quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Um primeiro encontro - do outro lado da mesa

Antes de você começar a ler, deixa eu me apresentar. Não, não, você não entrou no blog errado. Aqui é o Mulher Interrompida da Maria Finding mesmo, mas se você for lá embaixo e ver os marcadores, perceberá que não e é ela escrevendo. Eu sou o marido dela, e por vários motivos, resolvemos que eu ia começar a escrever aqui, tratar dos assuntos que eu quero tratar e que, de uma forma ou de outra, estão relacionados ao meu dia-a-dia com a Maria.
Pra começar, deixa eu falar sobre bigamia. É bem chato ficar falando "minha esposa" pra lá e "Maria" pra cá, sabe por que? Porque eu sou monógamo por natureza, e esse não é o nome da mulher com quem eu me casei, a mãe dos meus filhos.  Tudo bem, eu entendo que a internet é uma exposição desnecessária e que ter um transtorno alimentar não é motivo de orgulho (tirando um povo aí que acha isso o máximo até perceber que a merda chegou na altura da boca), e que é mais seguro, mais cômodo, se esconder atrás de uma alcunha.

Eu repito: eu entendo.  E entender, me permite perceber que meu amor é um único "algo" que se divide entre essas duas mulheres, esses dois papéis que ela vive todos os dias: o de esposa com quem eu durmo e acordo, que é minha companheira, minha amiga, minha amada e desejada esposa, com quem eu insisto em tentar transar pelo menos umas 3 ou 4 vezes por semana. E o da Maria Finding, uma mulher que reconhece publicamente ter um TA e que é corajosa e tremendamente decidida a mudar a própria vida, que encontrou forças de um além que só ela sabe onde está, uma lutadora, uma pessoa sensível as vezes até demais, com uma percepção fora do comum. Uma brava mulher que passa 30 minutos escrevendo uma mensagem para alguém que ela acha precisar no facebook ou horas lendo sobre formas de achar uma cura.

Ressalte-se: ambas têm defeitos. Somados, dão provavelmente metade dos que eu tenho, mas eles simplesmente desaparecem frente as qualidades que as envolvem. E esta é minha percepção; como eu vejo as coisas; ou pelo menos como eu vejo as coisas agora.  Até porque se não fosse assim eu já tinha caído fora.

Então o chute na porta é simples e direto - pois dizem que as vezes eu sou grosso no jeito de falar - o assunto do blog não muda, mas muda a perspectiva. Enquanto a proprietária fala dela e bla bla bla, eu falo - DO MEU JEITO - de como eu me sinto quanto à bulimia e tudo que gira em torno dela, nosso cotidiano, do blog em si, dos reflexos disso tudo na nossa família, nos filhos, na casa, enfim, vai ser tipo um blog dentro do blog, sacou? Um assunto, duas visões. Na física diriam que isso é um prisma. Você não é burro, já deve ter entendido.  Mas só pra ficar claro, vai ser igual o closet da nossa casa. Ela tem umas quatro portas, e eu fico com duas gavetas. Agora: eu as arrumo como eu quero.

Em resumo então. 1, prazer em conhecê-la(o), espero nos encontrarmos por aqui. 2, não se incomode com os palavrões, eu que sou desbocado, não você. 3, não se incomode com minha opinião, mostra ela pro seu companheiro(a) e manda ele(a) vir conversar comigo.

Ah, o título original dessa postagem era "Minha Primeira Postagem", mas a Maria Finding pediu para eu trocar. Depois me conta o que você achou dela (e qual título você gostou mais). Pode meter o pau, viu?!.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Recomeçando


Dias difíceis, vontade zero de escrever durante os últimos dias. Apesar de não estar escrevendo nada, minha cabeça anda fervendo de pensamentos e análises.  O problema é que não estava conseguindo colocar no papel os pensamentos que muitas vezes estavam tão confusos e desanimadores.

Percebo que fugir do blog é uma negação ao meu tratamento. O tratamento da forma mais ampla, não apenas no que se refere ao comer e vomitar. É a concretização da negação ao meu compromisso de TENTAR, sem perfeição. De apenas tentar. Poderia justificar a minha ausência com a falta de tempo. Seria mentira se eu dissesse que estou com menos horas por dia, pois para todo mundo o dia tem 24 horas, o meu continua com 24 horas. A verdade é que ao escolher mudar para uma casa eu utilizo duas horas do meu dia no transito, o que me dá essa sensação de falta de tempo. Isso estava me deixando muito irritada. Mas eu escolhi isso, certo? Então preciso engolir meu choro e entender que tempo é prioridade, escolha.  Preciso conseguir me organizar e fazer o que posso dentro do tempo que tenho.

Fazer o que posso. O que posso e não o que quero ou como quero. Eis a questão. Deixar de lado o ideal e ter o real, o possível. Bom, dentro desse pensamento, resolvi escrever o possível hoje.

Ontem tive um dia bem difícil. Sabe aqueles dias que você se depara com milhões de situações foda da vida? Então, este foi o meu dia. Tive uma grande frustração e foi super difícil encarar isso de frente. Além disso, recebi milhões de mensagens duras do universo de que a vida é frágil e se a gente não cuidar dela ela escapa de nossas mãos. Senti uma tristeza enorme pelos acontecimentos que apareceram diante de meus olhos. Pensei sobre tudo e lembrei de mim, da minha dor, da prorrogação do meu sofrimento que, de certa forma, permito ocorrer. Tive raiva, ódio. Senti culpa, remorso.

Quantas vezes produzi efeitos negativos na minha vida e mesmo assim continuei a produzi-los? Quantas vezes ainda faço isso? Por que não basta saber as consequências físicas para parar? Porque eu preciso sempre chegar ao fim do poço, para só então alcançar o chão e dar meu impulso para voltar à superfície e enfim continuar a respirar???  Esse último mês, senti, novamente, na pele a consequências físicas da minha doença. Passei horas e horas no dentista. Me senti completamente idiota e impotente.  “Aqui, achei outra cárie”. “ Esse dente está todo comprometido, a cárie alcançou a raiz, teremos que fazer um canal.” “Aqui conseguiremos fazer uma olay.” “Aqui um bloco resolve.” “Restauraçao finalizada.” “Canal finalizado.” “Que pena, este dente também será um canal.”  “Vamos torcer para que não atinja a raiz.”

Sinto vergonha pelo que fiz com meu corpo. Mas sinto tristeza por não dar conta de parar de vez de fazer tudo que faz mal a ele.  Até tenho consciência de muitos motivos que me levam a manter meus sintomas, mas sabe-los ainda não está de fato fazendo com que eu consiga mudar de atitude da forma e na velocidade que eu gostaria. Odeio isso. Odeio ver meu dentes estragados, meu cabelo caindo, minha pele seca e envelhecendo mais rapidamente que das outras pessoas. Odeio minha gastrite, meu refluxo, prisão de ventre, perda de memória, arritmias cardíacas, fraqueza, etc.  Acho que pela primeira vez as consequências físicas me incomodam a ponto de eu dizer não quero mais. Talvez porque agora já está tudo fudido. Alguém vai acabar, basta saber quem vai acabar primeiro.