sexta-feira, 29 de junho de 2012

Bulimia e a falta de capacidade de lidar com a frustração


Tenho que admitir, por mais difícil que seja, que tenho muita dificuldade de lidar com frustração. Odeio planejar algo em minha mente e não conseguir atingir o objetivo desejado. Odeio criar uma expectativa e não vê-la ser concretizada. Fico frustrada, com raiva e me sinto uma merda. Ainda estou aprendendo a lidar com o “tudo ou nada”, e enquanto isso não se tornar algo real em minha vida, continuarei me frustrando e sofrendo emocionalmente com minhas “falhas”. Flexibilização e busca de equilíbrio é o que preciso fazer, sim, eu já sei, mas confesso que o caminho ainda está difícil para mim.

Ao me analisar, percebo que tento evitar situações que possam me levar à frustração. Isso muitas vezes faz com que eu simplesmente desista de muitas coisas, apenas por medo. Não me dou à oportunidade de tentar realizar coisas que eu desejaria muito. O medo do fracasso e falta de capacidade de lidar com a frustração, me deixam completamente paralisada.

A bulimia, no meu caso, é uma marca clara da minha falta de capacidade de lidar com a frustração. Da minha falta de capacidade de aceitar meu corpo, da minha falta de capacidade de aceitar o meu peso, da minha falta de capacidade de aceitar meus erros, da minha falta de capacidade de aceitar minhas falhas, medos, ansiedades e frustrações. Eu traço expectativas e metas, e quando não consigo cumpri-las fico frustrada e agressiva comigo.  Pois a bulimia é uma forma de autoagressão. Ela vai te matando aos poucos, primeiro você perde os amigos, depois o cabelo, os dentes... a saúde, a vida.

Mas como aprender a mudar de atitude? Como aprender a lidar com a frustração? Tenho me esforçado para mudar minha forma de lidar com meus fracassos. Hoje, busco enfrentar meus erros, encará-los, ao invés de fugir deles.  Quero fazer as pazes comigo quando não consigo alcançar exatamente o que eu planejava. Estou mais disposta a analisar o que aconteceu de fato e desta forma ser mais justa comigo. Tentarei procurar me parabenizar pelo meu progresso durante o processo (em longas jornadas), ao invés de ficar me concentrando em um deslize no meio do caminho. Quando eu olho para trás vejo o quanto já cresci. 

Minha caminhada para frente ainda é infinitamente maior do que a que eu já realizei. Mas agora tenho a certeza de que não estou mais parada. Agora, sei que posso continuar andando (que sou capaz de andar) e cada vez tenho mais força para continuar minha busca, de forma mais plena para um futuro promissor. 

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Juiz determina que mulher seja alimenta à força



Semana passada, um juiz da Alta Corte do Reino Unido determinou judicialmente que uma mulher fosse alimentada, mesmo contra sua vontade. O juiz admitiu ter sido uma decisão difícil, mas considerou que a mulher de 32 anos, anoréxica, conhecida com “E” não tinha capacidade para tomar essa decisão sobre sua vida. Para decidir o juiz precisou fazer uma ponderação entre dois direitos: o da vida e o da liberdade individual.

Ao final do jugamento ele decidiu em favor da preservação da vida e afirmou ser legal que ela seja alimentada à força, se necessário. Ele afirmou que “apesar de gravemente doente, ela não tem algo que é incurável. Ela não busca a morte, no entanto, ela não quer comer ou ser alimentada”.

O caso chegou ao tribunal no mês passado por meio de um pedido de urgência para evitar a morte de “E”. O Juiz ao proferir a sentença mostrou-se comovido e deixou claro o quão difícil foi a decisão. A matéria sobre o caso foi publicada no Huffingtonpost. Para quem quiser ler na íntegra (em inglês), vale a pena, traz a fundamentação do juiz, e nos leva à reflexão.  



Me perdoando pelo passado, para seguir em frente


Hoje eu estava pensando sobre meus erros. Pensei sobre os meus 20 anos com a bulimia. (Não me entendam mal, eu não tenho 20 anos de idade! Eu tenho 35 anos, dos quais 20 anos eu fui escrava da bulimia) Pensei sobre o meu passado, sobre as tentativas de suicídio, sobre as coisas que desisti, sobre as coisas que nem tentei, sobre as pessoas que culpei e sobre as punições a que me submeti.  

Quantas vezes que não assumi meus próprios erros, não admiti minhas falhas, não busquei me aperfeiçoar nem melhorar? Quantas vezes neguei que errei, fingi que eu não tinha problema algum, apenas para mostrar para os outros o quão “perfeita” eu era? Quantas vezes eu ainda caio nessa armadilha e me pego fazendo isso? Enquanto eu não assumir minhas falhas, erros e responsabilidades, jamais conseguirei aprender com eles.

É verdade, tenho melhorado. Hoje, olho para trás e vejo quanta besteira fiz, mas também vejo o quanto aprendi. No meu caminho tortuoso, também construí coisas maravilhosas, conheci pessoas lindas que valeram à pena. Poderia ter sido diferente?  NÃO. Eu não acredito que poderia ter sido diferente. Eu vivi o que precisava viver. Eu vivi exatamente da forma que foi possível. Vivi, da única forma que eu sabia, com a maturidade que eu tinha e fiz o que podia.  Hoje, entendo e não vou mais me culpar ou me punir por não ter sido melhor, por não ter sido “perfeita”. Aceito os ensinamentos do meu passado, e reconheço que foi ele que me trouxe até aqui.  

O meu passado é a minha referência, meu ponto de partida. Ele não me define, mas me ajuda a entender meu presente. Por causa do meu passado sei para onde não quero mais ir. O que vivi já passou, o que fiz já aconteceu. Tenho consciência de minhas decisões de hoje não precisam ser as mesmas de ontem. Hoje escolho seguir e escolho a cada minuto para onde ir. Agora, enfim, já sei onde quero chegar, não estou apenas sendo levada. Estou caminhando, com minhas próprias pernas e, claro, acompanhada e apoiada por  pessoas muito queridas e especiais que fazem toda diferença.


Sim, ainda me vejo cometendo deslizes, muitas vezes parecidos com os de antes. Mas agora existe uma grande diferença, agora eu quero mudar. Chega de punição, mas também chega de desculpas para não mudar. Hoje sei que a mudança me obriga a sair da minha zona de conforto. Bom, sair da zona de conforto dói, dá medo e exige coragem e perseverança.  Preciso entender que no meu caminho (principalmente na jornada contra a bulimia) haverá deslizes, mas isso não significa o fracasso do processo, cabe a mim levantar e continuar a caminhada.  Sei que ainda estou longe da cura, mas já consigo sentir satisfação pelo processo.  Me sinto feliz pelo direção que decidi seguir e isso, por si só já  está sendo uma boa recompensa. 

terça-feira, 26 de junho de 2012

Disciplina é liberdade - a bulimia e a falta de disciplina


Nunca fui uma pessoa muito disciplinada. Fui mais o tipo de pessoa que deixava tudo para a última hora. Aparentemente, essa forma de viver funcionava muito bem para mim. Não me esforçava no decorrer do percurso, não me importava com o caminho, apenas com o resultado. E isso era o suficiente para mim.  A verdade é que eu não chegava a ser a melhor de todas, mas sempre estive lá entre OS melhores. Esta posição de “acima da média”, “entre os melhores” (como eu me considerava) me satisfazia.

Olhando criticamente, acho que na verdade eu nunca cheguei a me aventurar em coisas que não fossem fáceis (confortáveis) para mim. Eu simplesmente tinha medo de não conseguir atingir aquele padrão que eu tinha me imposto (ficar entre os melhores, sempre acima da média). Então, por diversas vezes eu não quis nem sequer tentar realizar certas atividades. Não porque eu não me interessava por elas, mas por medo do fracasso (ou preguiça?). Para mim era insuportável a ideia de não estar entre os melhores.

Eu não me acostumei com o esforço a longo prazo, a disciplina contínua e a perseverança para atingir um bom desempenho. Sempre fui mais do tipo de pessoa que preferia os esforços intensos e que me trariam o resultado rápido e esperado. Quando virei adulta e o meu mundo se ampliou, ficou mais difícil atingir meu “padrão” desejado (ficar entre os melhores) sem esforço e disciplina contínua. Na minha competição imaginária (em que eu crio um ranking), eu não “competia” apenas com os coleguinhas da turma ou do bairro. Eu passei a “competir” com pessoas da universidade, da minha cidade. Claro a partir daí, para mim, eu passei a ser uma fracassada, pois no meu ranking eu não estava mais lá, entre as três melhores, e isso me deixava enfurecida.

Analisando minha bulimia vejo que repito esta atitude, todos os dias. Todas as vezes que não quero aceitar e ter disciplina (aprendizagem) para com meus sentimentos, frustrações, medos e angústias, eu acabo por me empanturrar de comida e vomito tudo para me dar um alívio momentâneo e desta forma  coloco a sujeira debaixo do tapete. Ela ainda está lá, só que finjo que não vejo. Quando como mais que deveria e tenho medo de engordar o que faço? Vomito, é claro. Corpo leve, consciência pesada (o que é mais importante???).

Bom, durante muito tempo eu acreditei que a bulimia era uma forma de disciplina e que com ela eu poderia ser especial, estaria “acima da média”.  Eu achava que eu estava controlando meu peso e controlando minha raiva, meus medos, ansiedades e angustias. Mas, na verdade, eu não controlava nada. Primeiro, porque meus problemas psicológicos continuavam lá, a sujeira já não cabia debaixo do tapete.

Durante estes 20 anos com a bulimia, eu fui escrava da doença. Ou seja, não havia disciplina, pois não havia escolha. Chegou o ponto em que eu não decidia o que eu queria, eu simplesmente me sentia obrigada a comer e vomitar, para poder ter aquele alívio, aquele êxtase. Sim, é verdade, eu me  permiti entrar nesta prisão, mas eu tinha a ilusão que estava livre. Agora, não mais. Hoje consigo ver que não alcancei meta nenhuma com a bulimia. Pelo contrário só me distanciei delas, só acumulei problemas e não aprendi como resolve-los, por indisciplina, falta de paciência, e de perseverança.

Hoje olho para mim, e me vejo como uma nova mulher interrompida pela bulimia, mas jamais morta. E agora estou seguindo em frente. Buscando uma nova vida, alguma vida, a minha vida, a vida plena. 

Quero sim introduzir na minha vida a disciplina, conforme o dicionário: "deriva da palavra discípulo, aquele que segue. Discípulo é aquele que escuta e põe em prática aquilo que aprendeu". Tenho aprendido muito e estou colocando em prática cada coisa aprendida. Sim, tenho milhões de medos e ainda milhões de limitações, ninguém muda do dia para a noite.

Estou me esforçando para reconhecer meus pequenos êxitos e progressos. Quando o caminho é longo não é possível atravessá-lo sem sentir sede, fome e cansaço. Não quero mais me enganar com fórmulas mágicas, pois elas não existem.  Preciso aprender a ter calma, perseverança e disciplina. Pretendo monitorar meu progresso (para manter foco em o que está dando certo) e não me preocupar excessivamente com recaídas (elas acontecem, pois sou humana). No caso de recaídas, devo aprender e seguir mais forte. “Disciplina é liberdade”. 

domingo, 24 de junho de 2012

Quando o passado bate na sua porta


Esta noite não dormi absolutamente nada. Fiquei me contorcendo na cama, andando de um lado para o outro, tendo palpitações, suando frio e tendo pensamentos repetitivos sobre fracassos, medo, compulsão, limites, etc. Foi muito, muito difícil segurar a onda e não “resolver” todos meus problemas como estou acostumada: comendo muito, até o limite, e me esvaziando (tirando de mim toda aquela angústia, aquela dor, aquele sofrimento).

Acho que a parte mais difícil da superação da doença é esta. Aprender a encarar este sentimento e entender o que fazer na hora que eles chegam. Eu simplesmente não sei (pelo menos não ainda). Sinto uma dor no fundo da minha alma. Uma dor física e psíquica. Gostaria de conseguir descrever em palavras o quão grande ela é, pois tenho a sensação que nada que eu fale vai traduzir o meu sentimento. Já experimentei algumas dores físicas, mas nada, nada se compara a essa dor, nem mesmo a dor do parto normal (que julgam ser tão grande), para mim, foi menor do que a dor que sinto quando minha alma sofre.

Depois de muito lutar para dormir, consegui enfim adormecer, por volta das 5 horas da manhã. Às 9 horas acordei, era o “meu passado batendo em minha porta”. Uma grande amiga minha tocou a campainha da minha casa, ela necessitava de ajuda. Por algum motivo, o que ela estava passando fez com que eu me lembrasse da minha história, época em que eu bebia muito e talvez, por sorte, ainda esteja aqui.

Entre os meus 18 e 25 anos, eu vivi uma fase muito conturbada da minha vida. Eu posso dizer que nesta época eu fiquei muito perdida. Vivia minha vida de uma forma descontrolada. Estava na busca do prazer, da emoção. Lembro-me de ser muito intensa e querer tudo para ontem. Era tudo ou nada, ou 8 ou 80. Minha vida parecia uma montanha russa de emoções. Eu já tinha bulimia, mas na minha lembrança a doença, na época, era mais “controlada”.

Claro que a bulimia era um problema menor naquela época. Eu “utilizava” menos a bulimia para me livrar das minhas dores psicológicas. Eu afogava minhas angústias, medos, sofrimento e frustração em outro vício: na bebida. Nesta época a minha depressão era muito forte e presente. Sentia um vazio enorme no meu peito, na minha alma. Inicialmente eu não queria estar viva, depois comecei a desejar a morte. Para esquecer a dor e o sofrimento, eu toparia fazer qualquer coisa, pois não havia futuro em meus planos.

Buscava a “felicidade, a emoção” de cada momento. Queria aproveita o dia, o momento, em toda sua potencialidade. Que inocência. O problema é que para atingir o aproveitamento total, eu fui precisando de mais: mais um gole, mais uma dose, mais um copo, mais uma garrafa, uma dose mais forte. Quando eu me dei conta, a bebida me controlava.  

Rapidamente, minha vida foi virando um inferno. Eu bebia para “ficar bem”, precisava sempre mais, de algo mais forte para sentir aquele “alívio imediato”.  No outro dia eu tinha que encarar tudo de novo, a depressão, medos, angústias, ansiedades. Aquela era a minha fuga, a minha muleta. E assim fui (sobre) vivendo. Voltei diversas vezes dirigindo para casa após beber meia garrafa de whisky ( o caminho?  É claro que não lembro). Tive coma alcoólica e fui levada a hospitais, algumas vezes. As perdas de memórias aconteceram, várias vezes. É chato lembrar o que me disseram que eu fiz.

Não me orgulho deste meu passado. Lembro que nesta época eu poderia ter me envolvido com o uso de outras drogas. Mas existia em mim (ainda que pouca, mas alguma) consciência de que eu não tinha maturidade e capacidade para encarar qualquer droga. Eu sabia que eu era fraca demais para elas e que se eu entrasse em algo mais forte, jamais eu sairia. Eu sabia que eu era uma pessoa facilmente viciável. Por isso, só por isso, nunca experimentei coisas mais pesadas.

Bom, hoje, eu ainda bebo. Não bebo todo final de semana e nem todas as vezes que saio com amigos e família. Bebo apenas quando estou a fim (provavelmente o certo fosse nunca mais beber). Mas nunca, NUNCA coloco um gole de bebida destilada em minha boca (ela tem um efeito avassalador em mim).  Tento beber com moderação. Peço ajuda aos que amo para que me avisem caso eu esteja saindo um pouquinho da linha. Nesta hora eu deixo a bebida de lado e passo a tomar água. Quase sempre isso funciona.

Mas deixar a bebida não foi algo tranquilo. Eu fui substituindo as doses de bebida pelas crises de bulimia. Como não tive acompanhamento médico e psicológico (pois eu não achava que precisava), eu fui atrás de outra muleta.   A bulimia era “perfeita” para este papel. Fui ficando viciada em comer descontroladamente e vomitar. Mas é claro que encontraria outro inferno pela frente. Pois muletas quebram... A sujeira não pode ficar para sempre debaixo do tapete.

Agora estou aqui, disposta a mudar isto. Estou mais madura, mais consciente, mais esperançosa. Estou aprendendo a me conhecer e a encarar meus medos. Não é fácil, pois sempre fugi deles, mas não quero mais fugir. Sim, foram 20 anos de fuga. Mas quer saber? Posso ter mais que 20 anos de vida. De vida plena!!!

sábado, 23 de junho de 2012

Deixando de lado o "tudo ou nada"


  
Li em diversos lugares que as pessoas com bulimia são pessoas extremistas e tendem a ter pensamentos baseados no “tudo ou nada”. Adoraria dizer que esta teoria é uma bobagem e que eu não me enquadro nela. Mas infelizmente isso não é verdade. Apesar de ter consciência de que não deveria tratar as coisas de forma tão radical, que o mundo não é preto ou branco, que as coisas não são necessariamente boas ou más, eu ainda me vejo várias vezes caindo em armadilhas que minha mente me coloca.


Ainda demoro a perceber que estou presa em pensamentos extremistas, para então começar a luta para desatar os nós que criei (mentalmente para chegar às conclusões que cheguei). O pior é que sofro enquanto vivencio minha crença extremista. Demoro a sair do olho do furacão.

Ontem mesmo vivenciei este sofrimento (novamente). Estou comprometida com minha jornada rumo à recuperação e lutando fortemente contra a bulimia. Tenho feito um esforço descomunal para deixar de comer compulsivamente de 5 a 8 vezes diárias (e vomitar), para fazer isso apenas uma vez ao dia. Eu poderia estar melhor? Não, eu não poderia. Outra pessoa talvez, mas eu estou fazendo o que EU POSSO.

Mas ontem, quando eu estava no olho do furacão, eu não conseguia lembrar isto.  Ontem eu estava sentindo uma dor terrível no meu corpo (possível gripe chegando) então não fui nadar. A natação tem sido para mim uma excelente forma de liberar endorfina no meu corpo.  Adoro o contato com a água, fico relaxada, menos ansiosa. Durante as braçadas vou pensando nos problemas e vou desmistificando um a um. A natação é uma terapia para mim.

Bom, ontem, não nadei, consequentemente, nada de endorfina. Para completar, eu estou passando por um momento em que preciso tomar uma decisão pessoal, o que sempre me estressa. Tenho grande dificuldade de lidar com mudança. Enfim, cheguei em casa mais cedo do que de costume, comi enlouquecidamente, vomitei mais enlouquecidamente ainda e não estava satisfeita.  Sofri durante horas para não comer novamente e não vomitar. Não dormi nada. Eu sofri, pois não queria comer e vomitar. Mas me senti muito mal por desejar do fundo da minha alma fazer isto para fugir do meu problema (ter que tomar a decisão, ter que pensar na decisão, ter que encarar a decisão).

Lutei, sofri, me contorci para não dar um passo para trás na minha jornada rumo à recuperação. Me senti uma fracassada e me vi como a pior pessoa do mundo. Agora, pela manhã, após acordar, beijar meus lindos filhos e tomar um café da manhã equilibrado, sem vômitos, vejo como minha noite foi bem sucedida. Como fui dura comigo, como fui injusta. Lá estava eu mergulhada no meu pensamento extremista do “tudo ou nada”. Naquele momento, eu achava que não bastava não comer e vomitar que eu o “certo” seria nem querer. Por isso, quase que eu comi. Uma vez, que eu já me achava perdedora...

Entendo que tenho que encarar meus pensamentos e sentimentos negativos. Preciso lutar contra eles. Mesmo que no começo isso me traga desconforto. Acredito que com o tempo irei aprender a não cair nas armadilhas que minha mente me prega. Isso não significa tampar o sol com peneira, fingir que os problemas não existem, mas apenas encarar os problemas da forma que eles são de verdade.

Ou seja, se eu desejo comer e vomitar não significa que sou uma fracassada. Se eu comi e vomitei, não significa que nunca irei conseguir fazer diferente. Significa sim, que o processo não está sendo fácil, que terei que me esforçar ainda mais.  Significa lembrar que já estive bem pior, já evolui muito no processo. Ver as evoluções passadas e reconhece-las são importantes para manter o foco de que sou capaz de ir mais além. De que consigo seguir e continuar melhorando. Tenho 35 anos de idade, mas preciso ter paciência comigo e lembrar que na busca pela cura sou apenas um bebe aprendendo a engatinhar.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Sim para a beleza natural!!!


A beleza natural existe. Ela está em mim, em você, em nossas amigas, mães, irmãs, tias. Ela está na nossa frente, basta apreciarmos. Para nos lembrarmos disto, o fotógrafo americano Matt Blum está fazendo um excelente trabalho fotografando o nú comum para o The Nu Project. Nada de maquiagem, nada de corpos esqueléticos, nada de photoshop, o trabalho de Matt é maravilhoso e mostra a nudez bela, real e natural. Faz bem aos olhos e a mente, pois valoriza o corpo da mulher como ele é. Cada beleza, cada corpo, cada mulher, lindamente captadas pela lente desse fotógrafo.


Matt Blum já fotografou mais de 100 mulheres da América do Norte e do Sul, desde 2005. Em novembro de 2012, ele estará no Brasil, pela segunda vez, em busca de novas voluntárias. Quem desejar participar do projeto deverá preencher um formulário no site www.thenuproject.com.  Não será oferecido nenhum cachê para voluntária, ela apenas terá a oportunidade de ser fotografada por um profissional e receberá 10 fotos do ensaio. Não será permitida a participação de pessoas com menos de 21 anos de idade. Matt tem a pretensão de lançar um livro com suas fotografias.


Achei o projeto fantástico, pois estamos buscando cada dia mais um corpo “perfeito” e acabamos esquecendo como são os corpos comuns e quão bonitos e apreciáveis eles são. Deixemos de lado a busca do inatingível e o medo de nos tornarmos nós mesmas. Podemos ser lindas, sem doenças, sem transtornos alimentares, sem anorexias e bulimias. Talvez hajam celulites, dobrinhas, gordurinhas, pouca bunda, culote, seios pequenos, corpos assimétricos. E daí?  Vamos colocar em nossos olhos a lente de Matt e reconhecer nossa beleza natural que vai além de nosso corpo e atinge nossa alma. Eu digo sim a beleza natural!!


  




segunda-feira, 18 de junho de 2012

Lidando com o olhar dos outros


Depois de vários anos de análise e terapia, ficou claro para mim que um dos meus maiores limitantes é minha dificuldade de lidar com o “olhar do outro”. Preocupo-me de forma tão exagerada com isto que chega a ser doentio. Este assunto já foi tema de milhões de sessões de terapia, e para mim nunca ficou claro a origem dessa necessidade demasiada pela aprovação dos outros. Em que momento o terceiro se tornou tão importante na minha vida? Tenho medo exatamente de que? De não ser amada? De não ser aceita? De ser abandonada?

Esta é uma das piores prisões que uma pessoa pode viver. Falo por experiência própria. Muitas vezes deixo de fazer algo por achar que minha atitude pode fazer com que Fulano ou Beltrano achem isso ou aquilo de mim. Um exemplo concreto seria se eu contasse para todos que passei 20 anos com bulimia. Logo minha mente chega a seguinte conclusão: todos pensarão que sou uma mentirosa (pois não disse nada antes), todos pensarão que sou fútil, que sou fraca, que sou superficial. A minha mente vai fazendo julgamentos cheios de preconceitos e eu viro escrava da minha própria mente doentia. Sei que parece idiota... até para mim.  Mas é assim que minha mente funciona.  

Tento adivinhar o que os outros pensariam, como se isso tivesse qualquer importância. Tento controlar como agir, e muitas vezes não faço o que gostaria de fazer. Mas na verdade, eu não deveria me preocupar com eles, pois, provavelmente, a maior crítica vem de mim mesma. Os julgamentos mais cruéis são meus.

Racionalmente, eu sei que deveria pensar em mim e não me preocupar com o julgamento dos outros. Mas para mim isso ainda é muito difícil. Preciso entender que não estarei imune às criticas, nem se eu fosse “perfeitinha”. Como meu terapeuta diz, a busca pelo perfeccionismo é para os idiotas (me incluo aqui). Preciso entender que sempre existirão pessoas que vão discordar de mim ou apenas terão opiniões e gostos diferentes. O que me sobra é aprender a não ligar para as críticas. Não ligar para os “olhos dos outros”. Aplicar a filosofia da vaca: “ir cagando e andando” .

Adorei um texto que fala sobre críticas da psicóloga Valéria Lemos Palazzo: “Não ser vulnerável as criticas, significa se auto valorizar, ter uma auto-estima positiva. Pense....você não precisa saber o que o outro pensa sobre você, para só assim  sentir-se bem. Você não precisa saber como o outro te “vê”, para saber que você é uma pessoa de valor. Imagine se está pessoa que você está “usando” como referencial tenha uma estrutura psicológica neurótica. O “olhar” dessa pessoa sobre você será “torto”, “embaçado”. E, você vai se orientar por este “olhar” ? O que realmente interessa, é como VOCÊ SE VÊ. O problema é que poucos de nós realmente se conhecem. Não nos “enxergamos”, a não ser que usemos o “outro” como “espelho”, como “referencial”. Como não nos “enxergamos”. Temos que usar a visão do outro. Você precisa conhecer a sua REALIDADE e não a do outro. Todas as vezes que você ouviu (no sentido de se importar=trazer para dentro) a critica do outro, você não se valorizou, não se avaliou. As pessoas mais vulneráveis as criticas, são aquelas que tem pouca consciência de si.”  Bom, acho que vale a pena ler o texto completo

Ao ler o texto, passo a acreditar que é exatamente isso que acontece comigo, tenho pouca consciência de mim. E agora estou tentando buscar me conhecer e poder, de fato, aplicar a teoria da vaca. 

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Frustração mais uma vez


Hoje já fiz de tudo para evitar escrever este post. Estou com medo e receio de traduzir em palavras o que estou sentindo. Minha vontade é manter meus pensamentos em segredo, mas não dá. Os meus pensamentos já estão solidificados em minhas ações. E por mais que eu tente fugir deles, eles me perseguem. Então mudarei de estratégia. Confessarei meus “crimes” e espero que isso amoleça minhas ações, deixando que eu molde novos hábitos, novos pensamentos e novos sentimentos.

Frustração e raiva são os sentimentos de hoje. Estou extremamente chateada comigo pelo fato de ter conseguido, apenas uma única vez, durante os 18 dias em que comecei a minha jornada rumo à recuperação, ter ficado sem comer excessivamente e sem vomitar durante um dia inteiro (dia e noite). Há dois dias consegui pela primeira vez dormir sem a crise bulímica, mas ontem e hoje, fracassei.

Eu sei que deveria estar pensando pelo lado positivo, sei que deveria pensar em quanto já caminhei até agora e que deveria ter calma e blá, blá, blá. Mas hoje estou com uma dificuldade enorme em fazer isso. Estou com uma raiva enorme de mim. Tenho certeza que se fosse em outras épocas, hoje seria um daqueles dias em que comeria e vomitaria várias vezes, só para tentar aliviar essa dor que sinto no meu peito e que parece que não passa. Estou tremendo e sinceramente, não sei se conseguirei dormir...

Agora o que preciso fazer é encarar este sentimento de frustração e aprender como lidar com ele. Certamente, esta sensação vem da minha expectativa não realizada. Preciso respirar e entender que esta jornada será assim mesmo: serão tentativas, acertos, falhas, acertos, novas tentativas, mais acertos e depois menos falhas. Preciso deixar de lado a minha busca pela perfeição, pelo ideal e me contentar com o real, com o possível. Só assim deixarei de ter frustrações constantes.

Para não perder a esperança, reli posts de pessoas que contam suas trajetórias contra a bulimia. A busca de ninguém foi fácil e nem foram sem falhas ou recaídas. Mas uma coisa elas tiveram em comum: nenhuma desistiu. Recarrego minhas energias e ganho força de novo. Amanhã é um novo dia, uma nova luta, uma nova batalha. Sim, ainda virão muitas dificuldades, e eu preciso estar forte para enfrentá-las ou elas me derrotarão. Cair, aprender, levantar e seguir, continuando a jornada. 

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Jornada rumo à recuperação: quando a ansiedade paralisa

Não sei quando eu me tornei ansiosa. Não consigo me recordar bem o momento ou a época da minha vida em que esta característica apareceu. Na minha adolescência este traço da minha personalidade já estava bem aflorado. Lembro-me de ficar acordada a noite inteira por conta de algum acontecimento que ocorreria no dia seguinte. Minha mente simplesmente não conseguia relaxar e eu ficava imaginando e conjecturando tudo que poderia acontecer.

Acho que com o passar do tempo a minha ansiedade foi aumentando. Eu nunca aprendi de verdade como lidar com ela.  Minha mente, poderosamente, vai construindo monstros e fantasmas e eu vou caindo nessas armadilhas igual uma criança que tem medo do escuro.  Inacreditável como depois que passa eu percebo como meus pensamentos foram idiotas e como eu estava exagerando, mas na hora o medo, o pânico, é tão real que fico paralisada.

Há 17 dias eu comecei a mudar meu comportamento em relação à bulimia. Decidi traçar metas (difíceis para mim) rumo à recuperação.  Após anos em tratamentos com psiquiatras e psicólogos, após várias tentativas frustradas de largar os ataques à geladeira e o alívio do vômito, eu estou conseguindo traçar alguns objetivos e cumpri-los.  Acredito que dentre todos os obstáculos rumo à recuperação, a ansiedade possa ser o maior deles. O problema da minha ansiedade é que eu sofro muitas vezes por um medo imaginário, mas muito intenso, e que me deixa paralisada.

Faz cinco dias que eu venho pensando sobre tentar passar um dia inteiro sem minha crise bulímica. Como vocês sabem,  antes da “minha jornada” começar eu vomitava cerca de 5 a 8 vezes por dia, todos os dias, e esse número reduziu para uma vez por dia.  A minha primeira tentativa rumo à recuperação pareceu algo insuportável, mas estou aqui, suportei. Não só suportei como a cada dia que passa, sinto que esta meta (1 crise por dia) está menos pesada de ser atingida. Hoje já consigo lidar melhor com a falta física do comer e vomitar (crise da abstinência). Claro que ainda sinto consequências no meu corpo nessa busca pela recuperação,  mas quem disse que seria fácil? Bom, de qualquer forma, venho me sentindo preparada para dar o próximo passo, no entanto a minha ansiedade estava, até então, me impedindo.

Eu estou ansiosa pelas consequências que esse passo (ficar um dia todo sem vomitar) pode vir a causar. No meu caso, a ansiedade gera medo e o medo paralisa. Medo de ficar sem a bulimia. Medo de viver sem ela. Medo de não saber o que fazer com o tempo que terei extra. Medo de não saber lidar com as frustrações, raivas, angustias. Medo de engordar (claro ele existe). Medo de não conseguir. Medo de ter que dar esse passo todos os dias. Medo de que essa seja a última vez, o último vômito, o último alívio, o último contato com algo que eu controlo. Medo de perder o controle de tudo (...como se eu tivesse controle de algo). Medo do que eu vou me tornar. Medo de não gostar dessa nova pessoa.  São muitos medos…

Bom, então, para afastar estes fantasmas que me congelam, eu precisei enganar a minha mente. "Quer saber?" Eu pensei.  “Eu vou deixar de comer e vomitar, só hoje.  Amanhã, será tudo normal”. Minha meta foi para a noite de ontem.  Por enquanto, não vou pensar no futuro, vou com calma, aprendendo dar tempo ao tempo.  Não quero pensar no que vai acontecer. Vou viver o que está acontecendo. Vou tentar traçar metas curtas e imediatas, sem olhar para o futuro, pois o futuro está me paralisando.

O que sei agora é que viver com a bulimia está insuportável. Dói muito pensar em não tê-la mais comigo, mas dói mais ainda pensar em viver com ela para o resto da minha curta vida, pois será curta se continuar assim. Como não consigo mudar meus pensamentos, vou mudando minhas atitudes e, assim, torço para me manter acordada. Porque como disse meu terapeuta, “o perigo de acordar é querer continuar sonhando”.


segunda-feira, 11 de junho de 2012

Branca de Neve e os Distúbios Alimentares


Hoje assisti o filme "Branca de Neve e o Caçador". Claro que eu já havia assistido o desenho antes, mas nunca tinha percebido que havia alguma mensagem nele. Desta vez foi diferente, como ultimamente estou asfixiada pelo meu pensamento mono temático (bulimia), logo eu me vi fazendo mil e uma interpretações para o filme. 


Sai do filme pensando: Até onde irão nossas ações pela busca da beleza? Porque nos comparamos com os outros nessa busca pela beleza (existe alguém mais bela do que eu?)? Quando iremos deixar de fazer isso para simplesmente nos aceitar? Etc...

Bom, decidi procurar na internet para ver se alguém já tinha feito alguma analogia da história com a doença. Acabei encontrando esta análise feita pela psicóloga, Rosemeire Zago, clínica com abordagem jungiana, com especialização em psicossomática. Achei o texto curioso e interessante e reproduzo aqui. Não tem nada haver com as análises que eu tentava fazer, risos. Achei o texto um pouco viagem, mas acho que vale a pena conhecer a visão de uma profissional. 

"Analisar algumas histórias e mitos que enfocam o aspecto feminino, compreendendo o lado mítico, simbólico e relacioná-lo com a obesidade pode ser a porta de saída do conflito para quem busca entender o processo da obesidade.

São possíveis várias interpretações, da qual vou relacionar apenas uma, ilustrando distúrbios alimentares que podem se instalar da adolescência em diante.

Na história da Branca de Neve encontramos uma madrasta, que pode representar uma mãe negativa, que não se interessou em ser efetivamente mãe e, provavelmente, não foi bem sucedida em seu desenvolvimento porque tem uma estrutura muito narcísica e ressentida. A insatisfação se transforma em competitividade com a filha, que é ignorada em suas necessidades, não sendo reconhecida como um ser humano. Mas, quando entra na adolescência, a sua beleza aparece e a mãe a inveja profundamente.

Há uma clara percepção de que a menina ultrapassará a mãe - Branca de Neve é a mais bela - e o ódio e a frustração da mãe se dirigem a tentar matar essa filha, simbolicamente anulá-la, impedí-la de crescer. O pai da história é tão ausente que não consegue se interpor nessa relação destrutiva para defender a filha. Quantas mulheres não viveram esse drama?

Branca de Neve é levada para a floresta, onde um caçador deve matá-la e entregar seu coração para a mãe. Ao matar e retirar seu coração podemos entender que ela deve alienar-se de suas emoções, até porque é terrível demais confrontar a rejeição e o ódio da mãe. O único sentimento que lhe resta é o medo e a vontade de sobreviver. Todo seu eu se recolhe, reprimido e acuado. Quantas pessoas não vivem alienadas de seus sentimentos, como se não os sentissem e assim, buscam compensá-los com comida?

Os anões podem ser vistos como emissários da mãe boa que a menina deseja, ou como expressões de uma formação ainda precária. Eles proporcionam para Branca de Neve um período de paz, mas ela parece só se preocupar em ser gentil e prestativa, provavelmente com muito medo de ser expulsa novamente.

Quantas mulheres que têm confiança básica seriamente abalada tentam seduzir e agradar a todos para sua própria sobrevivência num mundo que lhes foi sentido como hostil desde criança? Branca de Neve, em sua falsa segurança, esquece que continua a correr perigo. Seus instintos alienados não são associados quando aparece uma velhinha (a bruxa) oferecendo-lhe lindas maçãs, porém, envenenadas. Ela come uma, que fica presa em sua garganta, e cai, aparentemente morta.

A bruxa pode representar a mãe negativa concreta e seu poder é sustentado pela conexão com toda a força do lado negativo feminino internalizado pela Branca de Neve. A procura pelo prazer imediato, a compulsão que a faz ingerir um alimento envenenado pode apontar para a escolha da obesidade ou da anorexia, ainda que inconsciente, como tentativa de defesa que a torna tragicamente vítima da própria força que ela tenta combater.

O tema da morte, desmaio, adormecimento, indica que o eu interior, sem acesso a sentimentos, se ausenta do processo morrendo , não para renascer, mas para ser encarcerado, dessa vez num caixão de vidro. Caixas, caixões e invólucros de vidro ou de plásticos transparentes aparecem muito nos sonhos de pessoas obesas.

O vidro é uma substância que, como a gordura, é altamente isolante, envolvendo a alma de forma eficientemente protetora, mas encerrando-a cruelmente. Não sendo um condutor de calor, mantém o núcleo do ser sem contato com a paixão pela vida. Como o vidro é transparente, indica que o lado sedutor e agradável da personalidade continua a funcionar, porém oculto pela própria necessidade de defesa.

Quando um homem a alcança, Branca de Neve vomita a maçã e pode respirar novamente. Esse encontro com o homem pode simbolizar o encontro com o amor verdadeiro e o controle da compulsão na obesidade e a ingestão de alimentos na anorexia. Parece também que quem sofre de bulimia tenta vomitar o alimento junto com o veneno paralisante da mãe negativa introjetada.


O conto da Branca de Neve acaba bem, mostrando que o encerramento no caixão foi uma fase de morte para o renascimento e se concretiza a passagem de menina para mulher. Para as Brancas de Neves da vida, o prognóstico também pode ser positivo. Mas nem sempre elas conseguem efetuar a transição e expelir o veneno, podendo ficar presas em seu lindo caixão, ou voltar a ele. É preciso aprender a vomitar simbolicamente o que aprisiona e voltar-se para os próprios sentimentos, enfim para a vida!" 

Fonte:http://cyberdiet.terra.com.br/voce-e-branca-de-neve-7-1-6-541.html

Rumo à recuperação e o fundo do poço


Estou frustrada. Tenho certeza que ontem estava preparada para dar mais um passo rumo a minha recuperação. Mas meu fracasso veio do  medo de conseguir. Irônico, estupido, mas foi exatamente o que ocorreu.  Sinto-me sozinha, no fundo de um poço, estreito, escuro e profundo. Agora, cansada e envergonhada.

Há 14 dias, comecei um processo de mudança na minha rotina bulimica. Decidi me libertar da prisão que é a vida com a bulimia. Como já falei, tenho bulimia há 20 anos, e durante esse tempo sempre “estive em tratamento”, bom pelo menos teoricamente. Frequentava psiquiatras, terapeutas, tomava remédios, mas nunca tentei de fato mudar. Eu ia me enganando, deixando me levar. Infelizmente, eu tive que chegar no fundo do poço para encontrar a motivação para a mudança de fato.

Aqui estou eu, sozinha, no fundo do poço. O poço é frio, estreito, escuro e profundo. Não há alternativa, ou eu saio, ou eu morro. Mal escuto as vozes das pessoas que amo. Mas sei que elas estão lá em cima, me apoiando e esperando por mim. Elas estão de mãos atadas, pois esta é uma luta minha. Elas me jogam uma corda, para que eu suba, mas é tudo que podem fazer. A escolha da subida e o esforço da escalada precisam ser feito por mim.

Fiquei muito tempo no fundo do poço, paralisada. A corda já estava lá, a saída também. As pessoas amadas já estavam lá em cima, me esperando para me dar força, me aquecer e me aceitar da forma que eu chegar, mas eu não conseguia subir. Simplesmente sabia que não chegaria ao final, fisicamente e psicologicamente seria impossível. Nunca havia escalado nada, principalmente algo tão alto que poderia exigir de mim esforço físico e psicológico que eu não tinha. Então desistia antes de tentar. Até que percebi que iria apodrecer ali. Que ninguém me tiraria dali, a não ser eu mesma.

Para mim essa metáfora se encaixa bem com que estou vivendo. Bom, nesse poço estou enfrentando meus fantasmas psíquicos e físicos diariamente. Não existe alternativa, senão a saída, correto? Mas não é tão simples assim. Tento subir a corda diariamente só que caio diariamente (no final do dia, quando “escolho” vomitar).  A saída parece tão distante, que vejo apenas um pontinho de luz lá no final, mas sei que ela está lá.

Bom, a vantagem é que cada dia estou mais forte, cada dia, consigo subir um pouquinho a mais do que no dia anterior. Só que ontem, eu me boicotei. Eu sei que fiz isso. Eu poderia ter me esforçado e subido mais. Mas tive medo de ir adiante. Tive medo de formar uma bolha na minha mão. Tive medo da dor de não vomitar naquela noite. Tive medo de não conseguir dormir. Tive medo que a partir do dia em que eu conseguisse atingir “aquela meta”, os espectadores (amigos e família) cobrassem de mim que eu a atingisse a cada dia. Tive medo da minha cobrança pessoal a partir daquele momento. Então, mesmo com energia para continuar, eu me deixei cair. Idiota, né? Sim, eu sei.

Medo de conseguir e depois não conseguir, ou de conseguir e não saber o que fazer... Tem horas que minha mente é tão poderosa que me irrita. E eu vou me deixando enganar por armadilhas psíquicas que não me levam a nada.  


Bom, nessa subida, a verdade é que minhas mãos e meus músculos ficarão doloridos. Haverão dias que não conseguirei ir adiante, talvez até não conseguirei atingir o mesma altura que fiz em dias anteriores. Mas com o tempo ficarei mais forte. Minhas mãos ficarão calejadas. Não sentirei tanta dor. Ainda será cansativo, mas conseguirei ir mais além. Estou aprendendo a lidar com minha mente, durante este processo e esta luta que é a recuperação: uma luta pessoal de corpo e mente. Sim, o apoio de todos é fundamental, mas a luta é pessoal. 

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Mudando nossas crenças



Estou passando um momento de conflito, que não vai fazer com que eu paralise o processo que comecei (minha luta pela recuperação), mas certamente, está fazendo com que eu avalie o caminho que estou seguindo. Desde o dia que comecei a escrever o blog tenho lido muito sobre bulimia, blogs, sites de instituições e pesquisas. Eu achava que conhecia muito sobre a doença, pois convivo com ela há 20 anos. Realmente, tenho amplo conhecimento do que é viver (sobreviver) com a bulimia, mas não sabia nada sobre o processo de recuperação, cura, e tratamentos. 

Foi muito interessante perceber que várias pessoas sentem algo similar com que eu sinto e que a doença se manifesta de forma muito parecida em centenas de mulheres (e homens) no mundo. Os mecanismos que usamos para manter a doença muitas vezes são similares, as desculpas, os medos. Temos muitas coisas em comum.  Acompanhar blogs de recuperação para mim tem sido a fonte de inspiração que me faz acreditar que eu também posso conseguir sair desse mundo sombrio. Além disso, esses blogs me mantêm consciente de que o processo é difícil, longo e que é necessário ter paciência e perseverança.

Os sites de profissionais e instituições de apoio também são grande fonte de inspiração e tem me mantido com o pé no chão. Neles tenho encontrado informações interessantes que acredito que podem ajudar muito na minha busca rumo à recuperação. Por que não busquei essas informações antes? Orgulho, vaidade, falta de humildade ou simplesmente porque ainda não estava de fato em busca da cura?

Bom, de qualquer maneira agora estou aqui, em busca da cura. E estou aberta para mudança de crenças e de percepções. Pois nada mais natural que neste processo eu cresça e amadureça certas ideias. 

Como recentemente eu postei aqui no blog um pouco da minha história com meus pais eu gostaria também de comentar um artigo de extrema importância que li no site da Dr. Sarah Ravin. Ela afirma que não há evidencia científica que sustente teorias de que o relacionamento entre a família pode levar aos transtornos alimentares. Ela até concorda que o desenvolvimento infantil sem suporte emocional e aceitação do filho por parte dos pais pode levar a baixo autoestima e a outros problemas emocionais, no entanto, não há evidências que isso leve a criança a um transtorno alimentar. Para isso ela cita um estudo em que mostra que essa relação não é, necessariamente, verdadeira.  Achei legal esse estudo e decidi citar aqui. Sempre entro em conflito com meu analista em relação a isto.

Hoje eu sou mãe e acredito sim que sou responsável por muitas coisas que estarei passando para meus filhos. Quero ter filhos mentalmente saudáveis, confiantes, amorosos, etc. Esta é uma tarefa que nós pais fazemos da melhor forma possível. Amamos nossos filhos com toda nossa força. E queremos apenas o melhor para eles. Ninguém aqui é PHD em educar filhos e nessa tarefa, certamente, haverá tropeços. Somos humanos e temos nossas limitações. Isto não nos exime de nos esforçar e dar tudo que podemos para fazer com que essa tarefa seja a melhor POSSÍVEL. Mas é isso que temos que lembrar, fazemos apenas o possível. Pois às vezes erramos, tentando acertar.

Então, se você for um pai ou mãe de uma criança que tem bulimia, não se cobre tanto (caso, alguma vez já tenha feito isso). Você fez o seu melhor, na época. Tenho certeza que amou e ama muito seu filho, senão jamais estaria aqui lendo estas palavras. Então, bola para frente e lembre-se que você pode ajuda-la (o) e muito a sair dessa.  Aproveito para agradecer aos meus pais por tudo que são para mim e por tudo que me ensinaram. Pois sou muito mais que uma pessoa com bulimia. Amo vocês demais. 

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Saber a causa é necessário para levar à cura da bulimia?


Bom, este é um questionamento que sempre tive. Será que apenas sabendo o que me trouxe até aqui fará com que eu consiga voltar para onde eu estava? Bom, para começar eu nunca mais voltarei para onde estava. Já tenho uma nova história e jamais poderei apagar tudo de aconteceu comigo e tudo que vivi e senti com a doença. Mas para que eu siga a diante, eu preciso saber o que me fez iniciar esse processo? 

Não vejo sentido em buscar o que foi “responsável” ou “causador” da doença. Apesar disso, confesso que acho importante me autoconhecer. Para mim, descobrir certas coisas do meu passado, tem feito que eu desmistifique certos “fantasminhas” que criei na minha mente. Passo a entender melhor minha forma de agir e o motivo muitas vezes infantil que me faz pensar de uma forma ou de outra. Percebo que alguns “monstros”, na verdade, são apenas “sombras”,  e que eu não preciso ter medo. Isto me deixa mais segura e faz com que eu possa seguir adiante.

O que me levou a bulimia, em si, para mim, não tem muita importância. Mas o que me faz continuar com ela, isso eu quero trabalhar. Hoje eu mantenho a bulimia por quê? Por causa da ansiedade, depressão, baixo auto-estima, perfeccionismo, necessidade de aprovação? Então é isso que estou tentando resolver no meu divã.

Li em um artigo bem interessante que afirma que “nós aprendemos e amadurecemos emocionalmente por meio da experiência. Pensamentos e sentimentos são resultados de nossos comportamentos, e não o contrário. Saber o motivo pelo qual você pensa da maneira como pensa, ou porque se sente da maneira que se sente, não muda seus pensamentos ou sentimentos. O que ajudar a mudar seus pensamentos e sentimentos é a mudança em suas ações.” (veja texto completo). De acordo com a autora do texto, saber o motivo que te levou onde está é irrelevante para cura da bulimia. Para ela, o autoconhecimento pode ser benéfico para o tratamento de recuperação, mas não é essencial para a cura. Ela defende, inclusive afirmando já estar comprovado, que terapias comportamentais são mais eficientes que a psicanálise.   

Eu faço psicanálise e gosto muito. Já tentei em outro momento da minha vida fazer terapia comportamental, mas meu foco não estava na bulimia. Naquela época eu não gostei, não consegui me adaptar. Lembro que eu queria mudar a forma com que eu pensava e me sentia, no entanto, a terapia propõe uma mudança de comportamento. Não funcionou. Voltei para psicanálise. Talvez, agora que estou disposta a mudar, e já estou mudando, minhas atitudes eu enxergaria a terapia cognitiva com outros olhos. 

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Eu, papai e a Bulimia


Agora peço licença para meu pai, pois mais uma vez, quero deixar claro que se trata da minha versão dos fatos.  O meu relato é baseado nas minhas memórias e na MINHA percepção e emoção de como as coisas aconteceram. Como eu já disse, anteriormente, as pessoas são diferentes e as lembranças dos fatos também podem ser.   

Lembro da presença constante do meu pai na minha infância. Ele sempre esteve muito próximo de mim, sempre foi atencioso, brincava bastante comigo e cuidava de mim. Para mim, ele era como um herói. Eu apreciava cada palavra e gesto dele. Achava que ele era um verdadeiro exemplo de como uma pessoa boa deveria ser. Não conseguia ver nenhum defeito nele.  Só via as virtudes.

As palavras do meu pai eram como lei para mim. Tenho certeza que nem ele sabe o quão importante cada frase dele foi na minha vida. A orientação moral que meu pai me passou foi bem rígida e até hoje escuto minha consciência repetir as frases ditas pelo meu pai, mas com a interpretação que eu fiz naquele momento. Aí que está o X da questão. O que ele disse, muitas vezes não teve nada haver com como eu interpretei.

“Parabéns, filha, pelo nove, mas podia ser dez, hein?”. Na minha interpretação, eu precisava tirar dez, não poderia decepcionar meu pai. “Você sempre pode melhorar”, dizia ele. Essa frase durante anos acabou comigo. Eu sempre a interpretei como se nunca eu fosse ser boa o suficiente, sempre, sempre eu deveria estar melhor. Então seria uma corrida contra meu próprio rabo. Se eu estivesse em segundo lugar, precisaria ficar em primeiro, se estivesse em primeiro, precisaria ir para nova categoria, se fosse a melhor de todas as categorias, precisaria atingir o recorde mundial, se atingisse o recorde, precisaria batê-lo a cada vez que eu repetisse o ato. Seria uma luta em que eu estava fadada a perder.

Para meu pai a competição era importante, ele era contra aquela frase: “o importante é participar”. Não, meu pai dizia com todas as letras que era a favor da competição. E ele me dizia que eu poderia ganhar de quem eu quisesse se eu me esforçasse o suficiente. Ele me preparou para vencer. E eu realmente venci muitas vezes. Aprendi a ser determinada e a buscar o que quero. O problema é que não aprendi a perder, e nem aprendi que está tudo bem ser imperfeita, ter defeitos, me frustrar. Não aprendi que isso faz parte da vida. Quando descobri que eu não era “a melhor” o meu mundo desabou.

Olha que louco, eu até tenho lembranças do meu pai falando algo como: “você precisa aprender a perder”. Mas por algum motivo eu não dava importância. Eu me concentrava no meu pai falando sobre ser bom, ser o melhor, vencer, melhorar.

Eu poderia até dizer que minha mania pela perfeição foi “aprendida”. Mas vários outros valores também me foram ensinados e eu simplesmente não aprendi. Por exemplo, depois que percebi que eu não era o máximo, não era a melhor em tudo fiquei com a minha auto-estima lá embaixo. Comecei a ter pânico de perder e passei a não me arriscar ou a desistir de coisas no meio do caminho, só para evitar a frustração no futuro. Fazer isso, foi completamente ideia da minha cabeça, meu pai jamais aprovou que eu desistisse ou não me arriscasse. Mas era o que eu fazia, tinha medo de não ser a melhor, então eu nem tentava, para evitar decepção futura.

E agora? Minha relação com meu pai influenciou minha bulimia??? Claro que este fator, sozinho, também não teria o poder de iniciar uma doença tão complexa. Com certeza esta é mais uma pecinha do quebra-cabeça.  A bulimia é resultado de uma combinação de fatores: minha cabeça, minhas experiências, minha predisposição, pequenos detalhes que foram ocorrendo ao longo da minha vida e que para mim foram se tornando gigantes.

Depois que sai de casa, meu pai me perguntou poucas vezes sobre a bulimia e quando o faz eu fujo para não responder. Sempre tive dificuldade de aceitar o apoio do meu pai durante os anos que vivi com eles e tive a doença. Na minha visão, o meu pai sempre acreditou que eu poderia simplesmente deixar a doença e pronto. Era só eu me esforçar o suficiente. Acho que ele nunca entendeu o que era a doença de fato. 

Hoje, já não preciso que ele entenda (até gostaria). Amo ele e minha mãe muito. Sei que eles precisam cuidar deles para que eles não fiquem doentes. Respeito às limitações deles e eles precisam entender as minhas. 

terça-feira, 5 de junho de 2012

Eu, mamãe e a Bulimia


Antes de começar o post, quero pedir licença para minha mãe, e deixar claro que se trata da minha versão dos fatos.  Como algumas coisas aconteceram no passado e eu era muito nova, o meu relato é baseado nas minhas memórias e na MINHA percepção e emoção de como as coisas aconteceram.   Tenho consciência que pessoas diferentes podem passar pela mesma situação e sentir e interpretar essa vivência de outra forma.   

Durante minha infância sempre tive um relacionamento mais próximo com meu pai. Na minha lembrança, minha mãe cuidava do meu irmão e meu pai de mim. Inclusive, eu morria de raiva do meu irmão por isso, para mim ele era responsável por me afastar da minha mãe. Minha relação com minha mãe sempre foi difícil da infância à adolescência. Brigávamos muito e muitas vezes eu a afastava. Muitas vezes eu a provocava como forma de testar o seu amor por mim, e ela caia nas minhas provocações de forma infantil. Minha conclusão era que ela não me amava.   Hoje analisando vejo que eu não era única criança no processo.

Durante a minha infância vi minha mãe ter depressão. Ela ficava muito tempo dentro do quarto e meu pai passou a assumir tudo em casa. Achava que de certa forma eu podia ser culpada pelo estado da minha mãe, por ter sido uma má filha. Meu pai pedia para sermos bonzinhos, pois mamãe estava dodói.  Algumas vezes eu pensei que ela estava morrendo, senti medo e culpa. No entanto, minha mãe melhorou, mas a nossa relação não.

Na minha adolescência ou pré-adolescência tivemos vários conflitos. Fomos duras uma com a outra e brigávamos muito. Nós ferimos várias vezes, com palavras e ofensas. Não sei o quanto isso doeu para ela, mas para mim as marcas ficaram até hoje. Ouvi duras palavras e acreditei nelas durante anos. Por mais que meu pai tentasse me explicar que minha mãe falava certas coisas apenas da boca para fora, apenas no momento de raiva, para mim isso era inconcebível. Ela não tinha esse direito. Eu era a adolescente. Eu tinha esse direito. Ela era mãe. Ela deveria saber mais. Ela deveria se conter. Mas não foi como aconteceu comigo. Mais uma vez eu a provocava e ela descia na minha idade e se comportava como se tivesse a mesma maturidade que eu.

Apesar de todas as brigas com minha mãe, eu desejava muito o amor dela. Percebi que irritá-la ou exigir amor não dava resultado. Quase que sem querer, descobri que ao ficar doente minha mãe cuidava de mim de verdade. Era a hora em que ela se tornava MÃE, a que provia carinho, amor, cuidado, atenção. Nesse momento ela deixava de ter a minha idade e se tornava adulta. O problema é que comecei a ficar doente sempre que precisava de carinho materno...

Como a relação com minha mãe não foi boa, e como eu só tinha irmãos homens, o meu referencial feminino ficou meio perdido. Diferente das minhas amigas, na adolescência, eu nunca ia ao cabelereiro ou ia fazer as unhas. Inclusive até hoje não sinto tanto prazer nesses rituais femininos quanto vejo que minhas amigas sentem, na verdade, acho um saco. Adoro o resultado, odeio o processo. Será que esse ritual para o embelezamento é algo que se aprende? Será que a minha falta de paciência tanto para busca da unha feita, do cabelo escovado ou do corpo bonito é resultado da minha vivência? Nada é tão simples assim.

Minha relação com minha mãe influenciou a minha bulimia??? Nenhum fator, sozinho, tem poder de determinar essa complexa doença. Talvez esta relação mãe/filha seja apenas uma das peças desse imenso quebra-cabeça. Se eu não tivesse pré-disposição para a doença provavelmente eu passaria por tudo sem problema algum. Mesmo porque as pessoas são diferentes, e reagem de formas diferentes a situações iguais. Na verdade, o que menos importa aqui é saber se isso pode ter sido algum pontapé para o começo da minha doença. O importante é saber se pode ajudar a sair dela. E acho que sim.

Faz quase dez anos que eu sai da casa dos meus pais e me casei. Ontem eu percebi que minha mãe nunca me perguntou sobre a bulimia. Ela me pergunta como estou, se estou bem, mas nunca sobre a bulimia. É como se o problema agora não existisse. “Você não suja o meu banheiro e eu finjo que não sei”. Todo mundo vai fingindo um pouquinho. Ela finge que esqueceu tudo e eu finjo que nunca tive nada. Parece que estamos em uma festa mascarada. Todos usando máscaras. Sabemos quem está do outro lado, mas fingimos que não, para não estragar a festa.

Relembrar a minha história com a minha mãe é importante para perceber que ela teve e tem limitações. É um problema dela e não meu. Eu tenho os meus problemas e tenho que cuidar deles. Já sou adulta e não preciso mais esperar para que ela pergunte como está minha bulimia. Quer saber? A doença é pesada demais para quem a tem e também para a família. Não é a toa que minha mãe bloqueou isso, os motivos podem ser os mais variados, eu não sei, mas hoje aceito. O que importa é que eu não preciso esperar que ela cuide de mim. Pois sou adulta agora e eu cuido de mim. Não vou criar mais expectativas e isso já tira um peso enorme das minhas costas e da dela também, tenho certeza.