstinência, sofri muito (física e psicologicamente). Mas não havia mais como ficar onde eu estava. Minha vida estava insuportável. O sofrimento de conviver com aquilo diariamente estava insustentável. 

Naquele momento começava uma grande mudança. Mergulhei de cabeça na minha recuperação. Fui descobrindo as “mentiras” por trás do meu Transtorno Alimentar. Percebi quantas ilusões eu havia vivido. Percebi que eu passei muito tempo me fazendo objeto do desejo dos outros. Por isso não fui atrás dos meus sonhos, na verdade, eu fugia do que eu julgava ser um pesadelo (não ser amada ou não ser aceita). Eu acabei vivendo uma vida que julguei ser fruto desse desejo dos outros. No momento que essa ficha caiu, sofri muito. Senti-me como um personagem, em um palco, sempre representando para uma plateia. Claro que a metáfora aqui está exagerada. Mas foi assim que me senti. Senti-me mal. 

Senti-me como se eu não soubesse de fato quem eu era, sem o transtorno, sem o papel ora de “coitadinha”, ora de “fortona” (pois muitas vezes para mim o TA teve a função, no meu caso, de trazer a falsa sensação de poder, de equilíbrio, de controle, de fortaleza, de “dou conta de tudo”). Percebi que eu não sabia ao certo o que eu gostava, pois isso nunca foi baseado de fato em mim, mas sim em minhas escolhas sobre o que eu achava que os outros poderiam esperar de mim. E assim eu fui vivendo... Escolhendo, sem escolher... Me moldando de forma completamente distorcida. Claro que qualquer visão minha no espelho seria distorcida. 

Nesse momento, não sobra mais espaço para vitimização. Não quero dizer que tudo que fiz ou escolhi não foram escolhas minhas. Pelo contrário. Tudo, absolutamente tudo foi escolha minha. Tudo que fiz e escolhi, eu me responsabilizo. Eu decidi me fazer esse objeto dos desejos dos outros. Lembro-me das vezes, de tantas vezes, que eu fui eu mesma, mas me lembro também de tantas vezes que eu me escondi por trás do TA para “agradar” ou “não desagradar” os “outros”. E, é claro, isso também era eu, também é parte do que eu fui.
Para mim, me recuperar do TA, significa passar por uma reforma íntima. Passar por uma transformação. Não se trata de mudar apenas a forma de me alimentar. Significa vivenciar uma metamorfose na forma de agir, pensar e viver. Bom, pelo menos é como está sendo para mim. 

O tempo que fiquei ausente do blog foi uma época de muita reflexão. Várias características minhas negativas foram assimiladas e reconhecidas. Minhas fragilidades e limitações ficaram evidentes e eu comecei a aprender a aceitar e respeitar a mim mesma. Percebi uma ausência de identidade, uma ausência de saber meus gostos, minhas vontades. Tive necessidade de me afastar de pessoas que eu amo para conseguir me escutar. Ainda estou aprendendo muito sobre mim mesma. Aprendendo coisas simples, desde coisas como qual roupa eu gosto mais de usar (sem pensar nos outros), até o que eu gosto de fazer. Estou aprendendo a sentir, a ouvir, a acolher e a lidar com os meus sentimentos (antes tudo isso era anestesiado e ignorado pelo TA). Agora eu sinto cada, medo, raiva, angústia, alegria, satisfação, ansiedade. Estou aprendendo o que fazer e como fazer para lidar com cada sentimento que chega. Estou aprendendo mais sobre mim, sobre o que gosto, o que não gosto, sobre minhas limitações. Estou aprendendo de fato a me respeitar e me aceitar por inteira.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O voo do beija-flor


Acabei de passar por uma mudança.  Uma mudança física, mudei de endereço. Nem preciso dizer o quanto mudanças são difíceis para mim, né? Tenho um pavor doentio e quase infantil de coisas novas. Tenho uma grande dificuldade de lidar com qualquer tipo de mudança. Para mim, a expectativa da mudança sempre é bem pior do que a mudança de fato, mas parece que eu sempre me esqueço disso a cada vez que eu tenho que passar por algo que está prestes a acontecer.  A sensação agora que comecei a me mexer é 100 mil vezes melhor do que quando estava paralisada, imaginando tudo de ruim que poderia acontecer nesta nova etapa da minha vida.

A minha mudança física veio paralela a milhões de outras mudanças que vêm acontecendo na minha vida. Talvez por isso ela tenha um significado especial. Durante muito tempo da minha vida fiquei parada, por medo. Mas também já corri desesperadamente pensando em alcançar o inalcançável. Minha sensação é que fiquei muito tempo correndo desesperadamente sem ir para lugar algum, assim como faz um hamster em sua rodinha de exercício. Quanto mais rápido eu corria, mais presa eu ficava na roda viva... Roda vida...  Roda presa...  Roda morte... E assim fiquei... Vinte anos.

Agora: uma esperança. Esperança de sair da roda da morte. Para que eu exercite a VIDA, no seu tempo, na sua velocidade. Não está sendo fácil. Me irrita ver tudo fora do lugar, caixas espalhadas, coisas a fazer. Me irrita, eu não ter dinheiro para comprar todos os móveis que eu desejo, todas os utensílios que eu gostaria de ter. Mas chega de birra e de mimo!!! Sou adulta e consciente das minhas limitações. Vou respirar o ar puro e escolher me divertir entre os caixotes espalhados e a bagunça ainda não arrumada.

Minha falta de paciência, minha dificuldade para tolerar o tempo, minha falta de respeito com o processo, minha incapacidade de suportar minhas limitações ficaram ainda mais evidentes.  Não há nada de errado em querer melhorar a condição atual, mas não aceitar o que sou, como estou, faz com que eu viva em sofrimento. Ao aceitar quem sou, como estou agora, sou invadida por um sentimento de gratitude pelo presente, isso me traz plenitude.

Bom, me mudei. Foi difícil. Fiquei quase paralisada no princípio. Agora estou lentamente desencaixotando tudo. Não importa se vai demorar mais que eu esperava para que a casa fique como eu quero. Já marquei um jantarzinho, com as 4 tacinhas de vinho que tenho, o resto das pessoas terão que ser virar com copos de requeijão.  Quando estou cansada, eu paro um pouco, vou para o quintal e curto o passarinho voando lindamente, sem pressa. As caixas não irão a lugar nenhum. Mas não quero perder o beija-flor dar seus lindos vôos pelo jardim!!!

Espero que este exercício da mudança renda frutos.  Que eu aceite também meu corpo, com suas limitações e suas imperfeições. Que eu não afaste os outros de perto de mim, apenas por achar que estou inadequada. Que eu curta o meu processo de mudança, que eu respeite meu tempo, meu limite, minha maturação, que eu consiga parar no meio do caminho, não para ficar paralisada, mas para viver, para sentir o ar fresco e curtir o vôo do beija-flor... 

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Eu e a síndrome de Peter Pan?


Uso minha bulimia para não crescer. Será que é isso? Então, estes últimos dias eu estava me sentindo péssima, estava me julgando. Pensando sobre a minha recuperação, sobre o fato de estar estagnada no meu processo de recuperação. Estou passando por uma fase em que, aparentemente, eu não estou subindo os degraus da minha escadinha. O pior de tudo é que tenho pura consciência de estar parada. Isso me traz ansiedade e até raiva. Poderia arrumar mil desculpas para não dar os próximos passos, mas eu estaria em negação.  A verdade é que ainda estou presa em muitas “coisinhas” que sei que não quero mais ficar presa. Tenho certeza que não quero, mas ainda não consigo me libertar completamente. Estou vivendo uma luta interna.

Entre os aspectos que estão me mantendo presa ao transtorno alimentar está o fato de não assumir de fato, na sua totalidade, minha posição de mulher – MULHER com todas letras maiúsculas, mulher com curvas, desejada, mãe, responsável, mulher ADULTA, mulher feminina, mulher de verdade.  Quais são os “ganhos secundários” que tenho com minha bulimia? Quanto tempo eu gasto com meus rituais e fujo da vida, das minhas responsabilidades, da maternidade, das amizades, do companheirismo, para me entregar ao meu vício? Claro, posso até dizer que hoje fujo muito menos. Sim, é verdade. Estou de parabéns e sei disso. Sei que chegar até aqui não foi nenhum caminho fácil. Mas agora quero me concentrar em continuar, avançar. Já estou preparada para dar os próximos passos, mas continuo parada. Então vamos trabalhar com isso.  

Tenho percebido que, ao me envolver com meu TA, vou me escondendo do mundo. Fico mergulhada noutro mundinho, minha “Terra do Nunca”. Vamos ser realista: sim, eu me casei, tive meus filhos, tenho um bom emprego. Adoro ver minha casa arrumada, mas detesto arrumá-la, sempre que posso jogo esta responsabilidade para outra pessoa (no meu caso, para meu marido). Faço parte do trabalho, é verdade, mas se der eu deixo grande parte do trabalho para ele. E já utilizei muito, muito mesmo o meu problema para dizer que eu não dava conta, que eu não fazia mais por não conseguir. Sempre que algo novo aparecia, sempre que eu precisava assumir alguma responsabilidade eu fugia para a “Terra do Nunca”.

A parte difícil de admitir é que Peter Pan jamais existiria se não existisse uma Wendy. Eu abusei da minha bulimia para me vitimizar e buscar pessoas que fossem minhas “Wendys”. Foram pessoas que se encarregaram de fazer tudo aquilo que eu não fazia. E assumir isso é difícil demais. Precisei que meu marido estivesse um ano fora da minha cidade para perceber que meu mundo não estava funcionando.

Eu “abusava” dele sem nem mesmo ter consciência disto. Claro que eu faço várias coisas também no nosso relacionamento, não seria justo comigo dizer que sou uma completa desnaturada com a casa e com os meus filhos. Mas é verdade que me escondi diversas vezes atrás da minha bulimia. Por inúmeras vezes eu abandonei o barco da realidade e deixei que ele tomasse conta de tudo. Em alguns momentos quando eu achava que tudo estava difícil demais, complicado demais, chato demais, eu me afogava na minha compulsão, me perdia em meu transtorno e ficava tranquila, pois sabia que ele estaria lá.  Suportando tudo enquanto eu alimentava meu monstro, meu vício.

Nunca tinha me visto desta forma. Nunca mesmo. Nunca tinha me percebido como uma pessoa que não queria crescer. Sempre me achei madura. Apesar da bulimia consegui superar alguns obstáculos, me formei, passei em um concurso concorrido, me casei, tive dois filhos lindos, etc... Enfim, me sentia realizada e responsável pelo meu “sucesso”. Mas na verdade...

Conversar com meu marido sobre isto, pedir para que ele não fosse minha “Wendy”, foi uma das coisas mais difíceis que fiz na minha vida. Tive medo de perder minha ajuda, tive medo de perder meu apoio, meus ganho secundários, tive medo de perdê-lo. Mas isso foi algo que precisei fazer. A verdade é que de nada adianta eu conversar com ele e pedir que ele mude de atitude se EU não mudar a minha atitude. Primeiro porque ele afirma que nunca se viu nessa posição, que não se sente como “Wendy”, a responsabilidade de assumir a responsabilidade precisa ser minha. 

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Relacionamentos amorosos e a bulimia


O meu comportamento com a comida é similar a meu comportamento em outras áreas da vida? Fazendo uma avaliação  (dos últimos 20 anos) de como foram os meus relacionamentos amorosos, posso concluir que há muita similaridade entre meu comportamento com a comida e minha forma de agir na minha vida afetiva.

Durante anos, meus relacionamentos amorosos foram intensos e muitas vezes não saudáveis. Era o ciclo da bulimia se repetindo: compulsão e purgação. Eu queria tudo ou nada. Envolvia-me de forma intensa com meus parceiros, me apaixonava, eles se apaixonavam, tudo era muito forte. Mas ao sinal do primeiro problema, eu simplesmente os abandonava, eu desistia do relacionamento por achar que este já não fazia sentido, dizia que não mais os amava. Fiz isso repetidamente.

Estas relações foram fruto do que acreditava ser uma forma de “proteção”. Hoje vejo que eu estava me boicotando, pois eu tinha uma visão completamente distorcida do que seria esta proteção. Do que eu fugia de fato? De amor? De ser amada? De ser abandonada? De ser compreendida? De revelar meus segredos? De ser aceita? De não ser aceita? Por que eu não me envolvia, de fato, com as pessoas com que eu me relacionava?  

Meus namoros (exceto com meu marido) sempre duraram apenas até a fase da paixão, sempre foram baseados na carne.  Tenho a sensação de que não conheci intimamente nenhum dos meus parceiros e tenho certeza que nenhum deles me conheceu. Meus relacionamentos eram similares com a forma que lido com a comida, me alimento compulsivamente sem perceber de fato o gosto de cada mordida, mas sentindo um prazer, um estase pela intensidade. Depois, quando vem o incomodo, simplesmente me dou o luxo de jogar tudo fora, purgo tudo. A diferença é que nos relacionamentos, eu fazia isso com pessoas.  Egoísta!!! Sim, fui egoísta milhões de vezes, lembro-me de repetir diante da primeira reclamação a frase “Se você não estiver satisfeito, pode ir embora!!!”.

Acho que no fundo eu tinha medo de ser abandonada, então eu preferia abandoná-los antes que eles me abandonassem. Eu não queria me expor e por isso não me envolvia com a intimidade espiritual e psicológica dos meus parceiros (os antigos), pois tinha medo que eles fizessem o mesmo comigo. Então eu mantinha os meus relacionamentos só baseado no carnal, não digeria nada. Assim como faço com a comida: como, engulo, mas vomito, não digiro. Bom, na verdade, isso era como eu fazia. Hoje, após iniciar minha trajetória rumo à recuperação, já consigo me alimentar, não vomito todas as vezes que como, digiro os alimentos e evacuo normalmente.


Bom, essa forma de agir com os meus parceiros mudou ao conhecer meu marido. Ele foi meu mentor para que eu mudasse. Lembro-me do momento em que eu disse para ele minha frase preferida “se você não estiver satisfeito, pode ir embora!!!”, ele me respondeu “isso você fez com todos os outros, eu não vou a lugar nenhum. Ficarei e vamos resolver tudo.” Todas as vezes que mandei ele embora, ele ficou, ele acreditou em mim, ele me aceitou, antes mesmo que eu me aceitasse. Quando contei para ele sobre o TA, ele disse que já desconfiava e que isso não mudava em nada o que ele sentia por mim.

Aprendi muita coisa com ele, muito sobre amor, aceitação, respeito, limites. Aprendi que o amor é possível. Compreendi que posso ter alguém do meu lado que sabe quem eu sou e me ama, apesar dos meus defeitos. Isto não significa que a pessoa precise gostar e aprovar todas as coisas que eu faço, mas ela pode me amar e me respeitar independente das minhas escolhas. Aprendi que o amor não precisa ser uma montanha russa de sentimentos, e isto não significa que ele não é profundo e intenso.

Em relação à comida ainda tenho muito a aprender, assim como em relação a outras áreas de minha vida... mas a aprendizagem que tenho tido e tive na área amorosa me traz esperança de que a mudança é possível. 


segunda-feira, 16 de julho de 2012

Engula seu orgulho, ele não engorda!!!


Bom, acho que tenho que confessar uma coisa bem difícil, mas vamos lá: tenho muita dificuldade em pedir ajuda. Será que sou orgulhosa? Eu não me considerava uma pessoa orgulhosa, inclusive internamente, sempre critiquei pessoas assim. Mas peraí... me avaliando, analisando a forma com que eu uso meu transtorno alimentar, vejo que me agarrei muitas vezes ao TA (de certa forma) por orgulho e arrogância.

Pode até parecer confuso para alguém que não conhece a fundo os motivos que podem levar alguém a utilizar o transtorno alimentar. No meu caso, eu usei (e ainda uso) a bulimia para esconder minhas fraquezas e para não precisar pedir ajuda. Por medo, por vergonha e também por falta de humildade. Por mais contraditório que pareça, minha bulimia se tornou um escudo, uma proteção contra as pessoas. Meu orgulho e minha arrogância me levaram a fazer tudo sozinha, utilizando para isso minha “varinha mágica”: a bulimia. 

Quando eu me sentia fraca ou desprotegida, era para a bulimia que eu pedia “ajuda”.  Eu tinha a falsa sensação de independência, achava que a utilizando eu estaria mais poderosa, forte, competente, segura, equilibrada. Tudo, tudo mentira!!! Quanta ilusão. O meu orgulho e a minha arrogância em querer esconder de mim e dos outros minhas falhas me transformaram em uma pessoa vulnerável, fraca, insegura, desequilibrada, egoísta, mentirosa.  O feitiço da “varinha mágica” se virou contra o feiticeiro.

Agora estou aqui, perdida. Me sinto neste imenso vazio. Descobri que minha fortaleza foi construída com tijolos de vidro, e de tão frágeis, só restaram cacos espalhados pelo chão. Preciso limpar a sujeira que restou, colher os cacos que sobraram e torcer para que nenhum inocente seja ferido ao passar por este caminho cheio de estilhaços quebradiços e cortantes. 

Claro que largar o transtorno alimentar me traz medo, insegurança e me dá uma sensação de vazio. Mas o meu TA estava aumentando ainda mais estas sensações. Não posso mais vender minha alma. Preciso abrir mão do que tenho hoje para receber o que está por vir. Quero deixar de lado as atitudes que já não me completam, as situações desconfortáveis, a busca pelo reconhecimento e isso implica em abandonar a bulimia e tudo que vem junto com ela.

Mas tenho que confessar que ainda tenho muita dificuldade de dizer: “preciso de ajuda”. Bom, posso voltar lá na minha infância para justificar isso... mas quer saber?... já estou crescidinha, não é verdade? Consigo entender que a minha forma de agir foi apenas uma máscara para tentar compensar outros problemas que tenho (baixo autoestima, insegurança, aceitaçao, etc.).  Mas saber disto não significa que já consigo pedir ajuda com facilidade. Por exemplo, hoje, meu marido precisou voltar para o trabalho (ele trabalha em outro estado). Nos últimos 20 dias, ele esteve comigo e com meus filhos, o que foi maravilhoso. Ele tem me ajudado muito no meu processo de recuperação. Inclusive sou super grata à ele por tudo que ele tem feito: por estar do meu lado; por não me julgar; por me escutar; por me ouvir chorar; por me suportar, até mesmo quando nem eu me suporto mais. Agora sei que passarei por um momento em que, muito provavelmente, terei que achar outras pessoas para me ajudar quando for necessário. E isto me assusta.

Agora preciso exercitar a humildade. Precisarei entender quando é a hora de pedir ajuda, de reconhecer minhas limitações. Sei que estou em um momento frágil e, agora, mais que nunca, minhas falhas estão sendo colocadas em evidência. Me sinto nua, despida, desprotegida. Mas agora é a hora da aprender. Aprendizagem, para ser real, precisa ser feita com teoria e prática.

Bom, já sei que preciso sair da minha zona de (des)conforto, mas ainda não consegui exercitar o pedir ajuda em momentos de extrema dificuldade, ainda estou tentando fugir, utilizando meu TA. Mesmo que eu já tenha evoluído no meu processo de recuperação, hoje percebo que o que ainda me mantêm presa às compulsões e vômitos são as mesmas coisas que me mantiveram no passado. Ainda há muito orgulho em mim, que me deixa triste, pois agora consigo ver isso claramente.


Recentemente, uma amiga postou em seu facebook uma frase que me fez pensar “Engula seu orgulho, ele não engorda!!!”. Bom, preciso colocar isto em prática. Fran, mais uma vez, obrigada, pelo seu carinho e pelos alertas que me fazem pensar.   

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Imperfeição, erros e aceitação - um caminho a aprender



Quando falei com meu analista que gostaria de trabalhar intensamente em busca de tudo que estivesse me mantendo presa ao meu transtorno alimentar, rapidamente cheguei a minha mania de perfeição. Bom, adoraria dizer que esta característica não se aplica ao meu caso, mas não posso, pois não seria verdade. Tenho de confessar que não me agrada quando percebo que tenho várias das características consideradas comuns aos portadores de transtornos alimentares. Odeio rótulos!!! Acho que os rótulos deixam as pessoas engessadas, criam estigmas, e isso não é nada bom.

Em consequência disso, eu sempre tive medo de me enquadrar nestas teorias. Isso fez com que eu ignorasse ou até negasse algumas das característicasde minha personalidade. Acreditei que uma vez definida (ou rotulada) a minha personalidade eu jamais poderia mudar meus comportamentos. Não me dei conta que a personalidade é formada pelo conjunto de comportamentos repetitivos. Mudar comportamento é difícil (principalmente aqueles a que estamos habituados e a que nos prendemos pelos mais diversos motivos), mas é possível.

Sou testemunha de pessoas que mudaram suas vidas com força de vontade e hoje escolheram uma vida melhor, mais plena. Eu mesma já mudei muito. Não preciso negar quem eu sou, nem o que sinto, pois posso escolher como irei agir, diante de como estou sentindo. Isso faz com que eu consiga me olhar mais intimamente e me enxergar por inteira. Não preciso ter medo. Estou começando a praticar esta forma de agir e estou mais preparada para me aceitar.

Hoje, consigo admitir que já fui muito perfeccionista e ainda tenho muito desta característica em mim (mesmo quando quero abafar isto dentro de mim). Não vejo o perfeccionismo de forma saudável (pelo menos para mim nunca foi). Não sei lidar com o fracasso e odeio cometer erros. Tenho dentro de mim esse sentimento de insatisfação perpétua. Sempre acho que tudo pode melhorar, dificilmente penso que o que faço é bom o suficiente. Durante anos tive como lema a frase “o bom é inimigo do ótimo”, e por achar que o meu trabalho estava apenas bom, eu deixava ele engavetado.

Mas afinal de contas o que seria a perfeição? Quem julga o que é perfeito? Não seria a perfeição subjetiva? Por exemplo, qual o chocolate com sabor mais gostoso e perfeito que existe? Qual a obra de arte mais bonita e perfeita do mundo? Claro que cada pessoa terá um julgamento para cada uma dessas perguntas. O veredito será completamente diferente dependendo de quem julgar.

No meu caso, a perfeição ainda esteve associada a outro problema: a necessidade de aprovação dos outros. Em algum momento da minha infância eu passei a acreditar que para ser amada e aceita eu precisaria ser aprovada pelos outros. Por motivos pessoais, pela forma como eu interpretei e senti tudo que vivi na minha infância, eu me tornei insegura em relação ao amor. Esta insegurança gerou em mim a necessidade de aprovação externa. Fiquei excessivamente sensível às opiniões e as criticas dos outros. Para tentar me defender, então, eu busquei a perfeição. (Claro que as raízes do meu perfeccionismo são muito mais profundas que isto).

Eu nunca confiei no meu julgamento, então buscava no olhar do outro uma resposta para saber se o que fiz estava “ruim, regular, bom ou ótimo”. Adivinha só? Se uma única pessoa dissesse que ficou apenas “bom”, seria o suficiente para eu considerar a minha obra uma merda. Esta é a forma como eu me sentia. Bom, hoje, lentamente, venho buscando superar isto. Sim, estou muito melhor do que já estive. Mas tenho muito ainda para evoluir.  

Antes eu não percebia que meus erros, ou mais especificamente as críticas que eu recebia, eram oportunidades para meu crescimento. Oportunidades que eu poderia aproveitar. A minha dificuldade de lidar com minha imperfeição, de aceitar as críticas, de corrigir os erros de melhorar com meus fracassos, me mantiveram parada. Hoje, percebo um lado positivo na imperfeição, nos erros. São meus erros que me mostram em que preciso melhorar, onde não quero mais ficar, o que posso corrigir. Minhas imperfeições me ensinaram muito sobre quem sou, como não quero mais me comportar, para onde não quero voltar, e o que não mais fazer. Elas não me enfraquecem, pelo contrário elas me fortalecem a cada dia que eu as aceito e aprendo com elas. Não quero mais ignorá-las, quero sim aprender com elas. Pois ao invés de vê-las como inimigas, posso enxerga-las como mestre. Inclusive, hoje, elas não me paralisam mais, pelo contrário, elas me impulsionam e me incentivam a continuar minha trajetória.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

A bulimia e as fezes - novo uso para a privada


Eu queria falar sobre cocô. Eu sei que quase ninguém fala sobre isto, que este é um assunto tabu. Mas estou a algum tempo pensando no tema e como isso não sai da minha cabeça, resolvi escrever.  Antes de iniciar minha jornada rumo à recuperação, eu posso dizer que minhas fezes não eram, assim, “normais”. 

Dizem que pelas fezes é possível descobrir alguns problemas de saúde. Durante os últimos 20 anos, meu cocô nunca apresentou as características consideradas pelos profissionais de saúde como esperadas. Ou eu tinha prisão de ventre, ou eu tinha diarréia. Simples assim. Claro que eu não quis associar meus hábitos de evacuação com meu transtorno alimentar. Eu queria achar uma doença para meu problema. Outra doença, claro, pois assim eu não precisaria culpar a bulimia por estar me maltratando mais uma vez.

Fui a médicos, fiz muitos exames. Não encontrei outra doença. Encontrei, sim, um esôfago maltratado, início de uma úlcera, colo do intestino inflamado, etc... Mesmo depois de muitos, muitos exames, eu não conseguia me livrar do pensamento obsessivo de que eu tinha outra coisa. Sabia que meu mal estar não era normal, meu cocô não era normal, minha diarreia crônica ou meus longos períodos sem evacuar não podiam ser normais.

Achei que estava muito doente. Queria achar o motivo. Só que o motivo estava na minha cara. Eu sabia, mas não queria admitir. Mais uma vez estava “tampando o sol com a peneira”. Como os exames não apontaram nada, eu tive que me calar, mas volta e meia eu ainda buscava uma nova evidência para que pudesse levar a minha médica e perguntar “será que não é isso que eu tenho?”.  

Há mais de um mês, deixei de lado a busca obsessiva pela minha doença intestinal. Aceitei que tenho um transtorno alimentar e isso faz com que consiga enfrentar e lutar contra suas  consequências. Isso muda tudo, a começar pelo cocô!!!

Eu poderia fingir que a mudança do meu cocô está passando despercebida, mas não está!!! Nunca, nunca fui tão feliz ao evacuar. Eu sei... parece um exagero, mas fazer o que? Para mim está sendo assim, exageradamente, gratificante, comer, DIGERIR, e EVACUAR.  Eu sei, estou parecendo uma adolescente comemorando uma coisa tão primitiva. Mas estou feliz. Sinto-me VIVA. Meu cocô é a prova de que estou funcionado, deixei de sobreviver para viver, digerir, evacuar.

Posso buscar todas as razões psicológicas para estar evacuando de forma saudável, tenho conversado sobre este assunto com meu analista. Mas não posso deixar de levar em consideração os aspectos físicos. No último mês mudei bastante minha alimentação. Pela primeira vez, depois de 20 anos, estou comendo e mantendo o alimento dentro do meu corpo (antes eu vomitava todas as refeições que fazia). Agora, pela primeira vez, após 20 anos, existe no meu corpo comida para ser digerida, processada e evacuada.

Estou fazendo as pazes com a privada. Reaprendendo o utilizá-la. Dando um novo uso para ela. Um uso que me deixa mais feliz. 



domingo, 1 de julho de 2012

Bulimia é um vício?

Mês passado, escrevi um post (Cuidado: Bulimia = droga com alto teor de dependência) em que eu especulava sobre a possibilidade da bulimia ser viciante. Recentemente foi publicada uma pesquisa que analisa as semelhanças entre a bulimia e a dependência das drogas.  A pesquisa afirma que resistir ao impulso de comer compulsivamente e depois vomitar (ato realizado pelos bulímicos) pode ser comparado com o sentimento do viciado de resistir ao uso drogas.

A pesquisa, publicada no Journal of Clinical Psychopharmocology, destaca várias semelhanças no comportamento de bulimicos e drogados.  Os pesquisadores especulam ainda que pode haver uma resposta neurológica semelhante na retirada do bulimico de seu vício à do drogado.  O estudo, porém, não é conclusivo. Trata-se mais de uma análise das similaridades e em especulações sofre a possibilidade de que exista uma ligação biológica entre bulimia e dependência de drogas. 

Não sei como o drogado se sente quando se coloca na situação de abstinência, mas confesso que a primeira semana em que eu me abstive de comer caoticamente, fiquei ansiosa, agitada, tive insônia, tremia. Pensei que jamais conseguiria aguentar aquela sensação. Na primeira tentativa rumo a recuperação me deparei com meu primeiro fracasso. A segunda tentativa não foi tão diferente. Hoje (um mês depois), ainda sofro ao dizer não para o comer compulsivo e vômitos, mas sofro menos. Estou mais forte.



sexta-feira, 29 de junho de 2012

Bulimia e a falta de capacidade de lidar com a frustração


Tenho que admitir, por mais difícil que seja, que tenho muita dificuldade de lidar com frustração. Odeio planejar algo em minha mente e não conseguir atingir o objetivo desejado. Odeio criar uma expectativa e não vê-la ser concretizada. Fico frustrada, com raiva e me sinto uma merda. Ainda estou aprendendo a lidar com o “tudo ou nada”, e enquanto isso não se tornar algo real em minha vida, continuarei me frustrando e sofrendo emocionalmente com minhas “falhas”. Flexibilização e busca de equilíbrio é o que preciso fazer, sim, eu já sei, mas confesso que o caminho ainda está difícil para mim.

Ao me analisar, percebo que tento evitar situações que possam me levar à frustração. Isso muitas vezes faz com que eu simplesmente desista de muitas coisas, apenas por medo. Não me dou à oportunidade de tentar realizar coisas que eu desejaria muito. O medo do fracasso e falta de capacidade de lidar com a frustração, me deixam completamente paralisada.

A bulimia, no meu caso, é uma marca clara da minha falta de capacidade de lidar com a frustração. Da minha falta de capacidade de aceitar meu corpo, da minha falta de capacidade de aceitar o meu peso, da minha falta de capacidade de aceitar meus erros, da minha falta de capacidade de aceitar minhas falhas, medos, ansiedades e frustrações. Eu traço expectativas e metas, e quando não consigo cumpri-las fico frustrada e agressiva comigo.  Pois a bulimia é uma forma de autoagressão. Ela vai te matando aos poucos, primeiro você perde os amigos, depois o cabelo, os dentes... a saúde, a vida.

Mas como aprender a mudar de atitude? Como aprender a lidar com a frustração? Tenho me esforçado para mudar minha forma de lidar com meus fracassos. Hoje, busco enfrentar meus erros, encará-los, ao invés de fugir deles.  Quero fazer as pazes comigo quando não consigo alcançar exatamente o que eu planejava. Estou mais disposta a analisar o que aconteceu de fato e desta forma ser mais justa comigo. Tentarei procurar me parabenizar pelo meu progresso durante o processo (em longas jornadas), ao invés de ficar me concentrando em um deslize no meio do caminho. Quando eu olho para trás vejo o quanto já cresci. 

Minha caminhada para frente ainda é infinitamente maior do que a que eu já realizei. Mas agora tenho a certeza de que não estou mais parada. Agora, sei que posso continuar andando (que sou capaz de andar) e cada vez tenho mais força para continuar minha busca, de forma mais plena para um futuro promissor. 

terça-feira, 26 de junho de 2012

Disciplina é liberdade - a bulimia e a falta de disciplina


Nunca fui uma pessoa muito disciplinada. Fui mais o tipo de pessoa que deixava tudo para a última hora. Aparentemente, essa forma de viver funcionava muito bem para mim. Não me esforçava no decorrer do percurso, não me importava com o caminho, apenas com o resultado. E isso era o suficiente para mim.  A verdade é que eu não chegava a ser a melhor de todas, mas sempre estive lá entre OS melhores. Esta posição de “acima da média”, “entre os melhores” (como eu me considerava) me satisfazia.

Olhando criticamente, acho que na verdade eu nunca cheguei a me aventurar em coisas que não fossem fáceis (confortáveis) para mim. Eu simplesmente tinha medo de não conseguir atingir aquele padrão que eu tinha me imposto (ficar entre os melhores, sempre acima da média). Então, por diversas vezes eu não quis nem sequer tentar realizar certas atividades. Não porque eu não me interessava por elas, mas por medo do fracasso (ou preguiça?). Para mim era insuportável a ideia de não estar entre os melhores.

Eu não me acostumei com o esforço a longo prazo, a disciplina contínua e a perseverança para atingir um bom desempenho. Sempre fui mais do tipo de pessoa que preferia os esforços intensos e que me trariam o resultado rápido e esperado. Quando virei adulta e o meu mundo se ampliou, ficou mais difícil atingir meu “padrão” desejado (ficar entre os melhores) sem esforço e disciplina contínua. Na minha competição imaginária (em que eu crio um ranking), eu não “competia” apenas com os coleguinhas da turma ou do bairro. Eu passei a “competir” com pessoas da universidade, da minha cidade. Claro a partir daí, para mim, eu passei a ser uma fracassada, pois no meu ranking eu não estava mais lá, entre as três melhores, e isso me deixava enfurecida.

Analisando minha bulimia vejo que repito esta atitude, todos os dias. Todas as vezes que não quero aceitar e ter disciplina (aprendizagem) para com meus sentimentos, frustrações, medos e angústias, eu acabo por me empanturrar de comida e vomito tudo para me dar um alívio momentâneo e desta forma  coloco a sujeira debaixo do tapete. Ela ainda está lá, só que finjo que não vejo. Quando como mais que deveria e tenho medo de engordar o que faço? Vomito, é claro. Corpo leve, consciência pesada (o que é mais importante???).

Bom, durante muito tempo eu acreditei que a bulimia era uma forma de disciplina e que com ela eu poderia ser especial, estaria “acima da média”.  Eu achava que eu estava controlando meu peso e controlando minha raiva, meus medos, ansiedades e angustias. Mas, na verdade, eu não controlava nada. Primeiro, porque meus problemas psicológicos continuavam lá, a sujeira já não cabia debaixo do tapete.

Durante estes 20 anos com a bulimia, eu fui escrava da doença. Ou seja, não havia disciplina, pois não havia escolha. Chegou o ponto em que eu não decidia o que eu queria, eu simplesmente me sentia obrigada a comer e vomitar, para poder ter aquele alívio, aquele êxtase. Sim, é verdade, eu me  permiti entrar nesta prisão, mas eu tinha a ilusão que estava livre. Agora, não mais. Hoje consigo ver que não alcancei meta nenhuma com a bulimia. Pelo contrário só me distanciei delas, só acumulei problemas e não aprendi como resolve-los, por indisciplina, falta de paciência, e de perseverança.

Hoje olho para mim, e me vejo como uma nova mulher interrompida pela bulimia, mas jamais morta. E agora estou seguindo em frente. Buscando uma nova vida, alguma vida, a minha vida, a vida plena. 

Quero sim introduzir na minha vida a disciplina, conforme o dicionário: "deriva da palavra discípulo, aquele que segue. Discípulo é aquele que escuta e põe em prática aquilo que aprendeu". Tenho aprendido muito e estou colocando em prática cada coisa aprendida. Sim, tenho milhões de medos e ainda milhões de limitações, ninguém muda do dia para a noite.

Estou me esforçando para reconhecer meus pequenos êxitos e progressos. Quando o caminho é longo não é possível atravessá-lo sem sentir sede, fome e cansaço. Não quero mais me enganar com fórmulas mágicas, pois elas não existem.  Preciso aprender a ter calma, perseverança e disciplina. Pretendo monitorar meu progresso (para manter foco em o que está dando certo) e não me preocupar excessivamente com recaídas (elas acontecem, pois sou humana). No caso de recaídas, devo aprender e seguir mais forte. “Disciplina é liberdade”. 

sábado, 23 de junho de 2012

Deixando de lado o "tudo ou nada"


  
Li em diversos lugares que as pessoas com bulimia são pessoas extremistas e tendem a ter pensamentos baseados no “tudo ou nada”. Adoraria dizer que esta teoria é uma bobagem e que eu não me enquadro nela. Mas infelizmente isso não é verdade. Apesar de ter consciência de que não deveria tratar as coisas de forma tão radical, que o mundo não é preto ou branco, que as coisas não são necessariamente boas ou más, eu ainda me vejo várias vezes caindo em armadilhas que minha mente me coloca.


Ainda demoro a perceber que estou presa em pensamentos extremistas, para então começar a luta para desatar os nós que criei (mentalmente para chegar às conclusões que cheguei). O pior é que sofro enquanto vivencio minha crença extremista. Demoro a sair do olho do furacão.

Ontem mesmo vivenciei este sofrimento (novamente). Estou comprometida com minha jornada rumo à recuperação e lutando fortemente contra a bulimia. Tenho feito um esforço descomunal para deixar de comer compulsivamente de 5 a 8 vezes diárias (e vomitar), para fazer isso apenas uma vez ao dia. Eu poderia estar melhor? Não, eu não poderia. Outra pessoa talvez, mas eu estou fazendo o que EU POSSO.

Mas ontem, quando eu estava no olho do furacão, eu não conseguia lembrar isto.  Ontem eu estava sentindo uma dor terrível no meu corpo (possível gripe chegando) então não fui nadar. A natação tem sido para mim uma excelente forma de liberar endorfina no meu corpo.  Adoro o contato com a água, fico relaxada, menos ansiosa. Durante as braçadas vou pensando nos problemas e vou desmistificando um a um. A natação é uma terapia para mim.

Bom, ontem, não nadei, consequentemente, nada de endorfina. Para completar, eu estou passando por um momento em que preciso tomar uma decisão pessoal, o que sempre me estressa. Tenho grande dificuldade de lidar com mudança. Enfim, cheguei em casa mais cedo do que de costume, comi enlouquecidamente, vomitei mais enlouquecidamente ainda e não estava satisfeita.  Sofri durante horas para não comer novamente e não vomitar. Não dormi nada. Eu sofri, pois não queria comer e vomitar. Mas me senti muito mal por desejar do fundo da minha alma fazer isto para fugir do meu problema (ter que tomar a decisão, ter que pensar na decisão, ter que encarar a decisão).

Lutei, sofri, me contorci para não dar um passo para trás na minha jornada rumo à recuperação. Me senti uma fracassada e me vi como a pior pessoa do mundo. Agora, pela manhã, após acordar, beijar meus lindos filhos e tomar um café da manhã equilibrado, sem vômitos, vejo como minha noite foi bem sucedida. Como fui dura comigo, como fui injusta. Lá estava eu mergulhada no meu pensamento extremista do “tudo ou nada”. Naquele momento, eu achava que não bastava não comer e vomitar que eu o “certo” seria nem querer. Por isso, quase que eu comi. Uma vez, que eu já me achava perdedora...

Entendo que tenho que encarar meus pensamentos e sentimentos negativos. Preciso lutar contra eles. Mesmo que no começo isso me traga desconforto. Acredito que com o tempo irei aprender a não cair nas armadilhas que minha mente me prega. Isso não significa tampar o sol com peneira, fingir que os problemas não existem, mas apenas encarar os problemas da forma que eles são de verdade.

Ou seja, se eu desejo comer e vomitar não significa que sou uma fracassada. Se eu comi e vomitei, não significa que nunca irei conseguir fazer diferente. Significa sim, que o processo não está sendo fácil, que terei que me esforçar ainda mais.  Significa lembrar que já estive bem pior, já evolui muito no processo. Ver as evoluções passadas e reconhece-las são importantes para manter o foco de que sou capaz de ir mais além. De que consigo seguir e continuar melhorando. Tenho 35 anos de idade, mas preciso ter paciência comigo e lembrar que na busca pela cura sou apenas um bebe aprendendo a engatinhar.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Lidando com o olhar dos outros


Depois de vários anos de análise e terapia, ficou claro para mim que um dos meus maiores limitantes é minha dificuldade de lidar com o “olhar do outro”. Preocupo-me de forma tão exagerada com isto que chega a ser doentio. Este assunto já foi tema de milhões de sessões de terapia, e para mim nunca ficou claro a origem dessa necessidade demasiada pela aprovação dos outros. Em que momento o terceiro se tornou tão importante na minha vida? Tenho medo exatamente de que? De não ser amada? De não ser aceita? De ser abandonada?

Esta é uma das piores prisões que uma pessoa pode viver. Falo por experiência própria. Muitas vezes deixo de fazer algo por achar que minha atitude pode fazer com que Fulano ou Beltrano achem isso ou aquilo de mim. Um exemplo concreto seria se eu contasse para todos que passei 20 anos com bulimia. Logo minha mente chega a seguinte conclusão: todos pensarão que sou uma mentirosa (pois não disse nada antes), todos pensarão que sou fútil, que sou fraca, que sou superficial. A minha mente vai fazendo julgamentos cheios de preconceitos e eu viro escrava da minha própria mente doentia. Sei que parece idiota... até para mim.  Mas é assim que minha mente funciona.  

Tento adivinhar o que os outros pensariam, como se isso tivesse qualquer importância. Tento controlar como agir, e muitas vezes não faço o que gostaria de fazer. Mas na verdade, eu não deveria me preocupar com eles, pois, provavelmente, a maior crítica vem de mim mesma. Os julgamentos mais cruéis são meus.

Racionalmente, eu sei que deveria pensar em mim e não me preocupar com o julgamento dos outros. Mas para mim isso ainda é muito difícil. Preciso entender que não estarei imune às criticas, nem se eu fosse “perfeitinha”. Como meu terapeuta diz, a busca pelo perfeccionismo é para os idiotas (me incluo aqui). Preciso entender que sempre existirão pessoas que vão discordar de mim ou apenas terão opiniões e gostos diferentes. O que me sobra é aprender a não ligar para as críticas. Não ligar para os “olhos dos outros”. Aplicar a filosofia da vaca: “ir cagando e andando” .

Adorei um texto que fala sobre críticas da psicóloga Valéria Lemos Palazzo: “Não ser vulnerável as criticas, significa se auto valorizar, ter uma auto-estima positiva. Pense....você não precisa saber o que o outro pensa sobre você, para só assim  sentir-se bem. Você não precisa saber como o outro te “vê”, para saber que você é uma pessoa de valor. Imagine se está pessoa que você está “usando” como referencial tenha uma estrutura psicológica neurótica. O “olhar” dessa pessoa sobre você será “torto”, “embaçado”. E, você vai se orientar por este “olhar” ? O que realmente interessa, é como VOCÊ SE VÊ. O problema é que poucos de nós realmente se conhecem. Não nos “enxergamos”, a não ser que usemos o “outro” como “espelho”, como “referencial”. Como não nos “enxergamos”. Temos que usar a visão do outro. Você precisa conhecer a sua REALIDADE e não a do outro. Todas as vezes que você ouviu (no sentido de se importar=trazer para dentro) a critica do outro, você não se valorizou, não se avaliou. As pessoas mais vulneráveis as criticas, são aquelas que tem pouca consciência de si.”  Bom, acho que vale a pena ler o texto completo

Ao ler o texto, passo a acreditar que é exatamente isso que acontece comigo, tenho pouca consciência de mim. E agora estou tentando buscar me conhecer e poder, de fato, aplicar a teoria da vaca. 

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Por que as pessoas se tornam Bulímicas?



Para tentar entender a minha própria história, conseguir me perdoar e aceitar que não sou uma fracassada. Ou seja, para que eu consiga me ver livre dos meus próprios preconceitos em relação a bulimia, tenho buscado muitas informações e algumas têm me ajudado bastante. O site Eating Disorders – Resources for Recovery traz um trecho do livro “Bulimia: Um Guia para a recuperação”, escrito por Lindsey Hall e Cohn Leigh, que eu gostaria de compartilhar com vocês. Trata-se do capítulo que explica o motivo que levam as pessoas a se tornarem bulímicas.

Durante os muitos anos em que fui levada a psiquiatras e psicólogos para o tratamento “adequado” uma das coisas que mais me irritava era a falta de capacidade dos médicos em entender a doença como um todo. Eles conversavam comigo como se o meu único problema fosse o meu corpo e a forma de me enxergar e resumiam o meu problema a isso. Nossa, isso me irritava muuuito. Até hoje sempre fico irritada quando vejo pessoas falando do assunto e resumindo a doença à busca do corpo perfeito. Quem tem bulimia sabe que a doença vai além da tentativa desesperada de controle do corpo. Queremos controlar tudo, nossa raiva, nossa angústia, nosso medo, nossa ansiedade, nossa carência. Que ilusão!!!

Bom, o texto que estou citando é interessante pois começa a mostrar para o mundo que somos mais que isso. Nosso problema é maior que a busca por um corpo de Barbie. Descobrir que o problema ultrapassa o corpo e vai para mente pode parecer assustador. Afinal não seria mais fácil se fosse apenas um único problema? Sim, provavelmente. Mas a verdade é que precisamos trabalhar o todo para buscar a cura. Como os médicos nunca associavam uma coisa com a outra eu também não fazia essa associação, então eu achava que eu era uma pessoa toda ferrada. Eu ficava pensando que tinha tudo: bulimia, depressão, transtorno bipolar, ansiedade excessiva, transtorno do pânico, etc... Comecei a perder a fé em Deus e em mim. Como eu conseguiria melhorar???

Muito, muito recentemente, percebi que as minhas limitações psicológicas eram o meu maior inimigo na cura da bulimia e a forma como eu a vejo também. Usar a bulimia como válvula de escape para minhas limitações sempre foi o motivo maior para nunca querer me desfazer dela. Sim, engordar me preocupa muuuito,  mas me incomoda mais ainda não ter mais a ferramenta de colocar tudo para dentro e depois jogar tudo fora. Perder isso me apavora. É como se no vômito todas as preocupações fossem embora. Com a bulimia eu podia aguentar tudo, todas as pressões, ela é como uma droga, fiquei viciada. O problema é que agora não consigo mais me sentir infalível, forte e poderosa.  De repente percebi que não posso e nem quero mais fazer isso comigo.

Enfim segue a traduçao de alguns trechos do texto:

“Bulimia é um transtorno multidimensional. É causada por uma combinação de fatores, incluindo, mas não se limitando, a cultura, personalidade, família, genética e trauma vivenciado."

"Indivíduos com bulimia podem identificar várias causas para a sua doença. Independentemente das razões subjacentes, a bulimia "funciona" em muitos níveis diferentes. A compulsão alimentar proporciona alívio instantâneo. Ela substitui todas as outras ações, pensamentos e emoções. A mente deixa de lado por aquele instante os problemas, e se concentra em obter comida e coloca-la para dentro. Os sentimentos negativos ficam suspensos. Mesmo o vômito pode ser agradável quando se é o contato mais íntimo com o corpo. Quando o episódio de comer e vomitar termina, por um breve momento, o bulímico recupera o controle. Já não sente a culpa por ter comido tantas calorias, ela é drenada, e o bulímico se sente relaxado e em êxtase.   Logo, este sentimento é substituído por outros negativos, e o ciclo desta dolorosa, debilitante e desgastante doença começa novamente.”

Quem quiser ver o texto integral e em inglês, clique aqui. Acho que vale a pena.