segunda-feira, 2 de março de 2015

Desejo insatisfeito


Eu sempre trouxe comigo a ilusão da busca pela ideal de “perfeição”, sempre tive um discurso idealista e como se para mim eu nunca fosse o suficiente. Essa busca pelo ideal é inalcançada. É o desejo pelo desejo insatisfeito. O desejo está ai, mas o gozo não acontece. É um andar sem fim, é um movimento sem destino. É uma busca perdida. É a escolha pela permanência no mal estar. É a escolha pela perda diária. É escolha pela decepção, pela reclamação, pela desilusão, pela ilusão. É o iludir-se que está indo para algum lugar, quando na verdade está caminhando em círculo. É o não aproveitar o gozo, pois não consegue lidar com a falta. É a tentativa de preencher a falta que nunca será preenchida. 

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Quando o fim não assusta mais

Vai chegando o fim de mais um ano e, pra variar, fico aqui com as minhas reflexões. A verdade é que durante muitos anos eu não gostei do fim do ano. Para mim, o fim do ano vinha com o peso de fim. E eu não queria aceitar o que é tão natural: o fim. Entender e aceitar que as coisas terminam é importante para se dar o devido valor a elas. Então hoje quero olhar para cada um dos meus dias e aproveitá-los porque eles são perecíveis. Quero aprender a fazer escolhas, ser eu a dona e protagonistas das minhas escolhas. Escolher é perder, pois perdemos tudo o que não foi escolhido. Então quero escolher o que não perder e o que perder. Não quero mais ter a sensação de que foi um ano “perdido”.

2014 está indo embora. E este foi um ano de escolhas e perdas. Mas todas foram minhas escolhas, minhas perdas. Eu fui responsável por cada uma delas.  Eu decidi o que valia a pena perder, eu decidi o que valia a pena investir. Não foi um ano excelente, feliz e maravilhoso. Foi um ano bom. Um ano em que vivenciei meus sentimentos, sem drama, sem vitimização. Teve dias que eu estava de saco cheio, com raiva, desanimada, com vontade de chorar, com ansiedade, com tristeza, com angústia, com medo, com ciúmes, com inveja, com orgulho, com vaidade, com insônia, com insegurança, com carência... Entendi que sentir dessa forma é natural e, até, saudável. Anormal é se sentir feliz e saltitante 24 horas ao dia.

Percebi que sentir o “mal estar” é o que me faz viva... é o que me faz despertar ao invés de acordar... é o que me faz decidir o que perder e o que escolher ao invés de seguir a programação que durante anos eu vinha seguindo sem me dar conta. Gastei muito tempo “me anestesiando” para dormir, para acordar, para ficar menos ansiosa, para chorar menos, para conseguir trabalhar, para ser mais produtiva, para “dar conta”. Hoje não preciso dar conta de tudo. Hoje escuto meu corpo e minha mente, principalmente quando estes estão gritando. São nesses momentos que eu preciso entender o que está errado. Qual escolha estou fazendo? O que estou perdendo? O que significa esse mal estar? Não dar conta é a porção ainda viva em mim gritando que algo está muito errado e que é necessário resistir a alienação e a “zumbitização”.

Permitir sentir, aceitar meus sentimentos, olhar para eles e começar a construir, elaborar e encontrar respostas foi o exercício feito em 2014. E por isso o ano foi bom. O final de ano vem diferente dessa vez. Não vem com tristeza pelo que eu deixei de fazer. Não vem com a sensação de um ano perdido... de um ano passado, mas não vivido. Eu vivi 2014, eu senti 2014, eu me permiti.


Sei que 2015 não vai ser mole, sempre haverá questões para serem tratadas, digeridas, elaboradas. Mas isso é viver, não é mesmo?   Que 2015 chegue com novas perguntas, novos “mal estares” ou “mal estares” ainda não resolvidos e que eu tenha coragem para seguir em movimento sem que eu perca dias de vida anestesiada ou paralisada pela falta de sentimento ou pelo medo do fim... 

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

A gente não quer só comer

Estou em uma fase que está me irritando. Apesar de não ter crises de bulimia há mais de um ano e minhas noias sobre engordar terem diminuído consideravelmente ainda tenho tido episódios de compulsões. No começo eu tentei não ligar muito para esses episódios, pois acredito que eles irão diminuir com o tempo. Acredito que com a evolução da minha terapia e do conhecimento e aceitação do que está se passando comigo, eu não precisarei mais recorrer ao alimento para tentar suprir algo que falta dentro de mim. Embora minha crença seja essa, isso não está me impedindo de ficar irritadíssima comigo por não segurar a onda em momentos de angústia, de mal estar. Nesses momentos, eu acabo comento 1 Litro de sorvete para tentar me anestesiar.  A sensação pós-comida é diferente de antigamente.  Antes eu comia muito mais que isso e vomitava, claro... Eu lembro que vomitar era parte do processo, era quase que automático para mim. Hoje não consigo me imaginar fazendo isso. Agora eu “aceito” o que fiz e sei que vomitar não será a solução para meu problema e, simplesmente, não vomito mais, eu aceito engordar... não que eu goste de engordar, mas aceito essa consequência para meu ato.   


Bom, a verdade é que sei que evolui. Sei que hoje tenho menos “problemas” que antes. Sei que estou lidando melhor com meu corpo, mesmo com as mudanças que ocorreram nele com a “recuperação”.  No entanto, ainda olho para mim e vejo que tenho tanto a percorrer. Vejo que ainda uso a comida como válvula de escape e que apesar de não me desesperar com os quilos que estou ganhando com as compulsões, eu não gosto deles. Fico me questionando sobre quando irei deixar as compulsões de lado e apenas irei comer normalmente (como faço durante todo o dia). Fico perguntando se um dia conseguirei fazer isso... Se um dia o chocolate será apenas um chocolate e não trará consigo a ilusão de preencher um vazio que é impreenchível. Fico me perguntando se um dia eu conseguirei aceitar esse vazio que é tão difícil de nomear e que parece vir disfarçado de tantas faces... 

Bom... nesse momento, lembrei de Titãs: 

Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?

A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte

A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer

Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?

A gente não quer só comer
A gente quer comer
E quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer
Pra aliviar a dor

A gente não quer só dinheiro
A gente quer dinheiro e felicidade
A gente não quer só dinheiro
A gente quer inteiro
E não pela metade

Bebida é água!
Comida é pasto!
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?

A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte

A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer

A gente não quer só comer
A gente quer comer
E quer fazer amor
A gente não quer só comer
A gente quer prazer
Pra aliviar a dor

A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer dinheiro
E felicidade
A gente não quer
Só dinheiro
A gente quer inteiro
E não pela metade
Diversão e arte
Para qualquer parte
Diversão, balé
Como a vida quer
Desejo, necessidade, vontade
Necessidade, desejo, eh!
Necessidade, vontade, eh!
Necessidade

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

As eleições um processo ainda em desenvolvimento

Interessante perceber como ainda somos imaturos. Não sei se essa é uma realidade do mundo, da humanidade, mas certamente é a do nosso país. Ainda estamos engatinhando no processo democrático. Estamos vivenciando um momento de ódio, rancor e intolerância aos pensamentos divergentes.

Uma das coisas que mais tenho aprendido nos últimos anos é a importância da diferença. A riqueza da divergência de ideias e conceitos, e a necessidade do respeito à alteridade. Tenho amigos de todo tipo: esquerda, direita, ricos, pobres, homosexuais, heterosexuais, cientistas, religiosos, escritores, boêmios, CDFs... Para mim, o que é mais importante nessas amizades é o respeito pelo outro, pelas opiniões diferentes e pela liberdade de escolha.

Com as eleições, fica evidente o quanto ainda precisamos amadurecer. Acho fundamental estarmos vivenciando essa experiência. A política deve ser sentida e vivenciada. Mas precisamos ter o coração tranquilo e o estômago forte. Precisamos lembrar que não se trata de certo ou errado, se trata de visões de mundo diferentes para a escolha de como achamos que o país deve ser conduzido. Em tese, temos o mesmo objetivo: uma vida melhor. Achar que só você tem razão e os outros são idiotas e precisam de “guias” para conduzi-los "pelo bom caminho" é típico de quem não sabe conviver com quem pensa diferente.

E por que estou trazendo esse assunto para cá? Porque a eleição mexeu comigo e fez com que eu repensasse a diferença. Fiz uma avaliação de mim mesma, de como penso e ajo, e de como já pensei e já agi. A conclusão que cheguei é que eu já tive dificuldade de lidar com a diferença. Mesmo quando meu discurso era de aceitação pelos que são diferentes, eu tinha dificuldade de me aceitar quando eu me via diferente.

Por isso, eu passei muito tempo me esforçando para ser o que achava que os outros queriam. Agradar terceiros... eu não sabia dizer não. Eu queria que o olhar do outro me dissesse quem eu era. Eu queria que o olhar do outro confirmasse que eu era boa o suficiente, inteligente o bastante, agradável satisfatoriamente, disponível regularmente. Hoje, com muita análise, eu não tenho mais a pretensão e nem a ilusão de agradar terceiros para ser amada. Hoje entendo que a coisa mais importante que posso fazer por mim é ser eu mesma, me amar da forma como sou.


Aparentemente, uma temática pode parecer não ter nada a ver com a outra. No entanto, acredito que no momento em que eu não me aceito e tento me moldar aos olhos dos outros, é porque eu não aceito as diferenças que eu possa ter diante desses olhos. Eu estou sendo intolerante comigo mesma. Hoje isso mudou. Hoje cada dia mais sei quem eu sou. Vivencio quem eu sou e por isso tenho tranquilidade para aceitar a diferença. Não apenas a minha, mas a de todos. Não apenas no discurso, mas no coração.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Conquistas e novos desafios

Não acredito em fórmulas mágicas, em receitas de bolo, em palpites. Mas preciso confessar uma coisa. Segui algumas fórmulas, algumas receitas, aceitei palpites. Algumas me fizeram bem, outras foram em vão. Mas mesmo pensando nas que me fizeram bem, preciso dizer, não acredito que elas sozinha, sem uma transformação no meu emocional resolveriam...

Faz um ano que não tenho mais bulimia. Conforme é de conhecimento de alguns, eu tive bulimia por 20 anos. Durante os últimos três anos eu comecei um processo de recuperação. Com esse processo, consegui ir, aos poucos, diminuindo a quantidade de crises diárias. Até que consegui cessá-las. Não foi um processo fácil, rápido ou mágico. Vivi momentos difíceis, momentos de medo, momentos de sofrimento, mas está valendo a pena.

Hoje sou uma nova pessoa. Não uma pessoa completamente diferente. Mas, certamente, uma pessoa transformada. Tenho descoberto a cada dia mais sobre quem eu sou, do que eu gosto e do que não gosto. Hoje sei que gosto de comida, gosto do que o meu corpo é capaz de fazer. E amo a vida.
Sei que ainda tenho questões que precisam ser resolvidas com a alimentação. Comer, para mim, ainda é mais do que me nutrir. Muitas vezes ainda “como” sentimentos e emoções. Ainda luto contra o comer emocional. Quando não como meus sentimentos, quando me permito sentir e viver minha vida, eu como com prazer, sinto os sabores, sem culpa, sem nóia.

Para mim, o comer emocional ainda é o resquício da bulimia e eu sei, eu sinto, que vou conseguir com o tempo superar isso, até porque a frequência do comer emocional vem diminuindo. No entanto, eu ainda fujo para o chocolate, bolo ou sorvete nos momentos em que eu sinto um vazio grande no peito e uma angústia que parece que não passa. Nesses momentos, a comida parece que me anestesia, e, por alguns instantes, eu me sinto abraçada por dentro. E, por alguns segundos, tudo parece estar resolvido.  Mas daí eu decido comer o segundo chocolate com a intenção de manter a sensação de alívio, a sensação parece passar rápida, então eu como o terceiro, agora mais rápido, agora sem sentir o sabor. Lá para o quinto ou sexto chocolate, percebo o que estou fazendo. Paro e fico triste. Não vomito. Nunca mais vomitarei!

Claro que eu me sinto péssima. Claro que penso “você não precisa disso, estava indo tão “bem”. Claro que sei que vou engordar com as compulsões. Mas não vomito. Já decidi que isso eu não faço mais. Sei que ainda tenho questões emocionais para resolver. Sei que tais questões tem tudo haver com meu comer emocional. Sei que é enfrentando a vida, que eu superarei minhas dificuldades. Chega de fugir!!!