domingo, 29 de julho de 2012

Desafios da viagem - Relacionamento com meus pais

Acabei de voltar de uma viagem e gostaria de compartilhar minhas emoções com vocês. A viagem foi de sete dias. Estavam presentes, eu, meus filhos, meu pai e minha mãe. Meu marido não pode ir devido ao trabalho. Fomos para a cidade da minha mãe, uma cidade de praia, local onde tenho família, primos e tios. Para mim, os dias anteriores à viagem já foram bem complicados. Eu fiquei extremamente ansiosa, com medo e receio de quase tudo. Como conseguiria seguir meu plano alimentar? Como conseguiria me manter em recuperação? Como ficar tantos dias perto da minha mãe e do meu pai sem estresse? Como aguentar sem meu marido por perto? Como dizer para minha família que não quero comer tantos bolos, pizzas, sururus, camarões, cuscuz, etc? E se eu não conseguisse malhar nenhum dia? Como conseguiria comer de 3 em 3 horas tendo que ver meu corpo de biquíni todos os dias? Dá para perceber que eu estava apavorada, né? 

Então, a viagem não foi apavorante como eu imaginei. Aos poucos fui desmistificando certas crenças. Consegui superar muitos medos e curtir vários momentos. Isso foi libertador. Talvez um dos aspectos mais gratificantes da viagem tenha sido o meu contato com meus pais e a análise que pude fazer sobre o nosso relacionamento. Bom, fazia dez anos que eu não conversava com meus pais sobre meu transtorno alimentar. Eles nunca mais haviam me perguntado como eu estava e eu nunca havia mais dito nada a respeito. Isso me deixava extremamente magoada, mas ao mesmo tempo eu achava conveniente, uma vez que eu não me sentia “cobrada” para que eu mudasse minha atitude em relação ao meu problema.

Durante a viagem resolvi abrir meu coração. Contei para eles como eu estive nos últimos 10 anos (pois eles conheciam apenas meu TA durante os 10 anos em que vivi com eles). Contei como eu comia compulsivamente e vomitava todas as refeições. Que eu não havia parado e nem diminuído desde que eu saí da casa deles, pelo contrário, que as compulsões haviam aumentado e que a intensidade das crises era de 5 a 8 vezes por dia, todos os dias. Contei também sobre a minha mudança de comportamento nos últimos 60 dias e minha luta pela recuperação. Falei sobre as informações e inspirações que encontrei na internet. Falei que estava seguindo um plano alimentar feito por uma nutricionista (com 3 refeições e 3 lanches, sem vômitos!!!). Confessei que ainda tinha compulsões uma vez ao dia, quase todos os dias, que o processo ainda seria longo e que eu sabia disso, mas não iria desistir, estava confiante. Falei sobre as pessoas e grupos online que eu havia encontrado e que estavam me ajudando muito. Falei do blog, etc... 

Escolhi um momento apropriado para conversar com cada um deles, de forma separada, pois minha relação com cada um deles é bem diferente. Bom, no primeiro momento os dois tiveram a mesma reação, ficaram apenas calados, escutando, atônitos. Acho que a palavra mais positiva que ouvi foi “que bom”. Nossa... No começo, fiquei arrasada. Quase arrumei uma desculpa para ir ao supermercado mais perto, me empanturrar de comida e vomitar toda a minha frustração. Mas decidi que antes de comprar a comida, eu iria tentar meditar, tentar pensar, e se ainda estivesse me sentindo mal, sim, eu comeria tudo na minha frente e vomitaria... (este não é o meu conselho para ninguém, esta é apenas a forma como eu pensei). Deu certo!!! 

Meditei, me acalmei, depois tentei avaliar o que estava acontecendo e percebi que a minha frustração estava diretamente ligada a minha expectativa. Eu imaginei que ao falar com meus pais eles iriam agir comigo da forma como vemos as coisas acontecendo em filmes: iríamos nos abraçar, chorar, conversar durante horas, eles iriam pedir desculpa pelo tempo que não estiveram “presentes”, eu iria pedir desculpa pelos meus erros, enfim... imaginei um conto de fadas, risos. Criei expectativas e expectativas são uma merda. 

Saindo da situação, e me vendo de fora do “filme”, consigo entender o motivo dos meus pais ficarem calados. Eles simplesmente não sabiam o que fazer. Eles estavam com medo e eles têm direito a ter medo!!! Medo de falar qualquer coisa que pudesse de alguma forma atrapalhar meu processo, medo de que eu pudesse acusa-los de não dizer a coisa certa. Tenho certeza que eles sofrem por me ver sofrendo. Eu preciso respeitar o sofrimento deles e a forma como eles lidam com o meu problema. Sempre fiquei muito chateada quando eles não me respeitaram, mas, e eu estava respeitando eles? Eles têm o jeito deles, cada um tem sua própria limitação, seus próprios sentimentos, seus próprios medos. 

Naquele momento, entendi que eles estavam felizes por mim, e ficar calado, ou quase calado, era o jeito que eles encontraram para me proteger, ou para protegerem a eles mesmos. Lembrei tanto da música do Legião que diz “Você culpa seus pais por tudo, isso é um absurdo! São crianças como você, o que você vai ser quando você crescer?”. Acho que entender isso foi libertador!!! Não precisei ir ao supermercado. Fiquei bem. 

Essa conclusão me deixou aberta para que eu e meus pais conversássemos em várias outras ocasiões da viagem sobre a minha trajetória, um pouquinho de cada vez, de forma bem natural. Aos poucos percebi que eles estavam bem felizes com meu processo. Deixei as expectativas de lado. Não foquei meus ouvidos nas frases ou conselhos que me desmotivam, inclusive, consegui até dizer para eles, de forma não acusatória, que certas frases, para mim, não me faziam bem, e que eu estava escolhendo meu próprio caminho e seguindo meu coração. Se eu tivesse ido ao supermercado, talvez, seriam mais 10 anos de silêncio, acusação, culpa e ressentimento.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Relacionamentos amorosos e a bulimia


O meu comportamento com a comida é similar a meu comportamento em outras áreas da vida? Fazendo uma avaliação  (dos últimos 20 anos) de como foram os meus relacionamentos amorosos, posso concluir que há muita similaridade entre meu comportamento com a comida e minha forma de agir na minha vida afetiva.

Durante anos, meus relacionamentos amorosos foram intensos e muitas vezes não saudáveis. Era o ciclo da bulimia se repetindo: compulsão e purgação. Eu queria tudo ou nada. Envolvia-me de forma intensa com meus parceiros, me apaixonava, eles se apaixonavam, tudo era muito forte. Mas ao sinal do primeiro problema, eu simplesmente os abandonava, eu desistia do relacionamento por achar que este já não fazia sentido, dizia que não mais os amava. Fiz isso repetidamente.

Estas relações foram fruto do que acreditava ser uma forma de “proteção”. Hoje vejo que eu estava me boicotando, pois eu tinha uma visão completamente distorcida do que seria esta proteção. Do que eu fugia de fato? De amor? De ser amada? De ser abandonada? De ser compreendida? De revelar meus segredos? De ser aceita? De não ser aceita? Por que eu não me envolvia, de fato, com as pessoas com que eu me relacionava?  

Meus namoros (exceto com meu marido) sempre duraram apenas até a fase da paixão, sempre foram baseados na carne.  Tenho a sensação de que não conheci intimamente nenhum dos meus parceiros e tenho certeza que nenhum deles me conheceu. Meus relacionamentos eram similares com a forma que lido com a comida, me alimento compulsivamente sem perceber de fato o gosto de cada mordida, mas sentindo um prazer, um estase pela intensidade. Depois, quando vem o incomodo, simplesmente me dou o luxo de jogar tudo fora, purgo tudo. A diferença é que nos relacionamentos, eu fazia isso com pessoas.  Egoísta!!! Sim, fui egoísta milhões de vezes, lembro-me de repetir diante da primeira reclamação a frase “Se você não estiver satisfeito, pode ir embora!!!”.

Acho que no fundo eu tinha medo de ser abandonada, então eu preferia abandoná-los antes que eles me abandonassem. Eu não queria me expor e por isso não me envolvia com a intimidade espiritual e psicológica dos meus parceiros (os antigos), pois tinha medo que eles fizessem o mesmo comigo. Então eu mantinha os meus relacionamentos só baseado no carnal, não digeria nada. Assim como faço com a comida: como, engulo, mas vomito, não digiro. Bom, na verdade, isso era como eu fazia. Hoje, após iniciar minha trajetória rumo à recuperação, já consigo me alimentar, não vomito todas as vezes que como, digiro os alimentos e evacuo normalmente.


Bom, essa forma de agir com os meus parceiros mudou ao conhecer meu marido. Ele foi meu mentor para que eu mudasse. Lembro-me do momento em que eu disse para ele minha frase preferida “se você não estiver satisfeito, pode ir embora!!!”, ele me respondeu “isso você fez com todos os outros, eu não vou a lugar nenhum. Ficarei e vamos resolver tudo.” Todas as vezes que mandei ele embora, ele ficou, ele acreditou em mim, ele me aceitou, antes mesmo que eu me aceitasse. Quando contei para ele sobre o TA, ele disse que já desconfiava e que isso não mudava em nada o que ele sentia por mim.

Aprendi muita coisa com ele, muito sobre amor, aceitação, respeito, limites. Aprendi que o amor é possível. Compreendi que posso ter alguém do meu lado que sabe quem eu sou e me ama, apesar dos meus defeitos. Isto não significa que a pessoa precise gostar e aprovar todas as coisas que eu faço, mas ela pode me amar e me respeitar independente das minhas escolhas. Aprendi que o amor não precisa ser uma montanha russa de sentimentos, e isto não significa que ele não é profundo e intenso.

Em relação à comida ainda tenho muito a aprender, assim como em relação a outras áreas de minha vida... mas a aprendizagem que tenho tido e tive na área amorosa me traz esperança de que a mudança é possível. 


segunda-feira, 16 de julho de 2012

Engula seu orgulho, ele não engorda!!!


Bom, acho que tenho que confessar uma coisa bem difícil, mas vamos lá: tenho muita dificuldade em pedir ajuda. Será que sou orgulhosa? Eu não me considerava uma pessoa orgulhosa, inclusive internamente, sempre critiquei pessoas assim. Mas peraí... me avaliando, analisando a forma com que eu uso meu transtorno alimentar, vejo que me agarrei muitas vezes ao TA (de certa forma) por orgulho e arrogância.

Pode até parecer confuso para alguém que não conhece a fundo os motivos que podem levar alguém a utilizar o transtorno alimentar. No meu caso, eu usei (e ainda uso) a bulimia para esconder minhas fraquezas e para não precisar pedir ajuda. Por medo, por vergonha e também por falta de humildade. Por mais contraditório que pareça, minha bulimia se tornou um escudo, uma proteção contra as pessoas. Meu orgulho e minha arrogância me levaram a fazer tudo sozinha, utilizando para isso minha “varinha mágica”: a bulimia. 

Quando eu me sentia fraca ou desprotegida, era para a bulimia que eu pedia “ajuda”.  Eu tinha a falsa sensação de independência, achava que a utilizando eu estaria mais poderosa, forte, competente, segura, equilibrada. Tudo, tudo mentira!!! Quanta ilusão. O meu orgulho e a minha arrogância em querer esconder de mim e dos outros minhas falhas me transformaram em uma pessoa vulnerável, fraca, insegura, desequilibrada, egoísta, mentirosa.  O feitiço da “varinha mágica” se virou contra o feiticeiro.

Agora estou aqui, perdida. Me sinto neste imenso vazio. Descobri que minha fortaleza foi construída com tijolos de vidro, e de tão frágeis, só restaram cacos espalhados pelo chão. Preciso limpar a sujeira que restou, colher os cacos que sobraram e torcer para que nenhum inocente seja ferido ao passar por este caminho cheio de estilhaços quebradiços e cortantes. 

Claro que largar o transtorno alimentar me traz medo, insegurança e me dá uma sensação de vazio. Mas o meu TA estava aumentando ainda mais estas sensações. Não posso mais vender minha alma. Preciso abrir mão do que tenho hoje para receber o que está por vir. Quero deixar de lado as atitudes que já não me completam, as situações desconfortáveis, a busca pelo reconhecimento e isso implica em abandonar a bulimia e tudo que vem junto com ela.

Mas tenho que confessar que ainda tenho muita dificuldade de dizer: “preciso de ajuda”. Bom, posso voltar lá na minha infância para justificar isso... mas quer saber?... já estou crescidinha, não é verdade? Consigo entender que a minha forma de agir foi apenas uma máscara para tentar compensar outros problemas que tenho (baixo autoestima, insegurança, aceitaçao, etc.).  Mas saber disto não significa que já consigo pedir ajuda com facilidade. Por exemplo, hoje, meu marido precisou voltar para o trabalho (ele trabalha em outro estado). Nos últimos 20 dias, ele esteve comigo e com meus filhos, o que foi maravilhoso. Ele tem me ajudado muito no meu processo de recuperação. Inclusive sou super grata à ele por tudo que ele tem feito: por estar do meu lado; por não me julgar; por me escutar; por me ouvir chorar; por me suportar, até mesmo quando nem eu me suporto mais. Agora sei que passarei por um momento em que, muito provavelmente, terei que achar outras pessoas para me ajudar quando for necessário. E isto me assusta.

Agora preciso exercitar a humildade. Precisarei entender quando é a hora de pedir ajuda, de reconhecer minhas limitações. Sei que estou em um momento frágil e, agora, mais que nunca, minhas falhas estão sendo colocadas em evidência. Me sinto nua, despida, desprotegida. Mas agora é a hora da aprender. Aprendizagem, para ser real, precisa ser feita com teoria e prática.

Bom, já sei que preciso sair da minha zona de (des)conforto, mas ainda não consegui exercitar o pedir ajuda em momentos de extrema dificuldade, ainda estou tentando fugir, utilizando meu TA. Mesmo que eu já tenha evoluído no meu processo de recuperação, hoje percebo que o que ainda me mantêm presa às compulsões e vômitos são as mesmas coisas que me mantiveram no passado. Ainda há muito orgulho em mim, que me deixa triste, pois agora consigo ver isso claramente.


Recentemente, uma amiga postou em seu facebook uma frase que me fez pensar “Engula seu orgulho, ele não engorda!!!”. Bom, preciso colocar isto em prática. Fran, mais uma vez, obrigada, pelo seu carinho e pelos alertas que me fazem pensar.   

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Imperfeição, erros e aceitação - um caminho a aprender



Quando falei com meu analista que gostaria de trabalhar intensamente em busca de tudo que estivesse me mantendo presa ao meu transtorno alimentar, rapidamente cheguei a minha mania de perfeição. Bom, adoraria dizer que esta característica não se aplica ao meu caso, mas não posso, pois não seria verdade. Tenho de confessar que não me agrada quando percebo que tenho várias das características consideradas comuns aos portadores de transtornos alimentares. Odeio rótulos!!! Acho que os rótulos deixam as pessoas engessadas, criam estigmas, e isso não é nada bom.

Em consequência disso, eu sempre tive medo de me enquadrar nestas teorias. Isso fez com que eu ignorasse ou até negasse algumas das característicasde minha personalidade. Acreditei que uma vez definida (ou rotulada) a minha personalidade eu jamais poderia mudar meus comportamentos. Não me dei conta que a personalidade é formada pelo conjunto de comportamentos repetitivos. Mudar comportamento é difícil (principalmente aqueles a que estamos habituados e a que nos prendemos pelos mais diversos motivos), mas é possível.

Sou testemunha de pessoas que mudaram suas vidas com força de vontade e hoje escolheram uma vida melhor, mais plena. Eu mesma já mudei muito. Não preciso negar quem eu sou, nem o que sinto, pois posso escolher como irei agir, diante de como estou sentindo. Isso faz com que eu consiga me olhar mais intimamente e me enxergar por inteira. Não preciso ter medo. Estou começando a praticar esta forma de agir e estou mais preparada para me aceitar.

Hoje, consigo admitir que já fui muito perfeccionista e ainda tenho muito desta característica em mim (mesmo quando quero abafar isto dentro de mim). Não vejo o perfeccionismo de forma saudável (pelo menos para mim nunca foi). Não sei lidar com o fracasso e odeio cometer erros. Tenho dentro de mim esse sentimento de insatisfação perpétua. Sempre acho que tudo pode melhorar, dificilmente penso que o que faço é bom o suficiente. Durante anos tive como lema a frase “o bom é inimigo do ótimo”, e por achar que o meu trabalho estava apenas bom, eu deixava ele engavetado.

Mas afinal de contas o que seria a perfeição? Quem julga o que é perfeito? Não seria a perfeição subjetiva? Por exemplo, qual o chocolate com sabor mais gostoso e perfeito que existe? Qual a obra de arte mais bonita e perfeita do mundo? Claro que cada pessoa terá um julgamento para cada uma dessas perguntas. O veredito será completamente diferente dependendo de quem julgar.

No meu caso, a perfeição ainda esteve associada a outro problema: a necessidade de aprovação dos outros. Em algum momento da minha infância eu passei a acreditar que para ser amada e aceita eu precisaria ser aprovada pelos outros. Por motivos pessoais, pela forma como eu interpretei e senti tudo que vivi na minha infância, eu me tornei insegura em relação ao amor. Esta insegurança gerou em mim a necessidade de aprovação externa. Fiquei excessivamente sensível às opiniões e as criticas dos outros. Para tentar me defender, então, eu busquei a perfeição. (Claro que as raízes do meu perfeccionismo são muito mais profundas que isto).

Eu nunca confiei no meu julgamento, então buscava no olhar do outro uma resposta para saber se o que fiz estava “ruim, regular, bom ou ótimo”. Adivinha só? Se uma única pessoa dissesse que ficou apenas “bom”, seria o suficiente para eu considerar a minha obra uma merda. Esta é a forma como eu me sentia. Bom, hoje, lentamente, venho buscando superar isto. Sim, estou muito melhor do que já estive. Mas tenho muito ainda para evoluir.  

Antes eu não percebia que meus erros, ou mais especificamente as críticas que eu recebia, eram oportunidades para meu crescimento. Oportunidades que eu poderia aproveitar. A minha dificuldade de lidar com minha imperfeição, de aceitar as críticas, de corrigir os erros de melhorar com meus fracassos, me mantiveram parada. Hoje, percebo um lado positivo na imperfeição, nos erros. São meus erros que me mostram em que preciso melhorar, onde não quero mais ficar, o que posso corrigir. Minhas imperfeições me ensinaram muito sobre quem sou, como não quero mais me comportar, para onde não quero voltar, e o que não mais fazer. Elas não me enfraquecem, pelo contrário elas me fortalecem a cada dia que eu as aceito e aprendo com elas. Não quero mais ignorá-las, quero sim aprender com elas. Pois ao invés de vê-las como inimigas, posso enxerga-las como mestre. Inclusive, hoje, elas não me paralisam mais, pelo contrário, elas me impulsionam e me incentivam a continuar minha trajetória.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Recuperação: um caminho a ser trilhado



Em algum momento, durante os anos com o transtorno alimentar, acho que perdi minha essência, minha identidade. Ao esconder de mim os meus sentimentos eu fui me moldando em algo que eu não era, em algo que não me reconheço. Percebo, agora, que não sei ao certo quem sou ou em quem irei me transformar. Tenho medo dessa nova pessoa que está aparecendo, tenho medo do que vou encontrar.

Gastei muito tempo envolvida com minha bulimia e as mentiras dela decorrentes.  Utilizei muito tempo em meus pensamentos obsessivos sobre: onde comprar a quantidade excessiva de comida que comeria, como prepará-la, quando prepará-la, onde vomitá-la, quando vomitá-la, como disfarçar tudo isso.  Assim fui me anulando. O meu tempo já não era meu, era dela, da bulimia.

No momento que percebi que a bulimia estava me controlando. Que o monstro que eu criei estava ficando mais forte que eu mesma, a ficha começou a cair. Ainda não consigo imaginar uma vida sem meus rituais bulímicos, mesmo sabendo o quão sofrido e agoniante é esta vida.  Mas também não consigo imaginar continuar vivendo com o meu transtorno alimentar. No momento me sinto perdida, em um limbo.  

Não sei ao certo quem sou e para onde vou. Estou com mil medos e incertezas. Mas tenho uma certeza: sei onde não quero ficar, mesmo não sabendo como será. Acredito que o mundo está sempre em movimento, e isso, de certa forma, significa que todo mundo está sempre mudando, criando novas identidades, se redescobrindo. A vida é uma jornada de autoconhecimento constante, minuto após minuto. E sempre podemos mudar nossos caminhos. Recentemente, uma alma iluminada me deu o seguinte conselho: “Sem essa de achar que recuperação é um lugar onde se chega: não é. É um caminho que se trilha.” Não quero nunca perder isso de foco. Meu caminho eu decido a cada dia, com cada passo, a cada instante, não chegarei a lugar nenhum, pois não existe lugar a se chegar, mas sim um caminho a se trilhar diariamente. Sabendo disso, vou continuar minha caminhada... me redescobrir, me reencontrar, me aceitar com todas as qualidades e defeitos, e continuar me reencontrando a cada dia e seguindo, seguindo, seguindo. Obrigada, minha bruxinha do bem, Flávia!  Excelente lembrança. 

domingo, 8 de julho de 2012

Desafio: jantar com os amigos (sem vomitar) – batalha perdida


Incompetente. É assim que tenho me sentido desde ontem.  Ontem eu encarei um desafio que eu já sabia que estaria por vir. E eu fracassei.  Hoje, estou me sentindo muito mal. Triste, com vontade de me isolar, de me castigar. Estou sentindo uma dor no meu peito que conscientemente sei que é grande demais para uma falha que eu não deveria considerar tão grande assim, quando comparado com o progresso que venho feito nos últimos dias.

Como vocês sabem, eu comia e vomitava de 5 a 8 vezes por dia, todos os dias. Essa marca vem diminuiu para uma vez ao dia. No entanto,  eu só consegui ficar sem vomitar durante as 24 horas, apenas por 7 vezes (desde que eu comecei a minha trajetória).  Talvez o desafio e a expectativa de passar 24h sem vomitar no dia do jantar com meus amigos tenham sido altos demais para este momento.  Não é sem motivo que existem diversos aconselhamentos para que sejam dados passos de bebês durante a recuperação do transtorno alimentar.  Eu sei de tudo isso. Mas me senti mal. Muuuuuito mal. Odeio  traçar metas, objetivos e não alcança-los. Tendo a ser muito rígida comigo.

Por causa da minha falha e da expectativa não cumprida, hoje está sendo um dia particularmente bem difícil. De alguma forma paradoxal, sofro por sentir falta da bulimia, do alívio que ela me proporcionaria em momentos como este, da forma que ela me castiga sem que ninguém perceba, da anestesia e da alienação que ela me oferece, quando tudo que mais quero é esquecer-me de tudo.


Mas SÓ POR HOJE, EU DECIDO: não vou utilizar a bulimia.  Assim farei a cada dia.  Recomecerei a cada manhã.  Não vou evitar o desconforto de emoções difíceis.  O fracasso dói, dói muito,  mas jamais aprenderei a enfrentá-lo, sem encará-lo.  


Ainda não sei como será minha vida, ainda estou aprendendo e experimentando novas formas de lidar com meus sentimentos. Ver, reconhecer, entender e aprender a lidar com o que tenho de feio, não vai ser fácil. A bulimia escondia tudo isso para mim.


Em relação ao jantar, o que posso dizer é que fiquei triste e deprimida. Agora, porém, após escrever este post, me sinto um pouquinho melhor. Vou tentar analisar o que aconteceu na noite de ontem, avaliar meus sentimentos, pensamentos e o que desencadeou a minha crise.  Para tanto, utilizarei a técnica (baseada na terapia cognitiva-comportamental) proposta por uma pessoa muito querida, que cruzou o meu caminho recentemente.  Obrigada, Fran!!!

sexta-feira, 6 de julho de 2012

A bulimia e as fezes - novo uso para a privada


Eu queria falar sobre cocô. Eu sei que quase ninguém fala sobre isto, que este é um assunto tabu. Mas estou a algum tempo pensando no tema e como isso não sai da minha cabeça, resolvi escrever.  Antes de iniciar minha jornada rumo à recuperação, eu posso dizer que minhas fezes não eram, assim, “normais”. 

Dizem que pelas fezes é possível descobrir alguns problemas de saúde. Durante os últimos 20 anos, meu cocô nunca apresentou as características consideradas pelos profissionais de saúde como esperadas. Ou eu tinha prisão de ventre, ou eu tinha diarréia. Simples assim. Claro que eu não quis associar meus hábitos de evacuação com meu transtorno alimentar. Eu queria achar uma doença para meu problema. Outra doença, claro, pois assim eu não precisaria culpar a bulimia por estar me maltratando mais uma vez.

Fui a médicos, fiz muitos exames. Não encontrei outra doença. Encontrei, sim, um esôfago maltratado, início de uma úlcera, colo do intestino inflamado, etc... Mesmo depois de muitos, muitos exames, eu não conseguia me livrar do pensamento obsessivo de que eu tinha outra coisa. Sabia que meu mal estar não era normal, meu cocô não era normal, minha diarreia crônica ou meus longos períodos sem evacuar não podiam ser normais.

Achei que estava muito doente. Queria achar o motivo. Só que o motivo estava na minha cara. Eu sabia, mas não queria admitir. Mais uma vez estava “tampando o sol com a peneira”. Como os exames não apontaram nada, eu tive que me calar, mas volta e meia eu ainda buscava uma nova evidência para que pudesse levar a minha médica e perguntar “será que não é isso que eu tenho?”.  

Há mais de um mês, deixei de lado a busca obsessiva pela minha doença intestinal. Aceitei que tenho um transtorno alimentar e isso faz com que consiga enfrentar e lutar contra suas  consequências. Isso muda tudo, a começar pelo cocô!!!

Eu poderia fingir que a mudança do meu cocô está passando despercebida, mas não está!!! Nunca, nunca fui tão feliz ao evacuar. Eu sei... parece um exagero, mas fazer o que? Para mim está sendo assim, exageradamente, gratificante, comer, DIGERIR, e EVACUAR.  Eu sei, estou parecendo uma adolescente comemorando uma coisa tão primitiva. Mas estou feliz. Sinto-me VIVA. Meu cocô é a prova de que estou funcionado, deixei de sobreviver para viver, digerir, evacuar.

Posso buscar todas as razões psicológicas para estar evacuando de forma saudável, tenho conversado sobre este assunto com meu analista. Mas não posso deixar de levar em consideração os aspectos físicos. No último mês mudei bastante minha alimentação. Pela primeira vez, depois de 20 anos, estou comendo e mantendo o alimento dentro do meu corpo (antes eu vomitava todas as refeições que fazia). Agora, pela primeira vez, após 20 anos, existe no meu corpo comida para ser digerida, processada e evacuada.

Estou fazendo as pazes com a privada. Reaprendendo o utilizá-la. Dando um novo uso para ela. Um uso que me deixa mais feliz. 



terça-feira, 3 de julho de 2012

Rumo à recuperação: fazendo as pazes com a comida


Na minha vida, eu só conhecia duas formas de alimentação: não comer nada ou comer compulsivamente e vomitar. Bom, se é que isso pode ser chamado de alimentação, não é verdade? Sempre que eu comia, eu precisava vomitar. Para mim, isso era natural. Eu acreditava que era parte do meu processo digestivo: mastigar, engolir e vomitar. Antes de começar o blog e iniciar essa jornada rumo a cura, eu comia compulsivamente de 5 a 8 vezes diárias e vomitava todas elas, hoje, essa média diminuiu e minhas crises diárias estão cada dia menores (média de uma vez ao dia). 

Para entrar, verdadeiramente, na jornada contra a doença eu precisava aprender a comer e não vomitar. Caso contrário, eu correria o sério risco de desenvolver outro transtorno: a anorexia. No passado, em uma outra tentativa de me recuperar, eu fiquei anoréxica durante alguns meses, perdi muitos quilos e acabei retornando à bulimia. Foi muito ruim., or isso, dessa vez, me mantive consciente sobre a necessidade superar esse desafio.

Depois de muita leitura e pesquisa, verifiquei que os especialistas sugerem que pessoas em busca da cura da bulimia devem fazer uma espécie de reeducação alimentar, fazendo um planejamento estruturado de alimentação (com orientação de um nutricionista). Basicamente, eles sugerem que sejam feitas três refeições e três lanches por dia, todos os dias! Claro que eu quase pirei com essa orientação. Como assim??? Comer seis vezes por dia sem vomitar??? Eu não conseguia comer dessa forma por nem um dia da minha vida, eu pensava. Como conseguiria chegar a essa marca? Achei um absurdo!

Decidi que iria fazer o meu melhor. Na primeira semana não me preocupei em alcançar seis refeições diárias. Apenas me preocupei em comer e não vomitar. Para mim isso já foi um avanço! Comemorei a cada refeição que fiz sem vomitar. Claro que sem me iludir que ainda teria grandes desafios. Com o tempo fui ganhando confiança e fui aumentando o número de vezes que fui capaz de me alimentar e de não provocar o vômito. Percebi que isso não era tão ruim. Fui enfrentando meus medos e eles estão ficando menores. Claro que esse processo não foi fácil e ainda não é. Já estou comendo três refeições e três lanches por dia, todos os dias sem vomitar. Para evitar que eu fique neurótica em relação ao meu peso eu deixei de contar calorias. Simplesmente não penso nelas. Sei que esse passo foi bem grande para mim. No entanto, ainda é pouco diante o que ainda irei passar. Também me proibi de subir em qualquer balança.

Tenho consciência que ainda evito vários alimentos, mesmo sem contar as calorias. Morro de medo de comer em eventos sociais. Tenho a sensação que todos estão me vigiando. Isso porque eu estou comendo de forma diferente do que comia antes da busca pela cura. Antes de iniciar minha jornada eu comia de tudo a toda e qualquer hora (claro que vomitava tudo depois) e agora estou evitando certos alimentos. Ainda tenho pânico (vergonha) que as pessoas descubram que eu tenho bulimia.

Para chegar até aqui, fui colhendo várias dicas e evidências que de alguma forma me fortaleceram. Vou dividir com vocês as dicas e os conhecimentos que me ajudaram (principal fonte: Bulimia.help):

  •  Obter um fluxo constante de nutrição evita compulsões futuras.
  • Comer regularmente aumenta o metabolismo.
  • No início, não é necessário comer muito. Pequenas refeições são mais fáceis de comer e vão fazer você se sentir menos cheia. Isso vai ajudar você a não vomitar.
  • Comece agora.  Nunca mais deixe para amanhã. O amanhã nunca chega.
  • Seu estômago pode precisar de um tempo se acostumar e isso pode levar tempo. Tenha paciência e perseverança.
  • Lembre-se dar passos de bebê e fazer pequenas mudanças graduais.
  • Nunca se compare com os outros. Cada pessoa tem um processo diferente de adaptação.
  • Esqueça a balança
  • Esqueça as calorias
  • Se possível, procurar um nutricionista que te ajude a criar um plano de refeições.
  • Planeje suas refeições com antecedência
  • Escolha alimentos que você sente confortável, principalmente na fase inicial.
  • Evite ficar mais de 3-4 horas sem se alimentar. Espaçamento entre as refeições é importante na prevenção da compulsão. Este período tem a ver com o processo de esvaziamento do seu fígado para manter os níveis de glicose no sangue com carboidratos armazenados.
  • Se estiver com fome, coma. A vontade não saciada pode aumentar a compulsão.
  • Essa dica me ajudou muito a iniciar o meu processo, foi dada pelo meu marido: “Faça apenas uma experiência, não pense que o que você está fazendo é definitivo, caso você não consiga, você poderá sempre voltar ao seu antigo estilo de comer”. Pensar dessa forma foi um alívio para mim. Tirei o peso do processo e fui experimentando e fui vendo que é possível. 

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Rumo à recuperação: primeiro mês


Um mês se passou, foram muitos desafios, alguns tropeços e por que não dizer muitas conquistas? Como vocês sabem, tenho bulimia há 20 anos. Antes de começar o blog e iniciar essa jornada rumo a cura do transtorno alimentar, eu comia compulsivamente de 5 a 8 vezes diárias e vomitava todas elas (veja gráfico - linha azul). Hoje, essa média diminui e minhas crises diárias estão cada dia menores (ver gráfico – linha vermelha).

Segue abaixo a tabela resumo da minha jornada no mês de junho. Uso ela para que eu não perca a “grande figura”. Quando acho que estou fracassando volto e olho aqui. Vejo o que quanto já superei, então percebo que posso seguir. 




Processo de Recuperaçao
Dia
 Crises bulímicas
Exercícios
Observações gerais
29/05/2012
2
Descanso

Enjoo muito forte, agitação, suor, tremedeira, angústia, pensamento obsessivo.
30/05/2012
1
Corrida – 30 min
Enjoo muito forte, agitação, suor, tremedeira, angústia, pensamento obsessivo.  Arrotos e refluxo.
31/05/2012
1
Descanso

Enjoo muito forte, agitação, suor, tremedeira, angústia, pensamento obsessivo.  Arrotos e refluxo.
01/06/2012
1
Nataçao – 1 hora
Enjoo forte, agitação, suor, tremedeira, angústia, pensamento obsessivo.
02/06/2012
1
Corrida – 1 hora
Enjoo forte, agitação, tremedeira, angústia, pensamento obsessivo.
03/06/2012
1
Descanso

Enjoo, agitação, tremor, angústia, pensamento obsessivo.
04/06/2012
1
Nataçao – 1 hora
Enjoo, agitação, tremor, angústia, pensamento obsessivo.
05/06/2012
1
Corrida – 1 hora
Enjoo, agitação, tremor, angústia, pensamento obsessivo.
06/06/2012
1
Corrida - 30
Enjoo, agitação, tremor, angústia, pensamento obsessivo.
07/06/2012
1
Corrida – 1 hora
Enjoo, agitação, tremor, angústia, pensamento obsessivo.
08/06/2012
1
Natação – 1 hora
Enjoo, agitação, tremor, angústia, pensamento obsessivo.
09/06/2012
1
Descanso

Enjoo, agitação, tremor, angústia, pensamento obsessivo.
10/06/2012
1
Corrida – 1 hora
Enjoo, agitação, angústia, pensamento obsessivo.
11/06/2012
1
Nataçao – 1 hora
Enjoo, agitação, angústia, pensamento obsessivo, agressividade
12/06/2012
        1
Descanso
Enjoo, agitação, angústia, pensamento obsessivo.
13/06/2012
0
Corrida – 1 hora
Enjoo forte, ansiedade, tremor, pensamento obsessivo, insônia, suor. 
14/06/2012
        1
Corrida - 40 min
Enjoo, agitação, angústia, pensamento obsessivo. 
15/06/2012
1
Natação – 1 hora
Enjoo, agitação, angústia, pensamento obsessivo, frustração, insônia, suor. 
16/06/2012
1
Descanso
Agitação, angústia, insônia, frustração, pensamento obsessivo. 
17/06/2012
1
Descanso
Agitação, angústia, irritabilidade, pensamento obsessivo.
18/06/2012
1
Natação – 1 hora
Enjoo, insônia, agitação, angústia, pensamento obsessivo. 
19/06/2012
1
Corrida – 1 hora
Enjoo, insônia, agitação, angústia, pensamento obsessivo. 
 20/06/2012
1
Descanso
Enjoo, insônia, agitação, angústia, pensamento obsessivo. 
 21/06/2012
1
Corrida – 1 hora
Insônia, ansiedade, angústia, medo do futuro.
 22/06/2012
1
Descanso
Insônia, ansiedade, angústia. 
 23/06/2012
0
Corrida – 1 hora
Insônia, ansiedade, angústia.
 24/06/2012
1
Descanso
Insônia, ansiedade, angústia.
 25/06/2012
0
Natação – 1 hora
Enjoo, agitação, suor, ansiedade, insônia, angústia, refluxo.
 26/06/2012
1
Corrida – 1 hora
Insônia, ansiedade, angústia.
 27/06/2012
0
Descanso
Insônia, ansiedade, angústia. Apesar disto tudo, felicidade por continuar a luta.
 28/06/2012
0
Corrida – 1 hora
Insônia, ansiedade, agitação.
 29/06/2012
1
Natação – 1 hora
Insônia e ansiedade.
 30/06/2012
0
Descanso
Insônia e ansiedade.