quinta-feira, 31 de maio de 2012

Cuidado: Bulimia = droga com alto teor de dependência.


Como eu já contei para vocês, o meu primeiro episódio bulímico ocorreu quando eu tinha 15 anos. Eu havia me excedido na alimentação e queria colocar tudo para fora. O vômito me pareceu uma alternativa viável e fácil para resolver meu problema. Eu não tinha a mínima ideia em que estava me metendo. Mal sabia eu que ali iria começar uns dos meus piores pesadelos. Se eu pudesse voltar atrás, se eu soubesse tudo que sei hoje, eu jamais teria escolhido aquele caminho.

A busca por um corpo “perfeito” foi o pontapé inicial para que eu entrasse nessa furada. No entanto, a falsa sensação de alívio que a bulimia me proporcionava para “controlar”, “esquecer”, “afastar” meus problemas psíquicos foi o que me fez viciar. Quando eu vi, já completamente viciada. Fui me acostumando com a facilidade de me livrar das “calorias extras” (físicas e psíquicas).  Quando percebi a bulimia já estava na minha rotina. O que acontecia apenas uma vez na semana, passou a acontecer todos os dias, todas as refeições. Várias vezes ao dia (teve época que eu vomitava oito vezes ao dia).

Não admiro nada que fiz ou faço por causa da doença. Entre as coisas terríveis que fiz para sustentar meu vício, roubar é a que mais me arrependo e me envergonho. Confessar isso é doloroso e embaraçoso. Como eu não trabalhava (pois era muito nova) eu pegava dinheiro da carteira do meu pai escondido (ou seja, roubava), assim eu teria como pagar pela comida que eu consumia e vomitava logo em seguida.

A bulimia faz você esquecer seus valores, confunde sua cabeça, distorce suas prioridades. Tudo pela busca do prazer, do êxtase. A bulimia não destrói apenas o seu corpo, mas também sua consciência. Para mim, a bulimia é um dos piores vícios, pois, diferentes de outros vícios (cigarro, maconha, jogo, álcool, sexo, cocaína), você precisa da sua matéria-prima (comida) para viver. Como fazer abstinência da comida? Vencer o vício convivendo diariamente com o "objeto de desejo” é difícil. E daí vem a frustração, a raiva, a angustia. E tudo começa novamente. 

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Segunda tentativa rumo a recuperação

Minha meta para hoje foi a mesma de ontem:  passar 24 horas sem vomitar (já que eu não consegui ontem, resolvi tentar novamente).  Bom, até agora, estou conseguindo, falta 1 hora para completar minha meta. Estou irritada, com raiva e quase subindo pelas paredes. Resolvi começar a escrever com o intuito de me distrair. Quem sabe assim o tempo passa mais rápido e eu atinjo meu objetivo. Bom, na verdade fiz isso durante o dia todo, tentei me distrair.

Os horários mais difíceis do meu dia foram após as refeições e as duas horas seguintes.  Senti uma  forte ânsia de vômito, arrotei diversas vezes, e a comida subia até a minha garganta como se fosse um refluxo (nem meu corpo entende direito o que é ter alimento suficiente dentro dele!). Precisei me segurar para não passar mal.  Foi difícil, ainda, controlar a compulsão durante as refeições. Comer o suficiente para mim é algo novo. Seria mais fácil comer quase nada, pois assim não ficaria preocupada em não vomitar. Só que chega de doenças, né? Estou fora!!! Quero me curar da forma mais saudável possível, pois já destruí muita vida do meu corpo.  Não preciso de um novo problema. Então busquei comer o suficiente e encarei o refluxo, botando de volta para dentro o que o meu corpo queria expelir. Foi foda.


Tentei me distrair “só por mais uma hora” e assim fui suportando a agonia de ficar sem a minha “droga”. Fui ao shopping, corri na esteira, li alguns blogs, fui para terapia,  e agora estou tentando “vomitar”  minhas angustias e ansiedades escrevendo.  Tive medo...  medo dos meus próximos dias... medo de não ter força para continuar o que comecei (e me sentir uma fracassada novamente). Medo de engordar de hoje para amanhã. A corrida me ajudou a encarar esse medo, além de aliviar as tensões (liberação de serotonina).

Tive medo, ainda, de voltar para o meu dia a dia e não ter a bulimia como bengala e como falso suporte de tudo que não quero ver ou encarar.  Mas quer saber? Já sei que a “ajuda” que eu acreditava que a bulimia me proporcionava é uma mentira. E essa mentira (que inventei para mim mesma) não se sustenta mais.  Preciso e quero mudar.

Meu corpo passou o dia tremendo e sei que poderia ter “acabado” com o mal-estar e o sofrimento  de uma forma rápida e simples. Mas me pergunto, e os outros sofrimentos que nunca vão embora com o vômito, quando eu vou encará-los???  A dor que estou sentido da abstinência do vômito é física. O que preciso é encarar e aprender a lidar com minhas outras dores.  Me enganar, quando acredito que após o vômito tudo estará melhor. Sim, temporariamente, isso parece acontecer...  Mas quando eu olho em volta, nada mudou, os problemas continuam lá. Então não faz sentido...

Primeira tentativa rumo a recuperação – primeiro fracasso

Oi gente. Ontem não consegui escrever no blog, pois estava me sentindo muito envergonhada, com raiva e fracassada. No dia 28, à noite, eu havia feito um compromisso (comigo mesma) de tentar passar 24 horas sem vomitar.  Não consegui atingir minha meta. Tenho enorme dificuldade de lidar com o fracasso. Odeio traçar um plano e não conseguir cumpri-lo. Mais uma vez é o meu perfeccionismo me limitando. Minha mania de controle. Minha falta de paciência. Meu imediatismo. Quantas vezes desisti de tentar, simplesmente com medo de não conseguir??? Quantas vezes interrompi meus planos, só por medo???

Pelo que tenho pesquisado, esses traços de personalidade são características em comum dos bulímicos: controlador, perfeccionista, imediatista, intenso, impaciente, ansioso. Muito provavelmente foram essas características que nos levaram a doença, correto? Enquanto não aprendermos a lidar com estes sentimentos que aparecem em nós (bulímicos) de forma exacerbada, não conseguiremos nos livrar verdadeiramente da bulimia. Muito provavelmente esses traços sempre estarão conosco. Precisamos cada dia encarar nossas limitações. Aceitar nossas imperfeições e ter, sobretudo, paciência.

Bom, eu sou consciente do que tenho que fazer, mas vou te contar a verdade, ontem eu estava uma fera. Não conseguiria pensar assim. Na minha cabeça só vinha “Sua burra!!! Fracassada!!!”. Quase enlouqueci. Eu tenho compulsões e regurgito todos os dias, de cinco a oito vezes ao dia. Na minha vida não existe comer algo sem exagero e não vomitar. Sempre que eu como, eu quero (preciso) vomitar. Para mim, é algo normal, é como parte do processo digestivo: mastigar, engolir, vomitar. Eu sei, parece horrível, mas é a minha realidade. Quando não posso vomitar, ou porque estou na casa de alguém, ou porque não tenho um banheiro adequado, ou outra situação qualquer, eu fico muito mal. Fico agitada, começo a tremer, me sinto inquieta, e sinto enjôo. Fico me segurando para não “dar bandeira”, mas tento dar um jeito de ir logo para casa, para poder comer (daí sim, comer tudo que eu quero) e vomitar livremente. Por isso, sempre comparo minha doença a um vício.  

Retomando a minha tentativa de ficar 24 horas sem vômitos e a analisando friamente, até que fui OK. À noite, véspera de começar a tentativa, eu não dormi nada bem. Fiquei em pânico, só por imaginar que no outro dia eu não poderia vomitar. Rolei na cama por medo de não conseguir. Pensei em desistir de tentar, mas apesar disso continuei firme no meu propósito. Pela manhã, acordei assustada e com medo. Tomei meu café da manhã, comi pouco, para não me sentir muito cheia. Não vomitei!!! Me senti enjoada. Tive tremedeiras. Fiquei angustiada e só pensava em vomitar.

Sai de casa para levar meus filhos ao dentista, o que foi bom, pois assim fiquei longe do banheiro. Tive a sensação de que meu corpo inteiro estava sentido falta da minha droga (vômito). Em alguns momentos eu suava... Após o dentista, passei em uma farmácia de manipulação e comprei um Floral de Bath (para diminuir a ansiedade e angustia). Tomei as gotinhas, mas a ansiedade continuou forte e enlouquecedora.

Almocei (saladinha, legumes e frango) e não vomitei!!! Levei as crianças para escola e fui para o supermercado (pois precisava fazer compras para a casa). Pronto, ferrou tudo!!! Naquele momento comecei a tremer mais que antes. Naquela hora eu soube que não ia dar conta. Comprei o que estava faltando em casa e tudo que eu iria comer alguns minutos mais tarde. Foi exatamente o que aconteceu. Vergonha... raiva... decepção. Ontem tive duas crises de bulímicas, em que comi exageradamente e vomitei logo em seguida.

Bom, não pensem que desisti. Hoje estou aqui, tremendo e tentando de novo. Melhor dois episódios de regurgitação do que oito, não é? Tenho lido muitos relatos de como foi a luta de quem se recuperou e sei que não será fácil. Sei que a cura não se dá de uma hora para outra. Pelo que li a cura é gradativa e acontece aos poucos. Então comigo não seria diferente, não é mesmo? Vamos lá, estou buscando exercitar minha paciência, perseverança e amor próprio.  Tenho motivo de sobra para querer sair de onde estou e começar uma vida sem a bulimia. Não serei mais uma derrotada, não vou mais desistir.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Por que as pessoas se tornam Bulímicas?



Para tentar entender a minha própria história, conseguir me perdoar e aceitar que não sou uma fracassada. Ou seja, para que eu consiga me ver livre dos meus próprios preconceitos em relação a bulimia, tenho buscado muitas informações e algumas têm me ajudado bastante. O site Eating Disorders – Resources for Recovery traz um trecho do livro “Bulimia: Um Guia para a recuperação”, escrito por Lindsey Hall e Cohn Leigh, que eu gostaria de compartilhar com vocês. Trata-se do capítulo que explica o motivo que levam as pessoas a se tornarem bulímicas.

Durante os muitos anos em que fui levada a psiquiatras e psicólogos para o tratamento “adequado” uma das coisas que mais me irritava era a falta de capacidade dos médicos em entender a doença como um todo. Eles conversavam comigo como se o meu único problema fosse o meu corpo e a forma de me enxergar e resumiam o meu problema a isso. Nossa, isso me irritava muuuito. Até hoje sempre fico irritada quando vejo pessoas falando do assunto e resumindo a doença à busca do corpo perfeito. Quem tem bulimia sabe que a doença vai além da tentativa desesperada de controle do corpo. Queremos controlar tudo, nossa raiva, nossa angústia, nosso medo, nossa ansiedade, nossa carência. Que ilusão!!!

Bom, o texto que estou citando é interessante pois começa a mostrar para o mundo que somos mais que isso. Nosso problema é maior que a busca por um corpo de Barbie. Descobrir que o problema ultrapassa o corpo e vai para mente pode parecer assustador. Afinal não seria mais fácil se fosse apenas um único problema? Sim, provavelmente. Mas a verdade é que precisamos trabalhar o todo para buscar a cura. Como os médicos nunca associavam uma coisa com a outra eu também não fazia essa associação, então eu achava que eu era uma pessoa toda ferrada. Eu ficava pensando que tinha tudo: bulimia, depressão, transtorno bipolar, ansiedade excessiva, transtorno do pânico, etc... Comecei a perder a fé em Deus e em mim. Como eu conseguiria melhorar???

Muito, muito recentemente, percebi que as minhas limitações psicológicas eram o meu maior inimigo na cura da bulimia e a forma como eu a vejo também. Usar a bulimia como válvula de escape para minhas limitações sempre foi o motivo maior para nunca querer me desfazer dela. Sim, engordar me preocupa muuuito,  mas me incomoda mais ainda não ter mais a ferramenta de colocar tudo para dentro e depois jogar tudo fora. Perder isso me apavora. É como se no vômito todas as preocupações fossem embora. Com a bulimia eu podia aguentar tudo, todas as pressões, ela é como uma droga, fiquei viciada. O problema é que agora não consigo mais me sentir infalível, forte e poderosa.  De repente percebi que não posso e nem quero mais fazer isso comigo.

Enfim segue a traduçao de alguns trechos do texto:

“Bulimia é um transtorno multidimensional. É causada por uma combinação de fatores, incluindo, mas não se limitando, a cultura, personalidade, família, genética e trauma vivenciado."

"Indivíduos com bulimia podem identificar várias causas para a sua doença. Independentemente das razões subjacentes, a bulimia "funciona" em muitos níveis diferentes. A compulsão alimentar proporciona alívio instantâneo. Ela substitui todas as outras ações, pensamentos e emoções. A mente deixa de lado por aquele instante os problemas, e se concentra em obter comida e coloca-la para dentro. Os sentimentos negativos ficam suspensos. Mesmo o vômito pode ser agradável quando se é o contato mais íntimo com o corpo. Quando o episódio de comer e vomitar termina, por um breve momento, o bulímico recupera o controle. Já não sente a culpa por ter comido tantas calorias, ela é drenada, e o bulímico se sente relaxado e em êxtase.   Logo, este sentimento é substituído por outros negativos, e o ciclo desta dolorosa, debilitante e desgastante doença começa novamente.”

Quem quiser ver o texto integral e em inglês, clique aqui. Acho que vale a pena.

domingo, 27 de maio de 2012

Triste e brava


Quando imaginei escrever o blog pensei em utilizá-lo como uma ferramenta de terapia, na busca pela cura. Bom, pelo que estou percebendo hoje essa busca será muito, mas muito mais difícil do que eu imaginava. Isso porque aqui vou tratar de sentimentos muitas vezes confusos, feios e até doentes (afinal, estou doente, né?). Admitir isso é difícil, dói e não é bonito, não é nada bonito. Me mostrar, mesmo que usando a “mulher interrompida”, faz com que eu me sinta extremamente vulnerável. 

Estou angustiada, pois como vocês sabem a bulimia trata-se de uma doença secreta, silenciosa. Bom, pelo menos no meu caso, eu não consigo falar sobre ela ou confessar e admitir tê-la a amigos (nem para os melhores amigos), familiares, colegas de trabalho. Falei da minha doença apenas para meu pai, mãe, irmãos, marido e profissionais que me acompanham. Tenho vergonha da doença. Tenho pânico, pânico mesmo, só em imaginar o que os outros vão pensar de mim quando souberem. Tenho um grande problema de aceitação própria e fico tentando buscar a aceitação dos outros, como se isso fosse me satisfazer em algo. Tenho trabalhado para melhorar minha auto-estima, pois está difícil fazer o que eu acredito que os outros esperam de mim. E talvez eles nem esperem nada... mas eu crio essa personagem e a imagino com tudo que os outros a desejam, e vou tentando ser ela. Estou cada dia mais distante de mim mesma. Na verdade, já não tenho certeza de quem sou. Meus pensamentos estão cheios e minha alma vazia e comer descontroladamente não me ajuda mais, não me alivia mais. Mas porque eu não consigo simplesmente parar??? Onde está aquela garota inteligente?

Acho que essa é a parte mais difícil da doença para mim. Saber que faz muito mal e ver as consequências terríveis que já estão acontecendo no meu corpo, os efeitos negativos na família e filhos, as limitações profissionais e sociais (bom depois vou postar um pouco sobre como a bulimia tem me limitado em cada uma dessas áreas). Saber disso tudo e não conseguir ter força de vontade suficiente para mudar (como diria meu pai) me deixa brava e frustrada e isso acaba agravando ainda mais meu quadro. Acho que é isso que me faz sentir tanta vergonha em admitir que eu a tenho. Fora o fato dela ser uma coisa nojenta, correto? Vômitos, cabelos caindo, dente apodrecendo... nada é bonito na bulimia, nada mesmo. Eu invejo tanto, tanto, as pessoas que sabem lidar com o corpo que tem. Eu criei um medo de algo que sei (conscientemente) que ficaria mais bonito em mim (um corpo com mais curvas). Mas o pânico nem sempre é lógico...

Além disso, eu criei uma ilusão. Me viciei tanto na prática de comer e vomitar, que passei a utilizar a bulimia como uma válvula de escape para angústias, ansiedades, sofrimentos. Hoje, acho que até conseguiria começar a trabalhar com a mudança do meu corpo, mas ainda sou muito frágil emocionalmente. A bulimia para mim é uma espécie de fuga, válvula de escape, muleta, pois quando estou com qualquer problema é na bulimia que desconto: engulo tudo que estiver ao meu alcance, até a minha barriga ficar totalmente esticada (não é bonito, eu sei) e depois jogo fora, na forma de vômito, a angustia, a tristeza, a solidão, etc. O problema é que não está mais funcionando!!! Não fico mais aliviada e, além disso tudo, o preço que estou pagando é alto demais.

Quero me desfazer desse vício e dessa falsa sensação de conforto. Ela não se sustenta. É uma mentira que criei, assim como muitas mentiras que crio para mim mesma e para todos que finjo acreditar que não sabem o que tenho. Pessoas se curam da bulimia, tenho lido muito sobre isso. Eu serei uma delas. Tenho certeza que essa busca não vai ser fácil, nem bonita, nem vou estar sempre otimista, como hoje, na verdade, não estou. Mas quero tentar continuando, pois tentarei vomitar palavras para aprender a lidar com minhas emoções.

sábado, 26 de maio de 2012

Bulimia e internet

Olá pessoal, depois que eu decidi escrever esse blog comecei a fazer uma vasta pesquisa sobre bulimia. Sempre li bastante sobre o assunto, pois já tenho a doença há 20 anos (15 – 35 anos).  Nas minhas buscas pela internet, sempre procurei sites informativos sobre o assunto, pesquisas, etc.  No entanto, dessa vez, tentei encontrar outros blogs que tivessem o mesmo intuito que o meu: relatar a vivência negativa, pois ao falar sobre a luta contra a doença e a dificuldade de se viver com ela, talvez isso pudesse ajudar quem procura a recuperação.  Para minha surpresa, tive alguma dificuldade de achar esses sites.

Continuando minha busca, encontrei muitos blogs que fazem apologia aos transtornos alimentares: os denominados pro-ana ou pro-mia. Muitos deles são criados por jovens e possuem 'dicas' para emagrecer (ou seja, adoecer) mais rápido. Tentarei, ao relatar a minha luta contra a doença, não descrever técnicas que desenvolvi durante esses anos para forçar o vômito, disfarçar os sintomas e rastros da doença. Não acredito que a bulimia/anorexia seja um “estilo de vida”, pelo contrário, essa é uma forma lenta de se encontrar a morte.

Achei bem interessante um artigo que li da Nacional Eating Disoder Association que traz orientações para as pessoas que desejam compartilhar suas histórias de recuperação dos transtornos alimentares. Nele ele fala da importância do testemunho, na responsabilidade e no peso que ele tem. Quem quiser ler acho que vale a pena. Ele me trouxe algumas reflexões sobre como contar minha história e como tentar sempre deixar claro que o que trago aqui é algo pessoal. O que estou postando pode, sim, ter forte ligação com você, ou com algum conhecido. Mas lembre-se, é apenas um profissional que poderá te diagnosticar e te ajudar de verdade. Trocar informação pode ser bom, legal, pode aliviar as tensões, pode ser que nos ajude a encarar a solidão que é viver com a bulimia. Acredito que a informação é importante para lidarmos com a doença e buscarmos a cura. Contudo, conhecer os riscos por si só não são suficientes para dizer acabou, basta. O esforço é grande, é diário. Buscar ajuda profissional é fundamental.

Gostaria de compartilhar, ainda, um link para o artigo que fala de um estudo feito pela universidade norte americana Stanford University School of Medicine em colaboração com o Lucile Packard Children's Hospital sobre a influência da Internet sobre a anorexia e a bulimia nos jovens. O estudo mostra que as páginas e blogs pró-ana e pró-mia podem incentivar o aparecimento e desenvolvimento da doença.  De acordo com a pesquisa, não é apenas visitando essas páginas que se fica doente, mas o que lá está escrito pode contribuir para o início da doença ou para o seu agravamento. Claro que existem outros fatores envolvidos nesse processo.  Espero que gostem da leitura. 


sexta-feira, 25 de maio de 2012

Suicídio nunca é a saída




Oi gente, vou tentar falar um pouquinho de suicídio. Como já disse, eu já tentei me matar. As três tentativas, graças a Deus mal sucedidas, todas,  foram usando remédio.  Acho que muita gente pode estar pensando que na verdade nunca tive vontade real de morrer, mas apenas vontade de chamar atenção. 

Bom, estou em um momento que, sinceramente, o que os outros pensam sobre isso pouco me importa. Sei, sim, que não tinha vontade de viver, queria acabar com toda dor que estava sentindo: uma dor na alma, uma dor mais forte do que tudo que já experimentei (bem superior, por exemplo, que a dor do parto normal,  sem anestesia). É verdade, não tive "coragem" de pular da janela do quinto andar. Mas e daí? Quase morri também... fiquei cinco dias em coma e depois um mês internada. Agradeço por hoje estar aqui. 

Estou tocando nesse assunto, sobre o que os outros pensam, pois acho extremamente perigoso para quem esta passando por uma depressão ouvir esse tipo de acusação. A tentativa do suicídio muitas vezes é uma forma desesperada ( e por que não dizer despreparada) de pedir ajuda. Pode até ser uma forma errada, mas é um pedido de socorro. Não acredito que as pessoas usem isso como ferramenta para chamar a atenção única e simplesmente, bom, pelo menos acho super arriscado esse julgamento. Acho que existe várias formas de chamar atenção e não acredito que a tentativa de suicídio seja uma delas. 

No meu caso, a tentativa de finalizar minha vida foi uma forma desesperada de tentar eliminar a dor que estava sentindo. Sempre tive e ainda tenho muita dificuldade de entender a minha depressão. Gosto de muitas coisas da minha vida, amo minha família, amigos, sou razoavelmente inteligente, até certo ponto bonita, nunca tive dificuldade para arrumar namorados, não passei fome, nem nada, Tenho um bom emprego. Então, por que eu me sentia assim, tão vazia? Porque essa dor na minha alma que eu não consigo explicar? Falta de Deus? Os mais religiosos poderiam dizer que sim... Os médicos me diriam que é fisiológico. Outros diriam que é espiritual... Bom, talvez seja tudo um pouco, o fato é que a dor está aqui,  e não consigo mudar isso. 

Uma das coisas que me angustiava ainda mais era o fato de eu não conseguir explicar, por não entender, o que acontecia comigo para as pessoas que eu mais amo. Quando estes me perguntavam "mas você sente falta do que? O que você quer?" eu simplesmente me sentia ainda pior. Me cobrava mais, me sentia mais culpada e mais frustrada. Dar fim a minha vida parecia a solução mais fácil, ou talvez a única solução, pois como eu não sabia o que me faltava, como eu poderia procurar? 

Agora estou disposta a nunca mais fazer isso. Acredito que preciso passar pelo que estou vivendo para aprender algo com isso. Ainda não sei direito o que, mas estou nessa luta. Tenho buscado ajuda profissional e tentando entender o meu problema, no meu caso, a minha doença. Não desisto mais de mim e nem da minha vida e nem de quem amo.  

Mitos sobre os transtornos alimentares

Oi gente, publico hoje aqui os mitos mais comuns sobre os transtornos alimentares publicados pela National Eating Disorder Association. Veja o artigo completo aqui.  


Mito 1. Os transtornos alimentares (TA) não são uma doença - FALSO 
Mito 2. Os transtornos alimentares são raros - FALSO
Mito 3. Os transtornos alimentares são uma escolha do doente - FALSO
Mito 4. Só as jovens e mulheres podem ter transtornos alimentares - FALSO
Mito 5. Homens que sofrem de transtornos alimentares tendem a ser gay - FALSO
Mito 6. A anorexia nervosa é a única doença grave do comportamento alimentar - FALSO
Mito 7. Não se pode morrer de bulimia - FALSO
Mito 8. Os transtornos alimentares sem sintomas graves (não diagnosticados) não são graves-  FALSO
Mito 9. Fazer dieta é um comportamento normal (aceitável) do adolescente - FALSO
Mito 10. A anorexia é apenas uma dieta que 'deu para o torto' - FALSO
Mito 11. Uma pessoa com anorexia não come - FALSO
Mito 12. Pela aparência percebe-se sempre se uma pessoa sofre de um Transtorno Alimentar - FALSO
Mito 13. Os transtornos alimentares têm a ver com a aparência e com a beleza - FALSO
Mito 14. Os transtornos alimentares são causados por imagens não saudáveis e irrealistas divulgadas pelos meios de comunicação - FALSO
Mito 15. Apenas pessoas de nível socioeconómico elevado sofrem de transtornos alimentares -FALSO
Mito 16. A recuperação nas doenças do comportamento alimentar é rara - FALSO
Mito 17. As doenças do comportamento alimentar são meras tentativas para chamar a atenção - FALSO
Mito 18. Purgar/Vomitar é apenas expelir a comida - FALSO
Mito 19. Purgar ajuda a perder peso - FALSO
Mito 20. Se não estiver 'pele e osso' então não está doente - FALSO
Mito 21. Crianças com menos de 15 anos são muito novas para terem uma doença do comportamento alimentar - FALSO
Mito 22. Apenas se pode ter um tipo de doença do comportamento alimentar de cada vez -FALSO
Mito 23. Quando o peso normal é alcançado a anorexia está curada - FALSO 

Novos medicamentos

Ontem fui novamente a minha psiquiatra. (Quando eu tiver um tempo vou tentar detalhar para vocês um pouquinho como tem sido meu tratamento durante o decorrer dos anos, ok?) Ela me mandou trocar os medicamentos. A verdade é que nos últimos meses tenho a sensação que estou piorando, e muito. Já troquei de medicamento três vezes e não consigo ver melhora. Será que o problema é minha falta de paciência? Ou será que tudo que tenho passado é resultado dos momentos que tenho vivido? O que sei é que tenho me sentido bem triste, mais intolerante, com pensamentos autodestrutivos e bem agressiva. Tento não ser agressiva com os outros. Mas acabo sendo agressiva comigo. A bulimia é uma das formas mais autodestrutivas que já conheci. Toda a minha raiva é colocada nela e só ataca a mim mesma. Preciso aprender a fazer algo diferente. Ainda não sei o que fazer, pois para mim é muito claro que prefiro ter a bulimia para me controlar do que agredir qualquer pessoa, eu simplesmente não conseguiria... Mas isso é certo?  Bom, vou torcer para que os novos medicamentos sejam mais efetivos. Agora, depois de vinte anos com a doença, estou pela primeira vez realmente acreditando que preciso deles.


quinta-feira, 24 de maio de 2012

Video alerta




Sim o vídeo é pesado. Algumas imagens podem ser manipuladas, mas outras não são. O que queremos??? Isso? Creio que NÃO. Certamente isso está longe de tudo que busco com meu transtorno. Hoje tenho certeza que a bulimia é algo muito mais complexo que apenas a busca de um corpo bonito, é algo muito muito mais complexo. O que estou engolindo? O que não ando digerindo? Não se trata apenas de alimento e muito menos de uma questão apenas estética. O vídeo fica como alerta!!! Lembrando o que não quero. Nem para meu corpo, nem para minha mente e nem para minha vida. 

Até breve.  

O Começo


Durante anos eu penso em escrever sobre o que passo e sobre o que sinto. Esse é um projeto que sempre abandono por motivos mais variados possíveis : medo de me expor; preguiça; não ver um motivo real para fazê-lo. Bom, a verdade é que estou precisando a cada dia mais desabafar. Foi difícil para mim chegar a essa decisão de expor a parte mais frágil da minha vida, mas preciso encontrar outras válvulas de escape, pois as que utilizo hoje já não me sustentam mais.

Sofro de depressão há quase 20 anos e durante esse tempo já passei por três tentativas de suicídio. Durante a minha luta contra a doença já passei por muita coisa, já tive períodos em que achei que estava louca, adquiri uma bulimia, casei, tive dois filhos, melhorei muito e  agora estou passando por um momento muito difícil. Minha depressão que há muitos anos não se manifestava está bem forte, a bulimia que nunca consegui me livrar continua comigo e estou sofrendo alterações de humor. Ando irritada e as vezes tenho a sensação de que vou enlouquecer.

O começo de tudo

Bom, vou tentar contar como me lembro... Não sei ao certo quando a depressão começou, nem ao certo o que veio primeiro a bulimia ou a depressão. Mas sinceramente acredito que a bulimia é uma consequência de algo que já não vinha muito bem...  Na verdade tenho recordações de alguns pensamentos já na minha infância do tipo “não queria estar viva”. Esses pensamentos de desesperança eram espaçados e misturados com momentos normais e alegres. Apesar de não dividir os pensamentos negativos com ninguém, acredito que eles eram realmente sinceros. Eles começaram por volta dos meus oito ou sete anos.

O primeiro episódio bulímico ocorreu quando eu tinha 15 anos. Eu havia me excedido na alimentação e tive a "brilhante" ideia de colocar tudo para fora. No inicio foi uma solução fácil para me livre das calorias extras e o vômito me pareceu uma alternativa fácil e viável para meu problema. Mal sabia eu que estava entrando em talvez a pior armadilha que iria me acompanhar e me atormentar por longos anos da minha vida. Se eu pudesse eu jamais teria escolhido aquele caminho.

A bulimia, no início, foi usada para conter o peso, por pura vaidade, e para controlar de forma rápida um problema que eu mesmo tinha criado: ingerir muitas calorias, por ansiedade e descontrole.  Eu me acostumei tanto com a forma fácil de me livrar das calorias extras e da culpa de ter comido mais que precisava que a bulimia começou a fazer parte do meu dia a dia. Chegou um momento em que eu vomitava em todas as refeições, só pelo costume.  É como se o vômito fizesse parte do processo da alimentação: comer, mastigar, engolir e vomitar (deixar no estómago só o suficiente para sobreviver). Para mim, comer sem vomitar passou a ser inconcebível. Eu começava a passar mal, tremer, suar. Então deixei de ir para eventos sociais em que as pessoas serviam comida, ou seja, quase todos. E me isolei.

Bom, paralelamente a bulimia eu tive depressão. 

Essa fase foi de muito sofrimento. Eu tomava muitos remédios e ficava dopada, ou pelo menos me sentia assim. Eu sentia uma dor terrível no meu coração. Algo muito forte, na alma, indescritível. Me doía não saber descrever a causa e saber que a família, os amigos e todos a minha volta estavam preocupados.

Eu ia ao psicólogo (obrigada pela minha mãe), ao psiquiatra e tomava muitos remédios. Durante esse período, tentei largar a bulimia. No entanto, eu não conseguia comer nada e acabei desenvolvendo outro transtorno alimentar: anorexia. Durante pouco tempo perdi muito peso, me sentia muito pressionada e minha depressão ficou mais intensa. Depois de seis meses, votei para a bulimia.  

Ao longo do tempo mudei médicos várias vezes. Acho que sentia um pouco de raiva da quantidade enorme de remédio que os psiquiatras me davam. Tem horas que tenho a sensação que o terapeuta estaria muito mais apto para passar qualquer medicamento. Sempre achei superficial e artificial a conversa de uma hora que se tem mensalmente com o psiquiatra. Como assim fazer um resumo de tudo o que você está passando???? Sabe? Acho que o contato psiquiatra/paciente deveria ser mais próximo como o é o de psicólogo/paciente.

Por insistência dos outros, tentei igreja, pastor, benzedeiros, centros espírita, etc... tudo na busca de um alívio. Durante esses anos, por algumas vezes, acreditei estar melhor e então larguei todos meus remédios. Eu acreditava que os remédios me faziam muito mal, além disso era muito difícil para mim aceitar que eu dependia deles.  Cada vez que eu deixava os remédios de lado, o retorno da depressão parecia ser mais forte.