terça-feira, 9 de outubro de 2012

Confissão


Estou me mantendo presa no meu comportamento alimentar. Consigo perceber quase que diariamente que escolho a manutenção do hábito doentio (ainda que de forma menos intensa que no passado) do que continuar a minha trilha pela recuperação. Nem eu consigo me enganar com os motivos que estou inventando para mim mesma para a manutenção da mentira (pois manter meus comportamentos alimentares sem um esforço latente para sair deles me parece uma manutenção da mentira).


O que me mantem presa em minha mentira? Por que não consigo de fato abrir mão da compulsão/vomito que ainda acontece quase que diariamente em minha vida? Sei que já dei passos importantes nessa jornada, isso me faz apenas concluir que sou mais que capaz de dar mais este passo. Vivi momentos de torturas físicas para dar os primeiros passos. Lembro como foi difícil passar os primeiros 15 dias sem comer e vomitar durante o dia, pois todas as refeições que eu fazia eu vomitava, isso era o meu natural. Eu precisei viver um momento de sofrimento que, a meu ver, foi bem parecido com uma abstinência (veja o post que escrevi sobre isso).

E agora? Porque não consigo me esforçar e nem tento com tanto empenho como antes.  Porque me apego a essa doença como se ela fosse minha tábua de salvação?  Porque ainda acredito que ela é a única coisa capaz de me acalentar? Porque tenho tanto medo de perder isso? Porque tenho medo de ficar sozinha e não ter o minha válvula de escape para me ninar? Porque  tenho medo de perder a única ferramenta que sempre acreditei que me alivia a tristeza quando eu precisava? Porque tenho medo de perder minha ferramenta de controle mais precisa? Racionalmente sei que tudo isso é pura ILUSÃO.  Ela não me acalma, não me ajuda, não me acalenta, não me alegra, na verdade ela me ilude!!! Cada vez que utilizo a bulimia eu tenho a sensação de que dou um pause na vida e fujo dos problemas. Quando retomo a vida, simplesmente ignoro a sujeira, ela continua lá, mas estou “drogada” demais para me importar com ela.


"Mentira é o nome dado as afirmações ou negações falsas ditas por alguém que sabe (ou suspeita) de tal falsidade, e na maioria das vezes espera que seus ouvintes acreditem nos dizeres. Dizeres falsos quando não se sabe de tal falsidade e/ou se acredita que sejam verdade, não são considerados mentira, mas sim erros."



terça-feira, 2 de outubro de 2012

De "Expectativas" para "Sair do Armário" - Do outro lado da mesa

Olá, inicialmente, eu queria comentar sobre o tema expectativas: o que tanto quem tem TA pode esperar do seu companheiro quanto ele (ou ela) pode esperar de quem tem o TA.  Porém, eu obedeço às minhas intuições, e senti que será melhor começar pelo começo: sair do armário - contar para seu companheiro que você tem um TA.

Primeiro a minha história: um belo dia, cheguei na casa da Maria Interrompida e ela estava conversando com o pai dela no quarto. Chegou uma hora que ele saiu e disse que ela precisava conversar comigo. Naturalmente, eu achei totalmente estranho.  Estávamos menos de um ano juntos, já fazíamos vários planos para o nosso futuro, e aquela conversa parecia muito deslocada.  Entrei no quarto, sentei ao lado dela, e ela, insegura, com tom e cara preocupados me disse que tinha de abrir o jogo comigo, que tinha de falar a verdade.

Daí, ela me disse que tinha bulimia, inclusive me perguntou se eu sabia o que era.

Em seguida, ela chorou, nós continuamos conversando e eu deixei claro para ela que sabia o que era e que não sairia dali correndo, muito pelo contrário, pois eu até já desconfiava. Ao olhar para trás, percebo que foi um alívio para ela abrir-se para mim, quanto ouvir que eu a aceitava com o TA.

Onde eu quero chegar: seu companheiro ou sua companheira tem o direito de saber com quem ele está namorando, vivendo ou vai se casar. Em um relacionamento, a verdade é primordial, é a fundação da vida a dois, a estrutura sólida onde todo o resto se apoia.  Se a pessoa está com você e tem 2 neurônios, acredite, ela desconfia. Se tiver 3 ou mais, ela sabe.  E se está com você e não falou nada, é porque ela percebe que o assunto é delicado para você.

Digo mais. Supondo que ele nada saiba, que seja um completo ignorante, que não conheça da existência de transtornos alimentares ou ache-os tão distantes da realidade dele que sequer desconfia. Ora, ao silenciar sobre o assunto, você está evitando dar conhecimento a ele, está impedindo-o de entrar verdadeiramente na sua vida, está vivendo e fazendo com que ele viva na superfície do relacionamento, como se ele fosse um rio e os dois apenas boissem juntos - Um porque acha que o rio é raso, e a outra porque tem medo do que há no fundo.

Veja bem: não estou afirmando certezas. O cara pode cair fora ou continuar com você, ele faz as próprias escolhas. Só estou dizendo que é você quem escolhe entre viver com quem te ama e que te aceita com defeitos e qualidades, e que muito provavelmente vai querer te apoiar nas suas fraquezas e te fortalecer no que puder, ou então escolhe passar uma temporada com alguém até você cansar da mentira em que se enfiou.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Chega de boicote


Estou fraca!!! Não fisicamente dizendo, mas psicologicamente. Talvez, mentalmente, eu também esteja bem lenta... Percebo que meu poder de concentração e meu poder cognitivo dos últimos dias estão péssimos. Não estou conseguindo me concentrar em nada que estou fazendo. É como se minha mente não me respondesse.

Não sei se perceberam mais eu parei de atualizar a página “recuperação”. Quando eu criei está página minha intenção era que eu pudesse verificar o progresso da minha jornada rumo à recuperação e assim eu pudesse ter uma visão mais ampla do quadro como um todo. Bom, o último mês minha evolução não foi nada boa. Isso estava me gerando ansiedade e um sentimento terrível de frustração. Precisei deixar de atualizar aqui e de parar de contabilizar na minha cabeça o número de compulsões e vômitos na semana.

Eu já havia lido uma matéria muito interessante sobre o assunto, que mostra que a recuperação é um processo muito mais amplo do que o número de vezes que as crises ocorrem. A matéria alerta para o perigo de se contabilizar o progresso da recuperação por meio da quantidade de compulsões/vômitos. Ela mostra que o processo é formado de muitos outros fatores, como por exemplo, capacidade de se alimentar sem fazer restrição (3 refeições e 3 lanches); capacidade de comer alimentos "proibidos" (chocolates, doces, gorduras); aceitação corporal; capacidade de identificar uma compulsão e evitá-la; etc... 


Apesar de saber disso, eu me vi despreparada para enfrentar a primeira vez que percebi que eu estava piorando. Que ao invés de subir as escadinhas da recuperação eu estava ficando parada e que eu continuava comendo e vomitando uma vez ao dia e não estava mais conseguindo deixar de fazer isso durante nenhum dia sequer, como eu consegui no mês anterior. Me senti fracassada diante das recaídas e da minha “piora”.


Coloquei “piora” entre aspas pois tenho consciência que antes de começar meu processo de recuperação há cinco meses atrás, durante 20 anos da minha vida, eu comia e vomitava de 5 a 8 vezes diárias, todos  os dias então a minha “piora” é relativa. Se eu for considerar um período mais longo eu ainda estou melhor do que estava. Talvez seja meu negativismo gritando, “você não vai conseguir!!! Você é uma bosta!!!”. Sou eu me boicotando. (Quero fazer um post sobre isso)  

Estou vivendo esse momento negativo (pois estou longe de ser positiva). No entanto, hoje estou um pouco mais forte que ontem, um pouco mais otimista. Fiquei muito mal nesses dias que sumi. Mal a ponto de sumir daqui (boicote), a ponto de não conseguir pedir ajuda (boicote), a ponto de querer desistir de tudo (boicote). Mas como eu já disse lá atrás, minha vida chegou a um ponto que eu sei e tenho certeza que não quero mais a bulimia comigo. Não posso e não vou me boicotar. Parei, cai e estou levantando. Chega de boicote.