segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

“Ser verdadeira exige coragem e simplicidade”


Estou angustiada. Muitas vezes, ou normalmente, eu não consigo perceber o motivo da minha angústia, mas hoje de alguma forma sei que estou angustiada por que ontem demonstrei minha fragilidade para uma pessoa que eu havia acabado de conhecer. Tenho dificuldade em mostrar minhas fragilidades.  Sempre me esforcei demais para aparentar forte. Agora, estou passando por um momento em que decidi que quero ser mais honesta e verdadeira, pois uma das coisas que mais me incomodava (incomoda) com a bulimia é o fato de tudo ser velado, escondido, em segredo, como se tudo fosse uma grande mentira.  Ao falar disto na terapia, lembro-me do meu analista me alertando: “Ser verdadeira exige muita coragem e simplicidade”. Não tem um dia que não penso nessa frase e na complexidade que ela tem para mim.

Coragem... Simplicidade... 

Então... tentei ter coragem, mas não foi nada simples.  Para ser honesta e verdadeira, para falar o que estava se passando comigo, eu rebolei, enrolei e falei, mas acho que não fiz isso de forma simples, e certamente não fui corajosa. Mas pelo menos, e mesmo com medo, falei a verdade sobre meu trabalho e minha licença médica. Estou de licença médica há um ano, devido à depressão, ao transtorno alimentar e à ansiedade generalizada. Para mim, estar de licença (por esses motivos) é extremamente embaraçoso.  Sinto-me envergonhada, julgada, vulnerável, fracassada e sem chances de refazer uma nova imagem. Sei que não deveria me preocupar com a minha imagem, mas me preocupo.

Odeio essa minha preocupação excessiva, exagerada e desproporcional com essa  “imagem”. Imagem de que eu quero??? De perfeitinha???? Que pessoa é essa??? Definitivamente não sou eu!!! Quanto mais eu vou atrás de uma imagem (emocional  ou física), mais eu sofro. Não preciso de uma imagem, preciso de mim. Sem espelhos, sem buscar no outro esse espelho da aprovação, preciso da minha própria aprovação. Mas isso é outro post...

Voltando a minha angústia. Bom, avaliando o fato de forma real, eu falei a verdade, mas não falei tudo sobre minha licença. Não falei sobre a bulimia. Não tenho coragem de contar para ninguém isso. Para mim, ter bulimia é algo extremamente vergonhoso, sinto-me bizarra, confesso.  Tenho uma dificuldade enorme de lidar com isso. Na verdade, ainda tenho muita dificuldade de lidar com o fato de ter tido depressão e ter que me afastar do trabalho, de não ter dado conta. “Como assim não dar conta????”  Isso parece algo que deveria estar fora do meu dia a dia, sabe? Algo inadmissível. Preciso aprender a lidar com essas coisas e a aceitar minhas dificuldades. E isso dói.

Tremendo (mais internamente que externamente), respondi a ela, após ser questionada sobre o que eu fazia da vida, que eu trabalhava para o governo, mas que no momento estava afastada. A conversa foi fluindo e ela foi me perguntando mais coisas. Falei muitas coisas que eu costumo não dizer a ninguém... Falei como foi difícil admitir para mim e, consequentemente, para o mundo que eu estava mal e fragilizada. Contei que não estava dando conta das tarefas de casa, de mãe e do trabalho sem apoio diário do meu marido (pois “tudo” ruiu na época em que ele passou um ano fora da minha cidade). Contei de como eu comecei a me sentir incompetente no trabalho (cometia erros e demorava a realizar certas tarefas). Falei da minha incompetência em casa (esquecia compras, pagar contas, etc). Contei que tudo piorou quando percebi que estava falhando como mãe, pois não tinha a paciência de costume com meus filhos. Eu estava exausta e irritada. O pouco tempo que eu tinha eu queria comer compulsivamente e vomitar (essa parte eu não disse para ela). Também não disse a ela que, para suportar a distância do meu marido e fingir que estava tudo bem, para suportar os erros no trabalho, as falhas em casa e a falta da capacidade de ficar feliz e contente com meus filhos e preencher a falta que eles sentiam do pai, eu passei várias noites em claro, comento tudo que tinha na minha geladeira e vomitando, comendo novamente e vomitando novamente, me sentindo culpada, querendo me punir e tudo começava novamente, tinha diarreias terríveis, me sentia fraca, cansada, com a memória ruim e exausta física e mentalmente.

Ela me deu os parabéns por ter tomado a decisão de ter “escolhido largar” o trabalho e ficado com meus filhos. Mas eu confessei a ela que essa decisão não foi fácil e nem foi uma decisão. Que cheguei ao fundo do poço para perceber que não estava legal. E que mesmo assim, mesmo sabendo que precisei realmente parar e me afastar, a minha vaidade ainda me pertuba. De uma maneira besta, infantil e torta, eu (por orgulho/vaidade) ainda me importo com o que as pessoas do trabalho estão pensando e com o fato de que provavelmente eu nunca mais terei uma posição profissional boa, pois afinal de contas eu serei sempre tachada como “a louca” que precisou se afastar durante mais de um ano por causa da depressão e ansiedade (imaginem se soubessem da bulimia...). Enfim, contei para ela que foi um passo difícil, mas necessário, que eu estava feliz de ter tomado, mas que ainda precisarei superar meu ego, meu orgulho, minha preocupação com o olhar do outro.

Prova melhor de que eu ainda preciso superar isso é que eu fiquei angustiada com o que ela ficou pensando de mim. Fiquei preocupada com o julgamento e interpretações que ela pode dar a nossa conversa. Fiquei preocupada com a possibilidade de ela conversar sobre esse assunto com outras pessoas. Será que sou tão importante assim???? Claro que não , mas meu ego acha que sim. Ele tem essa imaginação tão fértil em relação ao que os outros podem achar ou falar de mim...

Coragem e simplicidade: duas palavras com um significado tão denso ou seria tão simples? 

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Vítima ou agressora?


Recentemente eu li um artigo sobre a violência silenciosa exercida pelo perverso narcísico. Eu não entendo nada de psicologia, não sou formada na área, apenas sou curiosa e adoro ler artigos sobre o assunto. Esse artigo mexeu comigo.  De alguma forma, eu reconheci o que estava sendo descrito no texto, consegui me ver como personagem do artigo, não de forma literal, não integralmente, mas, ao ler, lembrei das minhas relações e me senti ora vítima, ora agressora. Chorei, me deprimi, algumas fichas caíram. Como pude ser vítima e também agressora??? Sugiro a leitura do texto, qualquer tentativa minha de resumir o artigo poderia ser equivocada. Quero me afastar da situação de vítima em que me coloquei. Quero deixar de repetir a atitude que não gosto de sofrer, a de agredir, mesmo que de forma sutil, por insegurança, por narcisismo.